MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

14/01/2012

Mais Spielberg que Conan Doyle

   Em seu romance de estréia,  Mark Frost (entre outras atividades, colaborador de David Lynch no seriado Twin Peaks) confirma o imenso fascínio exercido pela era vitoriana: A lista dos 7  (The list of Seven,1993, em tradução de Raquel Mendes para a Record) transforma Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes, em personagem (aliás, quando olhamos as fotos dele vemos que ele daria um ótimo Watson), reunindo-o a um agente da rainha Vitória, Jack Sparks (o qual apresenta vários traços de Holmes: o gênio dedutivo, o gosto pelo violino, o pendor para os disfarces, a dependência de drogas), a madame Blavatsky (a maior autora esotérica de todos os tempos) e a Bram Stoker (autor de Drácula, outro ícone vitoriano).

   Em 1884, Doyle—ainda jovem e obscuro—presencia vários assassinatos numa sessão espírita, conseguindo escapar graças a Sparks. Descobre, então, que era o verdadeiro alvo dos homicidas porque escrevera uma obra chamada “A Irmandade da Sombra”, na qual, além de plagiar um livro de Blavastsky, ainda por cima involuntária e casualmente denunciava as atividades conspiratórias de um grupo de respeitáveis pilares da sociedade britânica, com o fito de trazer ao plano físico (e dominar a Terra, claro) uma Entidade maligna, o Habitante do Umbral.

    Para tanto, os 7 utilizam mortos-vivos, frutos de experiências laboratoriais (claro) e muitos outros recursos poderosos. O grande vilão, entre eles, é Alexander, irmão de Sparks, que o persegue e a Holmes Reino Unido afora…

   A lista dos 7 lembra, a todo momento, outras obras literárias e filmes: a confraria conspiratória e as características da Entidade, sem falar nas analogias explícitas com o nazismo (Hitler chega a aparecer no final), lembram bastante os romances de F.Paul Wilson, como Renascido & Represália. Frost, portanto, reúne dois imaginários ainda muito atrativos: o vitoriano e o nazista, que mexem com coisas profundas e mal resolvidas da humanidade.

    Há, também, um caixão misterioso que é trazido numa embarcação, como em Drácula. E mais: quando Sparks & Doyle estão fugindo de Alexander passam por uma aniga estrada romana e o diálogo que entabulam lembra bastante a Trilogia de Merlin, de Mary Stewart. Sem falar nas tais implosões ectoplasmáticas que parecem ter saído direto de Os caça-fantasmas.

  Nada disso constitui problema, pois Umberto eco fez praticamente a mesma coisa com O nome da rosa. Sob esse ponto-de-vista “pós-moderno” A lista dos 7 funcionaria perfeitamente. A chave do sucesso do livro de Frost está no slogan da medonha capa: suspense e ocultismo na Inglaterra Vitoriana. Porém, mais do que um livro de terror ou um thriller (embora apresente doses maciças dos dois gêneros), ele lembra os filmes seriados de antigamente e aí surgem os problemas. Tudo é exagerado e aparece em profusão cansativa. Temeroso, talvez, dos momentos de vazio em sua narrativa de 400 páginas, Frost tornou o romance episódico, com pequenos momentos de suspense e expectativa em meio à narrativa geral. Isso tem o mesmo efeito amortecedor e monotonizante dos filmes de Indiana Jones, nos quais todo o “ritmo” era muito calculado, excessivo, espasmódico. Não se trata mais de rapidez narrativa, e sim de histeria.

   Apesar de incômodo, o exagero narrativo não chega a comprometer uma leitura descompromissada da homenagem de Mark Frost a Conan Doyle, mas ele fica aquém da realizada por um filme lindo e infelizmente pouco apreciado, O enigma da pirâmide, que também era atravancado pelos cacoetes spielberguianos. E não há nada mais diferente do mundo de Sherlock Holmes do que o do diretor da série Indiana Jones, cuja puerilidade contaminou tantos talentos.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 09 de agosto de 1994)

Nota de 2012– Eu já não faria essa afirmação final de forma tão categórica. Quer dizer, penso ainda o mesmo de Spielberg, de quem nunca fui fã, mas eu não diria que o mundo de Conan Doyle é tão diferente assim.

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