MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

19/09/2011

GOLDING VALE OURO: O centenário de um dos Senhores da ficção

    Quando William Golding foi premiado com o Nobel em 1983, foi a primeira vez que “vibrei” com um acontecimento desse tipo. Eu já era seu leitor e admirador, vejam só, graças a uma coleção onde figuravam dois títulos do grande escritor inglês1.

   Apesar de ter acarretado até uma polêmica interna na Academia Sueca (muitos ali não queriam lhe atribuir o prêmio e teve até um votante, cujo favorito era Claude Simon, que declarou não passar o autor de Homens de papel de “um pequeno fenômeno, sem maior importância”), pelo menos para mim na época (e ainda hoje), tratava-se de uma escolha indiscutível.

    Aqui no MONTE DE LEITURAS, durante algum tempo. mantive uma seção chamada “Senhores da ficção”. E é isso o que William Golding, cujo centenário de nascimento é comemorado neste 19 de setembro (sua morte ocorreu em 19 de junho de 1993) é: um Senhor da ficção.

   Às vezes parece que sua linguagem é pobre e meramente “narrativo-descritiva” (como em O Senhor das Moscas, Os Herdeiros ou O Deus Escorpião, por exemplo), que ele não tem “estilo”, um universo próprio identificável, já que a maior parte de seus livros são muito diferentes uns dos outros. Por outro lado, ele mesmo dizia que, como romancista tinha uma idéia e procurava um mito para corporificá-la, o que pode ser interpretado muito erroneamente como o procedimento daquele que usa a fábula, a ficção, com fins morais, didáticos, como meios para um fim.

   Deixem-me contar que minha trajetória de leitor (com escandalosas lacunas, é verdade) de William Golding já desbaratinou o parágrafo anterior: por alguns anos, acompanhei fielmente a coleção “A Prosa do Mundo” da Francisco Alves e foi nela que descobri meu primeiro Golding (e esse a gente nunca esquece): Visível Escuridão (Darkness Visible– 1979, em tradução de João Guilherme Linke), onde seu estilo era mais opulento, requintado, irônico, feroz. Nada de linguagem pobre, aqui. Quando Matty, o personagem principal, emerge dos bombardeios de Londres, como o órfão milagrosamente achado e salvo, mas desfigurado pelas queimaduras e causando incidentes cada vez mais calamitosos à sua volta, entramos numa mistura de Dickens com Dante. Oliver Twist perambula, mutilado, pelo Inferno e pelo Purgatório.

     Ainda antes do Nobel, li O Senhor das Moscas , O Deus Escorpião e Ritos de Passagem, nessa ordem. E para mim, configurou-se um Senhor da Ficção, um fabulador supremo,  que não apenas procurava um mito para corporificar uma idéia, mas um destilador, um tecedor de mitos que se imbricavam à própria coisa destilada, à própria tessitura, de forma que a fábula se tornava um “pedaço da realidade”. Só tive a mesma sensação de encontrar um fabulador inato ao ler John Irving, e mesmo assim…

      No entanto, mesmo descontando-se o constrangimento que cercou sua nobelização, Golding foi vítima da síndrome-do-primeiro-livro-que-se-torna-mítico2. Em 1954, apareceu Lord of the Flies (gosto da versão portuguesa do título, O Deus das Moscas) e a carreira dele começou-terminou, em certo sentido. Daí para sempre, ele foi meramente o autor de O Senhor das Moscas (que já teve duas versões cinematográficas, uma delas muito marcante, de Peter Brook).

    Que fique claro: trata-se de um livro genial, paradigmático, inesquecível: ao lembrar seu cinqüentenário, no jornal em que tenho uma coluna semanal, A TRIBUNA de Santos, escrevi: “[o] título vem do Belzebu do Evangelho (10;25) de Mateus (…) um grupo de meninos fica perdido numa ilha, dividindo-se entre dois líderes: Ralph representa o apego a hábitos civilizatórios (e ficará isolado por isso), cada vez mais impalpáveis; Jack, por sua vez, é o apelo cada vez mais sedutor da barbárie, do irracional. Poucos momentos são mais devastadores do que aquele em que dois irmãos gêmeos são seviciados para que aceitem fazer da tribo de Jack, que irá caçar Ralph pela ilha”.

    Na minha opinião, O Senhor das Moscas foi se tornando mais e mais  atual. Nossos jovens estão seguindo sua trilha, quase como se tivéssemos uma ilustração etnográfica de um modelo estrutural de Lévi-Strauss. Por isso, ao selecionar para A TRIBUNA os 100 melhores romances do século XX (não riam, por favor), incluí o livro. Mas colocando o seguinte: “Embora Os herdeiros e Ritos de passagem sejam até melhores, essa história de garotos que revertem à barbárie e à selvageria conseguiu ser a profecia sombria e poderosa do que está acontecendo agora com nossa juventude globalizada”.

    E é isso aí. Se eu tivesse de escolher o livro de William Golding que levaria para a ilha deserta (sem Jack ou Matty, como possíveis Sexta-Feiras, de preferência), ficaria em dúvida entre The Inheritors-Os herdeiros (1955) e Rites of Passage-Ritos de passagem (1980)— este, aliás, o primeiro de uma trilogia, da qual só li o segundo, Close Quarters-Confinados (1987), já depois do Nobel, assim como The paper men-Homens de papel(1984)3.

      Escolheria talvez o primeiro pelo seu poder fabulatório, que já apontei como uma característica absolutamente peculiar de Golding. Ao colocar lado a lado, numa pré-história intensamente verossímil para o leitor (apesar de fugir totalmente do figurino do “romancista histórico”, que evidentemente fez pesquisas), dois estágios da evolução humana, ele foi ainda mais longe do que no livro anterior na intuição dos mecanismos atávicos de violência, crueldade e conquista de poder, que regem os agrupamentos humanos, essa “visível escuridão” no centro do nosso processo civilizatório: “Se as coisas se moviam sobre a superfície, havia algo a fazer. Por exemplo, havia regras explícitas de conduta se um homem se contaminasse. Mas, e se a coisa que se move sob a superfície não pode ser definida, mas está lá, uma imposição sem nenhuma regra?”4.

     Não há nada nem remotamente parecido com Os herdeiros e apesar de gostar muito de todos os livros dele que li, acho que é o que representa de forma lapidar seu universo e sua originalidade.

      Ou talvez escolhesse Ritos de passagem por sua inclusão numa linha narrativa ousada e aventureira que podemos remontar a Sterne (ou a Cervantes, ou a Diderot), e da qual temos um representante genial (Machado), uma linha maliciosa, sinuosa, requintada, em que nada é o que parece, as brincadeiras com o leitor multiplicam-se e a ficção se torna o campo lúdico da inteligência par excellence guardando numa caixa—no entanto—a já propalada “visível escuridão”. Ela está lá, só que velada, muito bem camuflada. É o clima de dança de salão antes que entre a morte com a máscara vermelha.

    Gore Vidal, de quem não esperamos normalmente esse tipo de generosidade, habituados mais a comentários cáusticos, disse uma coisa linda a respeito do autor de O Deus Escorpião, logo depois de afirmar “existe apenas um escritor vivo [isso foi em 1974] da língua inglesa que admiro sem restrições: William Golding”: “… seu trabalho é intensamente vívido. Ele o segura linha por linha, imagem por imagem. Em The Spire você vê a igreja que está sendo construída, sente o cheiro da poeira. Você está presente num evento que existe apenas na imaginação dele. Muito poucos escritores tiveram esse poder. Quando o padre revela suas feridas, você as vê, sente a dor. Não sei como ele consegue”.

     Bravo, Vidal. Quem dera seus livros fossem assim também! Agora: seria tão bom que alguém do calibre de uma Denise Bottmann pegasse The Spire (ou Free Fall, ou Pincher Martin, ou The Pyramid, todos inéditos) e fizesse o leitor brasileiro, com seu talento e seu zelo em verter o melhor possível para nossa língua o original, ver a igreja sendo construída, sentir a dor do padre.

    Pois não se sabe como, mas o fato é que o admirável Golding conseguia.

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 1E graças também a edições—meio antigas—da Nova Fronteira, que publicara O Senhor das Moscas & O Deus Escorpião, em traduções de Geraldo Galvão Ferraz e Luiza Lobo, respectivamente. Posteriormente ao Nobel, a tradução de Ferraz teria várias reedições.

Quando iniciei minhas atividades de leitor voraz e que também acompanhava resenhas, críticas, lançamentos etc, houve a premiação de Elias Canetti (em 81) e a de Gabriel Garcia Márquez (em 82), contudo só os li mais tarde, e aliás levei muito tempo para admirá-los, em especial o colombiano. Apesar de tardiamente me tornar um leitor mais entusiasmado de García Márquez, sempre achei que Borges, Onetti ou Rulfo deveriam ter sido premiados em seu lugar (e Vargas Llosa merecia o prêmio antes). Quanto a Canetti, trata-se de um extraordinário ensaísta e memorialista, porém tropecei de cara em Auto-de-fé, que—a meu ver—é uma idéia genial que renderia um romance mais curto, o qual se converteu num paquiderme, digno de consideração, mas que faz sonhar com “algo que poderia ter sido”. A bem da verdade, na época (1983), eu já achava que Doris Lessing merecia mais o prêmio que Golding, o que não deixou menos agradável a surpresa do anúncio do seu nome.

Talvez tenha sido justamente a premiação de Golding, um autor que conhecia e apreciava, que fez com a partir daí eu encarasse com menos má vontade e insatisfação o “saldo Nobel”, normalmente tido como aquém dos maiores autores. Com as duas exceções importantes e chocantes (a de Toni Morrison e Dario Fo—já conhecia romances da primeira e assistira a peças do segundo—cujas premiações considero absurdas e bizarras), gostei muito de várias premiações e todos aqueles que não conhecia e que li depois do Nobel me agradaram muito (por exemplo, o egípcio Naguib Mahfuz, ou a romena Herta Müller,ou o húngaro Imre Kertész, para não falar de um autor que passei a adorar, o francês Claude Simon).

Então, embora a idéia de um prêmio “mundial” seja um tantinho cômica, pelo menos nos últimos 30 anos o “saldo Nobel” foi mais positivo do que negativo.

2Há casos de livros que não foram os primeiros do autor e que dominam sua reputação de forma avassaladora, mesmo não sendo o melhor que produziram. É o caso de Cem anos de solidão.

Porém, o caso de Golding, como o de outros, é mais frustrante, porque nada do que produziram depois ofusca o primeiro sucesso, que é sempre a referência. Lembro aqui do caso de Günter Grass e O Tambor, um romance maravilhoso, mas ele fez coisa muito melhor em Anos de cão e O linguado; tem também Umberto Eco, que parece ter escrito como romance apenas O Nome da Rosa; e também temos o caso de Salinger e O apanhador no campo de centeio; e por aí vai…

3Os títulos até aqui citados são os únicos traduzidos no Brasil. Há mais em versões portuguesas, todavia é a oportunidade para lamentar a falta de interesse dos editores e leitores brasileiros.

A Nova Alexandria, por exemplo, reeditou a tradução de Ritos de passagem (que, como já dito, fora lançada pela Francisco Alves), mas não se deu ao trabalho de completar a trilogia To The Ends of the Earth. E a Companhia das Letras que gosta tanto do Nobel, por que não inclui Golding em seus lançamentos?

 4 Essa citação é de Visível escuridão

18/09/2011

OS HERDEIROS e a genialidade de William Golding

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 10 de agosto de 1999)

Ao conceber Os HERDEIROS (The Inheritors, Inglaterra-1955, em tradução de Ana Luiza Ventura Vieira Pereira, editora Nova Alexandria), um dos romances mais extraordinários do século XX, William Golding teve uma idéia genialmente simples: colocar lado a lado dois estágios de evolução da Humanidade, numa narrativa ambientada na pré-história.

O protagonista de OS HERDEIROS é Lok, jovem homem-macaco que, com seu clã (mais sete indivíduos), procura a segurança de uma plataforma rochosa, após o inverno. Inesperadamente são atacados por criaturas diferentes, que se vestem com peles e que mantêm estranhos rituais. Lok é um dos poucos sobreviventes dos ataques e, observando os costumes do “povo novo”, vai desenvolvendo um misto de fascínio e de terror diante de seus  procederes quotidianos. O que Lok não imagina é que para o “povo novo” ele é um demônio, uma ameaça.

Podemos ler, então, a obra-prima de Golding como uma parábola a respeito das estruturas instintivas e emocionais através das quais se constituiu a própria Humanidade, e também a respeito da incapacidade dessa mesma Humanidade em compreender a alteridade, a existência do Outro.

Nesse sentido, é bem esclarecedor o clímax da história, após uma hecatombe da natureza que provoca a fuga do “povo novo” (levando um bebê do clã de Lok). O herói sobrevive, irremediavelmente solitário (é um momento tão desolador que sempre me tira a vontade de reler o romance). Na última imagem que temos dele, quando o autor despoja-o cruelmente até do seu nome—mencionando-o como “a criatura”—, como se o estivesse deixando para trás no passado, ele está lado a lado com a “figura” que dele fez um membro do “povo novo”. Portanto, temos lado a lado uma imagem, uma das formas da Humanidade de representar sua mente, de dar forma ao conteúdo dela, de racionalizá-la, em seus medos, suas visões e sua fantasias (e que também é um meio de anular—ou pelo menos neutralizar—o outro ser, prendendo-o numa representação), e o próprio ser representado, em sua realidade irredutível.

O pessimismo de Golding é tal que, no capítulo seguinte, o último, ele mostra Tuami, membro do “povo novo”, sonhando em utilizar a faca que está fazendo num companheiro de grupo. Como já mostrara no seu primeiro e mais famoso romance, O senhor das moscas (e mostrará em textos posteriores como O Deus Escorpião, Visível Escuridão e Ritos de Passagem), para ele os impulsos primordiais do ser humano são a crueldade e a destruição mútua.

O que sempre impressiona em Golding é que ele é um dos raros grandes autores contemporâneos que se atêm à narrativa. Seu estilo parece até pobre, às vezes, pois ele procura expressar tudo através da ação e da reação dos personagens e da descrição intensa do ambiente físico. Não há discursos, digressões, moral da história ou reflexões por parte do narrador[1].

Ele também escapa totalmente do estereótipo do escritor “que faz pesquisas”. OS HERDEIROS é um livro ambientado na pré-história, mas não há nenhuma tentativa de criar verossimilhança histórica ou “clima de época” (e mesmo assim não é que o danado consegue?).

O autor de Homens de Papel descreve mecanismos de ação do ser humano, diante da natureza, dos outros seres, dos próprios sentimentos e percepções. Isso, por si só, já cria um poderoso efeito convincente para a história de Lok, do seu clã e do “povo novo”,e se o livro nada tem de “histórico”, também não cai no tom fácil da “fábula”, do universozinho inventado para provar algo.

O que significa, somando tudo, que William Golding escreve textos extremamente originais. Tão originais que causaram celeuma na própria Academia Sueca, quando lhe foi outorgado o seu merecido Nobel em 1983. Foi uma das poucas polêmicas internas (muitos ali não queriam lhe atribuir o prêmio) que vieram a público  com relação a uma escolha.

Curiosamente, foi uma das escolhas mais acertadas. O que não deixa de ser muito engraçado, no final das contas.  Entretanto, a visão do mundo proposta pelo autor de OS HERDEIROS não é nada engraçada, como se pode constatar no trecho seguinte—no qual vemos o homem já pensante que foge da sua ancestralidade: “Não tardaria muito, pensou Tuami, agora que tinham saído da terra dos demônios da floresta[2] e estavam a salvo, para se atrever a usar o punhal de ponta de marfim. Olhar o rosto de Marlan e pensar em matá-lo era assustador”.

Neste ano de 1999, só se lançarem de fato a prometida tradução integral de Finnegans Wake, de James Joyce, OS HERDEIROS deixará de ser a tradução mais importante.


[1]  Nota de 2011: Sei (como sabia em 1999, quando escrevi o texto acima) que com essas afirmações vou de encontro à própria auto-caracterização de Golding como escritor:  alguém que tem uma idéia e procura um mito para corporificá-la. Mas continuo achando a mesma coisa, ou melhor, tendo a mesma percepção da sua obra, pelo menos na primeira fase (os últimos textos já têm um rebuscamento retórico mais pronunciado, penso especialmente em Visível Escuridão).

[2] Leia-se Lok  e seu clã.

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