MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

13/01/2012

O paladino da “meada cinzenta da vida”

“Temos o fio vermelho do crime entremeando-se na meada descolorida da vida e nossa obrigação é desentranhá-lo, expondo-o em toda a sua extensão”; “O mundo está cheio de coisas óbvias que ninguém percebe”.

    Eis, leitor, duas máximas de Sherlock Holmes, o detetive criado no último quarto do século passado por Arthur Conan Doyle, e que está de volta em novas traduções pela editora Melhoramentos.

    Malgrado a primeira citação possa ser encontrada em Um estudo em vermelho, contentei-me, para fins deste artigo, com uma releitura, após muitos anos, de O CÃO DOS BASKERVILLES (The hound of the Baskervilles, 1901-2, em tradução de Antônio Carlos Vilela), a mais famosa história envolvendo Holmes e seu assistente, dr. Watson. Não deixa de ser interessante notar que embora tenham originado uma infinidade de variações e versões, são poucos os relatos sherloquianos do próprio Conan Doyle: quatro romances e algumas coletâneas de contos.

   O cão de Baskervilles conta como a dupla é visitada pelo dr. Mortimer, médico de um vilarejo de Devonshire, onde vive uma família nobre assolada por uma maldição que remontaria a séculos anteriores, por causa dos excessos de um antepassado: a aparição de um cão demoníaco nos pântanos que rodeiam a propriedade dos Baskerville significaria a morte violenta de um membro da família. Foi o que aconteceu ao amigo íntimo de Mortimer, sir Charles Baskerville.

    Mortimer está preocupado com a segurança do último descendente da família, Henry, que chega da América, e pede a Holmes e Watson que investiguem o caso. Watson acompanha Mortimer à localidade, sem saber que Holmes também foi para lá, escondendo-se nas habitações pré-históricas que restaram por ali, para poder observar melhor os habitantes do lugar. Assim, o leitor entra em contato com um mordomo que, de uma janela que dá para os pântanos, faz sinais com uma vela para alguém misterioso; um naturalista amador que tiraniza sua irmã sem motivo aparente e que parece ser o único a saber se movimentar pelos pântanos e sair ileso; uma mulher de reputação duvidosa que marcou um encontro esquisito com sir Charles, justamente para a hora em que ele acaba morrendo;  um presidiário foragido; e um criminoso que adora disfarçar-se e que despista Holmes nas ruas de Londres…

    Apesar do resumo acima, a fama de ser uma trama intrincada é imerecida como, aliás, praticamente todas as tramas de Conan Doyle. Escritor medíocre, suas histórias são banais  e pouco interessantes, mistérios de segunda categoria, em tudo inferiores aos de Agatha Christie que, nos seus melhores momentos (não foram poucos), sabia arquitetar um ótimo mistério, realmente intrincado e bem-estruturado.

   Mas não é descobrir “quem é o assassino” como nas tramas da criadora de Hercule Poirot & Miss Marple, que parece importar a Conan Doyule. O leitor pode constatar isso no próprio Baskervilles. Fica-se conhecendo a identidade do assassino muito antes fo fim. O que parece ser valorizado é um jogo onde, no desfecho, prova-se a supremacia da astúcia e do método do detetive sobre a astúcia e o método do criminoso.

   Se as histórias de Conan Doyle têm algum interesse hoje em dia está no fato de que, através delas, pode-se estudar um momento histórico em que a visão do homem branco, europeu, aficionado pela ciência, prevalecia. A função do detetive Sherlock Holmes, mais do que resolver mistérios, é nitidamente autoritária e normativa, é colocar a casa em ordem, restabelecer o primado da “meada descolorida da vida” ameaçado por qualquer fio que destoe, que não se harmonize, que se desvie do status quo.

   Holmes é tido como um gênio da dedução. Mas o seu método, feitas as contas, parece completamente obtuso, digno de um cão farejador, desses que se coloca nos aeroportos, se atentarmos para as suas palavras (ao dizer que despreza qualquer conhecimento que não seja útil à sua especialidade): “Para mim, o cérebro de um homem é como se fosse originariamente um sótão vazio, o qual deve ser entulhado com os móveis que escolhermos. Um tolo o enche com toda quinquilharia que vai encontrando pelo caminho… O especialista, pelo contrário, mostra-se extremamente cauteloso quanto ao que coloca em seu cérebro-sótão. Depositará lá apenas as ferramentas que poderão ajudá-lo a realizar o seu trabalho, mas delas terá um vasto sortimento e todas arrumadas em perfeita ordem… é da máxima importância evitarmos que dados inúteis ocupem o lugar dos úteis”.

   Essa “sabedoria” tosca do mais famoso dos detetives soa hoje simplesmente como uma apologia da mediocridade mental. Atualmente, talvez ele fosse um super-nerd, uma fera no computador, um antipático paladino da caretice.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 28 de setembro de 1999)

Nota de 2012–  Apesar de ainda seguir a mesma linha de idéias que me levou a escrever a resenha acima, eu devia estar de mau-humor, provavelmente pela desilusão com um tipo de romance de mistério muito diferente mesmo do modelo que mais aprecio. Mas fui injusto ao caracterizar Doyle como escritor medíocre, e não ver os aspectos de humor, a ambientação fascinante, o personagem que é o dr. Watson, enfim, todos os detalhes adjacentes ao “mistério” que fazem o charme da coisa toda (além do mais, a figura de Holmes pouco encaixa no triunfalismo do homem ocidental, com suas esquisitices e idiossincrasias, e sua solidão essencial). Apesar de ainda achar Agatha Christie superior em todos os aspextos, fiz as pazes com ao textos de Doyle, por assim dizer, quando a Zahar lançou a sua edição das aventuras de Holmes.

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