MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

08/07/2010

NEM MORFINA ALIVIA LEITURA DE “O PACIENTE INGLÊS”

Os críticos ingleses e o Oscar têm uma coisa em comum. Eles parecem dizer aos escritores e cineastas: dai-nos paisagens exóticas, dai-nos tramas situadas no passado, nada de dramas contemporâneos, questionando a nossa época. Em troca, os prêmios choverão.

É o caso do romance O paciente inglês, de Michael Ondaatje. Será que em 1992 não havia um romance melhorzinho para receber o prestigioso prêmio Booker na Inglaterra? Será que o exotismo e o passado continuarão imperando na cultura inglesa, afetando até o Canadá (onde vive Ondaatje)?

Mas do que se trata O paciente inglês, perguntará o impaciente leitor. Bem, temos uma enfermeira, Hana (no filme, ela é vivida pela sonolenta e sonífera Juliette Binoche), a qual se sente obrigada moralmente a cuidar de um paciente horrivelmente desfigurado pelo fogo e ainda por cima supostamente desmemoriado. Para esse fim, Hana se isola com ele numa villa italiana, onde serve de leitora, fornecedora de morfina e exploradora das perdas e danos.

Ali ela também descobre não só que a liberdade é azul, mas que os afrescos italianos são muito coloridos, graças a Kip, um desarmador de bombas que veio da Índia e usa turbante.

Ah, dirá o leitor esperto, uma vez que Hana é canadense, cuida de um inglês e tem um romance com um sikh da Índia, então a villa italiana é o encontro de vários mundos! Está aí uma pista para  a compreensão da história. O difícil, leitor, é compreender como o livro pode ser tão arrastado e aborrecido com tantos mundos encontrando-se, e com o perigo das minas.

Por falar em vários mundos e nacionalidades, o paciente inglês não é inglês. Ah,como é irônica, a história, ora vejam só! Ele é húngaro, embora ame ler Kipling como um inglês. É o conde Almásy e tem um romance ardente, no Norte da África (embora a palavra ardente, em se tratando de deserto e de uma vítima de queimaduras, seja uma redundância), com uma inglesa, Katharine Clifton, esposa de um homem aparentemente (mas tudo é aparência enganosa nessa história?) tolo, porém utilizado pela inteligência britânica no período pré-guerra. Almásy, por sua vez, acaba trabalhando para os alemães. Clifton tenta matá-lo com um avião em pleno deserto, só que morre na tentativa e Katharine se fere seriamente. Como estão longe de qualquer posto civilizado, Almásy deixa Katharine numa caverna (descoberta pelo seu grupo) e parte em busca de ajuda, iniciando uma corrida que o levará aos cuidados da insustentável leveza binochiana da enfermeira Hana.

Não pense o leitor que a história é apresentada assim bonitinha e amarradinha. Não, senhor, Michael Ondaatje é um autor moderno, mais ainda, pós-moderno, e por isso, tudo vem fragmentariamente, num quebra-cabeça. É o filme que se encarrega de colocar tudo nos eixos, aliás, de forma bem envolvente. E pelo menos tem a coragem de mergulhar fundo no romantismo enquanto que a narrativa de Ondaatje é apenas estropiada e desfigurada, tal qual o conde Almásy. Para dizer a verdade, o romance O paciente inglês é um frankenstein literário. Ondaatje parece ter reunido um pouco de tudo para que o livro dê ao leitor a aparência de ser alguma coisa. Não é. Tem comentários eruditos, tem uma atmosfera histórica saturada de reminiscências, tem aquele clima bem inglês de sentimentos inconfessados ou então cheio de reticências, que para alguns tem o nome de lengalenga, tem um herói misterioso que segue o preceito de Camus de que o homem é mais homem quanto menos fala, tem as grandes paixões inglesas (Itália e o Oriente, só faltou a Grécia)e, é claro, o clima  “fim de época”, isto é, mostrando um mundo que está chegando aofim. Quem simboliza isso é o próprio Almásy.

O incrível é como ele consegue fazer desse personagem algo tão insignificante e amorfo. O filme é que conseguiu dar a ele alguma vida e relevância, mesmo porque o romance vivido entre Almásy e Katharine não poderia ter um casal de intérpretes mais chique do que Ralph Fiennes e Kristin Scott Thomas, chiques até na intimidade sexual.

O livro, por sua vez, simboliza a agonia da literatura contemporânea que já não tem mais o que dizer, ou pelo menos quase já não tem mais quem o diga. A grande ironia é que Ondaatje escreve como quem tem noção do que é escrever. Parece faltar é sentimento do mundo, garra, feeling. Talvez fosse preciso injetar um pouco de morfina para animar seu moribundo universo de fantoches e palavras tão áridas quanto o deserto,e tão maltratadas quanto a villa onde Hana  e o paciente se encasulam, e ainda com o perigo sempre iminente (e nem sempre evitado) das minas explosivas da breguice e da embromação.

O clima amoroso entre Almásy e Katharine merecia uma Marguerite Duras para insuflar nele os sentimentos extremos e perigosos aninhados no sil~encio. E a  história do rei Candaules e de seu servo Giges, que é pedra-de-toque para que esse relacionamento aconteça, já foi muito melhor explorada em outro romance oriundo do Canadá, Fifth Business-O quinto personagem, de Robertson Davies.

O leitor brasileiro tem uma provação suplementar a enfrentar na leitura clorofórmica de O paciente inglês: embora a tradução seja excelente, a editora 34 paginou o livro de forma a destruir sistematicamente a vista de quem o lê, com um tipo mínimo e que toma toda a página, sem quase um espaço em branco para descanso. Se era para economizar papel, a alternativa mais sábia era nem editar tal baboseira. Livro ruim com letra minúscula, só com um aviso do Ministério da Saúde advertindo sobre o perigo.

(resenha publicada em 18 de março de 1997)

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