MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

13/06/2011

William Kennedy e a explosão de exuberância e vitalidade

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 12 de agosto de 1997)

Numa passagem memorável de Ironweed (1983), o narrador conta um episódio da juventude do protagonista, Francis Phelan, ocorrido em 1897, ano em que ele está muito longe do sem-teto que seria mais tarde: sentado num galho, vê Katrina, esposa de seu vizinho, Edward Daugherty, saindo apenas com um chapelão e sapatos, e mais nada no corpo. Francis a leva de volta para dentro de casa e sua amalucada e encantadora vizinha se torna o “pássaro mais raro de sua vida”.

William Kennedy não é autor de desperdiçar nada. Quem vem acompanhando suas histórias da velha Albany, nas quais ele retorna incessantemente às mesmas situações e personagens, podia até prever que um dia ele se voltaria para Katrina e Edward Daugherty. E eis que eles são o centro do maravilhoso O RAMALHETE EM CHAMAS (The flaming corsage, EUA-1996, em tradução de Sérgio Flaksman), um livro de primeira que está pedindo um Hector Babenco (sem no entanto a mão por vezes pesada demais deste diretor talentoso) para se transformar num filme com as qualidades da versão cinematográfica de Ironweed. E quem sabe Katrina não tenha sorte de uma atriz genial como Meryl Streep interpretando-a?

O RAMALHETE EM CHAMAS mostra que as heranças familiares de Katrina e Edward não poderiam ser mais antípodas. A dela, de ascendência inglesa e protestante. A dele, irlandesa e católica. Antes de o casamento acontecer na narrativa, por volta de 1885, o leitor do romance é informado sobre um crime passional ocorrido num hotel, em 1908, envolvendo Edward. Também acompanha o jovem jornalista, um pouco antes do matrimônio, a uma feira, junto com seu amigo e colega de profissão, Thomas Maginn. Ambos compartilham o desejo de se tornar escritores (mas só Edward realizar-se-á na profissão).

Os dois fatos—o crime, contado no estilo “jornal sensacionalista, se espremer sai sangue”, e a visita à feira, narrada num estilo exuberante e burlesco, que vai culminar num clima de opereta (quando Edward estiver em íntimo colóquio com uma prostituta—, vão se entrelaçar magistralmente, pois na visita à feira está a semente de tudo o que será revelado com o crime.

E, no cerne do livro, a explicação para o título: o incêndio de um hotel (não será o único da história), que trará a fatalidade para o casamento dos Daugherty e fará com que os mortos estejam sempre presentes nessa união estranha e apaixonada. O que se poderia esperar de um casal que tem a primeira relação sexual num cemitério?

Francis Phelan não deixa de aparecer mais uma vez na ficção de Kennedy, tal como fez no romance anterior do autor norte-americano, Ossos antigos (1992). Temos, enfim, a versão de Katrina para a relação entre os dois (e se ela foi o “pássaro mais raro”, Francis foi para ela, “a luz da vida”) e o futuro vagabundo beberrão participa de uma cena importante de O RAMALHETE EM CHAMAS, quando enfrenta o truculento Cully Waltson, desordeiro que terá marcada participação no crime de 1908.

Como o leitor pode conferir há muitos adjetivos no meio deste meu artigo: exuberante, burlesco, estranho, apaixonado, truculento. Tudo isso compõe e define o livro de Kennedy, que parece tê-lo escrito com prazer. O RAMALHETE EM CHAMAS é cheio de vida. Não quer dizer que seja otimista ou que coloque panos quentes em qualquer questão mais candente ou pungente que levante, mas é um livro que transpira vitalidade. A impressão que se tem é que Kennedy finalmente respirou aliviado e desimpedido, após anos de congestionamento criativo tentando, em tours-de-force irregulares, muito desiguais, manter o nível de Ironweed. É por isso que, embora O livro de Daniel Quinn & Ossos antigos não sejam nem um pouco desprezíveis (muito pelo contrário), O RAMALHETE EM CHAMAS é infinitamente melhor que eles, uma unidade perfeita onde todos os elementos se ajustam, se casam, onde cada episódio vai repercutir mais tarde e dar novo significado à trama.

A ficção norte-americana é, ainda hoje, cheia de autores de primeira. Basta lembrar, por exemplo, de John Irving, E.L. Doctorow, Philip Roth, Joyce Carol Oates, Paul Auster, Joan Didion, John Updke, Mary Gordon, Louise Erdrich, Jayne Anne Philips, Louis Begley, Anne Tyler, Gore Vidal, sem falar nos grandiosos Saul Bellow, Norman Mailer, William Styron, J.D. Salinger, Don DeLillo, John Barth e Thomas Pynchon… Mesmo assim, desde William Faulkner talvez não haja um romancista norte-americano que tenha, como o autor do Ciclo de Albany, o dom  de fazer os personagens conversarem, agirem, refletirem e lembrarem, tudo num mesmo movimento, e tudo num fluxo de discurso poético, vital, que parece espontâneo, mesmo quando é retórico e ultra-literário.

Também como Faulkner, Kennedy é agarrado às anedotas, aos fatos de uma região, e isso faz com que tudo pareça ser conversa de comadre. Eles são um pouco como Shakespeare, no sentido oceânico que suas obras parecem tomar, um pouco como James Joyce, que fazia a fala miúda virar harmonia cósmica, e um pouco como aqueles parentes que sabem tudo da vida dos outros e que começam a rezar o terço do que aconteceu com fulano, sicrano e beltrano, com os parentes, com os vizinhos, com os desafetos (sempre há desafetos), com as pessoa públicas, assim que abrem a boca.

E Katrina Taylor Daugherty, que apareceu despida para Francis Phelan, surpreende o leitor com um intenso strip-tease psicológico, tornando-se para ele um dos pássaros mais raros da ficção contemporânea. Como afirma o narrador, ao comentar uma fotografia que Katrina tira um pouco antes de sua morte: “Nenhuma outra foto que [o fotógrafo] tenha tirado naqueles anos jamais se comparou em vigor à imagem de Katrina e seu girassol, com as pétalas de um amarelo-claro: duas flores semelhantes, brotadas da inteligência da natureza…”

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William Kennedy e o perigo da implosão

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 28 de março de 1995)

A exemplo de Santos, Albany é uma cidade bem antiga dos EUA e muitos imigrantes fixaram-se ali. Em 1958, ano em que Peter Phelan reúne sua família para resolver questões testamentárias e patriarcais, Albany está modernizando seu perfil urbano e, em velhos reservatórios, ossadas são encontradas.

Orson, filho de Peter e narrador de Ossos antigos (Very old bones, EUA-1992, em tradução de Sérgio Flaksman), de William Kennedy, remexe arqueologicamente os ossos ocultos da família. E isso não é apenas uma analogia: há um pequeno cadáver enterrado no porão da casa dos Phelan desde os anos 30.

William Kennedy é obcecado por suas raízes irlandesas, pela peculiar mescla de monstruosidades familiares e um humor peculiaríssimo, e a maneira como ele trabalha tudo isso no interior da consciência dos personagens lembra James Joyce, não só o mais prestigiado autor do século XX, mas também irlandês até a medula. Kennedy gosta igualmente de acontecimentos extravagantes e de um clima quase surreal, lembrando Gabriel Garcia Márquez.

A mistura Joyce-Garcia Márquez poderia ser indigesta, não tivesse ele desenvolvido um universo todo próprio, que foi delineando-se em seus sete romances, especialmente a partir do terceiro, o muito bom I(muito bom mesmo) A grande jogada (na verdade, A grande jogada de Billy Phelan), que trata das façanhas de Billy, primo de Orson.  O quarto foi melhor ainda, Ironweed (assim como o anterior, editado no Brasil pela Francisco Alves, com o título de Vernônia). E marcou um patamar que o autor norte-americano está tentando, com dificuldade, superar ou simplesmente igualar.



Ironweed é de 1983. Em 1988, com grande alarde (por causa da versão cinematográfica do livro anterior, que foi indicada para vários Oscars e tinha Meryl Streep e Jack Nicholson, ambos em grandes momentos de sua carreira), veio O livro de Daniel Quinn, cujas primeiras páginas eram um tour-de-force estupendo de humor e extravagância, que o resto do texto, meio capenga, não acompanhava, deixando uma impressão final de mediania e esgotamento.

OSSOS ANTIGOS causou menos alarido (talvez pelo modesto resultado de seu predecessor) e é melhor, sem dúvida, sem chegar ao nível de Ironweed & A grande jogada. Kennedy foi feliz em situar a narrativa em 1958, na encruzilhada entre os velhos tempos de Albany e um tempo em que as minorias já entram em movimentação rumo à luta pelos direitos civis,que transformará a fisionomia da sociedade americana. Pior para os irlandeses que teimam em trazer à superfície os fósseis do passado e que mumificam o presente.

Mas OSSOS ANTIGOS não escapa de ser um romance desigual. O autor se repete e o leitor fica meio cheio da indefectível figura de Francis (o protagonista de Ironweed e pai de Billy), que virou um errante, após ter—acidentalmente—morto o filho, bebê de poucos dias, e que ganha uma aura heróica neste último livro. Também o tipo de narrativa,memorialístico, não é todo bem resolvido, e resvala por vezes no pior romantismo (é o caso do envolvimento meio Ensina-me a viver entre Orson e a tia sessentona) e é projetando-se no passado mais remoto que ele rende mais (a infância de Peter, a loucura de Malachi, a personalidade rançosa e rancorosa de Sarah Phelan).

Kennedy é um dos autores mais interessantes da atual ficção norte-americano, mas a expansão infinita do universo dos Phelan pode levá-lo a uma entrópica e fatal implosão de criatividade.

nota de 2011A CosacNaify publicou no ano passado novas traduções de A grande jogada (que se tornou O grande jogo de Billy Phelan) e Ironweed (agora sem o aportuguesamento do nome da planta que justifica o título)

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