MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

21/08/2010

Perecível, contingente, transcendente: a poesia de Adélia Prado

 

Num dos seus mais belos poemas Adélia Prado afirma que a calça azul-pavão de um conhecido “faz parte da Bíblia”. Esse contínuo remeter do que é perecível e contingente para o transcendente, esse mergulho sem concessões no cotidiano mais trivial para encontrar a salvação prometida pelo Livro dos Livros, é que fazem com que alguns dos primeiros livros de poesia (Bagagem, O coração disparado, O Pelicano) sejam tão carismáticos. Agora que a Record está relançando toda a sua obra, temos a chance de reavaliar alguns títulos que pareciam menos satisfatórios, caso de Terra de Santa Cruz, publicado há exatamente um quarto de século.

Dividido em 3 partes (Território, Catequese e Sagração) contém 40 poemas que, a uma primeira leitura, pareciam uma diluição do impacto do primeiro livro, Bagagem (1976), confirmado no seguinte, O coração disparado (78): um “eu lírico” que insistia na sua particularidade—mulher, mineira, provinciana e católica—para instaurar um clima poético que se transubstanciava numa grande narrativa: como fazemos parte da Bíblia, o lírico se transformava em épico, fazíamos todos parte de uma história multiplicada em lampejos, cacos para um vitral. Poucas obras contemporâneas têm esse poder de nos proporcionar o sentimento de realmente fazermos parte da humanidade, de estarmos todos na barca dos homens: “É bom pedir socorro ao Senhor Deus dos Exércitos/ ao nosso Deus que é uma galinha grande/ Nos põe debaixo da asa e nos esquenta/ Antes, nos deixa desvalidos na chuva/ pra que aprendamos a ter confiança n’Ele/ e não em nós.”

E por isso Terra de Santa Cruz é mais que um livro individual, faz parte da Narrativa maior que Adélia “Scharazad” Prado vem engendrando em forma de livro, para nós, há três décadas. Ela mesma o diz: Tenho os mesmos desejos de trinta anos atrás/ imutáveis como os mosquitos na cozinha ensolarada/ minha mãe fazendo café/ e meu pai sentado, esperando”.

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Tais imagens indicariam conformismo, resignação à vida que levamos ? Não. A bonomia, a tom cálido e saboroso dos poemas da grande poeta mineira não escondem a faca no peito da condição humana, “e não sendo melhor que Jô choro meus desatinos”. E o apelo ao divino é feito com o corpo: “O que farei com este meu corpo inóspito / já que não respondes nem me abres a porta / Tem pena de mim/ Não compreendo nada. Só Vos desejo / e meu desejo é como se miasse por Vós…” A imagem do miado, ligada ao cio, revela a voltagem erotizada de uma linguagem onde o místico cumpre sua função desde os tempos de Santo Agostinho: ser exaltação, desmesurar o que a sociedade reprime e vê com maus olhos: Eu me casei e tenho a mesma medida de aflição/ O dia passa, a noite, saio da sombra e digo/ é só isso que eu quero/ ficar no sol até enrugar o couro/ Mas vai-se o sol também atrás do morro/ a noite vem e passa sobre mim/ que longe de espelhos alimento sonhos/ quanto a viagens, glórias/ homens raros me ofertando colares, palavras/ que se podem comer, de tão doces/ de tão aquecidas, corporificadas/ A parreira verga de flores/ eu durmo inebriada/ achando pouca a beleza do mundo/ ansiando a que não passa nem murcha/ nem fica alta, nem longe/ nem foge de encontrar meu duro olhar de gula/ A beleza imóvel/ a cara de Deus que vai matar minha fome”.

   A poesia de Adélia Prado é como a mesa preparada pela mulher do conto A repartição dos pães, de Clarice Lispector: foi posta para dar o melhor, não importa a quem.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 12 de agosto de 2006)

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