MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

21/04/2012

The “heart of the matter” jamesiano: a sombra do que não foi sobre o que é

 

(o texto abaixo foi escrito em 2008, como parte do material de leitura para meus alunos do curso As margens derradeiras: textos do limite,  que abordava oito textos curtos e paradigmáticos do século XIX: O médico e o monstro, Bartleby, Memórias do Subsolo, A morte de Ivan Ilitch, O alienista, O mandarim, O coração das trevas & A volta do parafuso; em torno de cada um, analisei outros: William Wilson, O homem invisível, O duplo, O capote, A tumba dos ancestrais, O horla, O homem da areia, A vida privada, etc)

Da mesma safra de histórias (ou seja, da década de noventa do século XIX), e talvez a mais impressionante, depois de A volta do parafuso, é O altar dos mortos (publicado na coletânea Terminations, 1895). Ele é o mais necrófilo e explícito em termos mórbidos e neuróticos (Freud faria uma festa com esse texto) de uma série de relatos em que uma pessoa morta é que dá a palavra final sobre a vida das personagens principais: vemos isso em A fera na selva, no qual John Marcher  espera um grande acontecimento, a fera emboscada na selva da sua vida, descobre que esse acontecimento era uma mulher que morreu, May Bertram, esperando com ele (esperando que ele caísse na real); vemos isso em As asas da pomba, em que Merton Densher é apaixonado por Kate Croy, mas instruído por ela, se aproxima da rica Milly Theale, (que tem uma doença terminal), faz com que ela se apaixone por ele e lhe deixe sua herança, mas descobre no final que tinha se apaixonado por ela e fica sem a “pomba” agora morta (e que estendeu suas “asas”  mesmo após a morte), sem o dinheiro (ao qual renuncia) e sem Kate, a arquiteta da trama toda; vemos isso em O desenho do tapete, em que o grande escritor Hugh Vereker revela a um crítico (o narrador) que toda a sua obra tem um “desenho” secreto e, quando ele morre, o crítico chega a cortejar a viúva de um amigo  por estar convicto de que ela conhece o segredo. E assim por diante… As vezes penso que James  intuiu plenamente um tipo que faria praça no século XX: o homem cego ideologicamente, que se guia por uma abstração, sem perceber o que está próximo a ele e que o faria mais feliz ou pleno (e talvez nessas histórias, haja uma autocrítica à sua própria vida “de renúncia”). Os homens jamesianos (a não ser, entre os que eu conheço, o de Os bostonianos) não se deixam levar por ideologias políticas, mas seguem o mesmo processo de cegueira e limitação de horizontes.

Em O altar dos mortos começa com a informação de que o protagonista, George Stranson, todos os anos comemora uma data fúnebre, a da morte de Mary Antrim: “…ao chegar aquela data, ele se via forçado pela recordação, por uma obsessão tirânica.  Stranson “despertava para aquela festa de recordações com a mesma consciência com que se levantaria na manhã do casamento. Casamento era de resto coisa que, para ele, nunca houvera. Para a jovem que deveria ter sido sua esposa, o beijo nupcial nunca chegou a existir. Morrera de uma febre maligna, pouco tempo depois de ter sido fixado o dia do casamento. Perdera, antes de ter saboreado, um afeto que prometia encher toda a sua vida [1]”. Estamos aqui no “heart of the matter” jamesiano: a vida que seria possível e não foi e, mais especificamente, a sombra “do que não foi”  sobre o que “é”. Embora não tenha sido nunca um homem “de grandes paixões”, a sua vida era ainda dirigida por um fantasma pálido, era regulada por aquela presença soberana… fizera tudo, à exceção de uma coisa: nunca esquecera. Tentara introduzir na sua existência tudo quanto lhe pudesse preencher o vazio. Mas nada mais conseguiria erigir que uma casa cuja dona estava eternamente ausente. Se fosse só isso… Mas Stranson, aos 55 anos, tinha muitos fantasmas além de Mary Antrim: “Não tivera mais óbitos que os homens em geral, mas contara-os mais do que é comum… Habituara-se aos poucos a enumerar os seus mortos[vejam o possessivo, como se ele se apropriasse desses mortos, como se eles fossem sua propriedade]. Stranson  fica então obcecado pela idéia de fazer algo por esses “outros”: “Nem ele próprio se lembrava da altura em que tal idéia lhe tinha surgido, mas o resultado viria a ser um altar iluminado por inúmeros círios e dedicado a esse culto secreto Tal altar passou a ser parte integrante da sua vida espiritual”.

Pois bem, na véspera de uma de suas “comemorações” da data mais importante da sua vida, ele está olhando a vitrine de uma joalheria e encontra um velho amigo, Paul Creston, que ficara viúvo (Stranson até se recorda do semblante dele, “uma máscara tumefacta e enrugada, curvada sobre a cova aberta da esposa) e que viajara para a América. Lá ele encontrara uma nova esposa que apresenta ao revoltadíssimo Stranson, chegando ao cúmulo, apesar do constrangimento evidente, de convidá-lo para uma visita (convite , aliás, feito pela nova esposa): “Stranson determinou-se a nunca se aproximar novamente daquela mulher. Seria uma criatura humana, sim [2], mas Creston tinha o dever de não andar a exibi-la assim, descuidadamente, não devia sequer mostrá-la em público. Devia tomar as precauções de um falsário, de um assassino, para que ninguém sequer sonhasse com a extradição. Aquilo era uma mulher de exportação, para relações externas, para uso no estrangeiro: se Creston pensasse com cuidado, com honestidade, poupá-lo-ia de injuriosas comparações”. Ele se recorda da atração que tivera por Kate Creston, a falecida (das mulheres de que se recordava, era a única com quem teria praticado uma infidelidade). Veja-se a conclusão que ele tira do encontro, após ter pensado que a pobre Kate na vida do marido não tinha mais valor do que uma criada substituída por outra: “Tinha naquela noite a profunda impressão de que, neste mundo de indelicadeza, só ele próprio tinha o direito de manter a cabeça levantada. É mole? Nessa mesma noite, ele lê no jornal (vocês devem imaginar qual a seção favorita dele: os obituários) a notícia do falecimento de Acton Hague (onde James busca esses nomes infernais?): “Era o homem que, havia dez anos, tinha sido o seu maior amigo e que não fora substituído, uma vez afastado dessa amizade. Depois da ruptura, vira-o apenas uma vez… Acton Hague morrera no exterior, de uma doença causada pela mordedura de uma serpente venenosa. Não é revelado o motivo da ruptura, só que ela fora pública e vexatória, por ambos ocuparem cargos importantes.

No dia seguinte, que é o da “data”, ele vai ao cemitério e vaga pelos subúrbios, descobrindo inesperadamente uma igreja, na qual resolve repousar um pouco: “julgou pressentir na atmosfera pesada e suave uma corrente de ar hospitaleira… A sua única certeza era de ter fugido à bruma suburbana e ter encontrado um lar aquecido. Sente “comunhão” com a única pessoa ali presente, uma mulher de luto.

Stranson fica impressionado com o “oceano de luz” emanado pelos círios da igreja e o compara com seu próprio “altar dos mortos” espiritual: O altar que tinha diante dos olhos transformava-se pouco a pouco no seu próprio altar, a luz de cada um dos círios era um voto pessoal: contou-os, pôs-lhes um nome, reuniu-os e recordou silenciosamente todos e cada um dos seus mortos. Essa analogia é tão forte que tem uma idéia (ficou tão excitado com o prazer que ela lhe dava, que começou a andar): ser o patrocinador desse altar, dessa teia de luzes, pediria para cederem-na a ele e faria dela uma obra-prima de esplendor, uma colina de luz. Ornada diariamente com veneração, impregnada da atmosfera sacra da igreja, seria ali que ele ia ter a liberdade de exercer o seu culto…” Antes de ir embora, ainda repara mais uma vez na mulher de luto, que lhe parece muito distinta, embora “marcada pela vida”.

Demora um ano em negociações e trâmites eclesiásticos, mas consegue seu intento, cuja realização ganha contornos claramente sexuais: Stranson se encarregava do número de velas e o livre gozo da sua intenção.Quando a intenção atingiu o seu pleno desenvolvimento, o gozo tornou-se maior do que alguma vez pudera desejar. Quando longe daquele altar, o seu prazer era pensar no que havia realizado; quando perto,  o prazer era convencer-se do mesmo fato…. Por muito que uma vida fosse sobrecarregada de deveres, era mais fácil vivê-la quando, aos referidos afazeres, se somava uma nova razão de existir”. As pessoas notam e maliciam os seus “desaparecimentos”.  E ele, ali, feliz: “Acreditava que todo os que ajoelhassem no tapete por ele estendido no chão tinham de agir com o espírito da sua devoção: ele dava um nome a cada uma das chamas das velas, ao número das quais se juntavam sempre outras novas. Submetia-se a um princípio fundamental: que para elas sempre havia sempre um lugar; embora os que passassem por perto mais não vissem que um simples altar, quiçá o mais resplandecente de todos os altares. E em frente daquele altar, um homem de idade, sentado, imóvel, mergulhado em meditação ou numa espécie de sono, sofria a fascinação daquele mar de luzes” . Não deixa de ser sumamente irônico que ele associe um homem ultra-civilizado a uma prática que remonta aos povos primitivos, essa fascinação pelas chamas.  E ao mesmo tempo temos certo ecos do decadentismo nessa adoração civilizadíssima (“adaptava-se às suas inclinações, satisfazia-lhe o espírito, dava uma razão de ser à sua piedade, correspondia perfeitamente ao gosto dele pelas cerimônias de ritual solene e magnificente) que também tem a ver com o desaparecimento cada vez mais pronunciado das pessoas à sua volta: Eram cada vez mais numerosos os grupos de luzes acesas, pois Stranson enveredara já pelo obscuro desfiladeiro através do qual a nossa vida desce para a cova e, ao longo do qual, cada dia morre um dos que nos são queridos. A chama branca de Kate Creston acendera-se havia escassos dias, mas não tardaram a acompanhá-la mais recentes estrelas: pessoas por quem ele nunca se interessara muito começavam a chegar e a entrar para as fileiras da sua comunidade[3]. O negócio é radical: “Conhecia individualmente cada vela e se alguém as mudasse de lugar, ele reconhecê-las-ia pela cor da chama… não deixava de ter a consciência do caráter pessoal de cada uma das velas e do papel especial por cada  uma desempenhado no concerto geral; deu consigo, em certas horas, a desejar que alguns amigos seus morressem para com eles poder estabelecer, daquela forma, relações mais encantadoras do que as quem em vida com eles mantinha”. Antes da internet, Stranson descobriu a comunicação virtual.

Há uma ausência nessa “comunidade”: na luminosa falange não consta nenhuma vela para Acton Hague. Enquanto isso, todo ano, na mesma data, encontra na igreja a tal mulher de luto que lá estava quando lhe surgiu a idéia de concretizar o altar dos mortos: “Tantas vezes rezavam lado a lado que Stranson tinha a firme certeza de que ambos envelheceriam também ao lado um do outro, unidos no mesmo culto. Ela era mais nova, mas parecia ter o mesmo número de mortos, o mesmo número de velas”. Ou seja, assim como John Marcher engaja May Bertram ao seu destino à espera da fera na selva, Stranson, sem nunca ter trocado palavra com a mulher de luto, engaja-a abstratamente na sua aventura pessoal. Quem é essa mulher, sempre vestida de preto”: “devia ter tido uma longa seqüência de desgostos. Ao fim e ao cabo, uma pessoa que tantos entes queridos perdera não podia ser pobre, era antes riquíssima, após tantas renúncias a tanta coisa”. E aí a história dá uma guinada.

Num concerto de música, um dia por acaso Stranson se vê sentado ao lado da mulher da igreja, e ele pela primeira vez fala com ela: “Nunca julgara que ela pudesse ser tão bonita… concluiu também que nunca teria lhe passado pela cabeça que ela pudesse ser tão interessante. Mas a mulher (não ouvimos o nome dela ainda), após o concerto, abre seu guarda-chuva e some na multidão. Stranson fica louco de vontade de revê-la na igreja (e com raiva de si mesmo por essa vontade), mas é impedido por dez dias: “… a coisa se complicava, fato que muito aborrecia Stranson e o decepcionava, como se se tivesse quebrado um encanto e turvado a sensação de paz e sossego em que vivia… Perguntou entretanto a si próprio se deveria abandonar de vez o seu altar por causa do receio que entre os seus motivos e a sua intenção se estabelecessem quaisquer confusões”  . Quando consegue ir à igreja, ela não está presente: “a ausência dela vinha complicar o labirinto”. Vai mais três vezes e nada. Só a reencontra mesmo em outro concerto e pede para acompanhá-la (mas ela não se dirige à casa dela, um casarão velho, onde mora com a tia). E ele percebe que ela não é tão nova: “Mas o brilho ofuscado da beleza de outrora, era, aos olhos de Stranson, a prova evidente de quanto essa beleza tinha sido oferecida em sacrifício.Mas tudo quanto ela contou a Stranson era abstrato e sem referências. Podia ter sido uma duquesa divorciada. Podia também ser uma velha solteirona, uma professora de harpa”. Aviso aos navegantes: quem pensar que se trata de uma morta, tire o cavalinho da chuva, o relato não vai enveredar por esse caminho.

Os dois passeiam juntos, após se encontrarem na igreja: “Não lhe era permitido convidá-la a vir visitá-lo e ela nunca o convidou: dir-se-ia que não tinha casa decente em que pudesse recebê-lo. Tanto quanto ele, ela conhecia a sociedade londrina, mas por capricho do destino, ambos freqüentavam lugares desconhecidos dos mundanos. Ela obrigava-o sempre a deixá-la na esquina da rua onde morava… Durante meses, e até anos, Stranson ignorou como ela se chamava e ela também nunca pronunciou o nome dele… O que contava, para eles, era o mútuo entendimento, a perfeita comunhão de intenção e de culto”. Embora o foco narrativo tenha até então ficado restrito a Stranson,  o  narrador começa a arriscar um ponto de vista que envolva ambos, como quando afirma que se alguém os ouvisse julgá-los-ia “um casal de pagãos antigos a falar respeitosamente dos Deuses Lares. Nunca lograram saber (pelo menos Stranson sempre o ignorou) como é que ambos se tinham conhecido até esse ponto” ou ainda: “era natural e belo que ambos se comprazessem com a idéia de que eram um discípulo do outro. Ambos se sentiam satisfeitos por seu apostolado ter conquistado um único discípulo. A dívida dela talvez fosse superior à de Stranson: enquanto ela lhe fornecera apenas um adorador, ele edificara-lhe um templo magnificente”. De repente, no entanto, ela revela a Stranson de que o altar para ela significa apenas um morto (Sim, os meus mortos são um só” [4] ). No mais, “ela era a sacerdotisa do seu altar  e, quando tinha que viajar para o exterior, encarregava-o de guardá-lo; além disso, ele comunica a ela que deixará um legado para que se continue cuidando do altar; ela poderia gerir os fundos necessários.

À idéia dela de que o altar está quase repleto, Stranson replica que não, que no final se terá de acender um círio cujo brilho fará empalidecer o de todos os demais e que será o círio que representa ele mesmo, e que ela se encarregará de acender. E a minha, quem a acenderia?, perguntou ela gravemente” (será que ela não percebeu o monumental egocentrismo desse homem?).

Depois de um período de afastamento, devido a uma longa viagem, Stranson descobre que a tia dela morreu. Aí então ela o convida para sua casa (“De certo modo, era um acontecimento, e a verdade é que, em todo o período que aquela amizade durara, nenhum acontecimento se produzira”). Ali confessa que nunca quis que a tia soubesse da existência dele. Depois de recebê-lo no salão da tia, leva-o para os seus “domínios”, os seus aposentos: O quarto apresentava-se-lhe irradiando vida, era expressivo, as paredes de cor vermelha eram animadas por mil objetos e suvenires. Eram coisas muito simples, fotografias, aquarelas, textos manuscritos encaixilhados, flores secas, mas Stranson só precisou de um instante para intuir que todas aquelas coisas tinham uma significação em comum. Fora ali que ela sempre vivera e trabalhara…”

Tudo muda quando ele vê na parede o retrato de um cavalheiro e trata-se de Acton Hague: “Compreendeu então Stranson, enquanto lhe parecia ver o quarto a oscilar como uma cabine de navio, que móveis, objetos, tudo ali gritava a presença de Acton Hague, que a ele tinham sido consagrados todos aqueles anos e que o altar erigido por Stranson o havia ela, na sua paixão, consagrado ao culto de Acton Hague [vocês devem lembrar que a primeira vez em que ele a viu foi no dia seguinte à notícia da morte do ex-amigo]Que necessidade teria Acton de um círio próprio quando, no conjunto como no pormenor, ele e só ele estava presente naquele altar?” Mais uma vez, em Henry James, um morto ganha a parada, tem uma vantagem injusta na competição (Ele via-a e pressentia nela a inapagável marca do morto… Stranson não podia evitar a idéia de ter sido vítima de uma fraude: ela abusara dele, se bem que nem ela própria o suspeitasse” e mais adiante: “Stranson reconhecia-se ciumento, perversa e profundamente ciumento” ) .

Ele diz então que jamais se referiu a ele porque anos antes o falecido cometera um agravo contra ele. E jamais esqueceria: “Ela ficou calada e Stranson teve um sobressalto quando, no meio daquela atmosfera dominada pela presença de Acton Hague, não a ouviu replicar… Nunca ele conhecera nada mais maravilhoso do que ver aquela mulher, naquele quarto cheio de recordações, a deixá-lo adivinhar pouco a pouco que, da parte de Acton Hague, toda e qualquer injúria era impossível”.  Ela diz, por fim, que se soubesse da história entre os dois, jamais o teria levado até seu quarto.  Ela faz a pergunta fatal: se alguma das luzes do altar era por Acton? Ele nega e vejam só sua explicação: Ele é um dos mortos deste mundo e o seu morto também. Mas não pertence aos meus. Os meus mortos sãos os que morreram na minha posse, estando eu na posse deles. São meus na morte, porque foram meus na vida”. Depois de mais algumas frases, ela lhe diz “adeus”. Ele fica chocado e pergunta se não vão se encontrar novamente, e ela diz: “nunca”. Ele ficou consternado com a ruptura dos fortes laços que os uniam” e pergunta a ela o que mudou: “Se não o percebeu antes, como poderia percebê-lo agora?”  Mais explicitamente: Tudo muda de aspecto quando eu descubro que o senhor o conhecia e que ele não tinha nada”.  Ela, sem querer, dá a ele a dica a respeito de como é mesquinho o seu projeto de abarcar os mortos da sua vida através de um fetichismo possessivo (não que a adoração por um só morto da parte dela seja muito melhor): “o encanto está rompido porque ele não conseguiu dar a ela um sinal material, a prova exorbitante que lhe era exigida, de que o defunto dela era igual aos Outros (e para ele seria uma concessão demasiada).

Ele não a encontra mais na igreja e tem “a impressão de que todas as luzes do seu altar estavam extintas”. Ele acaba por abandonar seu rito, num ato de renúncia: “Ele não podia imaginar que ela fosse vingativa ou rancorosa. Não fora num movimento de cólera que ela o abandonara, apenas se submetera à implacável realidade, à áspera lógica da vida”. Para ela, ele se tornou novamente um estranho. Mesmo assim, ele insiste em ir à casa dela, ela aquiesce em que passeiem juntos novamente, mas tudo tem um ar de simulação: “Essas coisas derivavam e dependiam intimamente das visitas à igreja”. Não havendo o culto, não há relação possível.  De qualquer forma, “entre ambos estava Acton Hugue”.

Ademais, Stranson já não consegue caminhar como antes, tendo se acentuado seu declínio físico, “a vida dele não era mais que um trapo fora de uso”. E ele começa a pensar se tudo não se resume ao fato de amá-la. E ela aceita todos os simulacros da antiga “amizade”, até sinaliza com um “sorriso de estranha piedade” que percebe o que se passa com ele, ou seja, “aceitava tudo, menos a possibilidade de um retorno aos símbolos e ao culto de outrora, já que ele não incluiu Acton. E ele não consegue dar esse passo: “Stranson manteve a sua resolução inicial: não aceitar Hague” [vocês notaram que a antiga amada dele desapareceu do horizonte; outrora soberana presença, e embora eternamente ausente, dona da casa, agora só é um pálido fantasma esquecido].

E chegamos ao nono e último capítulo. Apesar dos percalços da sua relação com a sua nunca nomeada amiga, Stranson consegue dela a promessa de que o cultue após a morte: “podia contar com ela para eventual vigilante do seu tabernáculo”  (e aqui parece que ele ainda está competindo com Acton Hague). Portanto, ele quer pedir a ela que acrescente “uma, só mais uma, nada mais do que uma” (ou seja, a vela por ele e nem uma sequer por Acton, apesar de ela ter tomado o altar inteiro como objeto de culto pelo falecido).

E Stranson declina, já sente o que lhe resta de vigor abandoná-lo rapidamente: “O pior era não existir já o seu altar; quando, nos seus devaneios, evocava a capela, só o que via era uma enorme caverna escura (antes, como se viu, o altar era a conjunção de uma visão interna com a realidade da capela, dotada de significação pelo seu investimento libidinal): “Todas as luzes se tinham apagado. Os seus mortos tinham morrido pela segunda vez… Podiam as velas continuar a arder, mas o brilho particular que lhes era próprio jamais seria recuperado. Doravante a igreja estava vazia; tinha sido a presença de Stranson e da sua amiga quem chamara para ela todos os outros fiéis. Tinha bastado a parada de uma roda para tudo paralisar. Fora o silêncio daquela mulher que conseguira desfazer a harmonia do cântico”.

Incapaz de enfrentar a solidão e a velhice, Stranson volta ao altar (“foi com alívio que sentiu, momentos depois de ter sentado, que os mortos mantinham sobre ele o mesmo poder”). Mas seu coração começa a dar sinais de pane, “destruindo todo o conforto que o altar e os seus devaneios lhe prodigalizavam. Mesmo assim, nos meses seguintes, ele insiste em voltar, vivendo ardorosamente aos pés do altar numa “febre de exaltação… parecia-lhe que o seu altar aceso irradiava uma atmosfera quente, que o aquecia e quase o queimava”. Dá para perceber que Stranson já está cruzando o cabo da boa esperança, ou, digamos mais elegantemente, já está no umbral do seu mundo preferido, o dos mortos: “…errava por aquele campo de luz, por entre círios enormes, de candelabro em candelabro, de chama em chama, de nome em nome, passando de um claro e luminoso emblema para outro, de uma alma arrancada à treva do esquecimento para outra alma ressuscitada. Era no sentimento íntimo de ter salvado as almas dos seus mortos, o instinto secreto e profundo de Stranson encontrava um imenso gozo… Stranson sobrevivera a todos os seus amigos, datava de três anos a última das chamas que acendera, não tinha já ninguém para acrescentar. Chamava-os pelos seus nomes, fazia nova chamada e concluía que o rol estava completo.”

         A simetria do altar só reserva lugar para mais um: Entre todas as suas velas havia relações sutis e complexas, uma combinação que permitiria reconhecer o vazio que tanto impressionara a sua amiga exilada… onde ficava reservado o lugar para uma nova vela: Só mais uma, para completar o conjunto… só uma, só mais uma” , que seria acesa quando ele passasse a fazer dos Outros.

O clímax do relato se inicia quando ele cai de cama e fica sabendo que uma senhora veio informar-se a seu respeito. Ele resolve ir procurá-la, contra as ordens médicas, não a encontra em casa e segue para a igreja, recusando companhia de criado ou enfermeira (“Sabia perfeitamente o que é que essa gente pensava: tinham descoberta a sua ligação clandestina, o ímã que durante tantos anos atraíra Stranson, e davam certamente uma interpretação própria às estranhas palavras que tinham ouvido dele em delírios. A dama desconhecida era uma ligação comprometedora, nada mais evidente do que a pressa indecente com que o amo tinha ido ao encontro dela”). Ele vai à igreja porque acha que a encontrará ali e porque quer rever seu altar antes que as forças lhe faltem de vez.

No altar, “a fraqueza, o cansaço de viver abatiam-no. Parecia-lhe que viera ali para a suprema capitulação”. Percebe que jamais sairá dali: “Ofertara-se aos seus Mortos… desta feita os seus Mortos aceitavam-no”. Ele nota um fulgor maior na sua vela preferida, que sempre nomeara como Mary Antrim: “Tudo quanto ele implorava era um pouco de amor, um pouco de imortalidade” . Percebe então, atrás dele, uma mulher de luto. Ela fica aterrada ao ver o estado dele, mas deseja revelar uma coisa importante: por que ela veio à igreja novamente, após tanto tempo: “Esta tarde, como por milagre, desapareceu em mim o sentimento de distância que nos separava… Podia já vir aqui, vir com a mesma intenção que o trouxe. Bastava-me. É por isso que aqui estou. Não vim por mim, nem pelo meu Morto, o único que possuía. Vim por Eles, por todos Eles”. Coitada, ela não percebeu que o mundo de Henry James é um mundo do “tarde demais”?

Ela ajuda Stranson a aprumar-se num banco, amparado por ela. E ele diz que os mortos revelam que há um vazio, um vazio destruindo a harmonia e a simetria: “Dizem que o desenho não está perfeito. Só uma…Só mais uma, nada mais que uma” . E pergunta se não é o que ela queria dele? “Não! Mais nenhuma! gemeu ela com voz inaudível, como que horrorizada com a idéia”. Ele repete: “Sim só uma, só mais uma!” [5]. Daí  passa-se para o parágrafo final, quando ela percebe que ele já está nas últimas: “Sozinha, na penumbra da igreja, sentia um arrepio de terror pelo que pudesse vir a acontecer, porque o rosto de Stranson estava mortalmente pálido[6]. E nesse final enigmático não sabemos se ao perguntar se não é o que ela queria dele, ele renunciou ao lugar vazio e o cedeu a Acton ou não, só sabemos que a deixou com o arrepio de horror  ali sozinha de se saber “guardiã do tabernáculo”.


[1] Utilizo a tradução de Manuel João Gomes, da coletânea O altar dos mortos e outras histórias sobrenaturais de Henry James (Ed. Estampa). Não é ocioso, creio, indicar que François Truffaut adaptou o conto para o cinema (com modificações) no seu filme O quarto verde, de 1978.

[2] No original está assim mesmo: “She was perhaps a human being…”

[3] Hoje em dia ele poderia formar uma comunidade no Orkut, não é mesmo? No original: “It was only yesterday that Kate Creston had flashed out her white fire; yet already there were younger stars ablaze on the tips  of the tapers: various persons in whom his interest had not been intense drew closer to him by entering this company”.

[4] No original: Then of course in a flash he understood: Your Dead are only One?, She hung back at this as never yet: Only One, she answered…”

[5] No original, “Yes, one more, one more!”

[6] No original, “for his face had the whiteness of death”.

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