MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

17/09/2011

DEMASIADO PRÓXIMOS: William Golding e os ritos iniciáticos

(resenha publicada originalmente em  A TRIBUNA de Santos, em 21 de janeiro de 2003)

  Em Close Quarters- Confinados (1987), um dos últimos livros de William Golding (falecido em 1993), o narrador-protagonista—Edmund Talbot—que está viajando para a Austrália no início do século XIX, diz a um companheiro de navio: “Vou passar alguns anos, alguns poucos anos, na administração da colônia… estou convencido de que neste século as nações civilizadas cada vez mais assumirão a administração das regiões retrógradas do mundo”. Fica evidente a arrogância do homem branco europeu, assim como fica bem localizado o momento histórico no romance: o período final das guerras napoleônicas, já estando próxima a derrocada do imperador francês, visto como um tirano (“O estado do mundo estava muito modificado pelas catástrofes… o estado da França, a ruína de suas grandes famílias, uma geração exposta primeiro à sedução de uma liberdade e uma igualdade impossíveis, em seguida às durezas impostas pela tirania…”[1]).

    Portanto, em Close Quarters, Golding deixa muito mais claras as coisas para o  leitor do que no grande romance (de 1980) do qual ele é a seqüência: Ritos de Passagem. A tradução de Elsa Martins ganhou nova edição pela Nova Alexandria vinte anos depois da pioneira edição da Francisco Alves, lançada por aqui antes mesmo que o notável escritor inglês ganhasse o Nobel (em 1993), numa premiação polêmica.

    Em Ritos de Passagem tudo é mais cifrado, momento histórico e características do narrador, o qual embarca e imediatamente começa a escrever um diário, tendo como destinatário o padrinho. Parece um personagem meio ingênuo, bom sujeito, curioso, inteligente e que, conforme indicado pelo título, deve submeter-se voluntariamente a experiências que irão amadurecê-lo.

    São muitos os aspectos que poderiam ser abordados num livro do quilate de Ritos de Passagem (entre eles, a presença maciça de elementos e metáforas teatrais). A este artigo, contudo, caberá ressaltar que Golding se irmana ao Machado de Assis de Brás Cubas & Dom Casmurro ao nos propor um narrador não-confiável, bem menos simpático do que parecia a princípio. O que ele diz de si mesmo e o que temos de ler nas entrelinhas são coisas conflitantes, quase diametralmente opostas.

    O que lemos nas entrelinhas da narrativa de Talbot configura o sujeito arrogante e muito consciente das diferenças de classe que emerge sem disfarce em Close Quarters. Porque Ritos de Passagem é um livro sobre castas sociais e sobre seus párias, mesmo que “aparentemente” não o sejam. Dois deles se destacam: Summers, um dos oficiais da embarcação, a quem Talbot toma por um “cavalheiro”, no sentido inglês da palavra, que determina nascimento, quando sua origem é bem humilde (e por isso nosso herói anota em seu diário: “… discuti, de uma forma que temo que ele possa ter achado ofensiva, a conveniência de que os homens fossem elevados acima de sua primitiva condição”), e o Reverendo Colley, que morre após o grande incidente da viagem: tentando se fazer respeitar pelo capitão do navio, que o despreza e humilha repetidamente, ele acaba por se embriagar, num espetáculo de degradação que culmina num escândalo sexual (Colleu pratica sexo oral com um dos marinheiros, praticamente em público).

    É uma carta do Reverendo Colley, em poder de Talbot, que nos permite entrever o avesso do diário que estávamos acompanhando, as ambigüidades dos ritos iniciáticos, colocando os acontecimentos a bordo sob outra luz, ou sombreando-os, melhor dizendo.

    Enquanto isso, Golding também brinca com a linearidade narrativa. Talbot começa por enumerar cada dia (1, 2,3, 4, 5), depois perde a seqüência e coloca um X, pula para o 12, depois para o 17, coloca um ? perplexo,mais adiante um Y, depois um ZETA grego, e no capítulo posterior à carta do malfadado Colley, não coloca nada, de tal forma o Reverendo bagunçou o coreto, virando do avesso toda a sua complacência e autoconfiança, colocando-o diante de assuntos e inquietações “que estão me deixando meio louco, como todos os homens do mar que vivem demasiados próximos uns dos outros e, conseqüentemente, demasiado próximos de tudo quanto é monstruoso, sob o sol e sua a lua” (nesse sentido, somos então todos homens do mar).

   A viagem pelo mundo e seus ritos se mostra bem mais resistente à simplicidade e linearidade do que a contagem numérica.


[1] Nota de 2011: utilizo a tradução de Terezinha Batista dos Santos, lançada pela Francisco Alves na sua inesquecível coleção “A Prosa do Mundo”, em 1989. Há um terceiro livro, formando uma trilogia (que tem o título To The Ends of the Earth)  , e que ainda não foi traduzido (como a maior parte da obra de Golding): Fire Down Below, de 1989

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