MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

24/01/2012

Uma obra-prima de Milan Kundera: RISÍVEIS AMORES

I

É de um bom gosto louvável o tratamento dado pela Companhia das Letras aos livros de Milan Kundera, não só pela excelente escolha das capas, as quais utilizam xilogravuras e litografias muito belas de Lasar Segall, mas também por não se limitar simplesmente a republicar os textos das edições anteriores (pela Nova Fronteira).

É o caso da coletânea de sete contos Risíveis Amores (cuja esplêndida capa talvez seja superada apenas pela utilizada em A Identidade) e que está longe de ser apenas uma reedição da tradução que foi presença durante semanas na lista de mais vendidos em 1985-86, quando Kundera virou moda no Brasil.

Para começar, o texto traduzido pela mesma Tereza Bulhões Carvalho da Fonseca se baseia numa edição francesa de 1986, revista e considerada definitiva pelo próprio autor. Por isso, traz inúmeras pequenas mudanças. Quem leu (para dar um exemplo), em 1985, o final do quarto ato de “O Simpósio” , encontrava ali, no momento em que a amante do chefe se oferece ao subordinado: “Que fez o dr. Havel? Ah! Que pergunta”, e agora encontra: “Que fez o dr. Havel? O que ele poderia fazer!”

Além disso, a ordem dos textos foi alterada. Antes era “O pomo de ouro do eterno desejo” que iniciava a ronda dos risíveis amores e agora é o melhor deles, “Ninguém vai rir”; o título “O dr. Havel dez anos depois” foi alterado significativamente para “O dr. Havel vinte anos depois”; a idade do protagonista de “Que os velhos mortos cedam lugar aos novos mortos”, visivelmente errada em 1985, se ficarmos atentos à cronologia da história, foi corrigida na nova versão.

Por fim, incluiu-se um prefácio brilhante e esclarecedor de François Ricard (O livro de contos do colecionador). Portanto, o grande escritor checo (ou boêmio, como ele prefere) teve mais sorte do que Thomas Mann, na sua nova visitação às livrarias brasileiras (as reedições de Mann estão repletas de erros persistentes). Por enquanto, o leitor brasileiro pode ler, além de Risíveis Amores e A Identidade (o único inédito) os já clássicos A brincadeira e A insustentável leveza do ser.

II

Risíveis Amores é uma obra-prima. Não há um conto que destoe na fantástica unidade tutelada pelo mágico numero sete. A preferência por um ou outro é questão de gosto pessoal.

O meu favorito (colocá-lo-ia sem pestanejar numa antologia pessoal dos melhores contos que já li) é “Ninguém vai rir”. Nele encontramos o típico protagonista kunderiano: tentando levar a vida como “brincadeira” (entendida como exercício da liberdade), ele esbarra na armadilha de uma “seriedade” (sempre entre aspas), organizada como encarceramento do indivíduo.

Procurado por um estudioso medíocre para redigir um parecer sobre um trabalho de escasso valor, o anti-herói da história titubeia e tenta se livrar do encargo fazendo corpo mole. Ao ver que o estudioso não desiste, ele se irrita e inventa uma desculpa maldosa (o estudioso teria tentado seduzir sua namorada, que vive clandestinamente com ele –e aqui é precisa lembrar do clima em que se passam as histórias do livro, todo permeado pela dominação comunista da Tchecoslováquia). O estudioso se revolta, exige reparação, ele e sua esposa passam a perseguir a namorada e a vida se torna um inferno. No final, nosso herói perde a namorada, o emprego e a moradia por causa de uma brincadeira. É a vitória da seriedade entre aspas, no fundo irrisória e pouco séria.

Igualmente extraordinárias e caras ao autor deste artigo são “Que os velhos mortos cedam lugar aos novos mortos” (não por seu título, bem entendido) e “O jogo da carona”, ambos mostrando a perícia com que o autor de A vida está em outra parte (na verdade, A vida está alhures) lida com confrontos amorosos. No primeiro, há o reencontro de um casal (ela, mais velha) quinze anos depois da única experiência sexual que tiveram. Assim como ela (agora com 55) erguera um monumento fúnebre ao marido que é destruído porque o prazo da concessão expirara, o rapa (agora com 35) erguera um monumento ao mistério que dela ficou, e do único encontro entre eles; frustrado com sua existência atual, tenta resgatar na mulher à sua frente a imagem passada, e ela reluta, justamente com medo de destruir o tal monumento solene que ele guardou do que ela foi, na memória. Em “O jogo da carona”, o casal de namorados que viaja e que resolve brincar de desconhecidos (ela, representando o papel de caronista que seduz o motorista), acaba engolfado pela dubiedade das imagens interpostas: o que eram antes do jogo e o que passam a representar, ou ser; e aqui vale lembrar o destino do muito posterior casal de A Identidade).

Também há um jogo fascinante entre representar, ser, brincadeira, leveza, peso, gratuidade e irreversibilidade no último conto, “Eduardo e Deus”. Eduardo finge que crê em Deus para seduzir uma moça e depois se vê enredado em situações que o levam cada vez mais a ser aquilo que utilizava como representação.

E como esquecer dos contos vaudevillescos e voltados para o paradoxos do donjuanismo, também típicos do autor do magnífico A valsa dos adeuses, que são “O pomo de ouro do eterno desejo” e a parelha (porque neles aparece o mesmo personagem) “O simpósio” e “O dr. Havel vinte anos depois”. Como todos os outros, são espirituosos, engraçados e muito tristes. Lúdicos e lúcidos.

III

Haveria mil citações a fazer. Qual escolher? Qual delas poderia dar uma dica da exatidão mágica do estilo kunderiano?

Com o prazer e a admiração renovados agora em sua nova edição, Risíveis Amores, emoldurado por Lasar Segall, é a redescoberta necessária de um dos escritores maiores das últimas décadas.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 20 de março de 2001)

27/10/2011

A vida após a morte de Albert Camus: O PRIMEIRO HOMEM

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/12/21/contra-as-paredes-ideologicas-o-homem-revoltado-de-camus/

https://armonte.wordpress.com/2009/12/14/o-sim-e-o-nao-de-albert-camus/

https://armonte.wordpress.com/2009/12/14/o-processo-e-a-peste-a-culpa-e-a-inocencia-da-humanidade/

https://armonte.wordpress.com/2013/01/09/a-ratificacao-do-absurdo-a-morte-de-albert-camus/

(resenha publicada originamente em A TRIBUNA de Santos, em 7 de março de 1995)

Pelo menos no caso de Albert Camus o preconceito que se possa ter contra a publicação póstuma de inéditos e textos não-revisados pelo autor pode ser deixada de lado; afinal, do seu espólio saiu um romance de juventude da categoria de A morte feliz e, agora, o livro [lançado pela Nova Fronteira e traduzido pela dupla  Tereza Bulhões Carvalho Fonseca & Maria Luiza Newlands Silveira]  que ele escrevia ao morrer, encontrado junto a ele no acidente que o vitimou em 1960: O primeiro homem, um relato autobiográfico.

O protagonista quarentão, Jacques Cormery, procura saber mais a respeito do pai, colono francês na Argélia, morto na Primeira Guerra. Ao longo dessa tentativa, Cormery nos conta a história da sua infância e descobre-se o “primeiro homem”, isto é, o primeiro membro da sua família a ambicionar possuir um passado uma tradição, já que todos os seus familiares, imersos na pobreza extrema ou no analfabetismo (com um vocabulário de duzentas palavras, afirma ele), são incapazes sequer de manter uma memória familiar. Veja-se o exemplo da mãe: “Os nomes dos outros países muitas vezes a impressionavam, sem que ela, no entanto, conseguisse pronunciá-los corretamente. Em todo caso, ela nunca tinha ouvido falar da Áustria-Hungria nem da Sérvia; a Rússia era, como a Inglaterra, um nome difícil, ignorava o que era arquiduque e jamais conseguira juntar as quatro sílabas de Sarajevo. A guerra estava lá, como uma nuvem negra, pesada de ameaças sombrias, mas ninguém podia impedir que invadisse o céu, assim como não se podia impedir a chegada dos gafanhotos ou dos temporais devastadores.. Os alemães forçavam mais uma vez a França a entrar na guerra, e as pessoas iam sofrer, não havia motivo para isso, ela não conhecia a história da França, nem o que era história. Conhecia um pouco a sua, e mal conhecia a das pessoas que amava, e aquelas que amava tinham que sofrer tanto quanto ela.”

Por essa perspectiva, podemos irmanar O primeiro homem ao mundo de outro grande escritor (que traduziu, mas não admirava Camus): Graciliano Ramos, o qual descreveu não apenas a miséria material como também o vácuo de linguagem no qual se debatiam (e debatem ainda) os “descamisados”, para utilizar o termo cunhado por um repulsivo personagem da nossa história recente, oriundo do mesmo estado do autor de Vidas secas.

Por outro lado, presenciamos uma vertiginosa sondagem existencial. Até o calor entre modorrento e tórrido da Argélia (onde se faz a sesta obrigatória à tarde por ser impossível enfrentar o sol “assassino”) serve como plataforma para o garoto de dez anos (evocado pelo seu eu mais velho, o qual tem as palavras que lhe faltavam então) cutucar a existência: Jacques menino fica ladainhando “estou me chateando”, constatando o irremediável sabor insatisfatório da “experiência” (que é quase tudo o que podemos obter de sentimento de existência) tal como a Joana menina na abertura de Perto do coração selvagem, de Clarice Lispector, que vê o tempo escoar do relógio e nada que ela faça consegue preenchê-lo total e plenamente.

A pergunta que se tem que fazer a respeito de O primeiro homem, à revelia de todas as aproximações que possamos fazer com outros autores, é a seguinte: como Camus pode escrever de maneira tão inacreditavelmente bela?; como considerar esboço ou rascunho um texto com tantos momentos de genialidade? O primeiro homem prova que, ao morrer, ele preparava-se para um salto na sua obra, indo talvez para caminhos ainda mais expressivos do que os da sua já fantástica produção anterior, composta por alguns dos romances (O estrangeiro; A peste; A queda) e ensaios (O mito de Sísifo; Núpcias, o verão; O homem revoltado) mais inspirados do século.

Camus foi o autor que dominou o horizonte da minha adolescência. Há coisas que morrem com esse período da vida e outras que permanecem. O autor franco-argelino permaneceu, apesar da sua relativa baixa na bolsa de valores da literatura internacional. E O primeiro homem salta da década de 50 para se transformar numa das maiores obras de ficção da atualidade.

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