MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

26/08/2011

O menino é o pai do homem?

(o texto abaixo, na verdade uma leitura comentada, foi escrito em 2008, como parte do material de leitura para meus alunos do curso As margens derradeiras: textos do limite,  que abordava oito textos curtos e paradigmáticos do século XIX: O médico e o monstro, Bartleby, Memórias do Subsolo, A morte de Ivan Ilitch, O alienista, O mandarim, O coração das trevas & A volta do parafuso; em torno de cada um, analisei outros: William Wilson, O homem invisível, O duplo, O capote, A tumba dos ancestrais, O horla, O homem da areia, A vida privada, etc)

 

 

 

“Mas não é este o resto do livro. O resto é saber se a Capitu da Praia da Glória já estava dentro da de Matacavalos ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente.”

(Machado de Assis, Dom Casmurro, 1899)

“O essencialmente novo em minha teoria é a afirmação de que a memória não se encontra numa versão única, mas em várias, ou seja, que se acha transcrita em diferentes classes de signos…”

(Freud, Correspondência com Wilhelm Fliess, carta 52, 1896)

Das histórias curtas de  Ivan Turguêniev, tão cultuado por James & Conrad, entre outros, eu até preferiria comentar Mumu (1854), uma obra-prima em que ele retrata acidamente a própria mãe (que lhe atormentou a existência; só depois da sua morte é que ele “destravou” como escritor), porém é uma história que sempre me entristece, pois a intolerância da senhora da casa obriga o criado a matar sua cachorrinha. Por isso, optei por outra história, O relógio (1850). Outro motivo tem a ver com a escolha de adolescentes (e indicando isso com muita ênfase, o que não era comum no século XIX, e James seria um dos que abriram caminho para uma percepção dessa faixa etária que não pagasse tributo ao convencional, Tom Sawyer que me perdoe). O interessante é que o relato é retrospectivo, mas pára justamente no “turning point” que marca a adolescência do narrador. O máximo que conhecemos da vida adulta são algumas indicações vagas e a sombra que os eventos narrados deixaram na sua existência. É como um Dom Casmurro ou um Grandes Esperanças dos quais só fosse contada a parte inicial da vida, mas que nos deixasse pressentir o “todo”.

Bem, como de praxe, falemos um pouco do autor: Turguêniev seria o antípoda de Dostoiévski e do tardio Tolstói, já que estes são eslavófilos, enquanto ele era da corrente cosmopolita, ligado à cultura européia, especialmente a francesa. Nascido em 1818 em Orel, viveu bastante tempo fora da Rússia, na Alemanha e na França. Em Paris (onde passou a viver nos anos 70) conviveu com Flaubert de quem foi grande amigo, e também com Henry James, o qual, após a morte de Turguêniev (em 1883), escreveu um extenso elogio sobre ele como pessoa e escritor.  Com relação a este último aspecto nos interessa a seguinte passagem: “Nada que Turguêniev tivesse a dizer poderia ser mais interessante do que seus comentários a respeito da sua obra, da sua maneira de escrever. Aquilo que o ouvi contar sobre isso era digno dos resultados magníficos que produziu; do profundo propósito que perpassa todas suas obras, de nos mostrar a vida em si mesma[eu nunca vi Henry James elogiar ninguém, nem mesmo Guy de Maupassant, sem reservas de qualquer tipo]. O germe de uma história, para ele, jamais era uma questão de trama, essa era a última coisa em que ele pensava: tratava-se da representação de certas pessoas. A primeira forma em que um relato surgia para ele era na figura de um indivíduo, ou uma combinação de indivíduos, que ele desejava ver em ação… Eles se erguiam à sua frente bem definidas, nítidas, e ele queria conhecer, e mostrar, o mais possível de sua natureza… a história toda se apoiava na pergunta: o que farei com eles? Sempre os levava a fazer algo que os revelava completamente; mas, como dizia, o defeito do seu método e a objeção feita a ele era a sua falta de arquitetura; em outras palavras, de composição….  A história, no sentido convencional da palavra, é a mais escassa possível. Resume-se aos movimentos de um grupo seleto de criaturas, que não constituem o resultado de uma ação preconcebida, mas uma conseqüência dos atributos dos atores” . Creio que isso define a fundação do moderno conto psicológico. Turguêniev mesmo afirmou: “Não começo a escrever antes que o personagem se tenha tornado um velho conhecido meu, antes que eu o veja e ouça sua voz”.

O relógio tem como subtítulo Relato de um velho em 1850  e é, muito antes de Proust, um exercício de reminiscência muito bonito. O “velho” narrador, Alieksei, em 1850 começa assim seu relato: Vou contar-lhes uma história curiosa, a história de um relógio. Ela se passa no início deste século XIX, em 1801”[1] . Enquanto batalhas ideológicas dividiam a Rússia na metade do século, Turguêniev se volta para outra época convulsiva: em1801, a era napoleônica prolongava a virada social gerada pela Revolução Francesa e pela Independência dos EUA. Os franceses (no sentido revolucionário, os jacobinos) eram o inimigo.

O procedimento de Turguêniev também lembra o de Machado de Assis que projeta seus narradores de romance (por exemplo, Brás Cubas) num tempo ligeiramente recuado. Pois bem, seu narrador diz quem em 1801 tinha dezesseis anos e morava em Riazan, com o pai (a mãe morrera),um “rábula” (advogado de segunda) uma tia solteirona, muito desagradável, e um primo (filho de um “jacobino”, deportado para a Sibéria em 1797; o filho se chama, afrancesadamente, David). Esse primo, um ano mais velho,  espadaúdo e forte, é o ídolo de Alieksei: “Minha tia não o suportava, e, quanto ao meu pai, ele até parecia temê-lo. Ou quem sabe se sentisse culpado: diziam na cidade que, seu meu pai não tivesse dado com a língua nos dentes, se não tivesse entregado o irmão, o pai de David não teria sido enviado para a Sibéria”. O que se percebe de imediato é que a política atravessa o campo familiar, questões públicas influenciam a vida privada. É uma casa dividida.

O padrinho de Alieksei é Nastassêi Nastassêitch, “um péssimo sujeito, uma atravessador, sempre metido em negociatas… Mas era útil ao meu pai”.  É ele quem o presenteia com o relógio que dá título à narrativa, “um relógio de prata, um cebolão, com uma roseta pintada no mostrador e uma corrente de bronze”. O presente causa comoção na casa, mas para a decepção de Alieksei,  David demonstra desprezo por ele ter aceitado o relógio de um homem da laia de Nastassêi Nastassêitch. Alieksei pensa: “Quer dizer que ele me reprova. Talvez aos seus olhos eu também seja um sujeito ordinário. Ele jamais se rebaixaria assim… Mas o que eu podia fazer? Devolver o relógio era impossível. Tentei conversar com David, pedir-lhe um conselho. Ele me respondeu que não dava conselhos a ninguém e que eu fizesse o que quisesse. O que quisesse! É fácil dizer isso. Lembro-me de que passei aquela noite em claro, torturado pelos meus pensamentos. Iria me custar muito separar-me do relógio… Mas sentir que Davi me desprezava… isso me parecia insuportável”. Como se vê, o relógio acirra os ressentimentos e dissensões da casa:  um tio deportado, um pai que se dá com sujeitos escusos e que pode ter delatado o irmão, um primo revoltado, uma tia que tem raiva dos sobrinhos e que baba de prazer diante de um objeto caro e vistoso (ela obrigou Alieksei a beijar a mão do repulsivo padrinho).

Alieksei resolve dar o relógio de presente a um garoto que esmola perto da sua casa. Dois dias depois: “eu não parava de pensar no relógio. A aprovação, a suposta aprovação de David, não me servia de consolo. Mesmo porque ele não a demonstrava… Por fim, não agüentei mais e saí sorrateiramente de casa, a fim de procurar o garoto a quem dera o meu relógio”.

Através de humilhações (o pai do garoto é um soldado reformado e amargo) e do sacrifício de um rublo, ele recupera o presente do padrinho: “Estava novamente com o relógio, mas isso não me dava nenhum prazer. Não me atrevia a usá-lo; era preciso esconder de David o que eu fizera. O que ele iria pensar de mim?” Contudo, David logo se dá conta dos seus expedientes e lhe diz que sabe que o relógio ainda está em seu poder. E novamente Alieksei se obriga a se desfazer do cebolão; dessa vez, ele o dá a um criado, Iúchka: Eu estava plenamente convencido de que nunca mais me acusariam de não ter caráter, pois esse relógio, esse presente repugnante do meu repugnante padrinho, havia-se tornado para mim tão odioso que eu já não compreendia como pudera me arrepender de tê-lo dado”. O que fica claro aqui é a diferença entre os primos: atitude inabalável e firme do primo; pusilanimidade, hesitação, recalcitrância e necessidade de afeto e respeito de outro, por parte de Alieksei. Em meio a essas idas e vindas do relógio, morre o Czar e seu filho, mais liberal, sobe ao trono. Há esperança de libertação de Iégor, pai de David. Os dois primos devaneiam: “Ficávamos pelos cantos, imaginando quantos meses, quantas semanas, quantos dias faltavam para a volta do Irmão Iégor e como seria a nossa vida depois da sua volta. O Irmão Iégor era arquiteto; decidimos que ele deveria se mudar para Moscou e construir ali grandes escolas para os pobres, e que nós seríamos seus auxiliares. Alieksei mantém sua aliança com David contra o pai e a tia, tanto que deseja ir-se de casa junto com o primo e o tio. Entretanto, como ele mesmo afirma, “o cebolão de prata tinha o firme propósito de não cair no esquecimento”.

No próximo capítulo (o sétimo), a tia irrompe no quarto gritando com ele, xingando-o, dizendo que foi convocado pelo pai. Este por sua vez lhe dá uma bofetada (que deve ter causado grande prazer à minha tia, pois a ouvi cacarejar de prazer; James em seu ensaio fala do amor de Turguêniev por Dickens e a influência é claríssima, esses parentes ou responsáveis por crianças e adolescentes cruéis e sádicos, e as “alianças” redentoras entre os fracos, no sentido social) e mostra que o ardil foi descoberto porque Iúchka vendeu o relógio, o qual, exposto numa vitrine, fora reconhecido pelo padrinho.

A tia se propõe a guardar o relógio e dá-lo a alguém mais merecedor, um tipo dos mais dissimulados chamado Krisante Lúkitch (o padrinho “saboreia” toda a cena “com os seus olhos de raposa). Alieksei, então, indignado, resolve furtar o relógio que era dele, à noite, enquanto todos dormem: “Eu ardia de terror e alegria à simples idéia do crime. Franzindo o cenho, murmurava: Esperem só. Eu me sentia ameaçador, mau, perigoso, e evitava David. Ninguém, nem mesmo ele, poderia nutrir a menor suspeita sobre o que eu desejava perpetrar! Agirei só, e sozinho responderei pelo meu ato!”  Vejam que está havendo uma transformação em Alieksei, que começa a ficar mais decidido, mais temerário, menos dependente do primo.

É deliciosa a narração do furto: “Alto! Que ruído foi esse? Sentia meu corpo formigar… Fiquei à escuta, mas não ouvi nada. Prossegui. Estava escuro, mas sabia o caminho. De repente esbarrei numa cadeira. Que barulho e que dor! A pancada foi bem na canela. Será que acordaram? Crescia a coragem. A sala de jantar já ficara para trás; abri a porta que dava para o vestíbulo com um puxão. A maldita rangeu, nem por isso parei; subi afoitamente a escada, um, dois! um, dois! A segunda porta estava apenas encostada: adentrei o corredor”. No quarto da tia, a chama do ícone religioso, ela imóvel como morta, o relógio pendurado em cima da cama. Algo roça a perna esquerda de Alieksei. Com um grito estrangulado na garganta, constata que entrou com ele o gato da casa. Ele o afaga. Depois pega o relógio e a tia se ergue, com os olhos bem abertos. Mas ela está se mexendo, falando dormindo. Ele sai com o relógio.

Alieksei e David decidem enterrar o relógio, para encerrar o assunto, no pomar atrás da casa, sob uma velha macieira. Tumulto na casa devido ao roubo. Histerismo da tia, Peláguia Pietróvna. O pai liquida o assunto, dizendo que não quer ouvir falar novamente do relógio: “Minha tia, morta de raiva, teve de se contentar em fazer caretas e me chamar de ladrão em voz baixa, cada vez que passava por mim.

Turguêniev dizia ser fraco na “arquitetura”, isto é, na composição. Nada desmente mais isso do que O relógio. Ele termina essa seqüência de capítulos, criando expectativa e introduzindo um personagens que enriquecerão a história( e lhe darão nova tonalidade, mais melancólica e triste): Quem acha que a história do relógio terminou, engana-se redondamente. Ela ainda renderia muito. Para poder prosseguir o meu relato, devo apresentar uma personagem nova, e, para fazer isso, preciso contar alguns fatos anteriores”.

O pai de Alieksei fazia negócios com um funcionário aposentado, Látkin, um sujeito que não possuía boa aparência, nem o dom da palavra. Um dia, eles romperam a sociedade e a amizade devido a uma traição de Látkin, na verdade uma crise de consciência: Látkin abriu os olhos de um de seus clientes, um jovem e rico comerciante, para uma certa… uma certa jogada, que deveria trazer grandes vantagens ao meu pai” (o episódio, assim como outros indícios, não lança uma luz muito favorável sobre o caráter desse pai). Látkin pede perdão, porém em vão, pois é expulso da casa. O ex-sócio lhe diz: O senhor é muito cheio de escrúpulos! Vai acabar na rua da amargura e será bem feito!”  Como diz Alieksei, o destino parece ter ouvido esse cruel desejo. Pouco depois do rompimento (que acontecera dois anos antes, então por volta de 1799), Látkin fica viúvo e sofre um ataque apoplético e uma de suas filhas fica surda e muda. A família mergulha na mais negra miséria, vivendo numa choupana. A filha mais velha, Raíssa (ou Amorinha, devido a uma marca de nascença acima do lábio superior), é que foi anunciada como a “personagem nova” do relato. Ela e David são muito unidos, apesar da proibição do pai de Alieksei. Quanto ao pai dela, a apoplexia que o acometera “deixara uma seqüela estranha: seus braços e pernas, mesmo enfraquecidos, não lhe eram de todo inúteis e o seu cérebro até que funcionava vem; mas a sua língua se enrolava e ele trocava as palavras; era preciso adivinhar o que ele queria dizer. Ti, Ti, Ti, balbuciava com esforço (ele começava qualquer frase sempre com Ti, Ti, Ti), a tesoura! E tesoura significava pão”. Através de Raíssa, David e Alieksei ficam sabendo da miséria quotidiana da família: “Suas necessidades aumentavam a cada dia”. Por isso, Alieksei atribui a Raíssa uma maturidade maior do que a das moças de dezesseis anos.

Ele relembra a morte da mãe dela e a necessidade de achar um caixão em conta, entre outras situações de aperto. David diz para ela não chorar. Ela: “Chorar, eu? Ou faço a comida ou choro; das duas, uma.

Após o enterro do relógio, Raíssa (uma preocupação constante para David) é um pouco deixada em segundo plano, pela perspectiva da volta do jacobino Iégor: “David não admitia que pudéssemos continuar em Riazan. Alieksei diz: Vocês partirão, mas eu terei de ficar aqui. David: Bobagem! Nós te levamos conosco! E o meu pai? Teu pai? Tu o deixarás, ora! Se não o deixares, estarás perdido (creio que não se podia ser mais eloqüente em condenar um tipo social, representante de uma classe). Mesmo assim, ele lembra de informar a Alieksei que pretende desposar Raíssa. No entanto, nada de chegar ou mandar notícias o pai de David! “Nesse meio-tempo, começaram a correr boatos de que a saúde de Látkin piorara e de que a sua família, se não morresse de fome, poderia ser esmagada pelo desabamento do telhado da choupana onde morava.

E de repente Alieksei percebe que o relógio foi desenterrado. Sua primeira suspeita recai sobre David, e ele o justifica, pensando que deve ter sido para auxiliar a família de Raíssa. Mas não confiar nele: “eu me sentia traído”. Ele logo descobrirá o seu erro: casualmente, ouve um outro criado da casa, Vassili, gabando-se de ter desenterrado o cebolão. Alieksei corre para contar (e pedir perdão) a David, que curiosamente fica furioso, desmentindo seu desdém anterior sobre o paradeiro do relógio: “Confesso que até hoje não entendi o que o enfureceu tanto”. Após o almoço (naquele “silêncio modorrento que envolve toda a Rússia depois do almoço”), David dá uma prensa em Vassili, dizendo que lutará com ele para reaver o relógio se for preciso: “Vassili caiu na risada: Lutar? Lutar com um servo? Isso não é coisa de senhores! David agarrou-o pelo colarinho: Mas não será com as mãos que nós vamos brigar, será com facas” . Isso abala a desfaçatez do criado e ele devolve o cebolão. No quarto, os dois caem na risada: “Não conseguimos nos livrar desse relógio, de jeito nenhum. Acho que está enfeitiçado. O que fazer?  Note-se que agora os dois primos parecem em pé de igualdade. E David não admite usar o relógio nem para auxiliar os Látkin. De repente, ouve-se uma gritaria dentro da casa e o pai de Alieksei aparece exigindo o relógio: “Patifes, bradou, agora apanhamos vocês!… Mas David, sem dizer uma palavra, saltou pela janela e, em dois tempos, estava na rua. Acostumado a imitá-lo em tudo, eu também pulei.”.

Na confusão, com gente perseguindo e gritando “Pega ladrão” , Alieksei fica passado ao ver que David se atira no rio: “Minha cabeça começou a girar, sentia uma forte pressão na nuca. De repente, tudo ficou verde, e então desmaiei.. Alieksiei vê o “corpo” de David, que ele crê afogado, ser resgatado do rio. No final do incidente, ele pergunta a David por que se atirou no rio: Pular? ! Não m,e agüentei no parapeito, foi só isso. Se soubesse nadar, aí teria pulado”. O pai de Alieksei admoesta David chamando-o de “ ladrão e suicida” e David replica: “Não sou suicida nem ladrão, mas o que é verdade, é verdade: na Sibéria, vai parar gente que vale muito mais do que eu e o senhor”.  E David pede a Alieksei para procurar Raíssa. Lá a encontra meio apatetada, e ele grita que David está vivo: “Lentamente Raíssa ergueu os olhos para mim; depois piscou algumas vezes, inclinou a cabeça sobre o ombro e, pouco a pouco, a palidez foi deixando seu rosto; seus lábios se entreabriram, ela respirou fundo, fez uma careta de dor e corre para o amado. Lá, ignorando as convenções sociais, se atira nos braços de David. O pai de Alieksei aparece com mil injúrias odiosas, David se empluma contra o tio (declarando que Raíssa é sua noiva). E de repente aparece Látkin, o pai dela (“nos mesmos trajes em que eu o vira ainda há pouco, esquálido, lamentável, parecendo um fantasma), após David implorar ao tio que não ofendesse Raíssa. O pai de Alieksei fica tão transtornado com essa aparição que lhe perde perdão. E no mesmo dia Látkin acaba falecendo e retorna da Sibéria o pai de David. O pai jacobino e o filho rebelde se trancam no quarto e trocam idéias. Quando Látkin é enterrado, David apresenta Raíssa ao pai, que a aprova. É o pai de David quem paga o enterro (mas o pai de Alieksei comparece e reza com fervor). O jacobino comunica ao irmão que irá embora para Moscou, com o filho: Meu pai ainda tentou (é verdade que não muito) dissuadir o irmão de tal idéia, mas imagino que, no fundo do coração, ele ficou contente com a resolução. A presença desse irmão, com quem tinha tão pouco em comum, e que não se dignara sequer a censurá-lo, oprimia-o visivelmente; por outro lado, a partida de David não lhe causava muito desgosto”, O tio vai embora e não só leva David, como também o que restou da família do ex- sócio do irmão: E eu fiquei sozinho. O último capítulo se dedica a contar como David, casado com “Amorinha”,  morreu em 1812 na batalha de Borodino, e como o narrador daí para cá teve diversos relógios, inclusive um de ouro. Mesmo assim, ele guarda numa gaveta um relógio de prata, o qual comprara de um judeu, motivado pela incrível semelhança com aquele que ganhara do padrinho:  Às vezes, quando estou sozinho e não espero nenhuma visita, eu o tiro do esconderijo e, contemplando-o, recordo a minha juventude e o companheiro daqueles dias, que não voltarão nunca mais. Além de Henry James, vejo a atmosfera desse texto em obras tão díspares como A educação sentimental, de Flaubert, & Dom Casmurro, de Machado, esse clima de algo irrecuperável, de uma inocência perdida que deixou um vácuo na vida adulta. O relógio é o signo catalisador, e assim como Bentinho procura reconstruir a casa da sua infância na velhice, tentando atar as duas pontas da vida, o relógio “substituto” tenta operar o mesmo milagre, confrontando-o com o mesmo tipo de frustração. Porque, na verdade, a história acaba no “e eu fiquei sozinho”.


[1] Utilizo a tradução de Tatiana Belinki.

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