MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

09/06/2012

SUICÍDIOS EXEMPLARES: Vila-Matas e a boa e velha arte de contar estórias

E pensar que eu nem tinha muito entusiasmo em ler SUICÍDIOS EXEMPLARES (a versão de Carla Branco para Suicidios Ejemplares), não obstante o título tentador. Pois a mim aborrecia, e ainda aborrece, o  lado enfatuado, cabotino, o fastidioso rótulo de “escritor para escritores” que Enrique Vila-Matas carrega, e que não passa de complacência mútua entre escritores: posso muito bem aceitar, como diz Paul Auster na Trilogia de Nova York, que uma estória no fundo tenha mais a ver com outras estórias do que com a realidade. Mas criar uma obra baseada em “conversa entre escritores”, já me parece o que na adolescência chamávamos de punhetagem intelectual, se me for perdoada a grosseria.

Após ler Paris não tem fim (que é de 2003),Bartleby e Companhia (2004),  e A viagem vertical (1999), já tinha a minha cota de Enrique Vila-Matas. Creio que o problema está naquilo que foi exaltado recentemente por Leyla Perrone-Moisés num extenso artigo sobre uma suposta “literatura exigente” em que o componente principal de um certo tipo de prática ficcional é a desconfiança, sob cujo prisma todos os elementos da narrativa (e seus elos com uma realidade sempre entre aspas) são colocados sob suspeita, dissolvidos num texto basicamente paraliterário. Não deixando de observar que nem nos seus momentos mais irritantes, Vila-Matas se limitou a ser apenas isso, um escritorzinho da literatura exigente e desconfiada, nem por isso ele se isenta dessa ideologia aberrante; nessa linha de raciocínio, uma ode à literatura “exigente” (para mim, sempre tem que vir com aspas um termo tão arrogante) se assemelha muito com aquelas apologias da consumação do capitalismo, em que se apregoa que o mercado é a nossa realidade última e que todas as alternativas são pruridos de um utopismo míope e de uma fixação infantil numa Grande Narrativa já desmantelada (que, em termos literários, significaria a literatura de enredo e mimética).

Pela ordem da publicação no Brasil, SUICÍDIOS EXEMPLARES foi o quinto lançamento. No entanto, era mais antigo que os demais. Sua publicação original foi em 1991.

Em 1991, portanto, Vila-Matas podia já trazer inoculado o vírus da desconfiança e do fazer literário como “conversa entre escritores” que tanto mal fez à sua feição posterior como um todo (embora eu tenha gostado bem mais de Doutor Pasavento e Dublinesca do que daqueles livros já citados), mas ele acreditava suficientemente na arte de criar e contar estórias para nos dar o seu livro (entre os que eu conheço, é claro) mais brilhante, o livro que talvez o redimirá no futuro de todo o enfatuamento, toda a “pose”, do personagem cabotino que ele adora representar.

Considero o admirável SUICÍDIOS EXEMPLARES uma obra-prima (coloquei-o, inclusive, na minha lista para o jornal A TRIBUNA de Santos, dos  dez destaques de 2009). Só não precisava (e esse é um indício do mal que estava por vir) das molduras, uma no começo (Viajar, perder países, que quase me fez desistir da leitura) e no fim (Mas não façamos literatura, onde se cita Mário de Sá-Carneiro escrevendo a Fernando Pessoa, porque, claro, a literatura “exigente” é uma “conversa entre escritores”).

Tirando essas inutilidades, que podem servir para os acadêmicos entreterem-se mutuamente em congressos e revistas especializadas, gozando as delícias das referências infinitas,  temos dez estórias a um só tempo deliciosas e inquietantes, poéticas e dissolventes. Sempre gostei da máxima de Guimarães Rosa (citada por Autran Dourado em Uma poética de romance: matéria de carpintaria), “faça pirâmides não faça biscoitos” que serviria de divisa para vários monumentos modernistas (A montanha mágica, Em busca do tempo perdido, Ulisses, O homem sem qualidades, o próprio Grande sertão: veredas); também há um lado “biscoito fino” que os leitores um dia deveriam provar (aqui já estamos em Oswald de Andrade), que sempre me encantou em certas obras, como a de Calvino, o exercício da leveza como improvável veículo da ficção, um veículo intrigante e quase paradoxal (e aqui não enveredarei pelas dicotomias estéreis e caducas, para não dizer arrogantes, entre “literatura exigente” e “literatura mais palatável e mimética”). Quando um escritor consegue fabricar um biscoito dessa qualidade, nós pressentimos a pirâmide fantasmática que enseja esse feito.

São, então, dez estórias da mais alta qualidade. Todas são da mesma qualidade? Penso que não, entretanto todas ganham força no conjunto.

A minha favorita absoluta entre as dez (embora eu deva destacar que foi o impacto da primeira, Morte por saudade, que me fez reavaliar toda a desconfiança que mantinha sobre Enrique Vila-Matas; por isso creio que ela deveria figurar como hors concours) é a terceira Rosa Schwarzer volta à vida: a protagonista, vigilante de museu em Düsseldorf  e uma dona de casa profundamente infeliz, sente o chamado do “país dos suicidas” em que vive “O príncipe negro” do quadro de Klee:

“Influi nisso tudo a segunda-feira que viveu ontem? Eu diria que sim. Ontem, Rosa Schwarzer fez cinquenta anos, e como o museu fecha às segunda, achou que teria toda a manhã para preparar o almoço de aniversário. Mas já desde o primeiro momento tudo se complicou enormemente.”

Deixo para a imaginação ou para futura leitura o que complica o aniversário de Rosa, mas só adianto que ela vai ficar perto do suicídio várias vezes nesse dia e que Enrique Vila-Matas criou um conto antológico. Se um dia eu preparasse, para meu próprio deleite, um volume com meus textos curtos prediletos, esse seria um dos que eu escolheria.

Também poderia escolher a estória anterior, Em busca do parceiro eletrizante, onde o narrador fica famoso como “tipo” cômico por sua magreza. Quando sua carreira (e conta bancária) entra em declínio por ter engordado, procura um parceiro de tipo oposto. Mas só o encontrará sob a forma de um fantasma, numa das reviravoltas sensacionais da narrativa.

Gosto demais também da nona estória, Os amores que duram por toda uma vida, na qual a maneira como o autor encena a coisa toda, com a narrativa dos fatos, feita/enfeitada? pela neta e ouvida/desacreditada? pela avó, torna tudo mais opressivo e denso.

No mesmo nível ainda temos Uma invenção muito prática, a sétima estória, com uma narradora missivista que bem poderia pertencer ao universo de Ricardo Lísias, na sua performance através de uma corda bamba de loucura e lucidez corrosiva (e eu me pergunto, perplexo, como Enrique Vila-Matas pode ser tomado/valorizado sobretudo como escritor metalinguístico quando já demonstrou a capacidade de criar situações e personagens assim!).

E, como já disse, foi a primeira estória, Morte por saudade, que me conquistou irresistivelmente. Trata-se de um texto riquíssimo sobre a infância, sobre as vidas possíveis, sobre as escolhas irrevogáveis e traz uma modalidade de suicídio absolutamente poética e admirável, que poderia ser praticada nas cidades invisíveis de Calvino, malgrado transcorra numa cidade bem concreta, Lisboa.

E o autor espanhol ainda se deu ao luxo de escrever um curto e belíssimo texto de extração quase cortazariana, A hora dos cansados, a sexta estória, em que Barcelona se torna o palco de perseguições insólitas entre vários personagens que nem se conhecem.

Já não gosto tanto, apesar da sua qualidade e refinamento, de  A arte de desaparecer (a quarta estória) e O colecionador de tempestades (a décima e última). São inteligentes, interessantes, mas a primeira delas já me parece trazer o lado artificioso de Vila-Matas (é a estória de um escritor secreto, o qual, quando sua obra se dá a conhecer a um editor, resolve desaparecer e recriar sua vida em outro lugar; o detalhe mais interessante é que ele é um nativo de Umbertha, palco da trama, mas construiu toda uma vida, após a guerra, fingindo ser estrangeiro); a segunda, onde um suicídio longamente preparado parecia finalmente chegar a bom termo, num livro em que as disposições efetivas não se efetivam (e quem de fato se mata está fora de cena), é sustado por um acidente, parece uma paródia daquelas  estórias de invenções bizarras (até o cenário da câmara mortuária ajuda a criar esse efeito), de Poe a Wells, narrada numa espécie de evocação à Henry James. Gosto, mas não sou apaixonado por elas.

E as duas estórias de que menos gosto, que definitivamente não me “pegaram” e que valem basicamente por estar num conjunto  poderoso são a quinta, As noites da íris negra, onde há um “clube do suicídio” a respeito do qual alguns membros que não conseguiram se matar mantém uma nostalgia que se resolve através da hostilidade mútua e um clima de mistério e intriga para o casal protagonista, e Pedem que eu diga quem eu sou, a oitava, em que me parece (posso estar enganado) uma reflexão sério-jocosa sobre a questão do exotismo, da atração por uma paisagem muito nitidamente geográfica e colorida por parte de uma parcela de artistas europeus (além de se valer de forma pícara e às avessas do tema fáustico, apresentando como personagem Satam Alive—brincadeira com o próprio nome de Vila Matas lido de trás pra frente). Veja bem, leitor, o fato de elas não terem me conquistado muito, ou eu não os ter compreendido muito bem, não lhes tira o nível de refinamento literário ou lança qualquer suspeita sobre sua qualidade. É uma questão de preferência pessoal.

Agora eu torço para encontrar outro SUICÍDIOS EXEMPLARES na obra de Vila-Matas. Expectativa talvez injusta, mas fazer o quê?

TRECHOS DAS ESTÓRIAS

“__Os últimos minutos da vida do meu avô—dizia-me Horácio—foram os mais intensos de uma vida intensa.

__E o que aconteceu nesses minutos?—supunha-se que eu devia perguntar. Mas não o fazia. Estava bastante atormentado com tantas histórias do avô. Mas era contraproducente não perguntar, porque então o mais habitual era que voltasse à carga com uma nova aventura do avô. Acabou conseguindo que eu perdesse a paciência, e uma tarde impedi sua passagem num canto do pátio quadrangular do colégio, dizendo-lhe:

__ Vamos acabar com isso, acho que já chega.Se o que você queria era me atormentar, é claro que conseguiu. Vamos acabar com isso de uma vez, me conta como o seu avô morreu, a vida dele eu já sei de cor, me conta agora esses minutos finais tão intensos da vida dele.

__Sério? Quer que eu conte mesmo? –me perguntava enquanto lançava um olhar terrível, como se fosse um crime que naquele pátio, onde só se respirava um tédio profundo, eu lhe exigisse (precisamente eu, que nunca terminava nada) completar um quadro, a história da vida de seu querido avô…” (Morte por saudade)

“Contribuiu para minha irresistível ascensão a cômica e exagerada magreza de meu corpo (as pessoas riam porque, quando eu andava, parecia uma folha levada pelo vento), mas esse mesmo traço físico não demoraria a se voltar tragicamente contra mim (…) Tive namoradas, dancei boleros, acariciei morenas, cantei o amor. Mas o infortúnio espreitava no ângulo mais iluminado de meu festivo jardim, e sem me dar conta, comecei a me abandonar. Como se existisse uma relação secreta entre a casa e a obesidade, comecei pouco a pouco a engordar, e quando me dei conta já nenhuma dieta era capaz de frear o irreversível processo, minha trágica transformação. E assim cheguei à última sexta-feira da década de sessenta: a ver navios, sem namoradas, transformado em um Brandy Mostaza desconhecido, um gordo infame que havia perdido sua veia cômica…” (Em busca do parceiro eletrizante)

“Não, também não seria dessa vez que tiraria sua vida. Seu pobre filho, seu querido Hans, merecia jantar comida quente aquela noite. Levantou-se, jogou o que restava da peruca no lixo, riu feito uma louca, e provou o pão de centeio.

  Porém, ao cair da tarde, seu pobre e querido Hans voltou para casa e nem sequer se interessou pelo leitão assado, nem perguntou  por que ela tinha demorado tanto no cabeleireiro, tampouco se queixou de ter tido de comer o frango frio da geladeira, nada, nem sequer a olhou e, portanto, não teve oportunidade de ver o escandaloso cabelo de piaçava branco que sua mãe exibia. Apenas a cumprimentou sem entusiasmo e pediu que ela pregasse os botões da camisa. Mas não a olhou. Rosa Schwarzer compreendeu que seu filho não se interessava nada por ela…” (Rosa Schwarzer volta à vida)

“Entre as medidas para poder viver como escritor secreto, a mais curiosa era o que havia tramado há mais de quarenta anos: a de morar em seu próprio país, a pequena e sedutora, mesmo que terrivelmente mesquinha, ilha de Umbertha, fazendo-se passar por estrangeiro. Foi fácil enganar todo mundo, porque o trágico e brutal desaparecimento de toda  sua família na guerra o ajudou na mudança de identidade. De repente, certa noite, todos mortos, Anatol compreendeu que estava só, completamente só no mundo, e sentiu essa sensação de extravio que se vive quando, no caminho, voltamos atrás e vemos o trecho percorrido, a via indiferente que se perde num horizonte que já não é o nosso….” (A arte de desaparecer)

“É da incumbência—li em voz mais baixa, quase sussurrante—de todos os sócios de nossa entidade saber que quando a carta do número 3 dos Notáveis chegou à sede central desta Sociedade de Simpatizantes da Noite da Íris Negra de Port del Vent, que tenho a grande honra de co-presidir, não tardamos em nos reunir, os Notáveis restantes, para ver o que faríamos a fim de satisfazer plenamente, e com a maior prontidão possível, os desejos desse amigo que, antes de tornar-se o assassino de si mesmo, desejava que seus íntimos acudíssemos a visitar sua casa e, falando toda a noite de filosofia, o acompanhássemos nas horas anteriores à desse gesto valente e final com que desejava ser fiel à máxima de nossa Sociedade, ou seja, desaparecer digna e serenamente depois de uma grande festa do espírito de uma vibrante homenagem à amizade e ao amor à filosofia, à maneira de um Catão ou de um Sêneca, cujas mortes são, ainda em nossos dias, o mais perfeito exemplo e modelo do suicídio clássico e sereno, profundamente mediterrâneo…” (As noites da Íris Negra)

Perto de uma das portas laterais da catedral, localizo perseguido e perseguidor. Recupero a calma ao retomar o terceiro lugar na singular procissão, mas não é uma calma total, já que do golpe contra o muro ficou uma dor que vai ganhando intensidade, e se não se pode dizer que eu vejo estrelas, vejo sim um foco de luz, como um lustre de milhares de lâmpadas. Meio cego pela luz, vejo que o velho se detém em frente a uma das portas laterais, tira da maleta um chaveiro magnífico e entra no que deve ser a sacristia da catedral. Tudo acontece muito rápido. E depois de uma sonora batida da porta, o velho desaparece da minha vista sem nem sequer dedicar-me um olhar de desculpas por ter arruinado a minha diversão. Sem nem sequer um adeus, um olhar de desprezo ou de compaixão. Nada. Desaparece como um raio, e me deixa perseguindo o negro. Penso que eu talvez esteja enganado, que o velho na verdade não perseguia ninguém, talvez estivesse apenas transportando uma bomba que fará voar pelos ares a catedral…” (A hora dos cansados)

“Fiquei tão sozinha que, de repente, os sons do andar de cima e do de baixo, começaram a me obcecar seriamente: no sétimo andar, sapatos de salto alto e brincadeiras aquáticas, entre outros horrores; no quinto, gritos e brigas entre pai e filho, de grande dramaticidade. Tudo isso foi me consumindo num desespero maníaco que me levou a tentar catalogar as diferentes modalidades de ruídos dos vizinhos.

   Sequelas, talvez, de sua má vizinhança naquele verão em Alicante? Não sei, mas a verdade é que me bateu um maníaco desespero. Depois de setenta anos respeitando muitíssimo os outros, tentando sempre, mesmo que fosse apenas por educação, não incomodar nunca e, definitivamente, perdendo a vida por delicadeza, começou a parecer tremendamente injusto que o prêmio para a minha conduta irrepreensível e a minha discrição perfeita fosse essa contínua perturbação dos vizinhos (…) Achei muito penoso que tudo isso acontecesse comigo, precisamente comigo, que jamais quis incomodar ninguém e sempre tentei passar por este mundo com passos de bailarina, leve, nas pontas dos pés pela vida. E quis me matar, é verdade, você não está enganada…” (Uma invenção muito prática)

“__ E o que o senhor sabe de mim?

    Com essa pergunta, conseguiu que eu voltasse a me indignar. Continuava resistindo em me ver como um homem instruído. Por que eu não podia conhecer de memória a sua obra?

__Sei, por exemplo, que o senhor jamais esteve em Babàkua, nem sequer em pintura.

__Puxa, em pintura sim é que estive—brincou com cinismo, sem dúvida inquieto e surpreendido ao ver que eu, um pobre-diabo, sabia bastante sobre sua vida.

__ E também sei—disse—que se tivesse se incomodado alguma vez em pisar nessa terra diabólica, saberia o quão intensamente equivocadas são todas as suas pinturas. Não posso deixar de rir quando penso em todos esses críticos que o consideram o último realisa…” (Pedem que eu diga quem eu sou)

“E em parte ela tem razão. Atropelo-me ao contar, estou nervosa.  Deveria contar as coisas de um modo mais calmo, para que pudesse me entender melhor; deveria contá-las do jeito que ela faz, ainda que na verdade a coitada tampouco as conte de um modo perfeitamente ordenado; além disso, repete-se, repete-se muito. Uma amiga me disse que minha avó só tinha uma história e por isso se repetia tanto. Se isso é verdade, supero minha avó em histórias, porque tenho, no mínimo, duas: a da cédula que voou (com a qual talvez se pareça muito o resto das histórias que até agora inventei) e a deste fim de semana em Cerler. Deus meus, tenho duas. Mas a segunda preferia não ter. E também acho que deveria demorar menos para contá-la. Porque está certo que vá preparando minha avó para a terrível notícia final, mas não acho que seja necessário ir tão devagar…”  (Os amores que duram por toda uma vida)

“Uma semana depois, Mestre deixou de aparecer na hora costumeira no mercado. Passados três dias sem que fosse visto, seus amigos forçaram a porta do palácio e desceram à cripta, que encontraram aberta. Entre descargas de trovões e visões de tempestades distantes, encontraram o cadáver do Mestre que, segundo todos os indícios, tinha sido surpreendido por uma taque do coração quando estava enlaçando duas arandelas com um cronômetro.

   Não teve tempo de concluir seu grande projeto. A morte—sempre tão estupidamente cômica—o surpreendeu antes de poder ver terminada a obra. Toda Bergamo ficou impressionada pela cenografia e magnitude da cripta. Nela o enterramos…” (O colecionador de tempestades)

13/05/2012

DEZ DESTAQUES DE 2009

Pessoalmente, sempre acho meio ridículo fazer lista de melhores. O mercado editorial é um oceano e uma pessoa só consegue, no máximo, indicar gotas desse oceano (a metáfora não é muito rica, porém é bem exata). De tudo o que li em 2009, proponho dez destaques, levando em conta o ineditismo dos livros, apesar de 2009 ter sido um ano pródigo em novas traduções: por exemplo, surgiram versões novas de Cem anos de solidão, O  inominável,  Fundação, Zazie no metrô, O turista acidental , Alice no país das maravilhas, e um vasto etc.

Outro destaque à parte foram os livros relacionados ao Evolucionismo  e certamente, nesse quesito, além do seu brilhantismo próprio, Richard Dawkins foi o campeão, com A grande história da evolução & O maior espetáculo da terra (este último, nem comprei ainda…).

Após esse preâmbulo, passo à minha lista de destaques (outros livros vêm à minha mente, mas quero me ater a esse número   redondo):

10)  Após o anoitecer, de Haruki Murakami (Alfaguara)- belo romance japonês que nos mergulha nas cambiâncias da “modernidade líquida” (como Zygmunt Bauman caracterizou nossa época) que não pouparam nem o mundo oriental.

9) Suicídios exemplares, de Enrique Vila-Matas (CosacNaify)- deliciosa e provocante coletânea de histórias cuja temática já e indicada pelo título., grande momento do autor espanhol. Espere mais ironia que drama, leitor..

8) Buscas curiosas, de Margaret Atwood (Rocco)- A grande escritora canadense reuniu textos onde comenta outros escritores, a feitura de alguns de seus livros e circunstâncias biográficas. O resultado é tão apaixonante quante sua própria ficção.

7) Leite derramado, de Chico Buarque (Companhia das Letras)- O melhor, mais inspirado, romance de Chico até agora, e simplesmente um texto primoroso, de primeira. Um século transcorre diante dos nossos olhos com uma insustentável leveza de estilo, e uma mirada poderosa no racismo latente em nossa sociedade. Maior poeta da nossa MPB, Chico agora também é um dos nossos grandes prosadores.

6) Dois grandes momentos da ficção uruguaia,: o primeiro livro de Juan Carlos Onetti (cujo centenário foi comemorado em 2009), O poço (1939), reunido a Para uma tumba sem nome (1959), numa edição da Planeta; e Primavera num espelho partido, de Mario Benedetti (Alfaguara), belíssimo romance político, utilizando a forma polifônica (muitas vozes) e comprovando a maestria de uma das grandes perdas do ano passado.

5) Súplicas atendidas, de Truman Capote (L&PM)- Apesar de inacabado e um pouco desagradável, é fascinante esse painel moralista do jet set americano e europeu entre os anos 40 e  70, que apresenta alguns momentos geniais, em meio a fofocas e revanches. Também vale destacar o atraso com que foi traduzido e o descaso com que foi traduzido.

4) Modernismo, de Peter Gay (Companhia das letras)- Foi bastante atacado esse esforço enciclopédico do grande historiador e biógrafo de Freud. Mas eu o acho admirável e necessário. Numa época de fragmentação, é preciso haver esses exercícios de totalização, e o Modernismo é ainda o nosso último horizonte “estável”.  O mundo seria muito mais sem graça se não existissem Peter Gay e Richard Dawkins.

3) Amuleto & Estrela distante, de Roberto Bolaño (Companhia das Letras)- Embora nenhum dos dois tenha a amplitude suprema de Detetives selvagens, talvez o maior livro dos últimos anos, mostram como Bolaño, junto com W.G. Sebald (aliás,  o grande livro de Sebald, Os emigrantes, foi reeditado este ano, também pela Companhia. das Letras, havendo uma edição anterior pela Record), é o morto mais vivo da ficção contemporânea (ele morreu, pateticamente, aos 50 anos, esperando por um transplante de fígado foi publicada e conhecida quase toda postumamente).

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2) Um anarquista e outros contos, de Joseph Conrad (Hedra)- É até engraçado colocar o genial Conrad num segundo lugar, uma vez que ele é um dos autor-referência, mesmo nas suas histórias curtas, escritas no início do século passado, e que abordam temas ainda atualíssimos (terrorismo e publicidade, por exemplo).Também é outro caso de atraso lamentável em matéria de tradução. É preciso também destacar o papel importante da editora em colocar títulos surpreendentes no mercado, na mesma série à qual pertence o livro do genial escritor polonês.

1) As aventuras de Augie March, de Saul Bellow (Companhia das Letras)- Outro caso estrondoso de descaso e atraso  Esse livro de 1953 estbeleceu definitivamente a reputação de Saul Bellow, um dos maiores escritores norte-americanos, e muitos ainda o consideram sua obra-prima. Talvez não seja (eu prefiro por exemplo, O planeta do sr. Sammler, publicado dez anos depois, e há ainda Herzog  & o esplêndido O legado de Humboldt), mas é um dos seus melhores livros. É bom lembrar que outra grande obra de Bellow, Henderson, o rei da chuva, tornou-se cinquentenária agora em 2009, e assim aproveito para corrigir uma omissão que cometi no meu post a respeito das comemorações literárias deste ano. Agora: se o romance de Bellow é o grande destaque do ano, a capa escolhida é uma das piores, simplesmente horrorosa.

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