MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

22/11/2013

Adaptações de Stephen King

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Sempre tive a suspeita de que Stephen King adora ser mal adaptado para o cinema e especialmente para a televisão, que ele se compraz com aquelas produções de segunda ou terceira categoria, que valorizam seus textos por tabela. Mas ao longo de seus 40 anos de carreira, algumas produções escaparam dessa sina de trash inspirado em Stephen King. É o caso de:

1– THE SHINING-O ILUMINADO (1980) – Como sou um kubrickiano apaixonado, ninguém se surpreenderá quando coloco este como a maior das adaptações de King para o cinema. Li o romance,  que tem uma construção de atmosfera genial (além do argumento) e uma solução pífia, e acho que Kubrick traduziu de forma indelével o que ele tem de melhor. Entre tantas, a cena em que Shelley Duvall sobe a escada com um taco de beisebol, sendo ameaçada-espicaçada-ridicularizada por Jack Nicholson, não tem igual. Os dois intérpretes estão além do além.

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2-CARRIE (1976) Uma das obras-primas de Brian de Palma, e  certamente um dos duelos (ou duetos) de interpretação mais impressionantes do cinema, entre Sissy Spacek e Piper Laurie. Não gosto da mão do final que agarra a boazinha Amy Irving (ainda mais por se tratar de um mero pesadelo), mas o filme como um todo é tão poderoso que  acaba sendo um detalhe (apelativo, sem dúvida).

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3-O NEVOEIRO  (2007)- Terrível e acachapante alegoria distópica sobre a paranoia da era Bush, o melhor dos filmes que Frank Darabont realizou a partir da obra de King.

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4-ZONA MORTA (1983)- Uma das mais sóbrias e austeras adaptações feitas a partir de King, o que não deixa de ser surpreendente, afinal o grande David Cronenberg, principalmente à época, não era dado a concessões de nenhum tipo. O resultado é belo, de todo modo.

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5- THE SHAWSHANK REPEMPTION- UM SONHO DE LIBERDADE (1994)-Afora a incursão solitária de alguns grandes cineastas, talvez Frank Darabont tenha sido o diretor que melhor  traduziu o universo de King nas telas. Aqui ele constrói um misto peculiar de Frank Capra com George Romero, numa bela fábula de amizade e redenção.

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6-CHRISTINE (1983)- Não dá para levar a sério o argumento (carro obcecado pelo dono), mas o mérito nada desprezível do grande John Carpenter foi criar uma atmosfera cinematográfica que faz com que esqueçamos qualquer lógica e bom-senso e sejamos conduzidos pelos acontecimentos da história.

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7-DOLORES CLAIBORNE – ECLIPSE TOTAL(1995)- O diretor, Taylor Hackford, geralmente é medíocre, mas que história sensacional, e como a dupla Kathy Bates e Judy Parfitt está genial (tem a Jennifer Jason Leigh, também, claro).

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8-A METADE NEGRA (1993)- O título nacional  deveria ser “A metade sombria”,  bem mais preciso. O elegante filme de George A. Romero, além da categoria do diretor, tem o atrativo extra de ter o talentoso Thimothy Hutton no papel principal. King abusou um pouco da figura do escritor como protagonista, mas é um de seus argumentos mais engenhosos (depois, uma variação seria levada ao ridículo em “A janela secreta”).

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9- MISERY-LOUCA OBSESSÃO (1990)- Outro diretor  “do doce”,  Rob Reiner (nem Conta comigo me entusiasma particularmente, embora muito  bonitinho e tal) , e acho  o final horroroso e apelativo, entretanto a encarnação da protagonista por Kathy Bates é um capítulo à parte na história das adaptações cinematográficas de King.

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10- THE LANGOLIERS-FENDA NO TEMPO (1995)- De todas as inúmeras minisséries feitas para a tevê (e assisti a várias) a partir de livros de Stephen King, essa (dirigida por Tom Holland) sempre me pareceu a melhor, a que melhor aproveita (há que se ter boa vontade com relação aos efeitos visuais) o argumento e situações engenhosas do autor.

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Ocorrem-me outros (poucos, é verdade) bons filmes, como O aprendiz, de Bryan Singer, ou Lembranças de um verão, de Scott Hicks, mas fiquemos na magia do número 10. Sei que alguns vão lembrar de Cemitério Maldito, mas por favor! Também nunca consegui suportar À espera de um milagre. O caso de IT (1990) é mais complicado:  Como vários romances tão talentosos de King, este filme de Tommy Lee Wallace,  a partir de  A Coisa,  é muito mal resolvido em vários aspectos (por exemplo, os efeitos visuais da parte final). Mas quem pode negar que a atmosfera da cidade pequena e a ligação, infantil e adulta, entre os personagens, é magnífica (além disso, como tenho horror a palhaços,  me identifico totalmente com a história)?  E no final, o resultado supera o melhor realizado em termos de efeitos O apanhador de sonhos (2002), mau momento de Lawrence Kasdan.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/11/26/destaque-do-blog-novembro-de-63-de-stephen-king/

https://armonte.wordpress.com/2013/11/19/sob-a-redoma-e-a-maturidade-de-um-mestre-stephen-king/

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nota- só coloquei a capa dos livros de King (e nas edições) que li.

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09/12/2010

O LAR DE ULISSES: o difícil retorno

 

(resenha publicada em 14 de novembro de 2000 em A TRIBUNA, de Santos)

Um dos resultados mais interessantes da leitura de BREVE ROMANCE DE SONHO (Traumnovelle), de Arthur Schnitzler (1862-1931), grande lançamento de 2000 (embora a Companhia das Letras tenha demonstrado uma incrível falta de timing, colocando-o no mercado um ano depois), é constatar a fidelidade que Stanley Kubrick conseguiu manter ao enredo do escritor austríaco, mesmo ambientando-o na nossa época (o livro é de 1926), quando o adaptou em De olhos bem fechados. Tirando um ou outro detalhe e apenas uma cena importante (o extraordinário diálogo entre Tom Cruise e Sidney Pollack, pouco antes do final), o que se vê na tela é o que está no pequeno romance.

No texto de Schnitzler (traduzido por SérgioTellarolli), o jovem doutor Fridolin sai de casa (em Viena) por causa de um chamado médico, após ouvir da esposa, Albertine, numa conversa amena sobre um baile de máscaras no dia anterior, que ela pensara traí-lo (e até abandoná-lo) com um desconhecido durante férias na Dinamarca. Por esse motivo, ele reluta em voltar e inicia uma longa jornada noite adentro, que começa quando aceita o convite de uma prostituta de rua, depois se complica quando encontra um antigo colega, Nachtigall, agora pianista, que deverá tocar num lugar misterioso onde só se entra fantasiado, mascarado e com uma senha. Conseguindo a fantasia numa loja onde o dono explora sexualmente a filha, Fridolin penetra na festa, uma orgia que mistura sagrado e profano, num lugar bem afastado. Lá, uma mulher misteriosa o alerta do perigo que está correndo. Fridolin acaba encurralado como intruso e a mulher misterioso se oferece em sacrifício para que seja liberado incólume. No dia seguinte, começa a desconfiar que a bela mulher que foi encontrada agonizante num hotel, notícia lida num jornal, é a mulher da orgia que o salvara. Ao tentar ir mais fundo no caso, recebe várias advertências e começa a viver um clima ameaçador. No final, decide contar tudo a Albertine.

Como se vê, começa-se e termina-se com confissões em que um membro do casal revela toda uma “outra” vida para o cônjuge.

BREVE ROMANCE DE SONHO começa com a leitura de um conto-de-fada. Nesse clima “era uma vez”, que vai se desligando dos acontecimentos cotidianos, temos o baile de máscaras, a orgia, as fantasias eróticas, os sonhos, os encontros fortuitos. Eles todos têm uma função—assim como no filme: desrealizar o real, fazer com que ele perca consistência, solidez e força, mostrando-o como uma construção frágil determinada por nossa razão e nossas limitações.

Há um momento em que, referindo-se às experiências de Fridolin, o narrador diz: “estava ao mesmo tempo embriagado e sedento em razão dos acontecimentos daquela noite, nenhum dos quais tivera um fecho”. E nem poderiam ter. BREVE ROMANCE DE SONHO é uma profunda e inquietante investigação sobre as possibilidades perdidas ou latentes que constituem o avesso da nossa existência.

Ao mesmo tempo, é também a constatação de que em muitas dessas possibilidades perdidas ou latentes está embutida a pulsão da morte: é por isso que há a reiterada atmosfera de perigo rondando Fridolin e que Kubrick aproveitou magistralmente para criar um clima de suspense notável na parte final de De olhos bem fechados (inclusive porque utiliza um tema musical extraordinário). O grande diretor só pecou ao querer passar uma idéia de monumentalidade na cena de orgia que destoa do tom simples (e eficaz) do texto de Schnitzler e torna-se o calcanhar de Aquiles do filme: difícil não ter um ataque de riso no momento em que se forma um círculo de mulheres em torno de um tipo mascarado, balançando um turíbulo ou coisa que o valha, batendo um bastão sonoro no chão, marcando o ritmo de uma espécie de canto sacro. São minutos de constrangedora cafonice num filme requintado e magnífico.

Isso não acontece com o texto de Schnitzler, em primeiro lugar porque, como máquina de gerar imagens através de palavras, a literatura não sofre os inconvenientes do cinema; em segundo, porque o grande escritor austríaco tem um estilo muito despojado e descarnado, que torna verossímil qualquer acontecimento. Mas tanto BREVE ROMANCE DE SONHO quanto De olhos bem fechados conseguem impor ao leitor/espectador uma causalidade narrativa determinada pela abolição do limite entre o vivido e o desejado. Após sua longa noite, Fridolin fica sabendo que a esposa tivera um sonho onde ele aparecia crucificado e ela zombava dele. No dia seguinte, a experiência real e a experiência onírica confundem-se na sua mente: “Havia anos que não possuía de fato com ninguém a intimidade que desfrutava com a esposa, e com ela não podia se aconselhar nesse caso—nem nesse, nem em qualquer outro. Afinal, a verdade era uma só: ela o mandara crucificar na noite anterior”.

Há uns 2.800 anos, no poema de Homero, Ulisses perdia-se na volta ao lar. Parece que pouca coisa mudou: “Fridolin sabia agora por que, em vez de conduzi-lo para casa, seus passos seguiam levando-o sempre e involuntariamente na direção contrária”. O mundo do desejo não reconhece nem lar nem estabilidade. Ele quer se instaurar nem que seja preciso destruir. Foi, é, sempre será assim.

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