MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

03/02/2012

O talento oportunista de Michael Crichton (primeira parte)

(resenha originalmente publicada em A TRIBUNA de Santos, em 02 de novembro de 1993)

   Após Spielberg suavizar radicalmente o apocalipse genético de O parque dos dinossauros, outro livro, um pouco mais antigo, de Michael Crichton chega ao cinema: SOL NASCENTE (Rising Sun, 1982, em tradução de Aylide Soares Rodrigues para a Rocco), um sushi étnico que, nas telas, foi preparado por Philip Kaufman, que já fez um dos melhores filmes norte-americanos, Os eleitos, e a surpreendentemente bela adaptação de A insustentável leveza do ser.

    SOL NASCENTE é uma consumada combinação de oportunismo e talento. Conta a investigação de um assassinato cometido em Los Angeles, durante uma festa da Cia. Nakamoto, um dos gigantescos conglomerados japoneses que estão tomando de assalto a economia mundial, vencendo os EUA. Dentro da própria casa, como descobre o tenente Smith (o narrador), que tenta solucionar o caso o auxílio do capitão Connors, que não só fala fluentemente japonês como também tem uma relação toda especial com os japoneses e que no filme tem Sean Connery interpretando-o com a cara de… Sean Connery!

    O crime aparentemente prejudicava a imagem da Nakamoto e os homens da empresa usam todos os meios (pressão, suborno, difamação, manipulação de vídeos e eliminação) para arquivar o caso. Aos poucos, Smith & Connors descobrem que o crime, na verdade, foi executado para favorecer a Companhia, envolvida na compra de uma empresa americana de alta tecnologia.

    Crichton  tem a mania de narrar e ser didático ao  mesmo tempo, informando-nos sobre recursos tecnológicos utilizados pelos personagens e outros aspectos técnicos. Isso atrapalhava um tanto, a meu ver, O parque dos dinossauros, porém acaba assentando bem à trama de SOL NASCENTE, talvez porque o autor use o didatismo de forma mais enxuta e equilibrada, talvez porque seja um livro mais reflexivo, com pouca ação. Pois é o efeito das descobertas a respeito do crime sobre os personagens e seu comportamento para com os japoneses que importam na tessitura do romance. Que acaba sendo uma leitura absorvente porque o autor utiliza com mão de mestre um de seus recursos habituais, concentrar a ação em pouquíssimos e contados dias, o que dá um ar urgente, opressivo, à narrativa, e arrasta o leitor (além de conferir um efeito já de antemão cinematográfico, pois ele não é nada bobo).

 

   Seu ponto fraco continua sendo os personagens. Nenhum deles emociona ou interessa particularmente. Mas é uma grande cena aquele em que ele mostra a opressão da mídia e das pesquisas sobre o senador Morton, uma das chaves do mistério, porque era um amante da assassinada e um oponente da Nakamoto.

   O livro põe em xeque questões como soberania nacional, xenofobia, corrupção, decadência cultural e econômica, o futuro do mundo (visto como uma vasto mercado global em guerra), assuntos que nos tocam de perto, mesmo na periferia do império. Como lemos no texto, “todo mundo na América se concentra nas coisas sem importância. Como a situação com o Japão. Se você vender o país para o Japão, eles serão os donos, quer o povo queira ou não. E quem é o dono de uma coisa faz o que quer com ela.”

  Opinião do personagem que narra ou do autor?

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.