MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

24/06/2011

ANTÍGONA PERDIDA NA ERA PERÓN: homenagem ao centenário de Ernesto Sabato (1911-2011)

(o texto abaixo, escrito em março-abril de 2008, faz parte do material de um curso que dei sobre o livro de Sabato, que morreu no mês passado, e os de William Styron—“Lie down in darkness”—e Autran Dourado—“Ópera dos Mortos”; o curso chamava-se Três jovens parcas: o romance como tragédia nas três Américas; mofifiquei ligeiramente o texto para servir como homenagem ao centenário do nascimento do autor argentino: 24 de junho de 1911):

 Leitura de Sobre heróis e tumbas

   considerações  gerais

Há duas diferenças significativas de Sobre heróis e tumbas (que Ernesto Sabato publicou em 1961, aos 50 anos) com relação a Lie down in darkness-Deitada na escuridão & Ópera dos Mortos.

Primeira diferença: nos outros dois, conhecíamos primeiro os antecedentes da família da heroína (a história do avô e do pai de Rosalina no segundo; e o primeiro era praticamente dominado pela figura dos pais, Milton e Helen), e em Sobre heróis e tumbas conheceremos melhor os pais de Alejandra nas últimas partes, após a sua morte.

Segunda diferença: o espaço da narrativa, que nos outros dois era remotamente provinciano (Duas Pontes de Autran Dourado, ainda muito marcada por uma arcaica atmosfera rural) ou moderadamente provinciano (a Port Warwick de Styron, embora sua heroína tente fazer a passagem para a metrópole, para um mundo mais moderno, em Nova Iorque, com os resultados que conhecemos). Em Sabato, Buenos Aires, metrópole dos anos 50 (e é curioso, conhecendo-se a rivalidade entre ambos e como isso afeta Sobre heróis e Tumbas em vários níveis, que Sabato cite um poema de Jorge Luis Borges logo na primeira parte, no capítulo 17 “Aí está Buenos Aires. O tempo que aos homens/ traz o amor ou o ouro, a mim apenas me deixa/esta rosa apagada, esta vã madeixa/ de ruas que repetem os pretéritos nomes/ de meu sangue: Laprida, Cabrera, Soler, Suarez/ Nomes em que retumbam já secretas as alvoradas/ as repúblicas, os cavalos e as manhãs/ as vitórias felizes, as mortes militares”:), com seis milhões de habitantes avulta como cidade-Babilônia. [1]

No livro fala-se muito de Alejandra e ela é o centro de interesse das duas primeiras partes, ainda mais por ser a paixão de Martín, que poderíamos considerar o “herói” da trama se pensarmos que (entre as muitas coisas que ele é) o romance de Sabato se situa na tradição dos romances que apresentam uma educação sentimental (os quais sempre parecem conter, perversamente, uma engrenagem de perda das ilusões). Martín será o depositário de toda a dolorosa experiência humana revelada pela narrativa, confirmando a asserção de que heróis eram aqueles que visitavam o mundo dos mundos e retornavam sãos e salvos (no caso, mais salvo do que são). [2]

O leitor poucas vezes entra diretamente na consciência de Alejandra (isso fica mais evidente no período da narrativa em que se liga a Martín): nela predomina a perspectiva romântica, de ser maior que a vida, uma figura portentosa, desconcertante para Martín e Bruno, opaca para nós. Há, entretanto, uma via de acesso indireto aos mecanismos psíquicos da herdeira (embora sem nada para herdar, a não ser a maldição familiar) dos Vidal Olmos: o relato do seu pai, Fernando (na terceira parte). Alejandra é um espelho dele, do seu satanismo. A semelhança entre ambos deixa Martín aterrado, ao ver Fernando pela primeira vez, quando segue Alejandra (que o dispensara da sua vida). E é aterradora devido ao aspecto predatório e maligno da linguagem corporal, numa relação em que o elemento destrutivo é componente essencial. Martín só chega a essa conclusão horas depois, quando já remoeu a cena do encontro várias vezes em sua mente:

“Suas mãos descarnadas e nervosas pareciam ter certo parentesco com as garras de um falcão ou de uma águia. Sim, assim era: tudo naquele indivíduo tinha algo de ave de rapina… Martín o achava parecido com alguém, mas não encontrava a chave (…)

     Caminhava na madrugada quando teve num átimo a revelação: aquele homem se parecia com Alejandra! Instantaneamente recordou a cena do Mirador, quando ela se retratara prontamente apenas pronunciara o nome de Fernando, como se houvesse pronunciado um nome que devia ser mantido em segredo (…)

    E apenas acreditou encontrar a chave, novamente caiu na maior perplexidade: a semelhança. Era indubitável que aquele homem era de sua família.”

O ainda ingênuo Martín não consegue fazer casar “semelhança física” e “ligação passional” em sua mente.

Então, temos essa aura (seria melhor dizer miasma) de seres exclusivos e mal assombrados[3], que aponta para uma vertente oriunda de certo romantismo (Byron, Poe, as Brönte), que se amplificou por meio da dupla seminal, Nietzsche e Dostoievski, os quais pensaram o universo sem a Autoridade Suprema, reguladora da moral humana, e as terríveis conseqüências dessa ausência.  A trajetória dos Vidal Olmos (embora efetuada no âmbito de um círculo fatalístico) inscreve-se dentro dessa tradição romântica que acabou sendo uma das pedras de toque da modernidade.

É nesse sentido que a obra de Sabato talvez mais se diferencie das outras duas: pelo relevo cosmopolita de Buenos Aires, disposta como um palco metafísico onde se digladiam forças absolutas e maniqueístas, com direito até a um apocalipse (na seqüência do Levante contra Perón, e a reação dos partidários destes, incendiando igrejas e promovendo autos-de-fé). Buenos Aires torna-se o universo, ganha um relevo cósmico, o que traz enormes conseqüências para a atmosfera, o tom e a própria tessitura narrativa de Sobre heróis e tumbas, que pode ser inscrito entre os romances totais ou enciclopédicos[4].

Ao se falar em Romantismo, pode-se pensar em larga escala (dentro do sistema literário do continente americano) na criação das nações, na época do surto de Independência. A militância romântica está estreitamente relacionada a esse esforço de construir nacionalidades (um dos temas recorrentes nas reflexões de Sabato), isto é, um processo de identidade. O entrelaçamento entre satanismo com um fundo prometéico que permeia parte da estética romântica (seres absolutos, maiores que a vida, etc) e reflexão sobre a identidade nacional (e por isso, Sabato associa Alejandra à Argentina) remete o presente da narrativa ao passado, ao mito de fundação, e vice-versa (é por isso que a história da Legião de Lavalle é um dos planos narrativos):

“E Martín, que se sentia só, se questionava sobre tudo: sobre a vida e a morte, sobre o amor e o absoluto, sobre o seu país, sobre o destino do homem em geral. Mas nenhuma dessas reflexões era pura, uma vez que eram feitas a partir de palavras e recordações de Alejandra, em torno a seus olhos cinza-esverdeados[5], no fundo de sua expressão rancorosa e contraditória.  E de repente parecia que ela era a pátria, não aquela mulher formosa porém convencional das gravuras simbólicas. Pátria era infância e mãe, era lar e ternura; e isso Martín não tivera; e uma vez que Alejandra era mulher, podia ter esperado dela, em  alguma medida, de alguma maneira, o calor e a mãe; porém ela era um território obscuro e tumultuoso, sacudido por terremotos, varrido por furacões. Tudo se misturava em sua mente ansiosa e como que nauseada, e tudo girava vertiginosamente em torno da figura de Alejandra, até quando pensava em Perón e em Rosas, pois aquela  garota descendente de unitários e entretanto partidária dos federalistas, naquela contraditória e viva conclusão da história argentina, parecia sintetizar-se, diante dos seus olhos, tudo o que havia de caótico e de desencontrado, de demoníaco e desgarrado, de ambíguo e opaco. E então voltava a visualizar o pobre Lavalle, adentrando no território silencioso e hostil da província, perplexo e rancoroso, talvez refletindo a respeito do mistério do povo em longas e pensativas noites de frio, envolto em seu poncho azul-claro, taciturno, mirando as mutáveis chamas da  fogueira… E também Bruno, em quem se aferrava, a quem olhava com anelante interrogação, parecia estar carcomido pelas dúvidas, perguntando-se perpetuamente sobre o sentido da existência em geral e sobre o ser e o não-ser daquela sombria região do mundo na qual viviam e sofriam: ele, Martín, Alejandra, e os milhões de habitantes que pareciam perambular por Buenos Aires como no caos…”[6]

    Embora Buenos Aires seja um palco metafísico, ela também é focalizada com minúcias realistas, tanto no sentido topográfico quanto no sentido histórico-social.

E como a problemática dos Vidal Olmos, tão arraigada no romantismo e, mais a fundo ainda, na hybris grega que alimentou as tragédias (e aqui a analogia feita de Martín com as aves de rapina é marca do orgulho da linhagem, e, afora isso, são seres exclusivos, marcados, filhos de Caim) é disposta no plano social? Para a alta sociedade portenha os decadentes Vidal Olmos são fracassados, risíveis, positivamente embaraçosos (e insistem em morar numa chácara quase em ruínas, no outrora distinto e agora proletário e decaído subúrbio de Barracas).

Como associar as duas imagens? Através da sobreposição de tempos históricos: retratos caricaturais (no que a caricatura pode ter de mais forte em efeito concentrado) dos poucos sobreviventes, loucos ou inválidos, e relatos de Alejandra sobre a época “heróica”. O leitor constata a coerência interna, apesar da narrativa intrincada, absorvendo num mesmo movimento a pujança, o vampirismo e a decadência dos grandes clãs ligados à Independência (e que cultivam, retoricamente [7], grandes valores absolutos, e novamente o círculo se perfaz) e como elas se apresentam como tumbas da Argentina no regime peronista (no sentido de contrafação do heroísmo de um Lavalle e de seus homens, e até no sentido bíblico de sepulcros caiados).

Por outro lado, não podemos esquecer nossos modelos trágicos. Embora até chegue a exercer a prostituição de luxo (sob a fachada de uma butique chique) para salvar os sobreviventes do seu clã do despejo, a verdade é que Alejandra claramente recusa o mundo da experiência, embora nunca reencontre o caminho para o mundo do desejo. [8] O máximo que pode fazer é “restaurar-se” após esbarrar na experiência ou encontrar alguém com a pureza e inocência de Martín (e daí vem seu desgosto de transar com ele). São os “descansos de si mesma”, enquanto vai preparando sua imolação, já que rejeita o mundo da pólis.

Como não reconhecer Antígona?  Na peça de Sófocles, por várias vezes a filha de Édipo alude, com certa dose de altivez, à sua familiaridade com os mortos, de como isso a honra e a aproxima dos deuses:

“… e meu crime será louvado, pois o tempo que terei para agradar aos mortos é bem mais longo do que o consagrado aos vivos”.

    Ou ainda:

]“Que vou morrer, eu bem sei: é inevitável! E morreria mesmo sem a tua proclamação. E, se morrer antes do meu tempo, isso será para mim uma vantagem. Quem vive, como eu, no meio de tão lutuosas desgraças, que perde com a morte?

Esse tipo de reflexão provoca em sua irmã Ismene uma réplica que bem poderia ser um diagnóstico do comportamento de Alejandra: “Tu pareces desejar, com o coração ardente, o que nos causa calafrios de pavor!”

Esse dâimon de Alejandra faz com que ela nunca destrua o quebranto que a envolve, decidindo-se por se encerrar de uma vez por todas no labirinto familiar.

Alejandra se consome (literalmente) “para ficar junto dos seus”, e não se estiolar numa sociedade em que ela não faz sentido. E também é um instrumento do destino, não lhe bastando a auto-imolação: carrega consigo o pai, com o qual “parecia estar sozinha no mundo”. [9]

Em Deitada na escuridão vimos a hiperbolização do conteúdo da consciência dos Loftis no campo discursivo, o que fornecia a chave para entender sua incapacidade de lidar com o mundo da experiência.

Em Sobre heróis e tumbas a linguagem já é problematizada porque as personagens (que se ocupam de questões tão transcendentes) caminham por uma Buenos Aires corriqueira e coloquial. Sabato utilizou com sucesso um recurso (que deriva de Faulkner) para evitar o sentencioso e o pomposo (com a pretensão tão explícita de “explorar as profundezas” [10]) ao nos fazer encontrar nessas ruas reais seus portentosos seres, efeito que poderia nos fazer sorrir, e até rir. Ele se vale de conversas como ponto de união de acontecimentos e tempos diversos. Pois sempre há o comentário, a exegese, a hermenêutica, enfim, o termo que se queira, dos fatos e das pessoas envolvidas, a partir de uma perspectiva posterior. Há a troca de figurinhas entre Martín e Bruno[11], unificando diversos episódios do livro, no qual se passam em revista literatura, política, cinema, tango, moda, enfim, os problemas culturais e sociais da Argentina (até fazendo de Borges uma personagem do livro).

Na terceira parte, Informe sobre Cegos, afora o que deve aos relatos dostoievskianos, temos uma espécie de relatório burocrático misturado a um “roman noir”, ou ainda aqueles textos do século XIX, um pouco Eugene Sue, um pouco Edgar Alan Poe, um pouco Arthur Conan Doyle (ou seja, um clima pelo qual perpassa o folhetinesco).  Voltarei a isso depois. Essa característica talvez tenha levado Eliane Zagury a dizer o seguinte sobre o livro, quando da sua publicação no Brasil, em 1980:

 “… ao nível da escritura geral do livro, pesa a terceira maldição, que é a falta de ressonância retórica para o tom grandioso que o seu discurso imposta. O fulcro religioso do satanismo se dissolve numa composição que lembra um dossiê incompleto e sem solução para mais um fato da crônica policial. E mais um fato, também, da decadência das famílias patrícias hispano-americanas,descendentes dos heróis da Independência.”

Retomando o início deste texto (e já que estamos em círculos, tanto quanto em labirintos), quando caracterizei Martín como herói da história, caberia retomar o problema épico fundamental na concepção de Lukács: o da necessidade e possibilidade da ação do herói.  Em que medida Martín pode ser herói numa história em que haveria até a necessidade de sua ação, mas a possibilidade é mínima, e ele chega a ser patético em sua impotência e ignorância. Mas ao mesmo tempo ele representa o pólo da positividade, do futuro em aberto, da procura do “gelo puríssimo” (Patagônia) em contraste com o fogo.[12]

 

COMO  O  LIVRO SE DIVIDE

São quatro partes ao todo: O dragão e a princesa; Os rostos invisíveis; Informe sobre Cegos; Um deus desconhecido.

Quando começamos a ler, de saída temos uma perspectiva fatalística, pelo menos quanto a Alejandra, já que sabemos por um recorte de jornal como ela morreu. Assim como Peyton de Deitada na escuridão, tudo o que se refere a ela converge para tornar sua vida um destino.

O recorte data de 28 de junho de 1955:

“As primeiras investigações revelaram que o antigo Mirador que servia de dormitório a Alejandra foi trancado a chave por dentro pela própria Alejandra. Logo (ainda que, logicamente, não se possa precisar o lapso de tempo transcorrido) matou seu pai com quatro balas de uma pistola calibre 22. Finalmente, espalhou gasolina e ateou fogo.

   Essa tragédia, que abalou Buenos Aires pelo relevo dessa velha família argentina, pode parecer a princípio a conseqüência de um repentino ataque de loucura. Mas agora um novo elemento judicial alterou essas primeiras conclusões. Um estranho Informe sobre Cegos, que Fernando Vidal terminou de escrever na própria noite de sua morte, foi descoberto no apartamento que, com nome falso, ocupava em Villa Devoto. É, de acordo com nossas fontes, o manuscrito de um paranóico. Mas não obstante se afirma que a partir dele é possível inferir certas interpretações que iluminam o crime e fazem substituir a hipótese do ato de loucura por uma hipótese mais tenebrosa. Se essa conclusão é correta, também ficaria explicado por que Alejandra não se suicidou com uma das balas que restavam na pistola, optando por queimar-se viva.”

Temos aí, então, o final de uma grande e “histórica” família: a vulgar notícia na página policial, embora nela haja suficientes ingredientes de interesse até para um leitor de best seller, folhetim ou romance policial ou de terror. Pois há um mistério a ser solucionado, há indícios, e há algo sinistro pairando sobre o caso. O que virá pela frente (curiosamente, o primeiro romance de Sabato, O túnel, de 1948, relata minuciosamente um crime)?

A primeira parte, O dragão e a princesa, se divide em vinte capítulos. Ela começa assim:

“Num sábado de maio de 1953, dois anos antes dos acontecimentos de Barracas, um rapaz alto e encurvado caminhava por uma das veredas do parque Lezama.

    Sentou-se num banco, perto da estátua de Ceres, e permaneceu sem fazer nada, abandonado a seus pensamentos. Como um barco à deriva num grande lago aparentemente tranqüilo mas agitado por correntes profundas, pensou Bruno, quando, depois da morte de Alejandra, Martín contou a ele, confusa e fragmentariamente, alguns dos episódios vinculados àquela relação.”

Já se coloca Martín em relação direta à protagonista, e principalmente já se joga com a perspectiva temporal: Martin está a dois anos dos fatos principais (posteriores), relatados no recorte, mas os comenta, anos depois, com Bruno, e como eu já afirmei antes, o fato de que Bruno está interpretando como seria o Martín de 17 anos que inaugura a narrativa, sentando-se perto da estátua de Ceres no parque Lezama, poupa-o do que poderia haver de demasiado e pomposo, quando não cafona, na imagem do “barco à deriva num lago aparentemente tranqüilo, mas agitado por correntes profundas”.

Martín é caracterizado como tomado por impulsos antitéticos avassaladores: carne e espírito, numa aparência de personagem de El Greco:

“Como que rompendo de repente esse projeto de asceta espanhol rebentam em ti uns lábios sensuais. E tens ainda esses olhos úmidos… Uma mescla de pureza, de melancolia e de sensualidade reprimida. E além disso… um instante… Uma ansiedade em teus olhos, debaixo dessa testa que parece um balcão proeminente. Mas não sei se é exatamente isso que me agrada em ti. Creio que é outra coisa… Que teu espírito domine a tua carne, como se estivesses sempre em posição de sentido. Bom, talvez agradar não seja a palavra, talvez me surpreenda, me cause admiração ou me irrite, sei lá… Teu espírito reinando sobre teu corpo como um ditador  austero. Como se Pio XII tivesse que vigiar um prostíbulo.”

Veja-se por aí o teor dos colóquios entre Alejandra e Martín!

Ele se ressente da mãe (o pai é uma figura apagada) por sempre jogar na sua cara as tentativas de abortá-lo, pois ela, uma socialite, não queria perder a forma física. A expressão que sempre lhe ocorre ao evocar a figura materna é mãecloaca.

Depois do breve encontro inicial, Martín perde contato com Alejandra (“Martín a observou com deslumbramento: seu cabelo retinto em contraste com a pele mate e pálida, seu corpo alto e anguloso; havia algo nela que lembrava as modelos que aparecem nas revistas de moda… e aonde fosse  Alejandra despertava a atenção de homens e também das mulheres… aquela figura que Martín chamava de ´exótica´ mas que na realidade era uma paradoxal maneira de ser argentina, já que esse tipo de rosto é freqüente nos países sul-americanos, quando a tez e os traços do branco se combinam com os pômulos e os olhos mongólicos do índio”) por dois anos. O reencontro[13] acontece quando Martín abandona sua casa para sempre (mais adiante, ficará desempregado, será ajudado a contragosto por Alejandra, e acolhido por um descendente de italianos simplório e bondoso, amigo do caminhoneiro com quem Martín viajará para a Patagônia).

Alejandra o leva para conhecer a propriedade arruinada em Barracas (“Bom, da chácara não resta quase nada. Antes era um quarteirão. Depois começaram a vender. Aí onde estão a fábrica e esses galpões, tudo pertencia à chácara. Deste outro lado, há pensões. Toda a parte dos fundos também foi vendida. E o que restou está totalmente hipotecado e a qualquer momento será leiloado”), onde vivem os sobreviventes dos Vidal Olmos[14]. Lá, numa atmosfera sinistra, principalmente porque de repente a garota “desaparece”, deixando-o sozinho, Martín fica conhecendo as peripécias e vicissitudes da família, como a história de Bonifácio Acevedo, que é degolado, em 1852, pela polícia secreta do tirano Rosas, e cuja cabeça é atirada pela janela na sala da casa. A mulher dele (Encarnación) morre com o choque, e a filha Escolástica enlouquece, se tranca no Mirador com a cabeça durante 80 anos, até sua morte em 1932. [15] Alejandra mente para Martín, afirmando que sua mãe morreu (quando ela tinha cinco anos) e fica consternada ao deixar escapar o nome “Fernando” (também, a essa altura, ouve-se pela primeira vez a palavra “cegos”). E ela conta reminiscências da sua infância e adolescência exaltadas, seu mergulho na religião (“com a mesma paixão que nadava ou galopava, como se apostasse a vida”) e sua frustração quando as religiosas e um padre lhe diziam que sua devoção era “excessiva”, pecaminosa, principalmente no quesito “mortificações da carne” (ajoelhar-se horas sobre cacos de vidro, deixar cair a cera ardente dos círios sobre as mãos, cortar os braços com lâminas). Enviada ao campo, ela atormenta um pobre rapaz simplório chamado Marcos Molina, primeiro com seus excessos de fé (quer que fujam como missionários e vivam em castidade absoluta, sem se tocarem; ele, praticante de uma “fé sadia” se horroriza com a idéia); poucos anos depois, tendo desistindo da religião e abjurado Deus, ela faz o papel de tentadora, obrigando-o a se despir junto com ela, mas quando ele a agarra, beijando-a (e ela gosta), acaba com ganas de matá-lo e até o procura com uma faca com essa intenção e Marcos é obrigado a lhe dar uma pancada, deixando-a desacordada e depois a levando até a casa das tias, o que acarreta um grande escândalo. Uma das tias de Buenos Aires, Teresa, lhe diz que ela é o retrato do pai e vaticina que ela  será uma “perdida” (o que é uma curiosa inversão da “honra” tão importante para as personagens trágicas e toda uma escala de heroínas, “honra” que ecoa inclusive nas nossas jovens parcas do curso, vejam os tormentos de Rosalina e Peyton, os quais já percorremos, e agora os extremos de Alejandra, que é alguém que deseja o absoluto, daí a purificação pelo fogo).

É interessante observar o sistema de imagens e analogias escolhidos por Sabato na relação entre Martín e Alejandra. Ela adormece ao lado dele, e é como “um guerreiro que tirou sua armadura”, ou seja, há uma inversão total dos papéis. Quando Martín tira proveito do seu sono para tocá-la, sente-se como um ladrão que estivesse espreitando o sono de um guerreiro para subtrair-lhe uma pequena lembrança. E tempos depois, já no final dessa primeira parte, após uma espécie de ataque epiléptico, enquanto Alejandra se recupera e Martín vela por ela, a imagem-chave do príncipe que atravessa vastas e solitárias regiões, encontrando a gruta onde a princesa dorme vigiada pelo dragão, e que se dá conta de que o dragão não vigia a seu lado, ameaçador, como leríamos num mito infantil, mas dentro dela, a princesa-dragão, um monstro que se assemelhasse a uma puríssima menina vestida para a comunhão e que sonhasse com répteis ou morcegos (Martín  chega a perguntar a Alejandra se não seria um outro Marcos Molina  já que ela se recusa a transar com ele fica furiosa quando ele “avança o sinal”, para utilizar essa  maravilhosa expressão antiga; depois, meio a contragosto, ela acaba realizando o desejo dele, sempre como se fosse uma outra se apossando dela). Mesmo assim, anos depois, tentando encontrar a “chave daquele relacionamento”, Martín diz a Bruno que, apesar desses contrastes de humor e temperamento de Alejandra, “durante algumas semanas fora feliz”, “ou melhor, quase feliz. Mas imensamente”  numa “sucessão de  êxtases e catástrofes”.

Alternadamente[16], é narrada a retirada da Legião do general Lavalle, que morreu em combate, e cujos homens não querem que seu corpo caia nas mãos de Rosas, que iria desonrá-lo. Como a fuga se prolonga, o corpo começa a apodrecer (“o espantoso cheiro do general apodrecido”), deixando um clima pestilento e insuportável no ar, chega a hora em que são obrigados a descarná-lo, para levar apenas os ossos (parece que estamos no Liso do Sussuarão de Grande Sertão: Veredas e que Lavalle é Medeiro Vaz). Olmos & Acevedos participaram da Legião e é desse tempo a separação dos dois ramos da linhagem, cujos traços físicos são sempre enfatizados, como requer uma história envolvendo determinada gens:

“A noite que passara naquela casa lhe parecia agora, à luz do dia, como um sonho: o velho quase imortal; a cabeça do comandante Acevedo guardada numa caixa de chapéus; o tio louco com seu clarinete e seus olhos alucinados; a velha índia, surda ou indiferente a qualquer coisa, até o ponto de não incomodar-se em querer saber quem ele era e o que fazia um estranho que saía dos quartos e que subia sem mais no Mirador[17], a história do capitão Elmtrees [sobrenome que se transformou em Olmos]; a incrível história de Escolástica e de sua loucura; e sobretudo, a própria Alejandra… E os dias que se seguiram, desempregado, solitário, esperando algum sinal propício de Alejandra, outros momentos de exaltação e novamente a desilusão e a dor. Sim, como uma serviçal que a cada noite era levada ao palácio encantado, para a cada dia despertar em seu pardieiro.”

 

A segunda parte, Os rostos invisíveis, é composta de 28 capítulos.  E representa a derrocada do amor de Martín, já que Alejandra o repele.

É a parte em que a vemos em ação na sociedade atual: trabalhando de fachada numa butique, contudo possivelmente prostituindo-se (em alto nível) para salvar a família do despejo, pelo menos com dois empresários, Molinari e Bordenave. Também é narrada a aproximação entre Bruno e Martín.

Após a chácara decadente em Barracas, acompanhamos os protagonistas numa série de bares e restaurantes (desde aqueles “na moda” até os mais sórdidos, no porto) e perambulações pela cidade. E em meio à história principal, Bruno que se vê como um Hamlet que não conseguiu ser Shakespeare reflete sobre a dificuldade de “representar aquela realidade inumerável” da Babilônia moderna, indagando-se a respeito do caráter nacional.

E no capítulo 13 aparece ele em pessoa, Borges, a quem Bruno apresenta Martín como um “amigo de Alejandra Vidal Olmos” e que é apresentado ao leitor como um ser de “ossos sem energia”, com um “rosto apagado” e “fala tartamudeante”, com um ar falsamente modesto, secretamente arrogante do camponês argentino, ou seja, um retrato pouquíssimo simpático.

Depois do escritor central da literatura argentina fazer sua rápida e insólita aparição num romance escrito por um rival, Martín comenta com Bruno que a crítica que fazem a Borges é ser “pouco argentino”. Bruno replica : “Que poderia ser senão argentino? É um típico produto nacional. Mesmo o seu europeísmo é nacional”. Indagado se o julga um grande escritor, diz: “estou certo de que sua prosa é a mais notável que hoje se escreve em castelhano. Só que é preciosista demais para ser um grande escritor.” Mais adiante diz que falta a Borges a grandeza que sentimos na leitura de Dickens, Faulkner ou Tolstoi, decorrente da “compreensão total da alma humana e a totalidade da pátria, mesmo em sua imunda complexidade”, que se verifica na obra deles. Borges recua “diante das coisas supremas” e “sai a blasfemar nos subúrbios… de Buenos Aires e da filosofia”! [18]

E Alejandra fica períodos inteiros sem se comunicar com Martín que começa a assediá-la no “trabalho” (o que nos permite dar uma olhada no universo mundano). E há uma passagem em que observa uma outra Alejandra, a que atua e parece se sentir um peixe dentro d´água no oceano da frivolidade, o que me lembra a dualidade de Rosalina. “Mas qual seria a verdadeira Alejandra? E haveria uma Alejandra que fosse verdadeira?” E “a maravilhosa e terrível Alejandra que ele amava”?

Sobram alguns encontros melancólicos e entregas relutantes da parte dela.  E um dia o ingênuo Martín surpreende Alejandra saindo do cadillac esporte de Bordenave. Começa um inferno bastante comum em Sabato: o do ciúme (que movimentou a engrenagem de O túnel): “Algo atroz irrompera”.

Um dia, Alejandra diz a Martín que terão o “último encontro” e nele comenta (estamos no capítulo 19):” “Há dias astrologicamente maus. Martín propõe que se matem juntos (ele comprou umas injeções letais de um conhecido). É preciso ressaltar que Alejandra tem outro ponto em comum com Rosalina  e Peyton: a avidez pela bebida. Como atordoamento, como “descanso de si mesma”.

Mesmo assim, ainda não é o último encontro (como todos os bons romances totais, e por isso eles às vezes parecem tão imperfeitos e até sem forma definida, Sobre heróis e tumbas combina o absoluto com as contingências e indeterminações da vida). Numa dessas “recaídas”, Martín toma a temerária decisão de seguir Alejandra e assiste a seu encontro com Fernando, com todo aquele desassossego que a semelhança entre ambos lhe acarreta e que já comentei. “Agora compreendia tudo: ele e ela viviam isolados, em um mundo à parte, orgulhosamente. E ela o amava, amava Fernando…”

E naquele que será de fato o último encontro (embora Martín ainda venha a ter uma derradeira visão de Alejandra), ele a confronta, e chega a dizer mesmo que “me pareceu que entre ti e Fernando havia algo secreto, era como se vocês formassem algo à parte, separados dos demais”. Alejandra o sacode,  “como que o golpeando” e lhe lança na cara que “aquele homem” é o seu pai.  Sai correndo e deixa Martín petrificado.

E o apocalipse toma conta de Buenos Aires (“Como  se um brutal golpe de timbale houvesse inaugurado as trevas”). Martín se atordoa pelas ruas de Buenos Aires e as forças armadas e a igreja se sublevam contra Perón (estamos em junho de 1955, o mês da auto-imolação de Alejandra). Pessoas correm, gritam, aviões fazem vôos rasantes sobre a Plaza Mayo, há estrondo de bombas, matraquear de metralhadoras e de canhões antiaéreos. A  noite e a chuva caem sobre uma cidade “minada por rumores”. Incêndios se multiplicam: os partidários de Perón correm a depredar igrejas, lançando ao fogo altares, santos, confessionários, panejamento sagrados. Repetindo para si mesmo três palavras (Alejandra, Fernando, cegos), Martín vaga [19]:

“O céu tenebroso e gélido parecia símbolo de sua alma. Uma garoa impalpável caía arrastada por esse vento sudeste que (Bruno dizia) realça a tristeza do portenho, o qual, através da janela embaçada  de um café, olhando a rua, murmura ´que tempo do caralho´, enquanto alguém mais profundo pensa consigo mesmo ´que tristeza infinita´. E sentindo  a garoa  gelada na cara, caminhando rumo a nenhures, de cenho franzido,  olhando obsessivamente para frente, como que concentrado num vasto e intrincado enigma…”

Dessa forma ele se vê na praça da Inmaculada Concepción, em Belgrano e senta-se num banco (Sobre heróis e tumbas começou com ele sentado num banco). Silêncio sinistro, luz mortiça, garoa. E de repente Alejandra atravessa a praça rumo às decadentes casinhas coladas à igreja, andando com jeito de sonâmbula, evidentemente não vendo nem ouvindo nada, com o “alheamento de uma hipnotizada”[20]. Martín pensa que pode estar sonhando ou tendo uma visão, já que nunca estivera naquela pracinha, “nada de consciente o fizera caminhar até ela naquela noite aziaga, nada podia levá-lo a prever encontro tão portentoso. Eram excessivas casualidades e era natural que por um momento pensasse em uma alucinação ou num sonho”.

Ele até queria insistir, mas desiste de esperar, “que ganharia em vê-la sair?” e vai embora dessa “noite alucinante”.

A terceira parte (a mais célebre e mais extensa do romance), Informe sobre Cegos, narrada na primeira pessoa por Fernando Vidal Olmos, pai de Alejandra, é composta por 38 capítulos.

Começa assim: “Quando começou isto que agora terminará com meu assassinato?”  Fernando gaba-se da sua “feroz lucidez”. E relembra os “começos” da sua “investigação sistemática”: um dia de verão de 1947, ao sair na Plaza Mayo, pela rua San Martín (dou esses detalhes para mostrar que o deslocamento e a paródia à Frye estão entremeados às contingências e aos detalhes, como  o crime à vida, na frase de Conan Doyle em Um estudo em vermelho, “temos o fio vermelho do crime misturado à meada cinzenta da vida): ele vê uma cega vendendo bugigangas e é como se um sininho soasse despertando-o da inconsciência ou  letargia:  “despertei sobressaltado, como diante de um perigo  repentino e insidioso, como se na escuridão  houvesse tocado  com minhas mãos a pele gelada de um réptil”. Para ele, trata-se de uma “aparição infernal” e assim começa a “etapa final” da sua existência, que se baseia na exploração desse tenebroso universo:  “Vigiava e estudava os cegos…” Ou seja, para ele há uma Seita de Cegos, subterrânea e insidiosa, que domina o mundo e elimina os oponentes, ou aqueles que descobrem a realidade (coitado do Borges: seu rival literário coloca uma conspiração maligna sob o signo do atributo físico mais marcante nele, a cegueira; e em 1980, Umberto Eco, que queria homenageá-lo em O nome da rosa, coloca como assassino do seu livro um intelectual cego, porque, segundo Eco, cego+biblioteca=Borges, “mesmo porque as dívidas precisam ser pagas” [21]).

Informe sobre Cegos mescla um tom dostoivskiano (por exemplo, Memórias do subsolo) com relato detetivesco (as narrativas de Conan Doyle com conspirações subterrâneas de um chefe do submundo criminoso, como o professor Moriarty, sem contar o paradigmático Poe) com folhetim (Eugene Sue, Os mistérios de Paris) com o lado mais fantástico do realismo (o Balzac das narrativas dos Treze, que são um grupo conspiratório: A menina com os olhos de ouro; Ferragus), além daquelas sempre retomadas das conspirações ligadas aos templários ou à maçonaria, e coisas do tipo. Ou seja, o mito de que há um poder secreto regendo o mundo, e esse poder dificilmente pode deixar de ser maligno, estando nas mãos de hierarcas.

Fernando crê ter intuído tal fato desde a infância (“foram os pesadelos e as alucinações da infância que me trouxeram a primeira revelação[22] ) e nunca deixou de ter prevenção contra esses usurpadores, espécie de chantagistas morais que, coisa natural, abundam nos subterrâneos, em razão dessa condição que os aparenta aos animais de sangue frio e pele  viscosa que habitam  covas, cavernas, porões,  velhas galerias, encanamentos, esgotos, bueiros,  fossas,  minas abandonadas com  silenciosas infiltrações de água…” etc, etc.

Um dia, ele resolve seguir um cego a quem vigiava no metrô de Palermo até as imediações da zona portuária.  O cego percebe a perseguição e o confronta. Desse episódio, Fernando tira a conclusão de que “teria de esperar meses, e talvez anos, teria de despistar” para mais tarde prosseguir sua investigação: “Outro evento me conduziu, mais de três anos depois,  à grande pista e pude, enfim,  entrar no reduto dos Cegos. Desses seres que a sociedade denomina Não-Videntes: em parte, pelo sentimentalismo popular; mas também, é quase certo,  por esse temor que induz a muitas seitas religiosas a não nomear jamais a Divindade diretamente.”

Fernando faz a distinção entre os cegos de nascença e os que perderam por algum motivo a visão. De acordo com ele, os primeiros têm ódio aos “recém chegados”, como alguém que tentasse acesso a uma casta à qual não pertence por direito. Só com muita “má vontade” é que eles são admitidos. E aí é que entra o tipógrafo Celestino Iglesias, que proporciona a “grande pista” para o nosso investigador do mal, nascido em 24 de junho de 1911 (e que, portanto, morre no seu aniversário, aos 44 anos, além de ter vindo ao mundo no mesmo dia que seu criador).

Fernando e Celestino se conhecem nos meios anarquistas em 1929. Para o tipógrafo, um dia o mundo “seria uma afetuosa comunidade de colaboradores livres e fraternos” que usariam apenas uma língua, o “esperanto” (veja-se que a veia caricatural não está ausente do relato, onde se destila o que Nabokov chama de “veneno retórico”). É a junção de um ser mais para o angelical e um ser mais para o satânico.

Eles perdem contato porque Iglesias parte para lutar na Guerra Civil Espanhola, como tantos, e só se reencontram após o já referido episódio do cego do metrô. Fernando, no momento, está ligado a uma rede de falsários e convoca Iglesias (que precisa de dinheiro para ajudar grupos anarquistas) para ajudá-lo, com suas habilidades tipográficas.

Após o incidente com o cego, Fernando começa a acreditar que precisa de um intermediário “entre os dois reinos”. Há um acidente descrito do modo mais ambíguo e irônico possível, uma explosão enquanto Iglesias manipula ácidos. “Não sei”, afirma Fernando, “Quem sabe se o acidente, não foi, de certo modo, forçado pelo meu desejo?” !!??

Ele passa a cuidar do agora cego Iglesias num “longo processo”, “dada a índole  secreta e atroz do universo dos cegos”,  ninguém pode ter acesso a ele “sem uma série de sutis transformações”.  Vigiando-o, ele constata sua mudança de “raça”, ou melhor, de “condição zoológica” (como se um humano se transformasse, lenta e inexoravelmente, num morcego ou num lagarto, “…e o que é mais atroz,  sem que quase nada do seu aspecto exterior revelasse uma modificação tão profunda). Em meio a vários episódios, que saltarei porque um dia vocês todos têm que ler o romance (só direi que são situações que justificam o epíteto de “canalha” de Vidal Olmos e que mostram sua amoralidade e seu caráter “maldito”, transgressor pela negatividade, como os Demônios niilistas de Dostoievski, enfim, como dirá mais tarde Bruno, um terrorista moral), acompanhamos a espera por um contato da Seita.

Um dia, oferecem trabalho a Iglesias. É a hora de segui-lo e saber as etapas do ingresso do neófito. Um “árido trabalho preliminar” que lhe permite entrar no “domínio secreto”, acarretando sua condenação à morte: “não tenho mais dúvida de que meu destino estava decidido, provavelmente desde o início da minha investigação,  desde o dia aziago em que vigiei o cego do metrô”.

E aonde Iglesias é levado, após vários volteios, como fosse para “despistar” (mas lembrem-se, é um relato não-confiável, só temos a visão de Vidal Olmos, e visão nesse caso é um termo pra lá de ambígua)? Para a “fileira de casas velhas de dois andares”, ao lado da igreja na Plaza  da Inmaculada Concepción, ponto para o qual Martín viu Alejandra dirigir-se e adentrar, na noite dos incêndios e do apocalipse peronista.

E Fernando, após alguma hesitação, resolve adentrar ali sem mais delongas. O cenário parece o lugar dos Tribunais e Cartórios de O processo, de Kafka: tudo é sórdido, miserável. Todavia, encontra uma porta fechada que frustra seus avanços; depois de muitas horas (às duas da manhã), Iglesias finalmente sai dali, há nova tentativa de acesso, e dessa vez a porta está fechada com um cadeado. Impaciente, ele toma um táxi e traz consigo um famoso arrombador. Após a Operação-Arromba-Umbral-de-Cego, Fernando despacha o tipo e finalmente penetra no local. Não vou entrar em detalhes, mas após muitas páginas, encontramos nosso investigador num porão velho, onde há uma gradinha meio disfarçada que dá… para onde? Outra porta fechada (não parece aqueles contos de fadas ou aquelas estórias romanescas onde o herói tem de passar por provas?):

 “Um homem crescido, um indivíduo que leu Hegel e que participou de assaltos a banco, agora estava num porão de Buenos Aires, às quatro e meia da madrugada, diante de uma portinha onde supunha que habitasse uma pseudo-modista a serviço de uma Loja secreta. Não era um disparate?”

Só que essa porta não está fechada à chave!

A lanterna ilumina o aposento e ele dá de cara com uma Cega “observando-o”, se isso é possível. Segundo Fernando, ela obviamente o estava esperando.  Ele tem uma sensação de desmaio ou vertigem (de passagem, é bom lembra que certos surtos e ausências sofridos por ele, em outros pontos da narrativa, lembram a epilepsia, assim como acontece também com Alejandra, e é preciso lembrar do mito antigo de que os epilépticos eram seres “inspirados”), ouve um “estalo”, arrebentando seus tímpanos, e desmorona no chão, sem sentidos.

Fernando tem uma visão horrível (que ocupa um capítulo inteiro) e recobra os sentidos no mesmo lugar e ainda frente à Cega, a quem se explica dizendo que entrara ali  “para roubar” , acreditando ver no  rosto dela uma “expressão de ironia”.

Rapidamente, a Cega sai do recinto, deixando-o trancado.[23]  Quando ela volta, atraída por seus gritos, apesar de um quebranto interno que o deixa fraco, mal se sustendo em pé, ele se precipita sobre ela, afasta-a com violência e avança para outros recintos escuros, utilizando dessa vez apenas a luz do isqueiro. E percebe, pelo rumor de água, que se aproxima dos canais subterrâneos da cidade, o Mundo Inferior dos esgotos (“e subitamente me senti uma espécie de herói, herói ao avesso, herói sombrio e repugnante, mas herói. Uma espécie de Siegfried das trevas, avançando no escuro e na fetidez com meu negro estandarte tremulante, agitado pelos furacões infernais. Mas avançando para o quê? “). Como todo herói num labirinto, ele se perde por mil subidas e descidas[24] até chegar numa imensa galeria semelhante a uma mina de carvão, onde o ar é rarefeito e vapores turvam a consciência (devem ser os vapores do cheiro da merda, com certeza): “A partir desse momento já não sei discernir entre o que de fato aconteceu e o que sonhei ou o que me fizeram sonhar, de tal forma que não estou seguro de nada, nem sequer do que acredito que vivi nos anos, e até nos dias precedentes.” Do que ele tem certeza é da sensação de solidão absoluta e cruel, o preço pago por explorar o avesso da realidade, o mundo das trevas. “E eu, místico da Imundície e do Inferno, posso e devo dizer: CREIAM EM MIM!”

Assim, naquela caverna, “Região da Melancolia”, ele entrevê afinal os “subúrbios do mundo proibido”, como os poetas malditos sempre fizeram (e não os “subúrbios da filosofia”, como faz Borges, na opinião de Bruno/Sabato): Artaud, Lautréamont, Rimbaud.

Até que, depois de muito tempo, ele se resolve a caminhar rumo ao canto onde parecia haver “certa tênue luminosidade” (Então compreendi até que ponto as palavras luz e esperança devem estar mutuamente vinculadas na linguagem do homem primitivo”). À medida que ele anda em direção à luminosidade, esta progressivamente aumenta (numa paródia dos relatos de místicos em sua trajetória rumo à Luz). Fernando vê torres, um farol (“Olho fosforescente”), uma estátua gigantesca (da Grande Deidade, “terrível e noturna”). Ele chega até o Olho, após muitos dias de caminhada e, exausto, adentra, e como nos Cantos de Maldoror de Lautreámont, é alvo de metamorfoses surreais:

“Meu corpo ia se convertendo em peixe, minhas extremidades se transformavam repugnantemente em nadadeiras, minha pele se cobria de escamas (…) Até que entrei na caverna, fundindo-me num líquido quente e gelatinoso”.

Bem, podemos considerar esse clímax da busca um momento de transcendência, já que ele, o orgulhoso, o diferenciado, com o símbolo de Caim na testa, mergulha na indiferenciação, como o peixe na água. Ou podemos tomar como o auge do delírio de um louco, do medo da aniquilação, de se perder na corrente. Enfim, cada um tire a sua conclusão, mesmo porque resumi muito os eventos.

Acaba o capítulo (o 36) e já no começo do seguinte, Fernando Vidal Olmos está numa cama (ele suspeita que nunca saiu do quarto de onde pensara ter escapado, empurrando a Cega, e é bom lembrar que ele teve uma vertigem, quase um desmaio, quando deu de cara com ela). Fosse assim, toda a peregrinação pelos subterrâneos e cloacas portenhos, pelos mistérios de Buenos Aires, nada mais seriam que uma fantasmagoria.

No quarto, predomina a tal luminosidade que o guiara da grande caverna até o local das torres, do Olho-farol, da estátua da Deidade terrível e aniquiladora da identidade. Ele sente uma força potente, quase magnética no ar, e sente que a Cega é a Deidade obscura:  “…num lampejo tive a revelação: era Ela! Aquele universo de Cegos não passava de um instrumento para satisfazer nossa paixão e, por fim,  para executar sua vingança.”

A mulher se debruça sobre ele, toca-o, ele corre para ela “como um lúbrico unicórnio”, e novamente passa por um ciclo de metamorfoses (cobra, peixe-espada, polvo) e ela, entre lampejos, é para ele prostituta, caverna, poço, pitonisa. O ar eletrizado enche-se dos gritos, e ele tem de satisfazê-la como um “lúbrico rato” (as imagens nobres e desmoralizantes se entrelaçam: o nobre unicórnio e o desmoralizante rato), como se fosse um “pilar de carne”:

A tempestade se fazia cada vez mais terrível e confusa: bestas coabitavam com a mulher, até seu sexo foi escavado por ratos… Sacudido pelos raios, tremia aquele território arcaico. Por fim a luz se desfez em pedaços, que incendiaram os imensos bosques, desencadeando a destruição total. A terra se abriu e se afundou entre caranguejos. Seres mutilados corriam entre as ruínas, cabeças sem olhos andavam tateando,  intestinos se emaranhavam como cipós imundos, fetos eram pisoteados em meio à bazófia.

    O universo inteiro desabou sobre nós”.

Bem, me lembrem de nunca tomar o ácido ou o Santo Daime que ele tomou. É preciso observar que: esse delírio escatológico-apocalíptico está ocorrendo no mesmo momento em que BuenosAiresarde em chamas, como já vimos, naqueles tumultos todos;  e, mais importante ainda, que Alejandra entrara no mesmo lugar, e que conclusão poderíamos tirar disso?[25].

O último capítulo (o 38) começa com a afirmação : “Não posso calcular agora  o tempo que durou aquele dia. Olhem que bonito: o tempo que durou aquele dia.

Ele desperta mais uma vez, e se vê no seu esconderijoem Villa Devoto.Nãosabe como voltou para casa. Como os Cegos o deixaram sair daquele quarto “cercado por um labirinto”.

Fernando tem consciência de que vai morrer: a morte o espera, e de certa forma, com a sua aprovação, como afirma, “pois ninguém virá aqui me buscar, eu mesmo é que irei, devo ir, ao lugar onde o vaticínio se cumprirá”. Como se pode escapar à fatalidade? Nesse tipo de relato, não se pode.

As últimas palavras do relatório: É meia-noite.  Vou até lá. Sei que ela estará esperando-me[26].

E chegamos à última parte, Um Deus desconhecido, composta por sete capítulos.

Logo no início, sabemos que estamos em 24 de junho de 1955, e Martín, inquieto e sem poder dormir, corre até a chácara de Barracas, que ardeem chamas. Apolícia retira os corpos de Alejandra e Fernando e os sobreviventes: vô Pancho enrolado numa manta, numa cadeira de rodas, o louco, com seu clarinete na mão, e a velha e impassível criada índia.

A notícia sai com destaque nos jornais (é como Bruno fica sabendo, pois Martín, vagando como que idiotizado pelas ruas, ainda não foi procurá-lo, o que irá fazer, antes de ir para o Sul, e esses colóquios se entrelaçam aos que ocorrem depois da sua volta, como já falei). Os Acevedo, ramo rico e próspero da família, procuram abafar o caso e agem com eficácia no sentido de “sumir” com os sobreviventes, para evitar fofocas e mais escândalo:

“…pouco a pouco Bruno foi sabendo coisas, fragmentos, naqueles outros colóquios, naqueles absurdos e em determinados momentos insuportáveis encontros. Martín falava de repente como um robô, dizia frases desconexas,  parecia procurar algo como um rastro precioso nas areias que tinham sido varridas por um vendaval. Frágeis pegadas de fantasmas… Procurava a chave, o sentido oculto. E Bruno poderia conhecer, tinha que conhecer: não convivia com os Olmos desde a infância?”

E no capítulo seguinte tem-se algo como um depoimento de Bruno (a quem?) e ele começa a evocar as figuras de Fernando e Georgina. Ele afirma que lhe é impossível pensar em algo importante na sua vida que, de certa forma, não estivesse relacionado com a vida de Fernando (e aqui temos os curiosos espelhismos, as duplicações que abundam no romance).

Como era o Fernando que Bruno conheceu?  Instável, passando dos maiores entusiasmos às mais profundas depressões. Dono de um raciocínio lógico implacável, e de repente,  delirante. Quando crianças, Bruno o vê cometer atos de terrível crueldade com bichos indefesos, e depois em atitudes de ternura. Fingimento? Não se pode saber. “A verdade é que sempre pensei que habitavam nele pessoas diferentes” (ou seja, a mesma reflexão que Martín tem ao se deparar com Alejandra no universo do mundanismo):

“Apesar de tudo havia muito de argentino em Fernando Vidal… Embora pertencesse, pelo lado materno, a uma antiga família, não era, entretanto, como se poderia supor, a expressão unilateral e simples do que se chama agora de oligarquia nacional ou pelo menos não tinha essas peculiaridades que o vulgo espera dessas pessoas… A verdade é que os desvios que o afastavam da norma podiam dever-se por um lado à herança paterna e por outro ao fato de ser a família Olmos um tanto excêntrica e dissipada… Essa família decadente dava a impressão de ser composta por fantasmas ou por distraídos sonâmbulos, em meio a uma realidade brutal, que não sentiam, não ouviam, nem compreendiam; o que, curiosa, e até comicamente, lhes dava de saída a vantagem paradoxal de atravessar a solidíssima parede da realidade como se ela não existisse. Mas Fernando não pertencia totalmente a esse ramo, pois possuía, embora por rompantes, por furiosos acessos, uma frenética energia, ainda que essa energia fosse utilizada sempre para a negação e para a destruição…”

Bruno revela a mentira de Alejandra: Georgina não morrera quando a filha estava com cinco anos. Para ele, Alejandra tinha motivos para odiar a mãe, por isso “mentalmente a matara desde a infância”[27].  E por que o afastamento de Georgina?

Os dois (Fernando e ela) eram primos. E mais: Georgina era “assombrosamente” parecida com a mãe de Fernando, Ana Maria, tanto pelos traços físicos quanto espiritualmente. Ambas representam a quintessência da família Olmos, sem a “contaminação” do sangue dos Vidal.

Para Bruno, Georgina com relação a Vidal Olmos era como uma pessoa que está “sob o império de um hipnotizador”. Eles nunca se casaram, segundo Bruno suas relações sexuais foram “clandestinas”. Quando Georgina engravidou, foi como se a terra a tivesse tragado, ela simplesmente some do mapa e só reaparece quando a filha está com dez anos,  deixando-a com os avós na casa de Barracas (à qual sua mãe nunca mais regressou).

Bruno reviu Georgina  uma vez em 1951, logo após um casamento por interesse de Fernando. Fazia dez anos que não a via e “aos quarenta, estava acabada e envelhecida, triste, mais calada do que nunca”. Para ele, Georgina sempre foi como essas casas que existem num bairro muito afastado, quase o tempo todo fechadas e silenciosas, com moradores silenciosos e enigmáticos [28]. E por isso é espantoso vê-la em meio ao ruidoso e caótico trânsito do centro da capital (é como se Rosalina aparecesse no centro do Rio de Janeiro ou de São Paulo).

Bruno sempre a amou, sem esperança, sabendo que era um sentimento utópico “e que nossos destinos teriam de prosseguir sem se encontrar até a morte”.

E essa é a época de maior prosperidade na vida do arrivista Vidal Olmos, que perde “enormes somes” nos cassinos de Mar del Plata, embora no final acabasse na modestíssima casa de Villa Devoto. Jovem, chefiou uma quadrilha de assaltantes de bancos (“uma velha paixão”).

Bruno lembra-se de que Fernando sempre vivera obcecado pelos cegos. Pouco tempo antes da morte de Ana Maria, a mãe, ele testemunhou Fernando furando  com uma agulha os olhos de um pardal. Por causa desse incidente, Bruno nunca mais foi à sua casa , embora isso o tivesse privado da convivência com Ana Maria, a quem adorava, e pela qual Fernando (que odiava o pai) nutria uma “paixão doentia e histérica” [29].

Bruno e Fernando só se reencontram quando ambos estão com quinze anos. O pai de Alejandra vive na chácara arruinada de Barracas e, embora despreze o  “amigo”, convida-o a freqüentá-la. Lá, eles e Georgina viverão jogos perversos comandados por Fernando. E já a essa altura Georgina é dominada por ele (ambos parecem viver meio abandonados nesses recintos decadentes: “…viviam isolados do resto da casa, solitários, como um rei com um único  súdito, embora fosse mais apropriado se dizer como um sacerdote e seu único crente”). Note-se também a estrutura circular do livro, pois evocando o passado dos pais de Alejandra, como que voltamos à primeira parte, quando Martín conhece o casarão, o qual, na época do visitante Bruno (anos 20), ainda não está nas últimas, embora a família estivesse cada vez mais pobre, “sem atinar em nada sensato para ganhar dinheiro ou pelo menos para manter os restos do patrimônio”:” “Dos outros moradores da casa tive notícias incertas e esporádicas, mas nas poucas vezes em que lá estive não me foi possível ver nada do que acontecia na casa principal.

O jogo mais cruel praticado por Fernando é o de mandar Bruno, que não quer fazer feio diante de Georgina, buscar a cabeça que nessa época ainda era guardada a sete chaves por Escolástica no Mirador. Ele vai até lá, mas ao dar de cara com a reclusa, foge apavorado: “Aqueles primos começaram a ser para mim um indecifrável arcano que ao mesmo tempo me atraía e me assustava. Eram como os dois oficiantes de um culto desconhecido, do qual eu não chegava a compreender o significado  do qual se podia esperar atrocidades”.

Em 1925, Georgina expulsa Bruno daquele “pequeno rincão do mundo”, sem explicações. Quando Bruno volta a rever Fernando, é época dos compromissos políticos, para os quais nenhum dois é inclinado, mas que fazem parte da sua entrada para o mundo adulto:

“Penso naquele tempo tão remoto e as palavras que emergem da minha mente são palavras como xadrez, Capablanca e Alekhine,  Al Jolson, Cantando na chuva, Sacco e Vanzetti, Sandino e Nicarágua. Estranha e melancólica miscelânea! Mas que conjunto de palavras ligadas às reminiscências de nossa juventude não é estranho e melancólico? Tudo o que essas palavras podem sugerir culminaria naquele pesado mas fascinante período em que a vida do país e nossa própria existência sofreriam uma mudança radical. Momento precisamente relacionado à presença de Fernando, como se ele fosse um símbolo obscuro daquela época…”

    Bruno conta, então, como a freqüentação de um círculo de jogadores de xadrez o colocou em contato novamente com o tirano de Georgina, à época movimentando-se nos meios esquerdistas, principalmente dos anarquistas (e esse é um lado do romance que já deve ter merecido estudos específicos, porém terei de deixá-lo de lado).

Bruno alimenta a ambição de ser escritor, embora se sinta frustrado com as diversas tentativas. “Minha infelicidade sempre foi dupla, pois minha fraqueza, meu espírito contemplativo, minha indecisão, minha abulia sempre me impediram de alcançar essa nova ordem, esse novo cosmos que é a obra de arte”. E é nessa época que corteja novamente Georgina, sem sucesso; ela começara a pintar, e são os seus quadros que revelam a Bruno um pouco do seu enigma. E o depoimento termina de forma melancólica: “Para quê, meu Deus? Para quê?” Todo Hamlet tem a Ofélia que merece.

No capítulo seguinte (o quarto) Martín vasculha os escombros da casa de Alejandra, e novamente retoma-se o relato da Legião de Lavalle. As investigações de Martín o levam a um colóquio com o empresário Bordenave, pois ele quer esclarecer a tudo custo a verdade que lhe escapara das relações entre Alejandra e as pessoas que conheceu durante seu breve período com ela. E acabrunhado por tudo o que descobre, e pelo tanto maior que desconhecerá sempre, desafia Deus a aparecer no seu quarto ou vai se suicidar. E é claro que Deus não aparece e ele não está destinado a  se matar. O que ele faz é pegar uma mochila e oferecer-se como ajudante para o caminhoneiro Bucich, que vai até a Patagônia. As vozes fantasmagóricas da Legião de Lavalle se afastam enfim e, no meio da estrada, numa parada estratégica para um cochilo, o romance termina (ou como diz a paradoxal fórmula de Lukács na Teoria do Romance: “começou a estrada, a viagem terminou”[30]):

O céu era transparente e duro como um diamante negro.  À  luz das estrelas, a planície se estendia rumo à imensidão desconhecida. O cheiro cálido e acre da urina se misturava aos cheiros do campo. Bucich disse:

–Como é grande o nosso pais, guri…

   E então Martín, contemplando a silhueta gigantesca do caminhoneiro contra aquele céu estrelado,enquanto mijavam juntos, sentiu que uma paz puríssima entrava pela primeira vez em sua alma atormentada.

    Observando o horizonte, enquanto se abotoava, Bucich acrescentou:

–Bem, vamos dormir, guri. Ás cinco, pé na tábua. Amanhã atravessaremos o Colorado.”

Um final que só não soa falsamente esperançoso porque sabemos que, ao voltar, Martín continua empenhado em decifrar o enigma Alejandra, a nossa última jovem Parca.

Esse pequeno “raio de luz”, isto é, o pequeno toque de esperança,  também pode ser encontrado no quadro sombrio de Luz em agosto, de Faulkner. Após todo o apocalipse moral e gótico do romance, Byron Bunch, o princípio positivo do livro, assume a proteção de Lena Grove (que iniciou a história, trilhando grávida as estradas do Mississipi, prestes a dar à luz, em busca do pai do seu filho) e eles e o bebê partem de Jefferson num caminhão:

“Sentada ali no caminhão, agora que tinha o homem ao seu lado, e com o  bebê que não parou um instante de mamar, que vinha tomando o café da manhã fazia umas dez milhas como se estivesse num desses carros-restaurantes do trem, e ela olhando para fora e vendo os postes telefônicos e as cercas passando como se fosse um desfile.. Porque, depois de um tempo eu [o dono do caminhão, que está contando para a esposa] disse, Vamos entrar em Salisbury, e ela disse, O quê?, e eu disse, Salisbury, Tennesse, e olhei para trás e vi o seu rosto. E era como se esse rosto já estivesse preparado e esperando para ser surpreendido, e ela soubesse que quando a surpresa viesse ia gostar dela. E ela veio e lhe serviu. Porque ela disse:

–Ara, ara. O tanto que a gente anda. Não faz dois meses que nós estamos vindo do Alabama, e agora já é o Tennesse.”

E nisso já transcorreram várias tragédias, só que ela encontrou o que buscava: um pai para seu filho.

Outro livro cujo final alterna morte e uma tênue restauração do ciclo de vida, como se fosse insuportável ir até o fim no caminho da negatividade pura, é A escolha de Sofia, de Styron.

Sofia e seu amante judeu, Nathan (ela, sobrevivente de Auschwitz, e que teve de escolher entre os dois filhos aquele que seria enviado para a câmara de gás; ele, com uma grave doença mental), apesar de o narrador (Stingo) ter proposto (a ela, por quem se apaixonou) irem embora de Nova York e viver numa pequena propriedade que ele herdara, acabam se matando (e nós já tínhamos acompanhado 500 páginas de horrores) com cianeto.

No funeral, como é comum, todos falam alguma coisa:

“Cambaleando, meio entorpecido, pensei em Emily Dickinson, nas abelhas, na força da sua poesia, na metáfora da eternidade que aquele zumbido constituía:

Façam bem ampla esta cama,

Façam esta cama com cuidado;

E nela esperem até que o Dia do Juízo

Venha, belo e excelente.

 

Que o seu colchão seja direito,

Que acomodado esteja o travesseiro;

Que nem um ruído amarelo do sol nascendo

Perturbe este solo.

E durante algumas páginas mais, Stingo se amargura, se embebeda até que as lágrimas finalmente jorrem e ele adormeça na areia da praiaem Coney Island, vencido pelo cansaço e pela dor:

“Quando acordei, era manhã cedo, e abri os olhos para o céu verde-azulado, com seu manto translúcido de neblina. Como um diminuto globo de cristal, sereno e solitário, Vênus brilhava sobre o mar tranqüilo. Ouvi vozes de crianças perto de mim. Mexi-me. Puxa, ele acordou. Dando graças por ter ressuscitado, percebi que as crianças me tinham coberto de areia e que eu jazia, protegido como uma múmia, sob aquele fino sobretudo…  Não era ainda o dia do Juízo Final, apenas uma manhã, bela e excelente.”

E, no final, a presença agitada querendo romper a noite (literal ou metafórica) nunca é simplesmente a bruxa, a solidão. É sempre a confidência exalando-se do homem sobrevivente.

 


[1] A visão que ele tem de Buenos Aires me lembra o Carlos Drummond de Andrade do poema “A BRUXA” (de José):

“Nesta cidade do Rio,

de dois milhões de habitantes,

estou sozinho no quarto,

 

estou sozinho na América.

Estarei mesmo sozinho?

Ainda há pouco um ruído

anunciou vida a meu lado.

Certo não é vida humana,

Mas é vida. E sinto a bruxa

presa na zona de luz.

 

De dois milhões de habitantes!

E nem precisava tanto…

Precisava de um amigo (…)

…E nem precisava tanto.

Precisava de mulher (…)

Esta cidade do Rio!. (…)

…Estou cercado de olhos,

de mãos, afetos, procuras.

Mas se tento comunicar-me

o que há é apenas a noite

e uma espantosa solidão.

 

Companheiros, escutai-me!

Essa presença agitada

querendo romper a noite

não é simplesmente a bruxa.

É antes a confidência

exalando-se de um homem.”

Na 2ª. parte de Sobre heróis e tumbas, há um momento em que um “silencioso e deprimido” Martín fica olhando a noite cair sobre a cidade, contemplando um arranha-céu, “onde as janelas começavam a iluminar-se. Também ali em cima, no trigésimo ou trigésimo quinto andar, talvez no minúsculo aposento de um homem solitário, também se acendia uma luz. Quantos desencontros como o dele e Alejandra, quanta solidão somente naquele arranha-céu!”

[2] A pesquisa antropológica começou, no século XIX, a montar um retrato do heróico desde as eras mais arcaicas. O herói era o homem que podia entrar numa esfera espiritual, no mundo dos mortos, e voltar vivo.”  (Becker, Ernest. A negação da morte).

[3] Tal como os de Lúcio Cardoso, basta lembrar da Crônica da casa assassinado, contemporâneo absoluto (é de 1958), embora—a meu ver—bastante inferior.

[4] Se fosse fácil achar (o livro), eu recomendaria a leitura de Anatomia da Crítica, de  NorthropFrye, especialmente  da página 297 até a 319, que trata das formas enciclopédicas da ficção, com bastante destaque para os joyceanos Ulisses e Finnegans Wake. Uma observação nos interessa particularmente:

“Na medida em que a forma enciclopédica se preocupa com o ciclo da vida humana, surge nela um arquétipo feminino ambivalente, às vezes benévolo, às vezes sinistro, mas habitualmente presidindo e confirmando o movimento cíclico… Na idade irônica há naturalmente grande número de visões de um ciclo da experiência, amiúde presidido por uma figura feminina com associações lunares e de femme fatale… No Ulisses uma figura feminina a um só tempo maternal, conjugal e meretrícia, uma Penélope que acolhe todos os seus pretendentes e mergulha no sono com a terra sonolenta que fia, a afirmar constantemente, mas sem nunca formar, e levando todo o livro com ela.”.

[5] No original é mais bonito, grisverdosos.

[6] Onze capítulos depois: “… nossa desgraça era que não havíamos terminado de erigir uma nação quando o mundo que lhe dera origem começou a  crestar e em seguida a desmoronar, de maneira que aqui não tínhamos sequer esse simulacro da eternidade que são as pedras milenares na Europa, ou no México, ou em Cuzco. Porque aqui (dizia) não somos nem Europa nem América, mas uma região fraturada, um inóspito, trágico, turvo lugar de fratura e dilaceramento. De modo que aqui tudo resultava mais transitório e frágil, não havendo nada sólido a que se aferrar, e o ser humano parecia mais mortal e sua condição mais efêmera.”

[7] E isso me lembra um aspecto de Deitada na escuridão que eu talvez não tenha desenvolvido satisfatoriamente:  nem preciso insistir no trabalho com a linguagem e a estrutura narrativa. Seguindo as pegadas de Joyce, e especialmente Faulkner, Styron desmontou os eventos num caleidoscópio cronológico, manipulado pelo tempo psicológico, de efeito fascinante. Há, contudo, outro aspecto por meio do qual a linguagem atua poderosamente sobre a matéria do romance e lhe fornece uma substância retórica convincente: a linguagem utilizada por Milton e Helen, sentenciosa e bíblica, isola-os do mundo contemporâneo de uma forma que reproduz sua defasagem sócio-histórico (por isso, Milton seduz e ao mesmo tempo enfastia Dolly). O casal se expressa num dialeto fetichista, embalado em celofane pelos “mais nobres e altos valores”, mas que tem, de fato, pouca eficácia contra as contingências da natureza humana. Peyton cresceu dentro dessa atmosfera (daí sempre ver perfeitamente a máscara da mãe, e daí ter a crescente tendência de se embaraçar com o pai e se exasperar com as afetações retóricas dele). Ao retornar, morta, aciona novamente o mecanismo retórico que, no movimento narrativo, serve ao esmo tempo para mentir e desmascarar.

[8] Uso essas expressões mais no sentido de Northrop Frye do que no Freud,

[9] Há, também, a possibilidade não menos sinistra de que ambos tenham sido assassinados pela Seita dos Cegos.

[10] E penso aqui em Rilke, quando afirmou: “Ganhe as profundezas, a ironia não desce até lá, frase que vai de encontro ao nosso mundo de deslocamento e paródia, mas que é como um certificado de “suspensão de descrença”.

[11] Que não pode ser herói nem figura positiva devido à sua inação, limitando-se a ser um “contemplativo”.

[12] Essa primeira parte, de “Considerações Gerais”, excetuando-se alguns trechos, é na verdade o texto que escrevi há 14 anos como proposta de Dissertação de Mestrado sobre as “três jovens Parcas”, proposta que não foi aceita. .

[13] “E assim (explicou Martín) começou a terrível história. Tudo fora inexplicável. Com ela nunca se sabia, encontravam-se em lugares tão absurdos como o hall do Banco de la Província ou ponte Avellaneda. E a qualquer hora: às duas da manhã. Tudo era imprevisto, nada se podia prognosticar ou explicar…” O que lembra um pouco a relação Horacio Oliveira/Maga e o tipo de “jogo” no qual convertiam seus encontros e desencontros em Paris, no Jogo da Amarelinha, de Cortazar, publicado dois anos depois do romance de Sabato.

Num dos textos de Formas Breves, o também argentino Ricardo Piglia comenta a recorrência de um tema nos grandes autores do seu país: “trata-se na realidade da tradição do tango. O homem que perdeu a mulher olha o mundo com olhos metafísicos e extrema lucidez. A perda da mulher é a condição para que o herói do tango adquira essa visão que o distancia do mundo e lhe permite filosofar sobre a memória, o tempo, o passado, a pureza esquecida, o sentido da vida. O homem ferido no coração pode, por fim, olhar a realidade como ela é e perceber seus segredos.”

[14] Um dos sobreviventes, o vô Pancho, vive (no sentido literal) o passado e não tem quase noção do momento presente, e lembra um dos personagens mais impressionantes de Faulkner, o reverendo Gail Hightower, que é apresentado ao leitor no terceiro capítulo de Luz em agosto:

“… os moradores de Jefferson disseram que se Hightower tivesse sido um tipo de homem mais firme, o tipo de homem que um clérigo deveria ser em vez de ter nascido cerca de trinta anos depois do dia para o qual parecia ter nascido —aquele dia em que o avô fora derrubado por uma bala do seu cavalo galopante— sua esposa também teria sossegado.”

Pois para Hightower os combates da Guerra de Secessão dos quais participou o avô eram mais reais do que a sua vida quotidiana, assim como para vô Pancho o que contava de fato era a legião de Lavalle que se rebelou contra Rosas, “olhando para a realidade, a única realidade”. Já pensou uma reunião desses personagens num mesmo lugar?

[15] Em seu extremo, ela não deixa de lembrar a Rosa Coldfield de Absalão, Absalão! e a não menos reclusa Rosalina de Ópera dos Mortos.

[16] Há uma passagem no capítulo 10 que funciona bem como uma “poética” da composição do romance, com seus tempos sobrepostos:

“Sua memória é composta de fragmentos de existência, estáticos e eternos: o tempo não passa, com efeito, entre eles, e coisas que se passaram em épocas muito distantes entre si estão juntas umas das outras, vinculadas ou reunidas por estranhas antipatias e simpatias… o fio que as une e que as faz sair uma após a outra é certa ferocidade  na busca de algo absoluto, certa perplexidade, a que une palavras como pai, Deus, praia, pecado, pureza, mar, morte”.

Assim como ao atravessar a casa no capítulo 12, Martín vê instâncias temporais disparatadas jogadas e embaralhadas, como um bricabraque ou uma casa de leilão.

[17] Essa personagem me faz lembrar (sim, eu sei, eu exagero, mas não consigo evitar) outro personagem de Faulkner, dessa vez de O som e a fúria, a criada Dilsey, a única a não se deixar envolver pelo peso do passado morto que assombra os membros da família Compson e lança-os na decadência.  Por exemplo, o relógio de parede da casa bate as cinco horas, mas está errado, e Dilsey, que ouve as pancadas (as cinco pancadas) diz: “Oito horas”. Ela se mantém saudavelmente ancorada na realidade, não importando quão fantasmagórica é a atmosfera à sua volta.

[18] Num tendencioso ensaio, Três aproximações à literatura de nosso tempo, na seção dedicada a Borges (“Sobre os dois Borges”, 1964), ele repisa tudo isso:

“mais livresco que vital, mais refinado que amplo, produziu uma literatura em geral bizantina e anêmica, embora formosa. Não pelo seu caráter apátrida, mas, simplesmente, por temperamento. E, embora se dê nele esse peculiar tom metafísico de nossa melhor literatura, falta-lhe a força exigida por uma grande literatura. Mas tampouco isso pode lhe ser reprovado, pois ninguém pode ser culpado de não ser poderoso (…) seus devaneios múltiplos se distinguem do devaneio único e terrifico de Kafka como os amores de Don Juan da trágica história de Tristão (…) Este mundo cruel que nos rodeia fascina Borges, ao mesmo tempo que o aterroriza. Ele recua até sua torre de marfim…O mundo platônico é seu formoso refúgio…Por temor, por repugnância, por pudor e por melancolia, torna-se platônico. Encerrado em sua torre, elabora então seus brinquedos. Mas o remoto rumor da realidade o alcança: rumor que se filtra pelas janelas e que sobe do mais profundo de seu próprio ser… O mundo, ele não só o tem lá fora, na rua; também o tem dentro de si, em seu coração. E como isolar-se de seu próprio coração? E assim, em seus abstratos ensaios e contos, esse surdo murmúrio se filtra, se faz ouvir, se colore com frases e equívocas palavras que não deveriam aparecer, como se na palavra hipotenusa aparecesse a seu lado (qualificando-a) uma palavra tão alheia ao orbe matemático como  ´perniciosa´: ´perniciosa hipotenusa´ (…) E o Borges oculto, o Borges que tem paixões e mesquinharias como todos nós, nós o vemos ou adivinhamos atrás de suas abstrações, contraditório e culpado(…) Mas esse regresso é sempre ambíguo, sempre fica a meio caminho…E sob essa ambigüidade creio ver o secreto culto pelo que falta a ele: a vida e a força.”

[19] Não se pode esquecer que o arquétipo de toda a narrativa, segundo Frye, é a busca.

[20] Mais tarde, Bruno utilizará esse termo para caracterizar o comportamento de Georgina, a mãe de Alejandra, para com Fernando Vidal Olmos, que a domina desde menina.

[21] Pós-escrito ao Nome da Rosa; mas que modo de pagar a dívida, não?

[22] Ele afirma a certa altura que sempre se preocupou com o problema do mal, e quando criança ficava junto a um formigueiro, armado com um pequeno martelo, massacrando as formigas, e depois jogando água com uma mangueira, enfim era propiciador de catástrofes. “Depois ficava refletindo sobre o sentido geral da existência”. Mais adiante, ele nos fornece uma das chaves de sua personalidade: “Senti paixões, naturalmente, mas jamais senti afeto por alguém…”

[23] É nessa seqüência que se retoma a trama de O Túnel, repassando-a como uma Vingança da Seita contra o pintor Juan Pablo Castel, e não como a história de um ciúme doentio (narrada pelo próprio assassino, tão obcecado e paranóico quanto Fernando Vidal Olmos). Castel assassinou sua amante, Maria Iribarne, cujo marido era cego.

Nos capítulos que se seguem, Fernando recorda sua vida, em vários lugares (Paris, Roma), entretanto estou procurando me ater ao fio principal, eu sou a Ariadne de vocês nesse labirinto sabatiano, meus Teseus e Teséias.

[24] Vocês devem lembrar que Frye fala dos mundos de ascensão e descenso, mundos superiores (ligados ao desejo ou à sublimação) e mundos inferiores (ligados à experiência, ou à degradação e deformação da experiência, como é o caso presente, dos esgotos de Buenos Aires servindo como lugares infernais).

[25] Gostaria de chamar a atenção para o fato de que Sabato refez esses capítulos de delírio algumas vezes e, portanto, quem tiver ou encontrar edições e traduções anteriores a 1990, como as edições da Francisco Alves e do Circulo do Livro, encontrará passagens  mais extensas (e intensas). A tradução mais recente de Rosa Freire d´Aguiar (assim como a edição em castelhano que eu tenho) já incorpora um texto mais contido, cheio de cortes. A atmosfera alucinante permanece.

[26] Não quero forçar a barra, porém, como comparei Alejandra a Antígona, não custa lembrar da cegueira de seu pai, Édipo.

[27] O que poderia nos fazer evocar Electra (odiando a Clitemnestra que deixou Ifigênia à mercê do pai para ser imolada). Talvez um dia eu desenvolva essa idéia.

[28] Como os personagens da Casa das sete torres, de Hawthorne.

[29] E dá-lhe Crônica da casa assassinada aí!

[30] Quer dizer, os eventos finalizaram, agora é preciso dar um sentido a eles, ou procurar um sentido neles.

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01/05/2011

O DOMÍNIO DOS CEGOS: os 50 anos de SOBRE HERÓIS E TUMBAS, de Ernesto Sábato

Nota de 2011Este ano  é comemorado não só o centenário de Ernesto Sábato (que ainda vive),  em 24 de junho, como os 50 anos de seu grande romance Sobre heróis e tumbas, que me acompanha há quase 30 anos de forma muito presente, na mesma medida em que A escolha de Sofia. Entre outras experiências de leitura, meu projeto original de mestrado (em 1994) o incluía, e eu dei um curso sobre ele em 2008. A resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 09 de julho de 2002.

Quando se pensa na literatura argentina, dois romances extraordinários logo são lembrados:O jogo da amarelinha (Rayuela, 1963), de Julio Cortázar, e Sobre heróis e tumbas (Sobre héroes y tumbas, 1961, aqui comentado na tradução de Rosa Freire d´Aguiar), de Ernesto Sábato, uma visão apocalíptica da Argentina que ganhou nova tradução no Brasil (houve uma anterior, à qual se pode fazer algumas restrições, de Janer Cristaldo, publicada pela Francisco Alves e também, com uma cuidadosa revisão, pelo Círculo do Livro, a qual eu tive sorte de ler em 1982) num momento em que o país vive um pesadelo de derrocada que parece ter saído do universo sabático.

Segundo o próprio autor (numa entrevista a Emir Rodriguez Monegal), Sobre heróis e tumbas é um  “poema metafísico”.  É verdade, ainda que seja uma narrativa-síntese do destino da Argentina, ele extrapola essa moldura para se tornar uma grande investigação sobre o Mal, na linha de Dostoievski e de Faulkner. Por concentrar tantas coisas, é difícil falar a seu respeito, ainda mais se levarmos em conta a sua estrutura narrativa: na maior parte das vezes, uma situação está encavalada na outra, criando um efeito de duplicidade: os personagens espelham uns aos outros, todos têm um “duplo” na trama.

O início já é sintomático desse enovelamento dos fatos:Martín conhece Alejandra Vidal Olmos (que assassinará o pai e colocará fogo em si mesma) em 1953 e a revê—para viver os fatos culminantes do enredo—em 1955, mas ao mesmo tempo está conversando a respeito disso anos depois com Bruno, que era apaixonado pela mãe de Alejandra, Georgina (episódio detalhado na última parte do romance).

Quem são os Vidal Olmo? Uma família antiga que envergonha os ramos mais prósperos da estirpe por insistir em morar num bairro que se proletarizou (Barracas) e é constituída por uma fauna exótica e bizarra: uma Vidal Olmos viveu enclausurada durante décadas guardando a cabeça do pai, que fora decapitado pela polícia do ditador Rosas (e Sobre heróis e tumbas tem como “canto paralelo” a retirada do heróico e patético pelotão do general Lavalle, nas guerras pós-Independência).

Alejandra é a última do clã. Para se ter uma idéia sumária a seu respeito,o autor utiliza a seguinte imagem: nos contos de fada ela seria a princesa e também o dragão. A relação com ela educa sentimentalmente Martín, o atormentado herói em formação do livro (também pudera: cresceu com a mãe contando a ele as várias tentativas para abortá-lo e ele se refere à genitora como “mãe-cloaca”), enquanto ela se encaminha para a destruição, como se fosse uma Antígona perdida na era Perón.

A parte mais famosa do romance é o Relatório sobre os cegos, narrado pelo pai de Alejandra, Fernando Vidal Olmos. Nela ,Sábato radicaliza o clima aterrador do seu romance anterior, O túnel (1948): tudo é paranóia, o mundo se revela uma vasta conspiração labiríntica e o pretenso investigador do Mal é uma figura tão maligna quanto o que investiga. Para Fernando, uma Seita de Cegos domina o universo: os cegos são como que seres zoologicamente diferentes de nós, com aspectos similares aos répteis.

Só para resumir um pouco do intrincado relatório: um dos seus conhecidos, o tipógrafo Celestino Iglesias, perde a visão num acidente (que é ambiguamente contado de forma que o leitor tem a impressão de que foi causado pelo narrador), e Fernando se dedica a vigiá-lo, para assistir à sua “transformação” e poder acompanhar sua cooptação pela Seita, o que levará o pai de Alejandra aos “subterrâneos” de Buenos Aires em páginas excepcionais.

Como se vê, há muitas veredas a seguir em Sobre heróis e tumbas e a obra-prima de Ernesto Sábato não dispensa, apesar de sua densidade psicológica e filosófica, os recursos de suspense, mistério e até melodrama, que reatam a ligação da alta literatura com o folhetim, mas que cabem perfeitamente num romance que explora a fundo o território da dualidade:

“E Martín, que se sentia só, interrogava-se a respeito de tudo: da vida e da morte, do amor e do absoluto, de seu país, do destino do homem em geral. Mas nenhuma reflexão era pura, pois se fazia inevitavelmente a partir das palavras e recordações de Alejandra, em torno de seus olhos cinza-esverdeados, no fundo de sua expressão raivosa e contraditória. E, de repente,  ela parecia ser a Pátria. Tudo se misturava em sua mente angustiada e como que nauseada, e tudo rodava vertiginosamente em torno da figura de Alejandra, até que ele pensou em Perón e Rosas, pois aquela moça, súmula contraditória e viva da história argentina, parecia sintetizar tudo o que nela havia de caótico e divergente, de demoníaco e dilacerado, de ambíguo e opaco…”

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