MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

16/11/2011

ECOTERAPIA: a auto-ajuda necessária

Resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos, em quinze de julho de 2003

Numa excelente entrevista a Roberto D´Ávila, Marcelo Gleiser afirmou que é muito difícil idéias ou pesquisas falsas/anti-éticas durarem muito tempo porque a comunidade científica tem sempre como comprovar ou negar sua validade e credibilidade.

Será? O que o físico teórico e autor de livros de divulgação científica (e pelo que está anunciando, futuro romancista) não levou em conta é que essas pseudo-idéias ou pesquisas não atingem somente a comunidade científica. A força do falso, um dos textos reunidos por Umberto Eco em SOBRE A LITERATURA, discute justamente como “no curso da história, tiveram crédito crenças e afirmações que a Enciclopédia [no sentido de saber consolidado]  atual desmente factualmente…” Eco informa até os sites nos quais teremos acesso a informações sobre a teoria da “Terra Oca”: “Existem por aí muitíssimos seguidores da teoria. E é inútil dizer que os sites (e os livros que divulgam) foram criados por alguns espertalhões que especulam com um público de tolos e/ou devotos da New Age. O problema social e cultural não é representado pelos espertalhões, mas pelos tolos, que evidentemente ainda são legião”.

Sempre imagino Eco com os traços psicológicos de Guilherme de Baskerville, o monge-detetive de O nome da rosa, presumivelmente inspirado em Sherlock Holmes. Pois é, ele pode até conter uma homenagem ao herói de Conan Doyle, contudo Baskerville é muito mais inteligente do que o limitado e superestimado Holmes (cujas qualidades como personagem são de outra ordem, a meu ver), muito mais perceptivo e compassivo em relação ao que é humano, ideológica e passionalmente falando. Assim também é o pensador Umberto Eco: sempre brilhante, mas sempre interessado pelos fenômenos humanos, pelas ideologias e pelos investimentos passionais da humanidade, até mesmo pelos tolos que ainda formam legião.

Muitos dos temas de SOBRE A LITERATURA, que resgata palestras e debates mundo afora, são difíceis. O método do grande escritor italiano é um pouco como o que descreve em Ironia Intertextual e Níveis de Leitura. Quem não perceber tudo não será excluído do prazer da leitura. Ele está se referindo a obras de ficção (incluindo as suas) que trabalham com um duplo código de leitura (o leitor é uma peça-chave nos esquemas teóricos de Eco). Poderia estar se referindo aos ensaios. A imagem que utiliza é ironicamente aristocrática, a ironia e o sabor da maneira como é colocada tirando o travo da antipatia classista que ela pudesse sugerir: “É como um banquete em que sejam distribuídos no andar de baixo os restos da ceia posta no andar superior: não os restos da refeição, mas os da panela e bem postos eles também e como o leitor ingênuo acredita que a festa desenrola-se em um andar apenas, há de saboreá-los pelo que valem (e serão, ao fim e ao cabo, saborosos e abundantes), sem supor que alguém tenha recebido mais”.

Assim, leitores do andar de baixo ou do andar superior podem apreciar a análise do Paraíso de Dante e do estilo retórico do Manifesto Comunista de Marx e Engels; ensaios sobre o conceito de símbolo e sobre a ideologia do estilo; a história de três gerações intelectuais italianas e sua relação com a idéia da América (leia-se EUA). São pontos altíssimos o ensaio (mais um, e que bom!) sobre Joyce, a intersecção entre a biblioteca de Dom Quixote de La Mancha e a biblioteca de Babel de Jorge Luis Borges (e, depois, um ensaio maravilhoso sobre a influência do autor argentino na sua própria trajetória), o ensaio sobre os rípios (os pontos amorfos na estrutura de uma obra), além de um texto sobre a Poética de Aristóteles.

Eco prolonga o seu delicioso e inestimável Pós-escrito a O nome da rosa, de 1984, em Como escrevo, reflexão sobre sua produção ficcional que se estende a seus três outros romances já publicados (O pêndulo de Foucault; A ilha do dia anterior; Baudolino).

E no ensaio que deu origem ao título da coletânea, Sobre algumas funções da literatura, ele surpreendentemente parece se alinhas ás reflexões de Harold Bloom em O cânone ocidental da literatura como confronto com nossa mortalidade: “A função dos contos imodificáveis é precisamente esta: contra qualquer desejo  de mudar o destino, eles nos fazer tocar com os dedos a impossibilidade de mudá-los. E assim fazendo, qualquer que seja a história que estejam contando, contam também a nossa, e por isso nós os lemos e os amamos. Temos a necessidade de sua severa lição repressiva… Creio que esta educação ao fado e à morte é uma das funções principais da literatura. Talvez existam outras, mas não me vêm à mente agora”.

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.