MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

27/09/2010

FUMO E FASCISMO: quando sancionarão uma lei anti-borboletas da alma?

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21 de outubro de 2009

A pequena obra-prima de Paul Auster O CONTO DE NATAL DE AUGIE WREN (ver minha resenha abaixo) foi relançada pela Companhia das Letras. Como segue a tradição, consagrada no universo anglo-saxão, dos contos de Natal, cujo maior expoente foi Charles Dickens, não deixa de ser uma  leitura importante: um mestre da “modernidade líquida”, da pós-modernidade, reavivando uma tradição da “modernidade sólida”, da Era Industrial.

10 de agosto de 2009

Não sou fumante e no entanto considero autoritária, fascistóide mesmo, a lei anti-fumo (também, o que esperar de um José Serra?, um político que JAMAIS teria o meu voto nem para síndico, e a minha antipatia pela figura de Dráuzio Varella sempre me impediu de ler qualquer um de seus livros). Meus amigos não poderão mais fumar em bares e restaurantes (e, na prática, em quase em todos os lugares),mas podemos aturar gente se esgoelando nos videokês da vida, gente que pára o carro e nos despeja a música do seu (mau) gosto em altos decibéis, e que,  curiosamente, nunca é a música que a humanidade sensata gostaria de ouvir, sem contar as onipresentes tevês em todos os lugares despejando Faustão ou qualquer outro horror enquanto jantamos ou jogamos conversa fora. Ninguém acha isso invasivo ou abusivo, e longe de mim querer censurar qualquer manifestação. Mas pensando na perseguição aos fumantes, lembrei de uma antiga resenha.

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UM DETERMINADO CANTO DO MUNDO

O ponto alto das mais de 300 páginas que reúnem os roteiros Cortina de Fumaça & Sem Fôlego (Smoke & Blue in the face), lançamento da Best Seller na onda do sucesso que o filme Smoke vem fazendo há meses em São Paulo, é um texto de apenas 8 páginas escrito pelo autor do roteiro do filme, o romancista Paul Auster: O conto de natal de Auggie Wren.

Nele, Auster narra como Auggie, gerente de tabacaria, fotografa a esquina onde trabalha todos os dias, exatamente à mesma hora. Ao ver as fotos, o narrador, após acostumar-se à estranheza de tal projeto de vida, percebe a atitude zen desse homem aparentemente comum (e presença fortuita em sua vida), que lhe dará de presente um conto de natal, daqueles que Dickens consagrou (não convém contá-lo aqui): “Percebi que Auggie fotografava  o tempo, o tempo natural, assim como o humano, e o fazia plantando-se numa pequena esquina no mundo e desejando que fosse sua, montando guarda no espaço que escolhera para si mesmo”. No filme, a palavra é do próprio Auggie (uma maravilhosa interpretação de Harvey Keitel, em belo duo com William Hurt): “É a minha esquina afinal. É apenas uma pequena parte do mundo, mas as coisas também acontecem ali, assim como em qualquer outro lugar. É um registro do meu cantinho”. Infelizmente, o roteiro e o filme estão longe de ter o encanto diáfano do conto, a síntese densa que esse texto tão simples faz dos encontros na cidade grande, das doações insólitas e dos pequenos logros que aproximam estranhos. Sente-se, no filme, que faltou diretor para o material, que o redimensionasse cinematograficamente, aproveitando as infinitas possibilidades poéticas do texto durante as duas (longas) horas de projeção. Também, o que se poderia esperar de Wayne Wang, diretor daquela chorumela chamada O Clube da Felicidade e da Sorte? A colaboração Wang/Auster quase tira a credibilidade do autor de alguns livros simplesmente brilhantes. Mesmo assim, milagres acontecem (e não apenas natalinos ou na rua 34) e Cortina de Fumaça, no geral, ficando no limite da pieguice, apesar dos grandes atores, apresenta dois ou três momentos de genuínos de cinema, o que já é muito, não? Curiosamente, esses dois ou três momentos estão umbilicalmente ligados ao clima do pequeno texto já referido.

No geral, excetuando-se o lindo conto, Cortina de Fumaça & Sem Fôlego interessa a quem quiser conhecer melhor o “cantinho de mundo” de Paul Auster. Não faltam momentos saborosos, basta ler algumas das rápidas vinhetas que constituem as cenas do roteiro de Sem Fôlego, outro projeto em parceria com Wang (e que se ressente das pontinhas excessivas de gente famosa, quando o melhor são os mais desconhecidos, como Giancarlo Espósito). Dessa vez, apenas Auggie aparece, sem o escritor que o grande Hurt encarnava e que era o ponto de ligação das histórias. É como um “A Praça é Nossa” em versão “The New Yorker”.

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O volume traz, entretanto, uma importante entrevista com Auster, realizada por Annete Insforf, na qual (entre outras mil coisas), em poucas palavras o autor de A Música do Acaso (um dos romances-chaves da nossa época) trata lucidamente da histeria fascista que virou a perseguição aos fumantes (e o texto-filme tem muito do seu sabor calcado na politicamente incorreta e deliciosa exaltação ao ato de fumar):

“O fato é que as pessoas fumam. Se não me engano, mais de um bilhão de pessoas fuma diariamente. Sei que o lobby antifumo se fortaleceu muito nos últimos anos… Não estou dizendo que fumar seja bom, mas comparado aos ultrajes políticos, sociais e ecológicos cometidos todos os dias, o tabaco é questão menor. As pessoas fumam —é um fato. As pessoas fumam e gostam disso, mesmo que não lhes faça bem”.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 14 de novembro de 1995)

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