MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

31/12/2013

Destaque do Blog: TOTEM E TABU- 100 anos

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“O problema pareceria ainda mais difícil se pudéssemos admitir que existem moções psíquicas que podem ser reprimidas de maneira tão radical que não deixam nenhum fenômeno residual. Só que isso não ocorre. A mais forte repressão tem de dar lugar a moções substitutivas distorcidas e às reações que delas se seguem. Mas então estamos autorizados a supor que nenhuma geração é capaz de ocultar da seguinte seus processos psíquicos mais significativos. É que a psicanálise nos ensinou que cada ser humano possui um aparelho em sua atividade mental inconsciente que lhe permite interpretar as reações de outros seres humanos, isto é, desfazer as distorções que o outro empreendeu na expressão de seus sentimentos. Por essa via da compreensão inconsciente de todos os costumes, cerimônias e normas deixadas pela relação original com o pai primordial, mesmo as gerações mais tardias poderiam ter sido bem-sucedidas na recepção daquela herança emocional.”

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 31 de dezembro de 2013)

Aos 57 anos, vivendo um momento crucial nas suas relações (foi a época da ruptura com Jung), Sigmund Freud (1856-1939) publicou um de seus trabalhos mais importantes, cujas ideias básicas circularam intensamente pela corrente sanguínea do século passado, mesmo combatidas, ridicularizadas como fantasiosas, postas em dúvida por avanços em diversos campos científicos: Totem e Tabu, que chegou ao  centenário em 2013[1].

Reunindo quatro ensaios, o sempre arrojado criador da psicanálise analisa os dois termos do título utilizando seu vasto conhecimento de arqueologia, etnologia, mitologia e folclore; dessa forma, faz um escrupuloso mapeamento enciclopédico, um hábito seu desde sua primeira obra de vulto, A Interpretação dos Sonhos (1900), mesmo desculpando-se frequentemente com o leitor pela exposição sumária das concepções totêmicas e animistas dos chamados povos primitivos (totem, grosso modo, seria o ser ou o objeto venerado por um grupo humano— sendo o mais comum um “animal sagrado”)[2].

O que chama a atenção de Freud para o totemismo é a presença universal do tabu do incesto. Por que esse horror tão arraigado? A partir do segundo ensaio (O tabu e a ambivalência dos sentimentos), sua experiência clínica e analítica com indivíduos neuróticos, obsessivos, servirá de paralelo ao bosquejo empreendido do papel do tabu na psicologia dos povos. Em ambos os casos, há uma aparente ausência de motivos para os preceitos proibitivos; há um caráter deslocável (o objeto pode mudar) e um perigo de contágio e mácula pelo proibido; há a reiteração através de  ações cerimoniosas, rituais, por necessidade interior (pressão psíquica).

Como se sabe, o autor de Totem e Tabu era um escritor notável e um ótimo “contador de casos”, então não é árduo nem árido acompanhar esse progressivo entremeio das disciplinas coletivas (estudo dos povos e das mentalidades) e de casos individuais. Aonde ele quer chegar? À afirmação de que os mecanismos psíquicos em jogo são ambivalentes: o que é afeto e veneração também oculta ódio e hostilidade. Assim ficaria explicada a relação complicada dos vivos com seus mortos — e concepções como a de seres sobrenaturais malignos, como os demônios.

O terreno fica preparado para os dois últimos ensaios, saltos mortais em termos teóricos. Em Animismo, Magia e Onipotência dos Pensamentos, Freud equipara a fase animista (calcada no “pensamento mágico”), pré-religiosa dos povos com o narcisismo, uma de suas concepções fundamentais com relação ao desenvolvimento da personalidade, quando o caráter não se submeteu ainda ao princípio da realidade.

A proposição freudiana mais avassaladora faz sua aparição no ensaio-clímax, O Retorno Infantil do Totemismo. Partindo do conceito de Darwin sobre o agrupamento humano das origens, a horda, e rastreando o costume da “refeição totêmica”, da festa onde se partilha o animal sagrado, que depois se metamorfosearia em várias práticas religiosas (como a eucaristia), ele especula que o surgimento da religião (com todas as suas noções de culpa e expiação) estaria imbricado no complexo de Édipo (a fixação no Pai). Na horda primitiva, o pai tomava para si todas as mulheres e excluía os filhos do poder e da coabitação sexual. Eles então se uniram (tal como se fossem os Irmãos Karamázov da Pré-História) contra ele, executando o crime primordial, o parricídio, que desde então ficou inculcado na psique das futuras gerações (isso é que inconsciente coletivo!).

Nenhum deles tinha a força do pai para liderar a horda e assim surgiram os clãs humanos fraternos (com todas as suas ambivalências). A figura paterna nunca foi esquecida, porém. Transformou-se no animal totêmico e em torno dele se constelaram tabus, preceitos do que era permitido ou proibido e assim a humanidade chegou às suas primeiras criações institucionais em torno da moralidade e da adoração de um ser divinizado: “… no complexo de Édipo coincidem os inícios da religião, da moralidade, da sociedade e da arte, em completa concordância com a constatação da psicanálise de que esse complexo constitui o núcleo de todas as neuroses (…) Supomos, sobretudo, que a consciência de culpa referente a um ato pode sobreviver por mitos milênios e permanecer eficaz em gerações que nada podiam saber desse ato.”

Ou seja, esse pequeno volume revelava-se nada menos que explosivo em sua grande síntese da história humana, a qual (como  Freud mesmo diz) confirmava o que os devotos costumam dizer: “que todos nós somos grandes pecadores”.

Não é ocioso acrescentar que o próprio Freud experimentava naquele momento o agudo temor do parricídio, com a deserção de  Adler e Jung[3]. No final, ele acabaria sendo desmembrado numa espécie de refeição totêmica entre seus discípulos, os fraternos e os hostis.

Nota sobre a epígrafe- O que Renato Zwick traduz como “moção”, é traduzido por Paulo César de Souza e Órizon Carneiro Muniz como “impulso”.

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TRECHO SELECIONADO

[na versão de Renato Zwick]:

As mais antigas e mais importantes proibições do tabu são as duas leis fundamentais do totemismo: não matar o animal totêmico e evitar relações sexuais com os membros do sexo oposto pertencentes ao mesmo totem.

    Esses seriam, portanto, os mais antigos e mais fortes desejos do ser humano. Não poderemos compreender isso e, consequentemente, não poderemos testar nossa hipótese nesses exemplos enquanto o sentido e a origem do sistema totêmico continuarem tão completamente desconhecidos para nós. Mas quem conhece os resultados da investigação psicanalítica do indivíduo será lembrado, pelo teor desses dois tabus e pelo fato de estarem associados, de algo bem determinado que os psicanalistas declaram ser o ponto nodal dos desejos infantis e o núcleo da neurose.

    A diversidade dos fenômenos do tabu, que levou às tentativas de classificação anteriormente comunicadas, se funde para nós numa unidade, e da seguinte maneira: o fundamento do tabu é um ato proibido para o qual existe uma forte inclinação no inconsciente.

[na versão de Paulo César de Souza]:

As mais antigas e importantes proibições do tabu são as duas leis fundamentais do totemismo: não liquidar o animal totêmico e evitar relações com os indivíduos do mesmo totem que são do sexo oposto.

    Esses devem ser, então, os mais antigos e poderosos apetites humanos. Não poderemos compreender isso, nem verificar nossa premissa com base nesses exemplos, enquanto o sentido e a origem do sistema totêmico nos forem tão desconhecidos. Mas, para quem conhece os resultados da investigação psicanalítica do indivíduo, o próprio enunciado desses dois tabus e o fato de andarem juntos lembrarão algo bastante definido, que os psicanalistas veem como o ponto nodal dos desejos infantis e como núcleo da neurose.

     A variedade das manifestações do tabu, que levou às tentativas de classificação já mencionadas, reduz-se para nós a uma unidade: o fundamento do tabu é uma ação proibida, para a qual há um forte pendor no inconsciente.

[na versão de Órizon Carneiro Muniz]:

As mais antigas e importantes proibições ligadas ao tabu são as duas leis básicas do totemismo: não matar o animal totêmico e evitar relações sexuais com os membros do clã totêmico do sexo oposto.

    Estes devem ser, então, os mais antigos e poderosos dos desejos humanos. Não podemos esperar compreender bem isso nem testar nossa hipótese com esses dois exemplos, enquanto ignorarmos totalmente o significado e a origem do sistema totêmico. Mas a enunciação desses dois tabus e o fato de sua concomitância farão lembrar a qualquer pessoa familiarizada com os achados de pesquisas psicanalíticas em indivíduos algo bem definido, que os psicanalistas consideram como sendo o ponto central dos desejos da infância e o núcleo das neuroses.

     A multiplicidade das manifestações do tabu, que levaram às tentativas de classificação que já tive ocasião de mencionar, ficam reduzidas pela nossa tese a uma única unidade: a base do tabu é uma ação proibida, para cuja realização existe forte inclinação do inconsciente.

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[1] [1] A tradução comentada nesta resenha é a de Renato Zwick  (L&PM, 2013): Totem e Tabu- Algumas correspondências entre a vida psíquica dos selvagens e dos neuróticos [no original Totem und Tabu.Einege Übereinstinmmugen in Seelenleben der Wilden und der Neurotiker], com revisão técnica de Paulo Endo. Zwick já nos brindara este ano com uma nova versão de A Interpretação dos Sonhos.

Para fins de consulta e comparação, utilizei também as seguintes traduções:

— de Paulo César de Souza (Totem e Tabu, Contribuição à História do Movimento Psicanalítico e outros textos, volume 11 de “Sigmund Freud- Obras Completas, Companhia das Letras, 2012)—uma edição um tantinho “enxugada” dessa versão de Totem e Tabu foi publicada à parte pela Penguin/Companhia das Letras (2013);

–de Órizon Carneiro Muniz (Totem e Tabu e outros trabalhos, 1913-1914, volume XIII da Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas de Sigmund Freud, Imago, 2006.

[2] Logo no início do terceiro ensaio há uma nota de rodapé que se reveste de uma conotação divertida. Ali, como em outras passagens, Freud lamenta a necessidade de simplificar o material. E arremata: “A autonomia do autor apenas se pode manifestar na escolha que fez  dos temas e das opiniões”.

A diversão fica por conta do “apenas”. Ora, Freud sempre foi um autor muito consciencioso com suas fontes. Mas todo esse escrúpulo não o impede de, ao fim e ao cabo, tratar toda aquela vastidão apenas como território introdutório para o essencial, o realmente novo e desbravador, que vai surgir da “escolha” que fez dos temas e a expressão das “opiniões”; em suma, aquilo que “apenas” lhe coube.

E quando se tem consciência do teor das conclusões de Totem e Tabu, um salto no abismo (ainda mais do que todas as hipóteses psicanalíticas anteriores), afora a própria personalidade do seu autor, aí sim a nota ganha um toque quase malicioso.

Outra nota de rodapé (tenho uma predileção possivelmente patológica por notas de rodapé), muito sensata e esclarecedora, que eu gostaria de ressaltar, aparece no quarto ensaio. Nela, somos advertidos de que o estudo dos chamados povos primitivos muitas vezes se deu por vias indiretas, que facilitaram visões possivelmente deturpadas e “construídas”: “Não se deve esquecer que os povos primitivos não são povos jovens, e sim, na verdade, tão antigos quanto os mais civilizados, e que não se tem direito a esperar que tenham conservado suas ideias e instituições originais sem qualquer desenvolvimento e distorção para que tomemos conhecimento delas”. Mais adiante: “Assim, a determinação do estado original é sempre uma questão de construção”.

Assumindo esse terreno escorregadio (ou mesmo pantanoso) para as suas construções, ou seja, suas hipóteses avassaladoras, nem por isso  Freud estava menos convicto da sua veracidade básica (e já adianto que ele consegue deixar o seu leitor convicto dessa veracidade, apesar de todos os avisos formais e corretos).

[3] É preciso ter em mente que Totem e Tabu também é, em larga medida, um libelo anti-Jung; este também à época se embrenhava em mitologia, folclore, religião e psicologia dos povos, com resultados inteiramente diferentes (e inaceitáveis para Freud, principalmente pela motivação “ariana” que fundamentava as investigações junguianas), que resultaram num de seus livros mais famosos, e o primeiro importante,  Metamorfoses e Símbolos da Libido (1912), cuja versão definitiva ficou como Símbolos da Transformação (volume 5 das Obras Completas)- uma leitura árdua, ao contrário do livro de Freud.

Sobre esse momento específico da vida de Jung ver aqui no blog: https://armonte.wordpress.com/2013/03/22/forever-jung-o-cinquentenario-da-sua-morte-e-o-livro-vermelho/

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23/04/2012

Uma toca de coelho para o país das maravilhas freudianas (ELIZABETH segunda)

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/04/12/o-que-nao-tem-governo-nem-nunca-tera-elizabeth-primeira/

Em 1908, enquanto O caráter e o erotismo anal atraía indignação e ridículo ao ser publicado, a chamada “Sociedade Psicológica das Quarta-feiras”, círculo que se reunia em Viena em torno do autor do ousado ensaio, Sigmund Freud (1856-1939), tornou-se a “Sociedade Psicanalítica de Viena”; e em abril do mesmo ano ocorrerá o Primeiro Congresso Internacional de Psicanálise, já com 42 participantes, diante dos quais um nada ridicularizado e nada coberto de ridículo “Pai” do movimento psicanalítico apresentará suas Observações sobre um caso de Neurose Obsessiva, relatando o famoso caso do Homem dos Ratos.

Muita gente pensa ser difícil ler Freud sem o devido instrumental. Não é. Como Harold Bloom já demonstrou, trata-se de um grande escritor, além do maior gênio do último século. Mesmo assim, há uma “oscura selva” formada pelos vários períodos em que os conceitos freudianos foram sendo apresentados e revistos, e mesmo a leitura de obras como A interpretação dos sonhos; Psicopatologia da vida quotidiana; O chiste e sua relação com o inconsciente; Totem e Tabu; Luto e Melancolia ou O ego e o id, que considero essenciais, representa um investimento intelectual parcial e fragmentário. O que me ajudou muito foram alguns livros que serviram para compensar em parte minhas lacunas, como Freud, uma vida para o nosso tempo, de Peter Gay; As idéias de Freud, de Richard Wolheim; Freud, além da alma, de Jean-Paul Sartre (que forneceu a matéria prima para o extraordinário filme de John Huston, com Montgomery Clift); A negação da morte, de Ernest Becker; Freud: a trama dos conceitos & Freud, pensador da cultura, de Renato Mezan. Só que são todos aventuras de leitura, isto é, livros totalizantes e tantalizantes que demandam muita concentração e agregam muitas outras leituras consigo.

Para o leitor comum, desejoso de uma introdução mais simples e prática, porém não completamente esquemática, há uma opção simpática que saiu recentemente: Dossiê Freud, de Elizabeth Mednicoff [1] , onde podemos encontrar os acertos e erros dos trabalhos de divulgação.

O livro é dividido em quatro partes. A primeira é mais biográfica, contextualizando Freud em sua época e cidade, e sintetizando os percalços da sua carreira e da constituição do movimento psicanalítico. Há coisas banais e rasas como uma seção de triviais “frases famosas” (pobre Freud, cuja escrita era tão elegante e complexa!) e uma incômoda falta de polimento, como se o texto fosse escrito aos trambolhões e não houvesse um esforço maior de revisão, de forma a evitar repetições da mesma informação (pior ainda, com a mesma formulação) e escorregadas para o tom de revista Marie Claire, do tipo: “Mostrava-se muitas vezes um homem inseguro, inibido, possessivo e ciumento. Apesar de suas idéias revolucionárias na época, era conservador com relação às mulheres, fazendo comentários que enalteciam os serviços das mulheres dentro de casa e não fora dela”. Após ter escrito tal trecho, sem a menor transição lemos em seguida: “Freud, acima de tudo, foi corajoso, determinado e desbravador.” Ora, ora, ora, ela acabara de fazer uma observação que abre uma fissura contraditória na personalidade (fascinante, aliás) de Freud e depois faz tal panegírico tosco, e desconexo completamente com as afirmações imediatamente anteriores!

A segunda já é mais redentora (embora com a mesma falta de cuidado com a escrita que horrorizaria o autor de O futuro de uma ilusão), com uma exposição clara dos principais conceitos elaborados por Freud, desde a sua concepção neurológica, arrojada para a sua época, do cérebro, com neurônios e descargas de energia, que se associou ao estudo inicial do fenômeno da histeria e dos estados psicopatológicos, até o aprofundamento de uma divisão da vida simbólica do indivíduo, desde a mais remota infância, um processo caracterizado pela repressão e pelas chamadas fases (oral, anal, fálica e genital), que constroem o universalmente conhecido “Complexo de Édipo”, e polarizado pela pressão exercida sobre o ego pelo id e pelo superego:

“O id é o sistema original, a matriz, de onde o ego e o superego vão se desenvolver posteriormente. É formado pelos aspectos psicológicos herdados e presentes no nascimento, incluindo os instintos… está voltado a satisfazer nossas necessidades básicas. Sua atividade consiste em impulsos que buscam o prazer, procurando adquirir a gratificação e não suportando a frustração. É aquele nosso lado instintivo que não mede as conseqüências dos atos para se satisfazer. Os conteúdos do id são quase todos inconscientes e incluem aspectos que nunca se tornaram conscientes e outros que foram considerados inaceitáveis pelo consciente (…) Entretanto, à medida que a criança vai crescendo, aprende que precisa se adaptar às exigências e condições impostas pelo meio em que vive, pois nem tudo que deseja consegue. O id não deixa de existir, ele nos acompanha e permanece em nossa vida adulta. Mas para que ocorra essa adaptação [ao princípio da Realidade, subjugando o princípio do Prazer], uma nova parte do aparelho psíquico se desenvolve a partir do id: o ego, cuja principal função é agir como intermediário entre o id e o mundo externo. É o ego que aprende a controlar e regular os impulsos do id… A criança continua a se desenvolvendo e descobre que existem normas, regras, padrões, de moralidade tanto dos pais quanto da sociedade. Então começa a ouvir as proibições, o que é feio, o que é vergonhoso, e assim acaba incorporando essas crenças à estrutura psíquica, formando, a partir do ego, o superego, o qual, então, passa a exercer um papel, vamos dizer assim [sic] de censura imediata… O superego, portanto, é o oposto do id. Enquanto o id vive satisfazendo as necessidades imediatas, o superego funciona reprimindo. Nenhum deles é realista e imaginem a confusão, já que duas partes da nossa personalidade são completamente opostas e, assim, geradora de conflitos. Com o passar do tempo, tais conflitos emocionais, problemas mal resolvidos e as disputas entre o id e o superego na infância vão gerando as neuroses que temos quando adultos.”

 

A terceira parte descreve os métodos desenvolvidos por Freud a partir do abandono da hipnose (para curar os sintomas histéricos, na pré-história da Psicanálise), já que suas teorias também envolvem a prática clínica.

O achado mais feliz é colocar na quarta parte alguns casos clínicos famosos, que ajudaram Freud na constituição e revisão dos seus maiores insights (Anna O., a qual foi paciente de Josef Breuer, um dos mentores de Freud, e que teve a duvidosa honra de ter sido escolhido por Irvin D. Yalon como protagonista de Quando Nietzsche chorou; O homem dos ratos; o pequeno Hans; Elizabeth Von R.; Dora; o homem dos lobos). Depois, há uma bobagem típica da nossa era de iluminações-miojo e auto-ajuda fast food: conselhos para uma auto-análise psicanalítica. Tudo bem que foi assim que Freud revolucionou a si mesmo, escrevendo o seu belíssimo Interpretação dos sonhos, porém da maneira como a receitinha é proposta só vai fazer Nietzsche chorar mais ainda.

 

(resenha publicada originalmente em 17 de maio de 2008,  em “A Tribuna” de Santos)


[1] Psicóloga clínica, com especialidade em Psicodinâmica, seja lá o que for isso. Ela tem um site para visitação: www.novoequilibrio.com.br, caso alguém se interesse mais pelo seu trabalho.

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