MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

29/07/2013

FIDALGO E CAVALEIRO, E SEMPRE ENGENHOSO

Vladimir Nabokov, o autor de Lolita, considerava DOM QUIXOTE  “antiquado, sórdido e grosseiro”. Trata-se de uma exceção porque o livro de Cervantes (cujo primeiro volume chega, em 2005, aos 400 anos), é particularmente amado por todos os que gostam de ler e que vêem em seu protagonista um símbolo da curiosa atividade que é a leitura.

O genial escritor do século XVIII Laurence Sterne faz várias referências brincalhonas e carinhosas a Cervantes em seu extraordinário (e quixotesco) Tristram Shandy: “Gentil Espírito do mais brando  humor, que outrora pousaste na pena desembaraçada do meu amado Cervantes”, lemos, por exemplo, no capítulo 24 do volume IX.

Pois bem, nos 400 anos do Cavaleiro da Triste Figura, o leitor brasileiro tem nas livrarias muitas versões resumidas, adaptações e, felizmente, algumas traduções completas. A mais prestigiada atualmente (mas que só contém o primeiro livro, O engenhoso fidalgo D. Quixote de La Mancha, pois há 2 Quixotes) é a de Sérgio Molina, numa edição bilíngüe da 34. A Nova Aguilar relançou ano passado a tradução clássica dos Viscondes de Castilho e Azevedo, e há uma edição sempre encontrável, de Eugênio Amado, pela Itatiaia. Só que a tradução de que eu mais gosto (e nisso não preciso ser necessariamente seguido por ninguém, dada a qualidade das outras) é a de Almir de Andrade e Milton Amado, que a Ediouro também reeditou há pouco. O que enche a paciência é encontrar, EM TODAS (e em outras edições), devido a uma incrível falta de imaginação e iniciativa, as indefectíveis gravuras de Gustavo Doré. Parece que ninguém pensa em ilustrar a obra-prima de Cervantes de outra forma. E na edição da Nova Aguilar, embora caríssima, as gravuras são reproduzidas  de forma tão péssima que o leitor precisa fazer um jogo de adivinhação o traço marcante do mais famoso ilustrador de todos os tempos, parece um teste de rorschach.

Cervantes (1547-1616) passou muitos anos como prisioneiro em Argel, até que conseguissem pagar seu resgate (era época de corsários e guerra com os árabes,  e tudo isso permeia seu grande romance). Publicou O engenhoso fidalgo em 1605, quando se encontrava empobrecido e esquecido, e o sucesso foi tamanho e o livro se difundiu de tal forma que alguém (certamente um inimigo literário, que utilizou o nome de Alonso Fernando de Avellaneda), em 1614,  publicou a continuação apócrifa das aventuras da dupla Quixote-Sancho Pança (na verdade, esse falso Quixote não é destituído de graça), ainda que no final do original aparecesse até o epitáfio do herói (junto com os epitáfios de Sancho, de Dulcinéia e até do cavalo Rocinante).

No ano seguinte, apareceu então o segundo livro, O engenhoso cavaleiro D. Quixote de La Mancha (já que num dos episódios mais divertidos e irreverentes do primeiro o dono de uma estalagem sagra como cavaleiro o fidalgo enlouquecido pela leitura de romances de cavalaria), poucos meses antes da morte do autor. Ele queria que, através das aventuras farsescas (e aí entram os famosíssimos episódios da luta contra moinhos de vento ou contra odres de vinho, que se afiguram gigantes a D. Quixote, rebanhos que viram exércitos inumeráveis, estalagens que se tornam castelos, etc) dos seus dois heróis, jogados no mundo que nada tem de idealizado, e através de um humor nem sempre brando e sim às vezes bastante escrachado, os leitores sentissem a insuficiência da literatura ligada aos feitos heróicos, tema amplamente discutido, em vários momentos; o principal deles, quando D. Quixote é conduzido, enjaulado,  a sua casa –acreditando-se enfeitiçado– pelo cura e pelo barbeiro da sua aldeia, e o primeiro deles conversa com um cônego, e é aí que Cervantes expõe de forma clara seus pontos-de-vista e faz profissão de fé do tipo de relato ficcional e de teatro que ele gostaria que fossem  praticados, além de colocar a teoria em prática nos diversos relatos intercalados à história principal.

O que ele acabou realizando foi o paradigma da ficção ocidental, praticada a partir dele, o livro-referência de todos os romancistas (Nabokov que resmungue à vontade). Ou alguém pensa que a matriz da jornada de Frodo e Sam Gamgi (sem contar a própria relação entre eles), em O senhor dos anéis, é outra?

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA, de Santos, em 30 de abril de 2005)

 

09/06/2012

Personagem mesquinho, texto grandioso


(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 17 de outubro de 2000)

 

Bastará dizer que sou Juan Pablo Castel, o pintor que matou Maria Iribarne”. Uma das mais primorosas frases de abertura da literatura. Ficamos sabendo quem é o narrador, o que ele faz e o acontecimento principal da história que será contada.

Trata-se do início de O TÚNEL (El túnel, 1948, traduzido por Sérgio Molina).A Companhia das Letras aproveitou o lançamento de um texto inédito no Brasil de Ernesto Sabato, Antes do fim, para publicar também uma nova tradução do seu primeiro texto de ficção. Já houve duas anteriores: em 1961, a de Noelini Souza para a Civilização Brasileira (depois reeditada pelo Círculo do Livro), que tem diversos trechos suprimidos nas posteriores, e a de 1980, de Janer Cristaldo, para a Francisco Alves, ambos—tradutor e editora—responsáveis pela publicação de vários textos do argentino no Brasil.

O Túnel é uma história de ciúme e crime passional. A obsessão de Juan Pablo Castel por Maria Iribarne, a “única pessoa que o compreendia no mundo” desmascara o machismo desenfreado: para ele, Maria não pode ter vida própria, é um insulto e uma traição, não pode viver sem girar à sua orbita, “compreendendo-o infinitamente”. Narrando a história dos dois, o tom é de mártir: eu achava que tinha encontrado a única pessoa no universo que me compreendeu, mas ela me traiu etc etc. Como sempre nesses casos, a vítima se torna culpada.


O relacionamento é apresentado como um inquérito policial: há infinitos interrogatórios e sessões de tortura psicológica, Castel interroga, mas nunca acredita no que ouve.

Sintomaticamente, a lembrança que ele tem da mãe é a seguinte: “Minha mãe não perguntava se tínhamos comido alguma maçã, pois negaríamos. Perguntava quantas, dando astuciosamente como sabido o que ela queria saber: se tínhamos comido ou não a fruta. E nós, levados sutilmente por aquela ênfase na quantidade, respondíamos que tínhamos comido apenas uma maçã”. Também de forma sintomática, no momento em que Maria está “abrindo o coração”, por assim dizer, a Juan Pablo (eles estão numa paisagem que lembra a pintura dele que os aproximou), ele, que tanto a interrogara, está tão absorto nas suas próprias ruminações que não a ouve: “Tive a impressão que ela acabara de fazer uma confissão preciosa que eu, como um imbecil, perdera” (note-se o termo utilizado, confissão, como se ela fosse uma mentirosa contumaz da qual se precisasse arrancar a verdade).

Com todo esse peso patológico, e mesmo levando-se em conta como Juan Pablo Castel é um personagem desagradável, paranóico e misógino (pois sentimos um verdadeiro ódio às mulheres em várias passagens), O Túnel é uma obra-prima, rastreando de forma angustiante os mecanismos psicológicos que regem esse sentimento inquisitorial que é o ciúme (como Shakespeare, Machado de Assis, Proust, Graciliano Ramos e Graham Greene nos ensinaram) e todas as suas conseqüências: o desejo de posse, a necessidade de anular o outro.

Não deixa de ser curioso, portanto, que o resultado final tenha desagradado o autor.Terá sido revelador demais? Segundo ele, houve um certo empobrecimento da sua intenção inicial, que era mostrar um desespero metafísico, uma solidão absoluta.

Por isso, no seu livro seguinte, Sobre heróis e tumbas (1961), ele fez uma releitura dos fatos narrados em O Túnel, através de outro personagem desagradável, paranóico e misógino, num grau bem mais radical, Fernando Vidal Olmos. Este acredita que há uma conspiração de Cegos dominando o planeta e que Castel (o qual manifestara sua aversão a eles; e não esqueçamos a cegueira de Allende, marido de Maria Iribarne) fora uma vítima da vingança da Seita.

Sobre heróis e tumbas é um romance tão fascinante e poderoso que se corre o risco da versão de Vidal Olmos dos fatos prevalecer. Para se precaver dessa tentação, o leitor deve atentar para o seguinte: não é interessante que além de compartilhar com Castel várias características (o ódio à humanidade, a hostilidade para com as mulheres) haja também em Vidal Olmos uma obsessão com cegos quando lembramos que o maior escritor da Argentina, Jorge Luis Borges (que aparece como personagem e sobre o qual há várias páginas de discussão em Sobre heróis e tumbas), era cego, e quando sabemos que Ernesto Sabato teve com ele uma relação de amor-ódio, de admiração-rejeição (parece que também há uma mulher envolvida no imbróglio)?

Portanto, ao tentar tornar o narrador do seu primeiro livro menos mesquinho, engrandecendo-o com uma trama mais metafísica e épica (só que, como em Angústia, de Graciliano, é muito mais marcante o psicológico do que o metafísico em Ernesto Sabato), o grande escritor argentino só conseguiu insinuar novos mecanismos de rancor e vingança pessoal, mais dos seus outros “cantos escuros”, como James Ellroy. É o caso de dizer que a emenda saiu pior que o soneto. Felizmente, todos esses lados mesquinhos e escuros geraram ficções memoráveis. E O Túnel é, sem dúvida, o seu texto mais perfeito.

ANEXO: AS TRÊS TRADUÇÕES DO LIVRO

I

A tradução de Noelini Souza foi publicada pela primeira vez em 1961 pela Civilização Brasileira; em 1976, foi relançada pela Alfa-Ômega (com paginação semelhante), e alguns anos depois (é sempre difícil determinar) pelo Círculo do Livro.

Um trecho dessa tradução:

“Tão logo saí do correio ocorreram-me duas coisas: não havia dito na carta por que deduzira ser ela amante de Hunter  e não sabia o que me levava a feri-la tão impiedosamente: talvez fazê-la mudar sua maneira de ser, no caso de serem certas as minhas conjecturas?[1] Isso era evidentemente ridículo. Fazê-la correr para mim? Não era crível que o conseguisse com tais procedimentos. Refleti, todavia, que, no fundo da minha alma, só ansiava pela volta de Maria.[2] Mas,neste caso, por que não dizê-lo diretamente, sem magoá-la, explicando-lhe haver fugido do sítio por ter subitamente percebido os ciúmes de Hunter? Afinal de contas, minha conclusão de ser ela amante de Hunter, além de ultrajante, era completamente gratuita; em todo o caso era uma hipótese, que eu me podia formular com o único propósito de orientar minhas investigações futuras.

   Uma vez, pois, cometera uma asneira, com o meu costume de escrever cartas muito espontâneas e enviá-las em seguida. As cartas importantes têm de ser retidas pelo menos um dia, até que se vejam claramente todas as possíveis consequências.

   Restava um recurso desesperado: o recibo! Procurei-o em todos os bolsos, mas não o encontrei: deveria tê-lo jogado estupidamente por aí. Voltei correndo ao correio e entrei na fila das cartas registradas. Quando chegou a minha vez, perguntei à empregada, enquanto fazia um horrível e fingido esforço para sorrir:

__ Não me reconhece?

   A mulher fitou-me com assombro: decerto pensou que eu era louco. Para livrá-la do seu terror, disse-lhe ser a pessoa que acaba de enviar uma carta para o Sitio dos Umbuzeiros. O assombro daquela estúpida pareceu aumentar e, talvez com o desejo de comparti-lo ou de pedir conselho diante de algo impossível de compreender, volveu o rosto para um colega; depois, fitou-me de novo:

__ Perdi o recibo—expliquei.

  Não obtive resposta.

__ Quero dizer que necessito da carta e não tenho o recibo (…)

__ O senhor quer que lhe devolvam a carta?

__ Sim, é isso mesmo.

__ E nem sequer tem o recibo?

   Tive de admitir que, com efeito, não tinha esse importante documento. O assombro da mulher chegou ao auge. Balbuciou algo que não entendi e voltou a consultar com os olhos o colega.

__ É completamente impossível […] Que documentos possui para provar-me ser o remetente da carta?

__ Tenho o rascunho—disse, mostrando-o.

   Apanhou-o, olhou-o e me devolveu.

__ E como havemos de saber que o rascunho é o mesmo da carta?

__ É muito simples, abramos o envelope e verifiquemos.

   […]

__ Esse documento não serve—concluiu a harpia.

__ Acha a carteira de identidade suficiente?—perguntei com irônica cortesia.

{…]

__ Não. A carteira apenas não, porque aqui só estão as iniciais. Terá de mostrar-me também um atestado de domicílio.

  […]

   Uma fúria escondida explodiu afinal em mim e senti que alcançava também a Maria e, o que é mais curioso, a Mimi.

__ Mande-a de uma vez e vá para o inferno!—gritei, retirando-me.”

2

Em ‘1981, pela Francisco Alves, saiu a versão de Janer Cristaldo (o qual traduziu vários livros de Sabato). Nela, o trecho acima foi traduzido da seguinte forma:

“Mal saí do correio, me dei conta de duas coisas: não havia dito na carta por que havia inferido que ela era amante de Hunter; e não sabia a que me propunha ao feri-la tão desapiedadamente[3]: queria talvez mudar sua maneira de ser, no caso de serem corretas minhas conjecturas? Isso era evidentemente ridículo. Fazê-la correr para mim? Não era crível que o conseguisse com aqueles procedimentos. Refleti, no entanto, que no fundo de minha alma só ansiava que Maria voltasse para mim. Mas, neste caso, por que não o dizer diretamente, sem feri-la, explicando-lhe que havia ido embora da estância por ter notado de repente os ciúmes de Hunter? Afinal de contas, minha conclusão de que ela era amante de Hunter,além de ferir, era completamente gratuita: em todo caso, era uma hipótese que eu podia me formular com o único propósito de orientar minhas investigações futuras.

   Uma vez mais, pois, havia cometido uma bobagem, com meu hábito de escrever cartas muito espontâneas e enviá-las em seguida. As cartas importantes, devemos retê-las ao menos por um dia, até que vejamos claramente todas as possíveis consequências.

   Restava um recurso desesperado, o recibo! Procurei-o em todos os bolsos, mas não o encontrei: o havia jogado fora, estupidamente. Voltei correndo ao correio, mesmo assim, e me pus na fila dos registrados. Quando chegou minha vez, perguntei à funcionária, enquanto fazia um horrível e hipócrita esforço para sorrir:

__ Não me reconhece?

   A mulher me olhou com espanto: certamente pensou que eu era um louco. Para afastá-la de seu erro, lhe disse que era a pessoa que acabava de enviar uma carta à estância Los Ombúes. O espanto daquela estúpida pareceu aumentar e, talvez com o desejo de partilhar ou de pedir conselho ante algo que não chegava a compreender, voltou seu rosto para um companheiro…” etc etc

3

E, em 2000, apareceu pela Companhia das Letras, a tradução de Sérgio Molina (agora reeditada na Coleção Folha Literatura Ibero-Americana), em que o trecho é traduzido assim como se segue:

“Tão logo saí do correio, percebi duas coisas: não dissera, na carta, por que inferira que ela era amante de Hunter; e não sabia o que pretendia ferindo-a tão impiedosamente: por acaso fazê-la mudar sua maneira de ser; caso minhas conjeturas estivessem corretas? Isso era evidentemente ridículo. Fazê-la correr para mim? Não era crível que conseguisse isso com tais procedimentos. Refleti, contudo, que no fundo de minha alma eu só desejava que María voltasse para mim. Mas, nesse caso, por que não dizê-lo diretamente, sem feri-la, explicando-lhe que tinha ido embora da fazenda porque de repente notara os ciúmes de Hunter? Afinal de contas, minha conclusão de que ela era amante de Hunter, além de ferina, era completamente gratuita; quando muito, era uma hipótese, que eu podia formular lá comigo com o único propósito de orientar minhas investigações futuras.

   Mais uma vez, portanto, eu tinha cometido uma besteira com meu hábito de escrever cartas muito espontâneas e enviá-las em seguida. As cartas importantes devem ser retidas pelo menos um dia até que se vejam claramente todas as possíveis consequências.

   Restava um recurso desesperado: o recibo! Procurei-o em todos os bolsos, mas não o encontrei: devia tê-lo jogado tolamente por aí. Mesmo assim, voltei correndo para o correio e entrei na fila das cartas registradas. Quando chegou minha vez, perguntei para a funcionária, fazendo um horrível e hipócrita esforço para sorrir:

__ Não me reconhece?

   A mulher olhou-me com espanto: decerto pensou que eu era louco. Para tirá-la do engano, disse-lhe que era a pessoa que acabara de postar uma carta para a fazenda Los Ombúes. O espanto daquela imbecil pareceu aumentar e, talvez no desejo de compartilhá-lo ou de aconselhar-se diante de algo que não conseguia entender, voltou-se para um colega” etc etc.


[1] Na edição do Círculo, o ponto de interrogação foi omitido.

[2] Na edição do Círculo, o nome vem acentuado: María.

[3] Na verdade, está grafado “despiadadamente”..

14/03/2012

A nomeação do mundo: os 50 anos de O SÉCULO DAS LUZES

  

             Explosão numa Catedral. Este é o título norte-americano de O Século das Luzes, o mais famoso romance de Alejo Carpentier, de 1962, reaparecendo agora  em nova e  arejada tradução (de Sérgio Molina). O sentido arquitetônico e uma conhecida tirada de Marx  (“tudo o que sólido desmancha no ar”) ficam bem claros na imagem que evoca por um lado a solidez (a catedral) e, por outro, a desestabilização (a explosão). E é esse o legado de Victor Hughes, francês que vem implantar a Revolução Francesa no Caribe, para a vida dos primos Esteban e Sofia, os quais moram em Havana numa mansão labiríntica, barroca, em completa desordem. Ao adentrar a morada e ordená-la (bem ao gosto francês), Hughes no entanto os desenraíza, deslumbrando-os com o espetáculo de uma mudança da humanidade através do ato revolucionário que, entretanto, acaba tendo a Guilhotina como fetiche (ela também é trazida da França para impor Ordem e Progresso aos tristes trópicos).

    Primeiro, Carpentier nos mostra Hughes sob o ponto-de-vista de Estebán, que o acompanha de Cuba à França, e depois novamente à América (Guadalupe, Guiana, Suriname, Venezuela). Boa parte de O Século das Luzes é dedicada à educação sentimental do jovem cubano e sua desilusão diante da associação Revolução-Guilhotina. Retornando ao lar, Estebán descobre-se apaixonado pela prima que, ao ficar viúva, foge ao encontro de Hughes, para se tornar companheira de um Titã, envolvido numa nova épica da humanidade. É a derradeira apertada no parafuso do desencanto: com a ascensão de Napoleão, a Revolução aburguesou-se e até se revoga o decreto que abolira a escravidão nas possessões francesas.

    Fica evidente que, sendo cubano, Carpentier está nos contando também, por alusão, o fracasso do Mito da Revolução Russa e sua adaptação aos trópicos por Fidel Castro através do seu luxuriante resgate da mentalidade do final do século XVIII.

 

    Pois  O Século das Luzes é um banquete de linguagem, nas mãos de um narrador que tem o gosto inventariante, o prazer de encampar o teatro do mundo através das palavras, na melhor tradição da língua espanhola.

    Na semana passada, comentei A Vida Breve, do uruguaio Juan Carlos Onetti, um livro maravilhoso. Nele, a linguagem é rarefeita, cônscia da sua insuficiência. É algo que os leitores de Clarice Lispector conhecem bem.

    Se Onetti deve ser colocado ao lado da autora de A Maçã no Escuro, Carpentier estaria definitivamente ao lado de Guimarães Rosa. Sem escamotear  o lado mais incômodo do ato de existir, escritores como eles potencializam a linguagem de uma tal forma que ela parece por si só ser  uma demonstração de otimismo, como se fosse responsável pela povoação do mundo, por preenchê-lo com a luz do seu Verbo (talvez nem todos concordem, mas Grande Sertão: Veredas é um livro radiante). Num dos mais belos momentos de O Século das Luzes, Esteban, que serve Hughes como escrivão de uma flotilha de corsários (a serviço da “Revolução”), encontra um desconhecido arquipélago: “Nenhuma dessas ilhas era semelhante à seguinte e nenhuma era feita da mesma matéria… Esteban sentia-se inclinado a exprimir seu assombro diante das coisas posta ali, inventando-lhes nomes” e daí segue-se um longo e nada fastidioso catálogo desses nomes inventados para fazer existir enfim esse lugar inédito.

    Essa investimento na Palavra, no seu poder, não tem nada a ver com a retórica pomposa e vazia dos que usam a linguagem de forma corrompida e transformam a Razão num sono de monstros, como outra passagem relacionada a Esteban pode comprovar. Ele vai a um hospital na holandesa Paramaribo e vê uma fila de negros: “E o jovem soube com horror que esses escravos, convictos de revolta e tentativa de fuga, haviam sido condenados pela Corte de Justiça do Suriname à amputação da perna esquerda. E como a sentença tinha de ser executada de maneira limpa e científica, sem o uso de processos arcaicos, próprios de épocas bárbaras, que causavam excessivo sofrimento e punham em risco a vida do condenado, os nove escravos eram levados ao melhor cirurgião de Paramaribo para que este, de serra em punho, cumprisse a decisão do Tribunal.” 

 

(resenha publicada  originalmente em 22  de janeiro de 2005  em A TRIBUNA de Santos) 

 

 

 

 

 

 

04/10/2011

VARGAS LLOSA ENTRE A VERDADE DA MENTIRA E A MENTIRA DA VERDADE

TRAVESSURAS DOS MENINOS MAUS

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em “A Tribuna” de Santos, em 12 de outubro de 2010)

Como admirador de longa data de Mario Vargas Llosa, não só o maior romancista vivo da América Latina como também um dos maiores escritores do mundo, é claro que fiquei contente com o anúncio do Nobel.

Menos contente me deixou saber que essa esperada premiação vem sendo saudada, inescrupulosamente, mais como uma homenagem ao seu pensamento político, às suas posturas ideológicas [1], do que ao seu gênio narrativo, um triunfo da arte da ficção, que conseguiu tantas vezes satisfazer o  “apetite pela totalidade” que ele identificou como vocação maior do romance.

Paradoxalmente, porém, comentarei aqui o mais recente dos relançamentos que a Alfaguara vem promovendo da sua obra ,  e não se trata de nenhum dos apaixonantes romances de fôlego a que ele nos acostumou (A cidade e os cachorros, A casa verde, Conversa na catedral, Pantaléon e as visitadoras, Tia Júlia e o escrevinhador, A guerra do fim do mundo, História de Mayta, O falador, Lituma nos Andes, Os cadernos de don Rigoberto, O paraíso na outra esquina), com a exceção de três pequenos romances  (Quem matou Palomino Molero? e Elogio da madrasta são dois deles): a junção no mesmo volume de seu primeiro livro publicado, a coletânea Os chefes, de 1959, e o primeiro daqueles três romancitos, Os filhotes, de 1967, talvez sua experiência mais virtuosística e sensacional como escritor[2].

A Academia Sueca justificou a escolha de Llosa por “sua cartografia das estruturas do poder e mordazes imagens da resistência, da rebelião e da derrota do indivíduo”. A leitura do conto-título de Os chefes confirmará isso de imediato: ao narrar a insubordinação dos estudantes de um colégio contra o novo regime de provas a que serão submetidos, enfrentando um diretor tirânico e truculento, o jovem escritor de 23 anos mostrava mais a incipiente luta de poder e supremacia entre os próprios rebelados adolescentes, que não recuam diante da violência, da criação de facções e da opressão para serem líderes.

Códigos machistas brutais (ou sutis) e ritos de passagem perversos dominam as seis histórias de Os chefes (e também Os filhotes, publicado oito anos depois). E  o leitor vargallosiano perceberá o embrião de várias experiências futuras: o mundo do areal, de Piúra, de A casa verde (infelizmente, ainda um seus dos livros menos populares, e um dos mais brilhantes) aparece em “Um visitante, no qual nasce para a literatura um personagem constante na sua produção posterior, o cabo Lituma (de A casa verde, Quem matou Palomino Molero? e Lituma nos Andes), que vagará pela diversidade do Peru e suas fraturas sociais; no melhor desses textos iniciais, Domingo, vemos nascer a evocação do bairro de Miraflores, em Lima, com sua rapaziada tornando-se adolescente e depois alcançando a idade adulta, que fará parte de A cidade e os cachorros, Conversa na catedral, Tia Júlia e o escrevinhador e até mesmo do tardio (é de 2006) e a meu ver muito fraco e diluído com relação aos demais As travessuras da menina má (embora não tão fraco e diluído quanto A festa do bode).

O conto Domingo é excelente, contudo Llosa desenvolve o assunto vertiginosamente, e com uma crueldade inaudita em Os filhotes, no qual usa  uma forma insólita (é preciso ler para crer) de narração, uma espécie de voz coral, que passa da terceira para a primeira pessoa do plural, e em que parece que o bairro está tomando a palavra: um garotinho tem o pênis mutilado por um cachorro, e como ao longo de sua formação esse fato o tornará um excluído: sendo o mais forte, o mais atlético, o mais rico da rapaziada que anda junto em Miraflores, falta-lhe no entanto o atributo que a nossa sociedade convencionou como o símbolo da presença masculina (tanto que seu apelido será Piroquinha), e todos os seus esforços revelam uma caricatura do machão, do “chefe”: “Quando Lalo se casou com Chabuca, no mesmo ano em que Mañuco e Chingolo se formavam em engenharia, Cuéllar [o Piroquinha] já sofrera vários acidentes e seu Volvo vivia amassado, arranhado, com os faróis rachados. Você vai acabar morrendo, meu coração, não faça loucuras e o velho já era o cúmulo, rapaz, até quando ia continuar assim, outra gracinha dessas e nunca mais lhe daria um centavo, que repensasse e se corrigisse, se não for por você faça isso por sua mãe, ele falava pelo seu próprio bem. E nós: você já está grandinho para andar por aí com essa molecada, Piroquinha. Porque agora dava para isso. Passava as noites jogando com os notívagos do El Chasqui ou do D´Onofrio, ou conversando e bebendo com os viados ou os mafiosos do Haiti (quando será que trabalha, dizíamos, ou será mentira que trabalha?), mas de dia vagabundeava de um canto de Miraflores para o outro, e era visto nas esquinas, vestido como James Dean (jeans justos, camisa colorida aberta do pescoço até  umbigo, uma correntinha de ouro dançando no peito e se enredando entre os pelinhos, mocassins brancos), jogando pião com os moleques, batendo bola numa garagem, tocando gaita. Seu carro andava sempre cheio de roqueiros de treze, catorze, quinze anos e, aos domingos aparecia no Waikiki… com bandos de guris, olhem, olhem, está ali, que  bonitinho, e que bem acompanhado, que jovial: subia um por um na sua prancha havaiana e ia com eles para lá da arrebentação. Ensinava-os a dirigir o Volvo e se exibia para eles fazendo curvas em duas rodas no Malecón e os levava ao estádio, ao catch, aos touros, às corridas, ao boliche, ao boxe. Pronto, dizíamos, era fatal: viado. E também: mas o que mais lhe restava, era compreensível, desculpável só que, irmão, está cada dia mais difícil andar com ele, na rua todos o olhavam, assobiavam e apontavam…”

     Enfim, uma imagem pra lá de mordaz, uma cartografia definitiva da resistência, da rebelião e da derrota do indivíduo numa estrutura de poder que chega à mais recôndita intimidade.


 

[1]  Não consigo ter simpatia ou admiração pelo lado “pensador político” de Vargas Llosa (embora o considere um formidável crítico literário), e a sua campanha para presidente do Peru já foi um episódio lamentável, pelas bandeiras neoliberais que defendia. Talvez ele tenha passado muito tempo da sua vida em seminários, em congressos, em palestras, cursos em Princeton e quejandos, num meio desodorizado e desidratado das convulsões sociais, e perdeu a noção da realidade que só reaparece quando ele escreve ficção, a verdade da mentira (apesar de que, pelo andar da carruagem, pelo que constatamos nos seus últimos livros, até esse dom está meio bruxuleante).

O que mais me impressiona em Vargas Llosa é sua aceitação pacífica da mentira da verdade, tal como aparece num hilariante texto que escreveu aqui no Brasil. Será cinismo ou necessidade de acreditar? Será que ele acha mesmo que há algo como uma “imprensa livre”, desinteressada e objetiva? Que nós vivemos num “mundo livre” , em que as notícias são veiculadas de forma realmente democrática, como se não vivêssemos numa civilização dominada pelo hegemonia do mercado. Vejamos:

“ A impressão que me fica de uma semana intensa passada nesse país, entre o Rio de Janeiro e São Paulo (com direito a uma rápida escapada até o pequeno paraíso de Búzios), durante a qual,
fiel à minha vocação de leitor inveterado de jornais, tomei café da manhã todos os dias mergulhado nas abundantes páginas de “O Globo”, “O Estado de S.Paulo” e “Folha de S.Paulo”, os três principais jornais do país. Excelentes, os três. Bem escritos e otimamente diagramados, com rica informação local e internacional, bons colunistas, pouco sensacionalismo e quase nenhuma fofocagem
”. Uau, Deus é brasileiro mesmo, só aqui encontramos tais jornais desinteressados, pouco sensacionalistas, preocupados unicamente em dar notícias da forma mais imparcial possível (este trecho, assim como os próximos,  foi tirado de um artigo que ele escreveu em 14 de  junho de 2007). E aqui nem estou discutindo a qualidade dos três jornais citados (que, dentro do panorama disponível, ainda são o que melhor temos).

Mas o aspecto mais hilário e grotesco ainda está por vir:

“O último número da revista “Veja” — com uma tiragem de um milhão e duzentos mil exemplares por semana — contém uma excelente reportagem investigativa sobre esse “socialismo do século XXI” inventado pelo comandante Hugo Chávez e que ele, a golpe de petrodólares, empenha-se em disseminar por toda a região. O texto, assinado pelo jornalista Duda Teixeira, que averiguou os dados in loco, é preciso. Alguns exemplos ali expostos demonstram a velocidade e a obscenidade com que os colaboradores políticos mais próximos do caudilho-paraquedista enriqueceram no poder

Vejam só, há uma pessoa que acredita na VEJA, que não a toma pelo que é: uma revista desavergonhada e afrontosamente tendenciosa, parcial, e sobretudo desonesta, sob o  ponto de vista intelectual,  nos meios que emprega para subliminarmente passar essa tendenciosidade e essa parcialidade (basta lembrar do desprezível necrológio, mínimo em termos de espaço–e qualquer leitor de outro veículo da imprensa lembrará do espaço considerável que foi ocupado por essa morte– e preocupado em diminui-lo como homem militante sem nem a contrapartida de uma visão mais acurada da sua obra,  de José Saramago). Como um escritor de romances que desvendaram mecanismos de poder e de manipulação da verdade pode aceitar assim sem mais nem menos o teor de uma “reportagem investigativa” da VEJA?  Por puro masoquismo, só mais um trecho:

“Apesar da pavorosa realidade de corrupção, favorecimentos pessoais, demagogia e autoritarismo que relata, a reportagem da “Veja” não é totalmente pessimista. Por outro lado, confirma algo de que eu já suspeitava depois de ver a maneira corajosa com que a oposição venezuelana se mobilizou contra o fechamento da Radio Caracas Televisión: que, dessa vez, o
caudilho venezuelano deu um passo em falso e o povo venezuelano começou a abrir os olhos para o monstro que criou ao depositar sua confiança e seus votos em um demagogo que pode levar o país à ruína e a uma ditadura totalitária. As pesquisas feitas pelo Instituto Hinterlaces, de Caracas, e publicadas pela “Veja”, falam por si: 78% dos venezuelanos desaprovam o antiamericanismo de Chávez; 85% condenam o financiamento político a outros países; 86% não querem um socialismo à cubana; e 86% são contra o confisco de propriedades privadas. Mais: 40% dos venezuelanos que votaram em Chávez nas eleições de dezembro passado declaram que hoje votariam contra ele.”

    Chego a desgostar da premiação de Llosa após ler um texto como este. Aliás, a própria VEJA  não perdeu tempo e na sua paupérrima matéria (em que se enfatiza mais a “lucidez” do conservadorismo adotado por ele do que a grandeza de sua obra) sobre o Nobel do nada lúcido peruano, proclamou: Llosa lê a VEJA!

[2] Os dois já haviam sido lançados num mesmo volume pela Nova Fronteira, anteriormente, e acho que isso atrapalha um pouco a reputação literária de Os filhotes. Prefiro a solução da Companhia das Letras que publicou o texto sozinho, em ótima tradução de Sérgio Molina, e marcando sua relevância no conjunto da obra, mesmo tendo sido publicado entre dois monstros, A casa verde & Conversa na Catedral.

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