MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

11/04/2010

Excesso de fadas na mente do matemático: Lewis Carrol, Sílvia e Bruno

“A infelicidade, a desunidade do absoluto conscientemente presente, deverá, agora, ser levada para dentro da unidade da felicidade absoluta. Mas essa felicidade não é somente o encanto presente a si mesmo e que descartou qualquer infelicidade. Ao contrário, essa felicidade é a felicidade que domina a infelicidade e, precisamente por isso, a necessita para si. A conexão íntima de felicidade e infelicidade –não estabelecida numa terceira coisa, mas sim na própria felicidade, que retorna a si ao permitir que a infelicidade pertença a ela –, essa maneira como aquilo que está dividido em dois os detém como um só, constitui o verdadeiro infinito do finito.” (“Heidegger, A fenomenologia do Espírito de Hegel, traduzido por Heloísa Vilhena de Araújo)

 

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 13 de abril de 2010)

(o texto abaixo foi publicado no “Letras in.verso e re.verso”, em 28 de maio de 2014:

http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2014/05/na-dimensao-do-avesso-personagens-de.html)

 

 “__Mas você não deseja ser sempre feliz, não é Bruno?

 __ Sempre, não. Quando eu fico muito feliz, eu fico também querendo ser um pouco infeliz. Eu falo isso pra Sílvia e ela me dá uma lição pra fazer. Então fico de novo bem.” (Lewis Carroll, Sílvia e Bruno, traduzido por Sérgio Medeiros)

Além da famosa dupla de livros sobre Alice , Lewis Carroll procurou renovar a literatura infantil com o menos conhecido par de romances, assumidamente experimentais,  protagonizados pelos irmãos Sílvia e Bruno. Aqui no Brasil, dos 50 episódios (que consumiram 16 anos de trabalho e originalmente representam umas 700 páginas), 24 foram traduzidos em Algumas Aventuras de Sílvia e Bruno.

Eles são os espertos e vivazes filhos do Governador do País do Outro Lado, mundo paralelo ao nosso. Um dia, o pai precisa viajar (não sabemos por que) por muito tempo e deixa o Estado nas mãos do irmão, que, através de uma vil artimanha, usurpa o poder. Sílvia e Bruno, maltratados pelos tios e pelo primo (que se torna o herdeiro), fogem, e, no País das Fadas, metamorfoseiam-se em fada e elfo.

Em nossa realidade, quem consegue vê-los é o Narrador, um homem que está entrando na velhice, mas que consegue ficar “encantado”, ou seja, numa espécie de transe o qual, além de permitir que conviva com as crianças-fadas, o leva a testemunhar (invisível) as peripécias no País do Outro Lado (ele só não tem acesso ao País das Fadas).Vez em quando, Sílvia e Bruno também participam de episódios na nossa dimensão, aparentemente como crianças “normais” (só que especialmente “encantadoras”).

O que torna um tanto estranhos os primeiros capítulos (depois o leitor se acostuma) é que o autor mistura as dimensões e de uma frase para outra passamos de um mundo para o outro, sem aviso. Ele contempla Lady Muriel, a heroína romântica da nossa dimensão, num vagão de trem, e sobreposto à sua face descortina o rosto de Sílvia no Outro Lado.

Depois que se “entra no jogo”, a estrutura narrativa não apresenta mais dificuldades, embora eu tenha minhas dúvidas se alguma criança conseguirá entendê-la ou se “encantar” com ela (ao que parece, na época de Carroll, episódios isolados conseguiam essa proeza: tanto que o romance nasceu de um capítulo, “A Vingança de Bruno”, que fez muito sucesso).

Há muitos detalhes apaixonantes, a trama geral é deliciosa (há também a complicação romântica envolvendo Muriel e o amigo do narrador, Arthur Forester, apaixonado por ela e sem coragem de se declarar, o que a leva para os braços do primo, Eric), mas há muita coisa extravagante, no mau sentido, e, ao fim e ao cabo, enfadonha. Como acontece no Wilhelm Meister, de Goethe, e em Ada ou Ardor, de Nabokov, a criatividade, a exuberância da imaginação, a riqueza episódica ficam comprometidas.pelas idiossincrasias do autor, e por um certo artificialismo de salão, que prejudica muito a leitura, que oscila entre a admiração e a exasperação.

Carroll já radicalizara suas peculiaridades em Através do Espelho, o qual, concordamos todos, é muito mais “estranho” do que o primeiro Alice. Em Sílvia e Bruno, querendo coroar a obra da sua vida, ele enfatizou por demais suas obsessões, suas próprias questiúnculas, de tal forma que todas as discussões metafísico-científicas  envolvendo tempo, espaço, medidas, princípios lógicos, usos e funções dos nomes, acabam parecendo as divagações monomaníacas de alguém muito neurótico e esquisito, e certos episódios “infantis” (como o do leão, a ovelha e as raposinhas) acabam sendo de um tremendo mau gosto.  Parece que ele levou ao extremo e se intoxicou com a percepção do que acontecera com Através do Espelho, tal como Roger W. Holmes descreve muito bem:

“Essas regiões estão repletas de problemas e da parafernália da lógica e da metafísica, da teoria do conhecimento e da ética. Encontramos aqui um tratamento extremamente imaginativo dos princípios lógicos,  dos usos e significados das palavras, das funções dos nomes, das perplexidades ligadas ao tempo e ao espaço, do problema da identidade pessoal, do status da substância em relação a suas qualidades, o probelma da mente-corpo…”

A seleção brasileira, otimamente traduzida, acaba ilustrando os acertos e os perigos que envolvem a originalidade. Até ela pode ser demasiada e se transformar em incomunicabilidade.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/12/28/uma-menina-sem-modos-que-moral-podemos-tirar/

https://armonte.wordpress.com/2010/04/09/destaque-do-blog-as-aventuras-de-alice/

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