MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

13/03/2011

Férias com Durrell (quarta parte): SEBASTIAN ou PAIXÕES DOMINANTES

“Amós Keres, matemático, condenado à forca por tentativa de suicídio, justificada a seu ver por ter compreendido que o universo é obra do Mal e o homem seu discípulo…”

        (de Com os meus olhos de cão, de Hilda Hilst)

“__Anime-se, Sutcliffe.  Quinx estará com você.

__ Amém!”

      (de Sebastian ou Paixões Dominantes)

“Nossa impressão da realidade é tecida pela respiração, como uma cota de malhas.”

           (de Sebastian ou Paixões Dominantes)

“As pessoas são ao mesmo tempo outras, sem o saberem…”

           (de Sebastian ou Paixões Dominantes)

 

    Não fosse por certos desdobramentos surpreendentes da sua trama poderíamos tomar Sebastian ou Paixões Dominantes (1983) um mero apêndice de Constance ou Práticas Solitárias e este, apesar dos seus muitos aspectos irritantes, poderia ser considerado o “fim” de Lawrence Durrell enquanto ficcionista e grande romancista.

    Depois do volume alentado e ambicioso, parece que ele já estava exaurido, esclerosado ou simplesmente decepcionado com a repercussão fraca do seu projeto, muito aquém à que obteve com O quarteto de Alexandria. Seja lá qual for a explicação, seu retrato do após-guerra acrescenta muito pouco ao quadro geral. Mas ele não podia parar, estava atrelado à “fidelidade ao número cinco e à tríade—em termos poéticos os cinco sentidos e os três orifícios. Mas na verdade, para a psicologia budista, significavam os cinco ´skandhas´, feixes de apreensão, reservatórios de impulsos. Lembrava-se tão bem da maneira impressionante pela qual Faraj dissera: Meu filho, o maniqueísta Príncipe das Trevas combina as formas dos cinco demônios elementares: fumo (dáimon), leão (fogo), água (vento), peixe (água), trevas (drákon)…”

     Com 225 páginas na edição brasileira (sempre traduzida por Waltensir Dutra),o romance é dividido em dez partes, iniciando-se com a volta de Affad/Sebastian ao Egito, após fugir do seu relacionamento com Constance, em Genebra, o que acarretou o extravio da carta que sela a sua sina dentro da seita gnóstica. Há o “julgamento” de Affad por seus pares, que promete se redimir e cumprir seu destino:

“Você estava disposto a romper a corrente das nossas atividades corporativas e prejudicar todo o esforço espiritual representado pelas nossas tentativas de enfrentar o trauma primordial do homem, ou seja, a morte, e tudo isso por uma mulher…isso não teve precedentes e provocou uma crise de grave indecisão, que chegou próximo ao desespero…”

     Antes de partir de encontro ao que o espera, e assim acalmar a crise no seio do grupo gnóstico, Affad tem uma hilariante entrevista com a mãe de seu filho (o qual é aparentemente autista), Lily, agora vivendo como uma eremita no deserto (o rebento mora com a avó em Genebra). 

   Também somos apresentados ao assassino em série egípcio Mnemidis, que está sendo tratado pelo dr. Schwarz, mentor e amigo de Constance . O médico judeu também tem uma esposa chamada Lily, a quem meio que abandonou quando fugiu do nazismo, resultando dessa fuga covarde a internação num campo de concentração. Ao longo da narrativa, ele descobrirá que ela sobreviveu, mas é agora uma ruína como a ex-mulher de Affad.

     Há a suspeita de que Mnemidis tenha surripiado a famosa carta para Affad, que sumiu do consultório dela (estava dentro de uma Bíblia que fora emprestada ao paciente).

    Na época de Sebastian ainda não havia tantas histórias de psicopatas enganando seus terapeutas e carcereiros: o dr. Hannibal Lecter não entrara ainda no imaginário popular, por isso é interessante essa incursão de Durrell na mente de Mnemidis, que justamente lembra a de Lecter, em certos aspectos e momentos. Ele também procura uma “brecha” na rígida disciplina que lhe permita escapar. E ele é o desdobramento que insufla o pouco de vida que o livro exala (só que, atualmente, com inúmeras e geralmente hilárias histórias de assassinos desse tipo, talvez os leitores mais exigentes achem tudo banal).

    Por causa de Mnemidis, aparece no Quinteto Baltasar, personagem de O quarteto de Alexandria (Melissa também já aparecera, numa reminiscência de Affad, e Pursewarden fora citado). Ele tenta tirar o louco das mãos ocidentais: “Em Mnemidis, vocês vêem um paciente com uma exuberante paranóia e um legado epileptóide que resulta em ataques de aguda hipomania, e assim por diante. Mas a noite passada Ibrahim me dizia que ele nasceu sob o signo de Áries,com Marte e o Sol em oposição em Plutão: sua lua em má conjunção com Escorpião, uma dissonância magnética entre Leão e Mercúrio na oitava casa… Depende de onde se quer procurar uma explicação do formidável dilema que age sobre ele como um gatilho”.

    Sebastian procura radicalizar o questionamento da psicanálise que já se esboçara nos volumes anteriores.

    Constance nessas primeiras páginas reencontra o antigo factótum de Lord Galen, Max, um ex-pugilista negro, que agora virou um mestre da ioga, após viver os anos da guerra na Índia (por que temos a impressão de que tudo não passa de uma barafunda, de uma mixórdia de coisas mal digeridas?) e que mostra como a “doutrina” da amiga é limitada e restrita:

“É claro que o nosso estúdio de ioga não é uma terapia em si, mas desde que cheguei tenho visto mudanças tão impressionantes nas pessoas, em conseqüência da ioga, que comecei a me pergunta por que diabo seria. Os médicos estão mandando para nós pessoas que eles não podem curar. Nossas sessões estão cheias de jovens que sofrem de estresse e tensão do espírito—que estão a caminho do esgotamento que nós ajudamos a evitar. Você ficaria perplexa na Índia, pois lá não há ego para sofrer estresse mental, por assim dizer…”

    Um outro desdobramento da história é a aparição do filho de Affad; este conseguira de Constance a promessa de que participaria do seu tratamento: ele não reage a nada, tem todos as características que atribuímos ao autismo. É a parte mais “humana”, pode-se dizer, de todo o Quinteto, e também é muito parecida com todas as histórias com que Hollywood nos inundou de interação entre terapeuta e paciente e como um “cura” o outro, no final das contas.

    E afinal Mnemidis consegue fugir, disfarçado de freira, após atacar Pierre, que o vigiava (uma cena muito bem contada). Ele quer chegar aos emissários egípcios, Baltasar e Ibrahim, que o levarão para casa, não sem antes ajustar contas com Constance, a quem atribui os maus pedaços pelos quais passou no sanatório. São páginas envolventes que restituem o vigor narrativo que salvava os outros volumes do Quinteto (a cena da sedução marota, imagine-se um psicopata disfarçado de freira bolinando um motorista, é deliciosa).

    Antes de Mnemidis reaparecer temos tediosas páginas de discussão das mesmas besteiras entre os personagens de Genebra (há até a narração de mais um episódio—aliás demasiadamente longo—degradante e burlesco de bordel: a crucificação simbólica de Lord Galen por um grupo de putas; o único detalhe engraçado é que o capitalista está na cidade como encarregado de assuntos culturais e não sabendo o que considerar cultura, tendo em vista a valorização de livros como Ulisses, ele mergulhou nos bas fonds para ver se descobria a tal cultura que alimenta a “arte” modernista[1]) e então Affad reaparece. A princípio, há um constrangimento do casal, mas é breve e Affad e Constance tem uma “explicação” sobre a famosa carta e o que ela contém (e Constance tem a chance de esclarecer que ela se extraviou não por sua culpa, não por querer manipular o destino do homem, embora isso até tenha lhe ocorrido). Affad: “Estamos criando uma reação em cadeia que, no nosso entender, poderia opor-se  às leis da entropia—a irreversabilidade do processo que leva sempre à morte, dispersão, desagregação…não se trata apenas, como vê, de um desejo romântico da morte como morte…”  !!!!!????

     Ainda bem que o melhor está por vir e o leitor que está de saco cheio dessas abobrinhas terá sua catarse: Constance leva Affad ao seu apartamento, eles fazem amor, ele tem uma crise de malária, que o deixa extremamente febril, ela o veste com o roupão que ficara encharcado de sangue na primeira transa entre os dois, onde ele literalmente mergulhou na menstruação de Constance, e sai para comprar antipiréticos, deixando a porta do apartamento aberta. Mnemidis localizou o endereço da psiquiatra e para lá se dirige. Ao chegar, vê uma forma enrolada na cama, deduz que se trata de Constance e esfaqueia Affad repetidas vezes. Ao ir embora, ele deixa a carta que realmente surripiara (mas sempre negando o furto) como que marcando sua vitória. No final, a carta se extraviou porém o destino de Affad se cumpriu (será que não estava tudo previsto ali na missiva?). Enfim, um truque narrativo muito bem armado e apresentado.

   É no funeral de Affad que ficará evidente que o tratamento do filho dele por Constance está funcionando e que ele está se apegando a ela.

    O dr. Schwarz é o personagem mais simpático deste volume e ele também vai cometer suicídio ao saber que deverá encontrar novamente a esposa, recém-egressa de um campo de concentração: ele não pode enfrentá-la, devido à culpa avassaladora. O seu fim também é um dos bons momentos de Sebastian e o único em que afinal senti mais  empatia com Constance, até então para mim uma personagem fria e que e que apenas conduz os acontecimentos narrativos.

     Depois do momento tocante, Durrell adota uma solução descabelada e tola: há uma paciente no sanatório chamada Sylvie, que já fora a irmã de Piers no primeiro volume, e que fora entrevista por alguns personagens nos outros. Pois ela era uma paciente de Constance que ela tivera de transferir para Schwarz devido à paixão que ela desenvolvera pela terapeuta. Desolada e desmontada pelas mortes de Affad e Schwarz, pela fuga de Mnemidis e pelo fracasso da sua profissão, ela vai comunicar a morte do médico para Sylvie e elas… transam. E passam a ter um caso. E resolvem voltar a Avignon, levando o filho de Affad com elas para passar o verão, e mais alguns sobreviventes (Blanford, Sutcliffe, Toby, Lord Galen) da guerra e dos meandros da trama. E o Quinteto deveria parar por aí (apesar do detalhe de gosto duvidoso que foi essa inclusão de Sylvie); contudo, se isso acontecesse, o saldo já seria melancólico, ao fim e ao cabo. Todos pegam o trem para Avignon, mas ele parece já ter descarrilado em algum ponto indefinido do terceiro volume.

(escrito especialmente para o blog em fevereiro de 2011)

  


[1] Acho que vale a pena transcrever algo do episódio:

Lord Galen: Não obstante,  não consigo, por mais que faça, descobrir o que é a cultura, o que significa a palavra da qual sou encarregado… devo preparar um relatório que tratará do futuro do livro europeu. Alguém tem de decidir o que é bom para a nossa cultura, e esse alguém sou eu. Mas como posso decidir se não sei o que ela é? E de todos os lados continuam a trazer-me o que chamam de pedras fundamentais, para exame…Estou cercado de pedras fundamentais. E algumas delas… bem, nunca senti tanta aversão na minha vida.

        Procurou entre as suas coisas e extraiu um exemplar do Ulisses de Joyce.

__ Blanford! Palavra de honra, o que você acha deste… desta  pedra fundamental?

__ Compreendo o seu dilema…

       (…) Num instante sua mente apreendeu a idéia e a enquadrou num esquema que poderia satisfazer a um filósofo da cultura como Spengler. O Homem Europeu como alegre Ulisses que resistirá até que Panurgo retomasse mais uma vez a História e a fizesse reviver. E a partir daí a força dionisíaca desgastara-se gradualmente e o declínio spenglieriano começara. Vulcões em extinção continuaram a fumegar com nomes como Nietzsche, Strindberg, Tolstói, mas o navio estava afundando de popa…”

 

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