MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

08/07/2013

Um forte candidato a maior autor dos EUA: Saul Bellow

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 20 de janeiro de 1998)

Seria difícil apontar o maior escritor dos EUA,por causa do número de grandes autores, contudo Saul Bellow apareceria como um dos mais fortes candidatos ao título.

A Rocco está lançando Trocando os pés pelas mãos e outras histórias (“Him with his foot in his mouth and other stories”), uma coletânea de cinco “novelas”—aquele velho termo infeliz, que só causa confusão, para designar um texto cuja extensão é maior do que a de um conto e menor do que a de um romance.

Trocando os pés pelas mãos é uma amostra (com altos e baixos) de temas recorrentes na obra de Bellow, como a incapacidade dos intelectuais de lidar com a vida, muitas vezes deixando-se arrastar para a abjeção, além do envolvimento com o submundo criminoso da sociedade (em duas histórias do livro são parentes que arrastam os narradores para esse submundo: o irmão na narrativa-título, e o primo na história intitulada justamente Primos). Outro tema importante, e incessantemente repetido pelo grande escritor judeu norte-americano, é a natureza ambígua da amizade e do afeto. Na coletânea, como em várias outras obras dele, os amigos se tornam acusadores, “testemunhas de caráter”, num sentido inquisitório e ressentido. O narrador de Trocando os pés pelas mãos põe-se a contar sua história por causa de uma carta venenosa de um velho amigo. E uma das histórias chama-se Zetland- Por uma testemunha de caráter.

Ainda temos o tema da civilização norte-americana, de seu desgaste, da sua abstração, apesar do materialismo triunfante, que faz dos protagonistas bellownianos inadaptados eternos, vistos sempre com desconfiança e desconforto, e condenados ao inferno da sua época e dos seus laços familiares (que ele sempre retrata com sarcasmo). Como diz o narrador de Primos, “posso dizer que estou preso num pequeno porto histórico, sem poder sair para o mar”.

Nenhum dos cinco textos do livro é perda de tempo, porém os melhores são, sem dúvida, o texto-título e Uma travessa de prata. Conseguem concentrar seus temas num curto espaço e são redondos, perfeitos. No primeiro, como já foi dito, uma carta de um velho amigo coloca em discussão o caráter do narrador (que está no Canadá, fugindo da Justiça estadunidense), a partir da discussão de um incidente, décadas antes, no qual ele teria sido grosseiro com uma bibliotecária; no segundo, o episódio do roubo de uma travessa de prata confronta pai e filho e, mais ainda, diferentes reações à cultura judaica e á cultura hegemônica protestante nos EUA.

Dois outros textos, Como foi o seu dia? & Primos alternam momentos fantásticos com momentos mortos. A impressão que se tem é que Bellow não conseguiu se decidir se iria amplificá-los num romance ou mantê-los nos limites da narrativa curta. Muita coisa transborda na história de Katrina, mulher suburbana e comum que arrisca a guarda dos filhos para se encontrar com seu amante, um intelectual extremamente prestigiado, com a proverbial sombra da morte pairando sobre ele (sem contar a não menos proverbial sombra do egocentrismo), e na história de Ijah Brodski, importunado com pedidos de ajuda de seus primos, um envolvido com a Máfia, e o outro, um pensador obscuro que acredita ter realizado uma revolução no pensamento humano.

São, para ser franco, os textos com os momentos mais envolventes e fortes do livro inteiro. Entretanto, o resultado final parece confuso, uma massa não totalmente trabalhada. E Zetland- Por uma testemunha de caráter parece um fragmento de um texto maior. O leitor fica frustrado ao ver que o texto se interrompe abruptamente.

Mesmo com esses percalços, prova de que Bellow não se sente inteiramente confortável em textos mais curtos, embora suas últimas obras (Um furto e A conexão Bellarosa, por exemplo) caminhem nesse sentido, sua prosa está muito acima do que se faz hoje em dia por aí. Agora esperemos que se publique no Brasil As aventuras de Augie March[1],seu livro mais prestigiado. Ou que se coloque em circulação novamente suas obras-primas Herzog, O planeta do Sr. Sammler & O legado de Humboldt (os quais eu li e reli apaixonadamente na primeira metade dos anos 1980), que estão há anos sumidos das livrarias.


[1] Nota de 2011: Isso só aconteceu em 2009, numa edição da Companhia das Letras que eu indiquei como o destaque entre as traduções daquele ano.

O introvertido junguiano na ótica de Saul Bellow

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 07 de setembro de 1999)

Sempre que leio um texto de  Saul Bellow me vem à mente uma frase do monumental Tipos Psicológicos (um livro que poucas pessoas se animam a ler, o que é uma pena, pois é uma experiência extraordinária), de Jung: “…o que tende para fora tem de viver o seu mito,o que tende para dentro sonhará seu meio ambiente, a chamada vida real” (o que tende para fora= extrovertido; o que tende para dentro= introvertido).

A chamada vida real geralmente vem cobrar seu preço aos introvertidos protagonistas do autor de The actual- Presença de mulher (1997)—em tradução de Lia Wyler—,quebrando a auto-complacência deles de encontro aos aspectos mais sórdidos e degradantes da nossa existência, envolvendo-os em adultérios, divórcios, crimes e outros pecados.

No caso do protagonista-narrador de The actual, Harry Trellman esse encontro com a chamada vida real e seus aspectos menos “elegantes”, por assim dizer, acontecerá tardiamente por causa da sua peculiar relação com um milionário, Sigmund Adletsky, que utiliza em seu próprio proveito as observações de Trellman sobre o comportamento do rarefeito círculo de pessoas que eles conhecem.

Trellman, ao longo de sua vida, manteve-se apaixonado por Amy Wustrin (a qual casou com Jay, melhor amigo dele) e, a certa altura dos acontecimentos, ela começou a trabalhar para Adletsky, assessorando-o (como decoradora) na compra de imóveis.

A contraditória “presença” de Amy na vida de Trellman (realçada pelo mal escolhido título brasileiro) pode se constatada no seguinte trecho: “Objeto de amor seria o termo conveniente mais comum para indicar o que Amy se tornou para mim. Mas aonde isto leva? Suponhamos que, em lugar de dizer objeto de amor, disséssemos porta—que tipo de porta? Tem maçaneta, velha ou nova, lisa ou amassada, para onde abre? Investi nela meio século de sentimentos, fantasias, absorção, conversas imaginárias. Depois de quarenta anos de imaginação concentrada, sinto-me capaz de visualizá-la em qualquer momento de um determinado dia… Mas, uma vez, há uns dez anos, encontrei Amy inesperadamente e não a reconheci, a mulher com quem eu virtualmente mantinha um contato mental diário… Ela estava no mundo real. Eu não”.

O eixo do texto é um único dia, um dia gelado em Chicago, aquele em que Amy deve efetuar a transferência dos restos mortais do ex-marido (que comprara, numa brincadeira de mau-gosto, do pai dela, o túmulo ao lado da sogra). Antes, ela tem um compromisso com Adletsky, envolvido na compra de um novo apartamento. É ele quem sugere que Trellman faça companhia a Amy na sua desagradável tarefa no cemitério, possibilitando um dos mais inusitados pedidos de casamento da ficção.

E na narração desse dia de reencontro para Amy e Trellman emerge alguns desagradáveis  elementos que compõem a vida real, da qual ele sempre se sentiu “exilado” (mesmo em aparência: judeu, ele tem no entanto uma aparência “oriental”, lembrando para alguns um chinês e para Adletsky um japonês): Jay  Wustrin, o falecido, gravara as relações sexuais de Amy com um amante ocasional e usara as fitas no tribunal para deixá-la sem nada.

O apartamento cuja mobília Amy e Adletsky vão vistoriar e discutir o preço pertence ao casal Heisinger. Madge Heisinger tem no seu currículo anos de prisão como mandante da frustrada tentativa de homicídio contra o marido e pretende dar o dinheiro da venda para o amante que tentou efetivar o assassinato.

O próprio e finado Wustrin adorava mostrar a Trellman um marido cuja esposa ele já “traçara”. O início da curiosa ligação dangereuse entre Trellman e Adletsky teve como estímulo a discussão das humilhações sofridas por uma mulher distinta, Francis Jellicoe, que ambos admiram, em função da sua paixão por um marido imprestável que engravidara uma esquimó da Groenlândia…

Mesmo mantendo-se num plano quase ascético nessa área sentimental (ao contrário de alguns famosos protagonistas de Bellow, como os de Herzog & O legado de Humboldt), Trellman oculta certas irregularidades nos seus negócios que apenas ficam insinuadas na narrativa.

O toque de gênio de The actual, que evoca as maiores realizações do esplêndido autor de O planeta do Sr. Sammler, é que mostrando como o intrrovertido Trellman sonha a “vida real”, quase que a contragosto, ele também consegue mostrar os mitos que iludiram e tornaram teatral e falseada a vida de pessoas mais ajustadas, não-exiladas do jogo da existência social, como o próprio marido de Amy, e até ela mesma, como se pode constatar na cena em que Trellman não a reconhece na rua, apesar de ter pensado nela todos os dias durante décadas: “Para ela foi um golpe terrível… E quis dizer com isso que, se eu não a reconhecia, ela já não era a mesma pessoa. Ela, que anda se apresentava ou, como se diz, vendia a imagem que costumava ter, fora apanhada em uma impostura”.

Ou mais adiante: “Esta manhã Amy usava muita maquiagem, especialmente em torno dos olhos, onde precisava mais. Seu rosto redondo estava calmo, embora sua máquina de calcular interior estivesse funcionando em alta velocidade… era óbvio que ela ainda controlava a aparência; suas peculiaridades e faculdades estavam como reses no curral, sob suas vistas”.

13/05/2012

DEZ DESTAQUES DE 2009

Pessoalmente, sempre acho meio ridículo fazer lista de melhores. O mercado editorial é um oceano e uma pessoa só consegue, no máximo, indicar gotas desse oceano (a metáfora não é muito rica, porém é bem exata). De tudo o que li em 2009, proponho dez destaques, levando em conta o ineditismo dos livros, apesar de 2009 ter sido um ano pródigo em novas traduções: por exemplo, surgiram versões novas de Cem anos de solidão, O  inominável,  Fundação, Zazie no metrô, O turista acidental , Alice no país das maravilhas, e um vasto etc.

Outro destaque à parte foram os livros relacionados ao Evolucionismo  e certamente, nesse quesito, além do seu brilhantismo próprio, Richard Dawkins foi o campeão, com A grande história da evolução & O maior espetáculo da terra (este último, nem comprei ainda…).

Após esse preâmbulo, passo à minha lista de destaques (outros livros vêm à minha mente, mas quero me ater a esse número   redondo):

10)  Após o anoitecer, de Haruki Murakami (Alfaguara)- belo romance japonês que nos mergulha nas cambiâncias da “modernidade líquida” (como Zygmunt Bauman caracterizou nossa época) que não pouparam nem o mundo oriental.

9) Suicídios exemplares, de Enrique Vila-Matas (CosacNaify)- deliciosa e provocante coletânea de histórias cuja temática já e indicada pelo título., grande momento do autor espanhol. Espere mais ironia que drama, leitor..

8) Buscas curiosas, de Margaret Atwood (Rocco)- A grande escritora canadense reuniu textos onde comenta outros escritores, a feitura de alguns de seus livros e circunstâncias biográficas. O resultado é tão apaixonante quante sua própria ficção.

7) Leite derramado, de Chico Buarque (Companhia das Letras)- O melhor, mais inspirado, romance de Chico até agora, e simplesmente um texto primoroso, de primeira. Um século transcorre diante dos nossos olhos com uma insustentável leveza de estilo, e uma mirada poderosa no racismo latente em nossa sociedade. Maior poeta da nossa MPB, Chico agora também é um dos nossos grandes prosadores.

6) Dois grandes momentos da ficção uruguaia,: o primeiro livro de Juan Carlos Onetti (cujo centenário foi comemorado em 2009), O poço (1939), reunido a Para uma tumba sem nome (1959), numa edição da Planeta; e Primavera num espelho partido, de Mario Benedetti (Alfaguara), belíssimo romance político, utilizando a forma polifônica (muitas vozes) e comprovando a maestria de uma das grandes perdas do ano passado.

5) Súplicas atendidas, de Truman Capote (L&PM)- Apesar de inacabado e um pouco desagradável, é fascinante esse painel moralista do jet set americano e europeu entre os anos 40 e  70, que apresenta alguns momentos geniais, em meio a fofocas e revanches. Também vale destacar o atraso com que foi traduzido e o descaso com que foi traduzido.

4) Modernismo, de Peter Gay (Companhia das letras)- Foi bastante atacado esse esforço enciclopédico do grande historiador e biógrafo de Freud. Mas eu o acho admirável e necessário. Numa época de fragmentação, é preciso haver esses exercícios de totalização, e o Modernismo é ainda o nosso último horizonte “estável”.  O mundo seria muito mais sem graça se não existissem Peter Gay e Richard Dawkins.

3) Amuleto & Estrela distante, de Roberto Bolaño (Companhia das Letras)- Embora nenhum dos dois tenha a amplitude suprema de Detetives selvagens, talvez o maior livro dos últimos anos, mostram como Bolaño, junto com W.G. Sebald (aliás,  o grande livro de Sebald, Os emigrantes, foi reeditado este ano, também pela Companhia. das Letras, havendo uma edição anterior pela Record), é o morto mais vivo da ficção contemporânea (ele morreu, pateticamente, aos 50 anos, esperando por um transplante de fígado foi publicada e conhecida quase toda postumamente).

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2) Um anarquista e outros contos, de Joseph Conrad (Hedra)- É até engraçado colocar o genial Conrad num segundo lugar, uma vez que ele é um dos autor-referência, mesmo nas suas histórias curtas, escritas no início do século passado, e que abordam temas ainda atualíssimos (terrorismo e publicidade, por exemplo).Também é outro caso de atraso lamentável em matéria de tradução. É preciso também destacar o papel importante da editora em colocar títulos surpreendentes no mercado, na mesma série à qual pertence o livro do genial escritor polonês.

1) As aventuras de Augie March, de Saul Bellow (Companhia das Letras)- Outro caso estrondoso de descaso e atraso  Esse livro de 1953 estbeleceu definitivamente a reputação de Saul Bellow, um dos maiores escritores norte-americanos, e muitos ainda o consideram sua obra-prima. Talvez não seja (eu prefiro por exemplo, O planeta do sr. Sammler, publicado dez anos depois, e há ainda Herzog  & o esplêndido O legado de Humboldt), mas é um dos seus melhores livros. É bom lembrar que outra grande obra de Bellow, Henderson, o rei da chuva, tornou-se cinquentenária agora em 2009, e assim aproveito para corrigir uma omissão que cometi no meu post a respeito das comemorações literárias deste ano. Agora: se o romance de Bellow é o grande destaque do ano, a capa escolhida é uma das piores, simplesmente horrorosa.

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