MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

09/06/2015

O planeta do Sr. Bellow- A escritura da meditação e da imaginação moral

Paris september 20. File photo: American writer Saul Bellow (1915-2005) Photo by Ulf Andersen / Getty Images

Paris september 20. File photo: American writer Saul Bellow (1915-2005)
Photo by Ulf Andersen / Getty Images

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«Mas não se atreva nunca a contradizer a sua época, não vá contradizê-la, só isso. A não ser que você seja do tipo Sammler, sentindo que o lugar de honra está do lado de fora…»

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 09 de junho de 2015)

Ao contrário da época de sua morte (em abril de 2005), quando havia um vazio editorial em torno de uma das mais importantes obras literárias contemporâneas (agraciada com o Nobel em 1976)[1], no centenário de nascimento de Saul Bellow (10 de junho), o leitor brasileiro encontrará facilmente títulos célebres como Henderson-O Rei da Chuva, Herzog, O Legado de Humboldt e As Aventuras de Augie March. Este último, seu terceiro romance, lançado em 1953, demorou para ser traduzido, mas foi o livro que o consagrou. Imenso, prolixo, tentacular, um pouco cansativo em alguns momentos, representou, contudo, um feito de imaginação e estilo, dentro daquela ambição arquetípica dos jovens escritores dos EUA de produzir “o grande romance americano”. Aliás, a geração a que o criador de Augie March pertence (que se consolidou nos anos seguintes ao final da Segunda Guerra) revelou-se pródiga em candidatos a essa realização: Norman Mailer, Truman Capote, J.D. Salinger, William Styron, Flannery O´Connor, Mary McCarthy, Gore Vidal, entre outros.

As peripécias do jovem judeu egresso dos bairros pobres de Chicago («Sou americano, nascido em Chicago, aquela cidade sombria, e faço as coisas do jeito que aprendi a fazer, estilo livre», declara de saída Augie, narrador das próprias desventuras[2]) destoam da atmosfera pesada e viscosa dos primeiros livros de Bellow (bem mais curtos), Por um fio(1944)[3], A Vítima (1947) e mesmo do posterior Agarre a vida (1956)[4], que podem ser tomados como uma trilogia sufocante sobre a obsessão em fugir ao fracasso, representado pela corda bamba financeira (seus protagonistas em geral não são exatamente hábeis em gerir ou manter seu dinheiro, e quase todos acabam enredados em situações sórdidas e desmoralizantes).

Em 1959, Henderson-O Rei da Chuva inaugurou uma fase fantástica, que se estendeu até Dezembro Fatal(1982)[5], no meio da qual encontramos suas obras-primas, caso do cultuado Herzog (1964); de O Planeta do Sr. Sammler (1970, a mais sentida ausência em termos de edição brasileira neste centenário: trata-se de uma poderosa meditação ficcional sobre a morte, o destino da civilização, a estatura contemporânea da ideia de ser humano—como se vê, Bellow não se intimidava diante dos assuntos grandiosos—a partir de um sobrevivente: o Sr. Sammler, vivendo numa Nova York babélica, havia sido fuzilado por soldados nazistas, junto a um grupo enorme de judeus, mas conseguira escapar abrindo caminho pela pilha de mortos (entre os quais, sua esposa); e de O Legado de Humboldt (1975). Em todos eles, intelectuais, muitas vezes autocomplacentes, semeiam (ou se envolvem em) confusões, e discute-se a natureza dos afetos, da amizade (um tema muito importante para Bellow), da lealdade, sempre com digressões brilhantes (e integradas ao movimento da narrativa), envolvendo balanços civilizatórios e inquietações sobre a condição humana: «Há no Livro de Jó aquela famosa queixa de que Deus exige demais. Jó protesta que está se sentindo atormentado de maneira insuportável […] Fora uma exigência grande demais para a consciência e a capacidade humanas, ultrapassando suas possibilidades de resistência. Não estou falando apenas das exigências morais, mas também da imaginação necessária para produzir uma figura humana de estatura adequada. Qual a verdadeira estatura de um ser humano?»[6].

Mesmo nos seus livros mais tardios, menos ambiciosos (onde ele parece ter retornado à forma mais curta dos iniciais), como Presença de Mulher(1997)[7], ou ainda nos contos (Trocando os pés pelas mãos, 1984)[8] seus anti-heróis introvertidos e voltados para si mesmo continuaram a se defrontar com pessoas extrovertidas, aparentemente ajustadas ao mundo ao redor (ao mesmo tempo, vivendo ilusões e autoengano), encarnações definitivas do modo junguiano de caracterizar os Tipos Psicológicos: «…o que tende para fora tem de viver o seu mito, o que tende para dentro sonhará seu meio ambiente, a chamada vida real». Saul Bellow sonhou a chamada vida real como poucos, desvelando seus mitos com argúcia, fôlego e uma extensa galeria de personagens inesquecíveis.

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TRECHOS SELECIONADOS DE O PLANETA DO SR. SAMMLER

«O Sr. Sammler tinha alguma experiência desses momentos de inaproveitável claridade…»

«Depois da guerra, Sammler mandara dinheiro, pacotes com víveres para Cieslakiewicz, Houve correspondência com a família […] após alguns anos, as cartas começaram a exprimir sentimentos antissemíticos. Nada de muito exagerado. Não fora uma grande surpresa, nem mesmo era inesperado. Cieslakiewicz tivera seu momento de honra e de caridade. Arriscara a vida para salvar Sammler. O velho polonês também fora um herói, mas o seu heroísmo acabara, terminara. Afinal, era um ser humano comum e desejava tornar-se novamente o que sempre fora. Fizera já o suficiente. Não tinha ele, então, o direito de ser outra vez ele próprio? De retornar a seus antigos preconceitos?…»

«O Sr. Sammler possuía um caráter simbólico… Mas de que é que era símbolo? Nem mesmo ele próprio saberia dizê-lo. Será que era porque sobrevivera? Mas se nem isso fizera, já que tanto da sua pessoa anterior desaparecera. Não se tratava de sobrevivência, apenas de duração…»

«O que é que havia para recuperar? Tinha pouca saudade das primitivas formas do que ele fora. Inamistoso[…] No ambiente humano, como todos os outros, dentro das particularidades da vida comum, ele era humano—e, aos poucos, voltava ao normal das criaturas, com as suas baixezas e o seu encanto animalesco. Assim, agora, realmente, Sammler já não mais sabia como enfrentar-se a si próprio. Desejava, com Deus, ficar livre dos liames do comum e do finito, tal e qual uma alma liberada da natureza das impressões e da vida diária. Para que isso pudesse acontecer, o próprio Deus estaria à espera, sem dúvida. E um homem que fora morto, e até enterrado, não deveria ter outros interesses. Deveria estar completamente desinteressado. Eckhart dizia que Deus amava a pureza e a unidade desinteressadas[…] E o que além do espírito havia de causar cuidados a um homem egresso do túmulo? Porém, misteriosamente acontecia, conforme Sammler pudera observar, encontrar-se novamente atraído, poderosamente atraído e devolvido à condição puramente humana. Assim sendo, aquelas manchas que se encontravam no interior da substância de cada um sempre pontilhariam de reflexos tudo o que o homem procura e tudo o que o circunda. E assim, a sombra dos seus nervos sempre projetaria listras, como as árvores por cima do capim, ou como a água na areia, uma rede feita de raios deluz. Era como um segundo encontro do espírito desinteressado com necessidades biológicas causadas pelo destino, uma luta permanente com a criatura persistente…»

«É isso o que acontece quando o indivíduo começa a voltar da área desinteressada para a condição de mera criatura. Parcelas ou aspectos de seu próprio ser anterior tendem a reviver. O caráter anterior reafirma-se novamente e mesmo, às vezes, de maneira bem desagradável, fraca e desgraciosa…»

«Dinheiro, jactância—fraquezas judaicas. Seriam também americanas? Sammler encontrava-se em dúvida, deficiente nas suas informações a respeito de americanismo contemporâneo…»

«Era europeu e o que aqui havia eram, afinal, meros fenômenos americanos…»

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NOTAS

[1] VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/07/08/um-artesao-genial-das-palavras-e-a-respeitabilidade-mental-saul-bellow-1915-2005/

[2]  Utilizo a tradução de Sonia Moreira (Companhia das Letras, 2009) de The adventures of Augie March.

[3] No original, Dangling man.

[4] Esse é o título da tradução de Donaldson M. Garschagen (Rocco, 1986) para Seize the day. Há uma versão anterior, feita por Ana Maria M. Machado (Edições Bloch,  1967), com o título Aqui e agora.

[5] No original, The dean´s december.

[6] Trecho da tradução de Denise Vreuls (utilizo a edição da Abril Cultural, 1982) para Mr. Sammler´s planet. Em 1982, tive esse primeiro contato com a obra de Bellow, que se aprofundou nos anos imediatamente seguintes e até hoje, 33 anos depois, considero-o um escritor admirável, um dos mestres da imaginação moral na prosa de ficção.

[7] No original, The actual. A respeito, ver aqui: https://armonte.wordpress.com/2013/07/08/o-introvertido-junguiano-na-otica-de-saul-bellow/. Depois de Dezembro fatal, Bellow só publicou mais um romance de fôlego, o melancólico More Die of Heartbreak (1987), traduzido como A mágoa mata mais. Os posteriores, Um furto e A conexão Bellarosa, “novellas”, foram publicados no mesmo ano, 1989.

[8] Ver aqui: https://armonte.wordpress.com/2013/07/08/um-forte-candidato-a-maior-autor-dos-eua-saul-bellow/

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08/07/2013

Um artesão genial das palavras e a respeitabilidade mental: Saul Bellow (1915-2005)

(resenha-homenagem publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 16 de abril de 2005)

“Eu tive consciência da influência de Ravelstein quando imaginei este perfil. É preciso admitir também que ele normalmente estava presente em acontecimentos diários. Isso se devia ao poder da sua personalidade. E também porque sua vida tinha mais estrutura interna do que a minha, e eu tinha me tornado dependente do seu poder de ordenar experiências… Muitas pessoas querem livrar-se dos seus mortos. Eu, pelo contrário, tenho uma tendência para me agarrar a eles. Minha persistente intuição, já deve estar claro nesta altura, é que eles não partiram para sempre… Eu sei que se perde a respeitabilidade mental quando se reconhece esse tipo de fantasia. Até eu, perceba, rendo-me às opiniões correntes. Mas pode haver explicações simples para a persistência de Ravelstein na minha vida diária. Quando ele morreu, eu comecei a ver que tinha se tornado meu hábito contar-lhe o que havia acontecido desde que nos víramos pela última vez…”

Saul Bellow, um dos grandes escritores contemporâneos, sério candidato a maior escritor dos EUA pós-Segunda Guerra,e outra perda (após Susan Sontag), se foi no dia 5 deste mês. Todavia—pelo menos no Brasil—os editores já anteciparam sua morte, uma vez que livros maravilhosos como Herzog (1964), O planeta do Sr. Sammler (1969) e O legado de Humboldt (1975)—difícil escolher o melhor dos três—,para não falar dos menos conhecidos Agarre a vida (1956), Henderson-O rei da chuva (1959) e Dezembro fatal(1985), entre outros, sumiram há muitos anos das livrarias e nunca foram relançados.

Felizmente, o livro que ele escreveu aos 80 e poucos anos (em 2000; Bellow nasceu em 1915), ainda demonstrando sua perícia como artesão das palavras, Ravelstein (em tradução de Léa Viveiros de Castro), o qual gira em torno de uma de suas obsessões (a discussão da natureza da amizade), permite que não haja um vazio em torno do comentário à sua morte. É o tributo de Chick, o narrador, a um amigo, que lhe pedira que escrevesse sua biografia.

Abe Ravelstein era um pensador carismático com uma polêmica carreira acadêmica (“as preocupações sérias de Ravelstein coexistiam, para tomar emprestada uma palavra da política do século XX, com sua bufonaria”) e que escrevera (por sugestão de Chick) um best-seller filosófico (foi o que aconteceu com o inspirador do personagem, Allan Bloom, amigo de Bellow e autor de O declínio da cultura ocidental).

Como acontece nesse tipo de romance, a pretexto de falar sobre o amigo, Chick acaba mesmo é revelando-se para o leitor (ele é o típico herói bellowniano, conforme já se mostrou aqui em outros artigos desta coluna, o introvertido junguiano: “Ele achava que eu estava preso na privacidade e que devia ser devolvido à comunidade—Muitos anos de introspecção—costumava dizer…”) e confrontando-se com sua própria mortalidade (Ravelstein já morrera devido a complicações trazidas pela AIDS): numa viagem consome peixe contaminado e, numa idade bem avançada, passa semanas na UTI entre a vida e a morte (fato que realmente aconteceu com Saul Bellow).

Embora seja um livro digno de seu autor, Ravelstein sofre certo esgotamento porque se imprime grande vitalidade à figura do amigo morto nas primeiras cem páginas (o livro tem duzentas e poucas) e depois não há personagens e situações (mesmo a aterradora experiência de Chick) que sustentem com a mesma intensidade a narrativa.

Por outro lado, é imperdoável que um escritor da categoria dele caia, mesmo numa formulação elegante, naquele velho clichê que envolve o transplante de coração: “Os órgãos são também repositórios das sombras ou dos impulsos assertivos, ansiosos ou alegres,conforme o caso, e estes tinham entrado no corpo de Herbst junto com o coração novo… Se fosse um transplante de rim ou de pâncreas, seria diferente. Mas o coração traz tantas conotações, ele é o centro das emoções do homem—sua vida mais elevada…”!!!??

Numa narrativa dominada por acontecimentos médicos (uma praga do nosso tempo), é preferível a visão do insubmisso Ravelstein: “…ele não gostava muito de médicos, eram os aliados da burguesia que tinha pavor da morte”.

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