MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

09/09/2014

O MESTRE DA RECOLETA: Cem anos de Bioy Casares

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(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 09 de setembro de 2014)

(uma versão ampliada da resenha abaixo foi publicada no LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO, em 03 de setembro de 2014, VER http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2014/09/o-centenario-de-outro-mestre-argentino.html)

    Dois dos maiores escritores argentinos têm seus centenários comemorados em datas muito próximas: o de Julio Cortázar, em 26 de agosto; o de Adolfo Bioy Casares, no próximo dia 15. Coincidência do destino ou um plano celeste (título de um conto do segundo)?  Afinal, ambos exercitavam-se no domínio do fantástico, do insólito. A diferença está na linguagem: enquanto o estilo cortazáriano era mais experimental e exuberante, o do “mestre da Recoleta” (o famoso bairro “nobre” portenho) apresentava-se mais comedido e “clássico”.

     Gostaria muito de estar comentando, no embalo da efeméride, uma bem-vinda edição brasileira — que não há, salvo engano — de um dos admiráveis romances de Bioy, Plano de Fuga (1945). Na falta deste lançamento tão desejado, volto-me para a sua mais famosa obra no gênero (publicada em 1940, quando ele contava 26 anos!), cuja ambientação também se dá numa ilha longínqua: A Invenção de Morel (durante muitos A Máquina Fantástica no Brasil).

    A essa ilha chegou como fugitivo da lei o narrador. Ali podia viver anos, sossegado e solitário, escoltado pelo bando solícito dos ecos, multiplicadamente só”, como um Robinson Crusoé moderno. O leitor, todavia, é guiado para sendas e falésias mais perturbadoras. Pois não é que nesse ermo há uma piscina, um hotel (também uma espécie de museu) e uma capela? Sem falar no grupo de quinze “visitantes” (e seus criados). Sobretudo há, entre eles, uma mulher fascinante, Faustine.

     O fugitivo admira esses “heróis do esnobismo” que não se importam de manter seus prazeres, mesmo com o mau tempo local: “… sentados em bancos ou na grama, conversavam, ouviam música e dançavam em meio a uma tempestade de água e vento que ameaçava arrancar todas as árvores”; em contrapartida, é ostensivamente ignorado, sentindo-se invisível; chega a indagar, diante da frieza de Faustine, como Freud já o fizera, proverbial e genericamente, sobre as mulheres: “Mas que será que ela quer?”. 

     A extrema solidão: uma ilha povoada e nenhum contato. O isolamento completo em meio aos lânguidos lazeres das “aparições”. Sim, porque em determinado momento, se dá conta de que não é real o grupo, o qual repete os mesmos gestos, as mesmas falas. “Ocorreu-me que talvez se tratasse de seres de outra natureza, de outro planeta… Lembrei-me de que falavam em correto francês”: a língua francesa como idioma universal é uma impagável ironia, com aquele toque sutil devido ao qual tantos veneram, com razão, o amigo íntimo e colaborador de Jorge Luis Borges (escreveram juntos uma série de livros policiais paródicos, como Seis problemas para Dom Isidro Parodi e Um modelo para a morte; além disso, organizaram uma formidável Antologia da Literatura Fantástica), que, talvez esse motivo, não ficou eclipsado pelo mítico colega mais velho (Borges nasceu em 1899).

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    As aparições foram criadas por Morel. O inventor preservou numa máquina os momentos vividos pelo grupo na ilha: não conseguindo possuir a esquiva Faustine, por fim vampirizou-a, tornando-a imortal e irreal: “de Faustine não há senão esta imagem, para a qual eu não existo”. Só resta a loucura final: fingir-se de aparição, unir-se às imagens como se fizesse parte delas, de forma a enganar um eventual espectador desprevenido”.

     Depois das suas ilhas inquietantes, o autor de A Invenção de Morel ainda produziria belos romances, como O sonho dos heróis (1954) e Diário da guerra do porco (1969), estes felizmente já traduzidos. Da sua vasta e notável produção contística, o leitor brasileiro pode encontrar uma sumária entretanto expressiva seleção de catorze Histórias Fantásticas. Para se ter uma pequena ideia do humor de Bioy, basta citar um dos pontos altos do volume (como todos os já citados, editados pela COSACNAIFY), O calamar opta por sua tinta: um ET vem trazer a salvação a um mundo que pode ser destruído pela bomba atômica (estamos nos anos 1950), mas é frágil e necessita ser regado constantemente. Os moradores de uma cidadezinha argentina o acolhem com boa vontade, mas precisam do regador e querem manter sua rotina diária, e acabam deixando que morra.

    O charme desse texto está na maneira como é construído, todo em cima da curiosidade dos habitantes da cidade em saber por que o regador não está sendo utilizado de sua forma usual e o que está acontecendo no depósito do homem mais rico da região. Diante dessas absorventes questões, o destino da humanidade é coisa secundária.

VER TAMBÉM AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/06/10/bioy-casares-e-a-multiplicacao-da-solidao/

https://armonte.wordpress.com/2012/06/10/o-henry-james-argentino/

 

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resenha

10/06/2012

BIOY CASARES E A MULTIPLICAÇÃO DA SOLIDÃO

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(uma versão do texto abaixo foi publicada no LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO em 03 de setembro de 2014,

VER: http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2014/09/o-centenario-de-outro-mestre-argentino.html)

A SOLIDÃO POVOADA POR FANTASMAGORIAS

Apesar de um hotel-museu, de uma piscina, de uma capela, o relato de A invenção de Morel segue o modelo básico do náufrago à Robinson Crusoé: o homem solitário que passa por dificuldades para sobreviver numa ilha longínqua (o narrador chegou a ela como fugitivo). Ali podia viver anos, sossegado, escoltado pelo bando solícito dos ecos, multiplicadamente só”.  Mal sabe ele como é bendita essa solidão. Como advertiu Bakhtin, “na solidão é impossível estar morto”. O mundo existe diante de nós, pois estamos vivos, e nada testemunhará a nossa morte, se ela vier, dando-lhe forma e realidade. O mundo apenas se apagará.

Mesmo que Adolfo Bioy Casares (1914-1999) seguisse esse caminho já pisaríamos num terreno perigoso. O leitor brasileiro pode acompanhá-lo por rumos ainda mais perturbadores, pois a CosacNaify iniciou uma série chamada Prosa de Observatório justamente com nova tradução desse grande clássico de 1940 (publicado antes como A máquina fantástica; só numa outra edição, nos anos 1980, é que o título original foi finalmente respeitado).

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O narrador descobre que há um grupo de 15 pessoas, fora os criados, visitando a ilha. Há uma mulher fascinante, Faustine. Ele admira esses “heróis do esnobismo” que não se importam de manter seus prazeres com mau tempo: “sentados em bancos ou na grama, conversavam, ouviam música e dançavam em meio a uma tempestade de água e vento que ameaçava arrancar todas as árvores”. Tenta chamar a atenção de Faustine. E, ignorado, sentindo-se invisível (alguém quer melhor imagem do pária ?), indaga-se, como Freud já se indagou: “Mas que será que ela quer?”. A extrema solidão: uma ilha povoada e nenhum contato. O isolamento completo em meio às “lânguidas conversas das aparições.

Sim, porque em determinado momento, ele percebe que não são reais essas pessoas, que repetem os mesmos gestos, as mesmas falas (o que não seria nada estranho no mundo de Alain  Resnais e seus colaboradores Alain Robbe-Grillet e Marguerite Duras, grandes nomes da nouvelle vague e do noveau roman, os quais nunca deixaram de ser gratos a Bioy Casares).

“Ocorreu-me que talvez se tratasse de seres de outra natureza, de outro planeta… Lembrei-me de que falavam em correto francês. Ampliei a monstruosidade anterior: a de que esse idioma fosse um atributo paralelo entre os nossos mundos, dedicado a diferentes fins (o francês como idioma de mundos paralelos é uma impagável ironia e é uma expressão de ruína, no sentido dado a essa palavra por Walter Benjamim, por ser o idioma da civilização, em determinada época, que se congela e se mantém inerte na ilha; além disso, o idioma “dedicado a diferentes fins” denuncia a luta de classes, essa sim nunca inerte e congelada).

As aparições se transformam no pior dos pesadelos porque são artificiais: foram criadas por Morel, que preservou numa máquina os momentos vividos pelo grupo na ilha. Mundo-simulacro, reduzindo o viver a uma insustentável leveza: “Acostumado a ver uma vida que se repete, acho a minha irreparavelmente casual”. Assim, Morel, que não possuiu Faustine, a vampirizou e matou ao torná-la imortal: de Faustine não há senão esta imagem, para a qual eu não existo”. Só resta a loucura final: fingir-se de aparição, unir-se às imagens como se fizesse parte delas, de forma a enganar um eventual “espectador desprevenido”.

E se o autor deste artigo lembrar que colocou A invenção de Morel na sua lista dos 100 maiores livros do século XX, alguém porventura estranhará?

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA  de Santos, em 16 de setembro de 2006)


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