MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

24/03/2011

O mau infinito e o Mal infinito

 

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 17 de setembro de 2005)

“Mas estas colinas, agora ele as conhece, isto é, ele as conhece melhor, e se jamais chegar a contemplá-las ao longe novamente, penso eu, com outros olhos, e não somente isto mas o interior, todo o espaço interior que não se vê nunca, o cérebro e o coração e as outras cavernas onde sentimento e pensamento têm seu sabbat, tudo será de outra forma disposto…”

O grande crítico Georg Lukács detectou com precisão o significado da “forma biográfica” e do exercício da memória (enquanto reminiscência pessoal) para o romance: é a vitória sobre o “mau infinito” já que a trajetória do indivíduo, sua evolução (até mesmo sua desilusão) continuam a ser “o fio diretor ao longo do qual o mundo vem enlaçar-se e desenrolar-se na sua totalidade” (Teoria do Romance). Nesse sentido, a obra de Marcel Proust, Em busca do tempo perdido, seria o ponto culminante do gênero.

O trecho que abre este artigo pertence a Molloy, o livro inicial de uma desnorteante e inigualável trilogia, composta ainda por Malone MorreO inominável,  publicada por Samuel Beckett no início dos anos 50. É extremamente bonito e parece ir na direção da recuperação do tempo perdido via memória na linha Proust (sobre quem Beckett escreveu um ensaio famoso), da vitória sobre o mau infinito.

Pura ilusão. A trilogia destruirá a memória individual, a narração ficcional e a própria linguagem, mostrando-as como balbucios e tateios desarrazoados, fragmentários, desconexos, lampejos inúteis, cacarecos verbais de seres que mal o são. Como diz Malone: “o essencial se tornou tão mínimo que o fortuito parece sem limites”. Ou, como diz Mahood (de O inominável): “…tendo em vista a inutilidade de contar a si mesmo qualquer coisa que seja, para que o tempo passe, por que eu o faço, como se fossem necessárias razões para fazer qualquer coisa, para que o tempo passe, não importa, pode-se perguntar isso, para lembrete, por que o tempo não passa, não vos deixa, por que ele se amontoa à vossa volta, instante por instante, de todos os  lados, cada vez maia alto, cada vez mais espesso, vosso tempo, o dos outros, o dos velhos mortos e o dos mortos por nascer…”

O narrador nonagenário do sensaboroso Memórias de minhas putas tristes através da paixão  purificava-se da sua existência não-vivida até atingir uma espécie de virgindade interior que o tornaria compatível com uma adolescente virgem de 14 anos, trazendo-lhe a promessa de anos de vida a mais. É até covardia querer opor ao pior García Márquez um autor tão infinitamente superior quanto Beckett, mas que se pode fazer se o narrador de Malone Morre é (talvez) nonagenário também e se o livro foi relançado há pouco pela Códex ? A tentação era irresistível…

Aliás, é utilizada uma tradução de Paulo Leminski que ficou famosa em 1986, como a primeira realizada no Brasil. O responsável por esta coluna sempre se irritou com isso,  uma vez que conhecia o texto numa tradução satisfatória de Roberto Ballalai (editora Opera Mundi, 1973), que o arrogante  Leminski ignora em seu posfácio cheio de pose e bobagens (entre outras, dizer que traduziria o maior poema do século, The Waste Land, de T.S. Eliot, como Devastolândia, o que só seria admissível num apocalipse cultural).

Para dizer a verdade, nem a tradução pela qual ele se aurtocongratula, por ter sido feita a partir dos textos em francês (o original) e inglês (traduzido pelo próprio e expatriado irlandês Beckett), conjuntamente, é tão impecável. Há momentos em que perde feio para soluções de Ballalai.

Contudo Malone morre, e com ele morre a lógica do discurso, a vitória precária do romance sobre o mau infinito, o fio diretor que seria a forma biográfica. Só não morrem a paradoxal beleza do texto e o humor, que é uma experiência e tanto na leitura do autor de Malone morre: e se um dia eu me calar, é porque não há mais nada a dizer, embora nada tenha sido dito. Mas vamos deixar de lado esses assuntos mórbidos e vamos voltar ao tema da minha morte, daqui a uns 2 ou 3 dias se não me falha a memória… a menos que essa porra continue além-túmulo. Mas não vamos pôr o carro na frente dos bois, vamos morrer primeiro, depois vemos como é que fica.” Ou ainda: “…ao lado desta janela que às vezes eu me digo que deve ser uma pintura ilusória, como o teto de Tiepolo em Würzburg, que turista devo ter sido!, até do trema eu me lembrei.”

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https://armonte.wordpress.com/2011/03/24/o-fim-nunca-chega-endgame-de-beckett/

 https://armonte.wordpress.com/2011/03/24/beckett-a-terra-devastada-no-manicomio-do-cranio/

O FIM NUNCA CHEGA: “Endgame”, de Beckett

(resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 12 de março de 2002)

Samuel Beckett (1906-1989) sempre foi no Brasil apenas o autor de Esperando Godot. Nem mesmo a publicação (nos anos 80) da trilogia Molloy/Malone morre/O inominável mudou muito isso. A esperada tradução da extraordinária Fim de partida talvez modifique um pouco o panorama. Pois se Godot é uma grande peça, é difícil imaginar a ficção após a trilogia mencionada e o teatro após Endgame (ou Fin de partie, Beckett transitou entre as duas línguas). A experiência de ler e ver esse texto é de estranheza absoluta. Temos um cenário despojado onde restos da humanidade se digladiam, onde cada dia é imutável no processo de se torturar, humilhar e constatar que o fim nunca chega e que a agonia se arrasta. Diálogos nunca representam comunicação ou fraternidade.

Tanto na apresentação à sua tradução quanto no livro que publicou a partir de sua tese de doutorado (Samuel Beckett: o silêncio possível), no qual há um capítulo inteiro dedicado à elaborada gênese de Fim de partida, Fábio de Souza Andrade cita as seguintes palavras do autor irlandês:  “não há nada a expressar, nada com que expressar, nada a partir do que expressar, nenhuma possibilidade de expressar, nenhum desejo de expressar, aliado à obrigação de expressar”.

Em Mercier e Camier, há o seguinte diálogo entre os protagonistas:

“- Se nada temos a dizer,não digamos nada

– Nós temos coisas a dizer.

– Então por que não as dizemos?

– Não podemos

– Então fiquemos calados.

– Mas estamos tentando.”

Por sua vez, Hamm, o terrível protagonista de Fim de partida, irrita-se com a falação de Nagg e Nell, seus pais (os quais, mutilados, vivem confinados em latões de lixo): “Vocês não acabaram? Não vão acabar nunca? Isso não vai acabar nunca! Mas do que eles falam? De que se pode falar ainda?”

Mais adiante, numa cena com o criado/filho Clov, Hamm fica inquieto: Não estamos começando a… a significar alguma coisa?” Clov ri: Significar? Nós, significar! Ah, essa é boa  (num momento de revolta, Clov ridiculariza a linguagem: “Uso as palavras que você me ensinou. Se não querem dizer mais nada, me ensine outras. Ou deixe que eu me cale”).

O próprio Hamm fala e fala, atormentando os pais e Clov. Aliás, o angustiante da peça é que estamos vendo um estágio terminal da humanidade (Hamm está cego e paralítico), nem por isso a tirania e mesquinharia deixam de existir, nem por isso carências, desejos, enfim, a vontade do ego, deixam de existir, como se fossem a última tábua de salvação a que se pudesse agarrar antes do naufrágio final.

Por isso, são pertinentes os paralelos shakesperianos com as figuras de Lear (o soberano decaído) e Próspero (a relação de escravidão Hamm-Clov lembra, parodicamente, a que o mago mantinha com Ariel, em A tempestade). E não só eles:  Ricardo III dizia “meu reino por um cavalo”; cercado de rebotalhos humanos e objetos que perderam a sua utilidade, Hamm diz “Meu reino por um lixeiro (e não deixa de ser uma ironia a mais, quando se pensa que seus pais estão em latões de lixo).

Há uma linha de interpretação da peça que acredita que tudo (cenário, os outros personagens) são projeções da mente de Hamm.  Nós estamos vendo, na verdade,  os estertores de sua consciência lutando contra a falência generalizada do corpo. É possível, embora nenhuma interpretação definitiva “pegue” em se tratando de Beckett. Se pensarmos em Malone morre temos também lampejos (ou cacarecos)  de uma mente que mantém uma sobrevida execrável num corpo agonizante. Só que numa narrativa é possível manter-se confinado  nos limites da consciência e do discurso do narrador (no “manicômio do crânio”, expressão que aparece em Mal visto Mal dito, de 1981).  Mesmo que nada aconteça  em termos de ação em Fim de partida, o teatro tem exigências cênicas e dramáticas que não permitiriam , mesmo à mais ousada radicalidade, não mostrar nenhum confronto entre personagens no palco.

E, por incrível que pareça, para uma peça “onde nada acontece” Fim de partida tem uma energia e um dinamismo inesperados, e até aspectos muito engraçados, talvez porque no comportamento dos personagens há um misto de “clochard” (os famosos mendigos de Paris) e de “clown”. É lógico que é preciso ser dotado de um sentido de humor muito peculiar para achar graça (como eu) no diálogo em que Clov pergunta a Hamm: “Você acredita na vida depois da morte?” e ele responde: “A minha sempre foi. A “moral” da peça, por assim dizer, está sintetizada numa fala de Nell: “Nada é mais engraçado que a infelicidade, com certeza”.  O riso a caminho do patíbulo.

Simone de Beauvoir, em A força das coisas, escreveu  algo muito bonito sobre o teatro de Beckett:  “Desconfio  das peças que apresentam  através de símbolos a condição humana em sua generalidade; mas admirei  o fato de Beckett conseguir cativar-nos, simplesmente pintando essa incansável paciência que retém na terra, contra tudo e contra todos, nossa espécie e cada um de nós;  eu era um dos atores do drama, tendo por parceiro o autor; enquanto esperávamos –o quê?— ele falava, e eu escutava; pela minha presença e pela voz dele, mantinha-se uma inútil e necessária esperança”.

O que Beckett fala (a obrigação de expressar?) e nós escutamos, em Fim de partida, é muito mais sombrio (Simone de Beauvoir se referia à Esperando Godot), mas é apenas um passo adiante dessa incansável paciência, dessa inútil e necessária esperança.  Ou, como paradoxalmente afirma Hamm: o fim está no começo e no entanto continua-se…”

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BECKETT: A terra devastada no manicômio do crânio

    o despovoador

 

 A LINGUAGEM DA DEPAUPERAÇÃO: A CONJURAÇÃO DE ALGO A PARTIR DO NADA

        ninguém olha para dentro de si onde não pode haver ninguém” (Samuel Beckett, “O despovoador”, 1970)

 

      Todo mundo deve lembrar do título da peça de Edward Albee, Quem tem medo de Virginia Woolf. Ele virou um chavão e volta e meia vemos em algum texto, “Quem tem medo de …?”  Quem tem medo de Kafka, de Clarice Lispector, de Dalton Trevisan…

Pois eu vou repisar o clichê perguntando: “Quem tem medo de Samuel Beckett?” Eu, pelo menos. É muito difícil ler um texto desse irlandês terrível (nascido em  1906 e que morreu há 20 anos, 1989), discípulo até certa altura de James Joyce, sem sentir um desconforto danado, sentir que toda a nossa idéia de literatura (que dirá da realidade) é muito “confortável” e quase necrófila, pertencendo a uma noção ultrapassada. Por temperamento e gosto, estou longe do mundo de Beckett, mas sou fascinado por ele. Até agora conhecia mais a chamada 2a. fase da sua obra, aquela que o tornou célebre no pós-guerra, e à qual pertencem tanto a trilogia que destrói a narrativa (Molloy; Malone Morre; O inominável) quanto as maravilhosas peças do absurdo total e nonsense, Esperando Godot, Fim de Partida & Dias Felizes. A primeira fase (dos anos 30) é totalmente inédita no Brasil, salvo engano, e a 3a. fase tem uma ou outra tradução. É a ela que estão vinculados os dois textos traduzidos por Eloísa Araújo Ribeiro, na edição organizada por Vadim Nikitim e prefaciada pelo ótimo Fábio de Souza Andrade, que a Martins Fontes publicou: O Despovoador (cujo título original soa mais bonito, “Le Dépeupleur”; embora título original, como tudo em Beckett, seja algo escorregadio, pois seus “originais” transitam do francês para o inglês e vice-versa, acarretando modificações que sempre deslumbram seus tradutores) e Mal visto Mal dito ( (“Mal vu Mal dit”), título sensacional que já traz em si todo um deslocamento semântico.

Sob certo ponto de vista, O despovoador não é muito original: são muitos os exemplos de autores que utilizaram um espaço alegórico para reiterar o absurdo da condição humana, já vi algo assim até num episódio marcante de “Além da Imaginação”. Os anos 60 estão coalhados disso. O que faz o encanto,se é que se pode falar assim, do texto, é a sua beleza quase cartesiana e seu radicalismo. Parece que Beckett está descrevendo um cenário, dando as indicações visuais (ambos os textos do volume são muito visuais) para uma peça. E ele o faz com rigor: é um cilindro onde duzentos seres estão reunidos, onde há escadas regularmente escaladas que dão para nichos e túneis que se camuflam nas paredes, e onde uma iluminação vermelho-amarela vai desgastando a visão de forma que há uma espécie de cegueira coletiva progressiva, onde só o instinto e algumas regras básicas de conduta, meio tateantes, meio às cegas, permite a ilusão de algum movimento ou de alguma vida útil. É, na verdade, um círculo do inferno de Dante: “O que em princípio chama atenção nessa penumbra é a sensação de amarelo que ela dá para não dizer de enxofre por causa das associações”.  E se alguém tiver alguma dúvida da alusão: “na atitude que arranca de Dante um dos seus raros pálidos sorrisos” ao descrever os quatro tipos de corpos que habitam  o cilindro.

Trata-se de uma DISTOPIA,  utopia negativa, tem a ousadia de imaginar harmonia e simetria numa existência verdadeiramente demoníaca e insana. O título vem (segundo Fábio de Souza Andrade) de um verso das “Meditações” de Lamartine, “um único ser vos falta e todo se despovoa”. Tudo é muito visual  (em Beckett, o olhar, o olho em si, tem grande importância). O cilindro: “recinto onde corpos vão buscando cada um seu despovoador. Amplo o bastante para permitir buscar em vão. Estreito o bastante para que qualquer fuga seja vã”. As escadas, os únicos objetos do local: “a necessidade de escalar é muito difundida. Não mais senti-la é uma liberação rara”. Os nichos (dos quais partem túneis), camuflados nas paredes e ocupados intermitentemente pelos escaladores: “de tamanho variável mas sempre suficiente  para que através do jogo normal de articulações o corpo possa ali penetrar e até mesmo mal ou bem se deitar”; “nichos e túneis são submetidos à mesma iluminação e ao mesmo clima que o conjunto do recinto”. São, portanto, refúgios vãos.  O  uso (porque até as regioes ínferas têm suas regras) das escadas “é regido por convenções de origem obscura que por sua precisão e pela submissão que exigem dos escaladores assemelham-se a leis. Há infrações que desencadeiam contra os transgressores  um furor coletivo surpreendente entre seres tão pacíficos em seu conjunto e tão pouco atenciosos uns com os outros fora da grande questão… Tudo repousa sobre a proibição de mais de um subir ao mesmo tempo na mesma escada. Enquanto aquele que a está usando não voltar ao chão ela fica proibida para o próximo”. Imagine-se um coreógrafo genial encenando esse texto, já que não há palavras a não ser do narrador neutro e auto-anulante.

Os 200 corpos (veja-se: não seres, mas corpos): “a identificação torna-se difícil pela aglomeração e pela obscuridade”. São de 4 tipos: 1) aqueles que circulam sem parar; 2) aqueles que às vezes param; 3) aqueles que a menos que sejam expulsos nunca deixam o lugar que conquistaram (e se expulsam correm para outro lugar para ali se imobilizar novamente); 4)os não-buscadores, sentados em sua maioria contra a parede (na verdade, esses não-buscadores são ex-buscadores. Tudo com a onipresença de uma fraca claridade amarela “sacudida por um vaivém vertiginoso entre extremos que se tocam” e por vibrações intermitentes: “Desde sempre corre ou ainda melhor a idéia ocorre que existe uma saída. Aqueles que já não acreditam nela não estão a salvo de acreditar nela novamente”.  Ao amarelo se acrescenta o vermelho: “O que à sensação de amarelo se acrescenta a mais fraca de vermelho. Em suma uma  iluminação que não apenas escurece mas confunde além de tudo. Nada impede afirmar que o olho acaba se habituando com essas condições e se adaptando a ela se não fosse antes o contrário que se produz na forma de uma lenta degradação da vista arruinada a longo prazo por esse avermelhamento fuliginoso e vacilante pelo esforço incessante sempre frustrado sem falar da miséria moral repercutindo assim sobre o órgão”.

Nesse círculo do inferno, o discurso se auto-anula. Afirma uma coisa e depois “não é exatamente assim”, ratificando o caráter derrisório do lugar. Aqueles que não buscam mais: ” Praticamente mortos para as escadas e fonte de incômodo tanto para o transporte quanto para a espera eles são no entanto tolerados. O fato é que essas espécies de semi-sábios nos quais aliás todas as idades estão representadas inspiram àqueles que ainda se agitam se não um culto ao menos uma certa deferência” Parece o sistema de castas indiano. Corpos que já atingiram um certo nirvana em torno da “azáfama central”. O efeito depauperante da iluminação: “E para o ser pensante que venha a se debruçar friamente sobre todos esses dados e evidências seria realmente difícil ao final de sua análise não estimar erroneamente que em vez de empregar o termo vencidos que tem com efeito um pequeno lado patético desagradável seria melhor falar só de cegos. Passadas as primeiras surpresas enfim essa iluminação tem ainda de inabitual o fato de longe de acusar uma ou várias fontes visíveis ou ocultas parecer emanar de todas as partes e estar em toda a parte a um só tempo como se o lugar inteiro fosse luminoso inclusive as partículas do ar que ali circula. A tal ponto que até mesmo as escadas parecem antes dar luz do que receber só que a palavra luz é imprópria. Únicas sombras por conseguinte as que se criam os corpos obscuros  espremendo-se uns contra os outros propositadamente ou por necessidade…”

        A sensação geral, derrisória, de impotência e inutilidade, não impede “a paixão de buscar”. Ela é tal “que obriga a buscar por toda a parte”.O discurso também continua, continua, continua: “Nem tudo foi dito e nunca será”.

“O efeito desse clima sobre a alma não deve ser subestimado. Mas ela sofre com ele certamente menos do que a pele cujos sistemas de defesa desde o suor até o arrepio são a todo o instante contrariados”. Esse regime existencial tira do sexo qualquer charme e transforma “num roçar de urtigas a suculência natural de carne contra carne”. É a libido em menopausa: “As próprias mucosas se ressentem o que não seria grave se não fosse o incômodo que daí resulta para o amor”. Tudo bem, no entanto: “mesmo desse ponto de vista o mal não é grande já que no cilindro a ereção é rara”. Vocês devem ter reparado que o discurso de Beckett não recusa o lírismo nem o humor, e como ele o consegue, é um dos seus feitiços.

Para terminar esse meu percurso por O despovoador, só quero comentar a única figura que adquire “vida”, por assim dizer, no texto: uma vencida (uma sedentária, não-buscadora) que serve de referência espacial: “existe um norte na forma de um vencido ou melhor de uma vencida ou ainda da vencida. Ela está sentada contra a parede com as pernas levantadas. Está com a cabeça entre os joelhos e os braços em torno das pernas. A mão esquerda segura a tíbia direita e a direita o antebraço esquerdo. Os cabelos ruivos desbotados pela iluminação chegam até o chão. Eles lhes cobrem o rosto e toda a parte da frentre do corpo inclusive a entreperna. O pé esquerdo está cruzado sobre o direito. Ela é o norte. Ela mais do que outro vencido qualquer devido à sua maior fixidez. A quem excepcionalmente quiser ter um ponto de referência ela pode servir. Determinado nicho para o escalador pouco dado às acrobacias evitáveis pode estar a uns tantos passos ou metros a leste ou a oeste da vencida sem naturalmente que ele a chame assim ou de outro modo até mesmo em pensamento

     

              PETRIFICADA PETRIFICANTE: O OLHO LASSO DO INERTE

          “subitamente não mais em lugar algum para ver. Nem com o olho de carne nem com o outro. Depois subitamente ali de nada… Para poder retomar. Retomar o –como dizer? Como mal dizer? (…) Qual dizer? Maldizer.” (Samuel Beckett, Mal visto, Mal dito, 1981)

“E o resto.  De uma vez por todas. Tudo. Até a morte. Livrar-se dela. Passar à seguinte. À quimera seguinte. Fechá-lo de uma vez esse olho de carne sujo. O que impede? ” (idem)

Se O Despovoador lembra, em forma narrativa, as grandes peças que deram fama à Beckett, na sua exploração cênica do espaço e na movimentação quase coreográfica dos seres/corpos que compõem a narrativa, Mal visto Mal dito lembra as anti-narrativas ficcionais, principalmente por causa da presença da velhice, da des-memória, do aniquilamento da  história pessoal, da subjetividade em ponto mínimo, e paralela à decrepitude e impotência, quase que uma mineralização do sujeito (nossa, pareço um pensador francês!).  Os personagens de Molloy que saíam em missão detetivesca acabam meio que paralíticos e se arrastando por uma região entre rural e urbana, o personagem-título de Malone morre escrevia, escrevia sobre uma vida que podia ou não ser a sua , tanto fazia, e o que dizer então do entalado “herói” de O inominável?

Esses livros são tidos como uma trilogia. Mal visto e Mal dito (1981) é a segunda parte de outra trilogia. A primeira parte, Companhia, já foi traduzida no Brasil (pela Francisco Alves).  A personagem é uma velha (parece que para Beckett a Europa era isso: velhos decrépitos presos a um ambiente rural anacrônico, uma waste land de melancolia e derrelição, parecem um bando de reis Lears enlouquecidos pela sua impotência a chafurdar num quase-nada, numa sobrevida inútil: “Tudo já se mescla. Coisas e quimeras. Como sempre. Mescla-se e anula-se. Apesar das precauções. Se ao menos ela pudesse ser somente sombra. Sombra sem mescla. Essa velha tão moribunda. Tão morta. No manicômio do crânio e em nenhuma outra parte… Comootudo seria simples então. Se tudo pudesse ser somente sombra. Nem ser nem ter sido nem poder ser” ou ainda “… de tanto fiasco a loucura se imiscui. de tantos escombros. Vistos não importa como não importa como ditos“.  No universo de Beckett, não ocorre despojamento, e sim depauperação).

Começa assim: “Do seu leito ela vê se levantar Vênus. Mais uma vez… Sente então raiva do princípio de toda vida. Mais uma vez“. Na minha opinião, é ainda melhor que o texto-companheiro na edição da Martins Fontes; deixem-me retificar: pelo menos, me impressiona mais. Logo na página inicial aparecem o termo “pedra” , onipresente ao longo de todo o relato: “Ali está ela portanto como que transformada em pedra diante da noite” .

      O cenário podia ser bucólico, mas é demoníaco: uma cabana cercada por um campo: “Pedras abundam cada vez mais numerosas… pedras gredosas de um efeito impressionante sob a lua… Por toda parte a pedra invade. A brancura. Cada ano um pouco mais. Vale dizer cada instante. Por toda parte cada instante a brancura invade “. Mas o movimento do texto é mais narrativo do que cênico, embora sempre muito visual (se o inerte puder ser muito visual). A velha “já não conversa consigo mesma. Jamais conversou muito consigo mesma. Agora de jeito nenhum. Como se tivesse a infelicidade de ainda estar viva… Ali como de pedra também ela. Porém preta. Ao luar às vezes. Muitas vezes sob as estrelas… Paralisada fiel a si mesma parece transformada em pedra”. Uma viúva? Aquela viúva imemorial das aldeias, toda de preto, figura funesta, de um fatalismo atávico e atroz ? “Toda de preto ela passa e repassa. A barra de sua longa saia preta roça o chão. No mais das vezes porém ela permanece imóvel. De pé ou sentada. Deitada  ou de joelhos. Na meia-luz que lhe vertem as luzes”. 

      “Ela só se mostra para os seus. Mas ela não tem seus. Sim sim ela tem um. E que a tem” (note-se novamente o discurso que se renega): “É a vida que termina. A sua dela. A sua de outro. Mas tão diferentemente. Ela não precisa de nada. De dizivel. Mas o outro. Como ter necessidade no fim? Mas como? Como ter necessidade no fim?”  Curiosamente, o termo viuvez é para o olho: “o olho viúvo”

      Aos poucos, no texto, começam a emergir os objetos que fazem companhia à velha e na verdade quase se colocam no nível de existência dela. Não há diferenciação entre coisa e ser: “Esse álbum que sai da sombra. Que talvez na hora desejada se possa folhear com ela. Ver os velhos dedos virarem como podem as páginas…” Assim a cadeira, o leito, a arca, a abotoadeira… 

    A desmemória:  “Os fatos são tão antigos (…) Como parece tranquila essa máscara antiga. Igual àquelas de certos recém-mortos. É verdade que a iluminação deixa a desejar. Os olhos fechados não mostram suas pupilas.O futuro os dirá cingidos por um azul descorado. Ao qual os prantos não puderam ficar alheios. Inimagináveis prantos de antanho. Cílios da cor de azeviche vestígios da morena que ela foi. Foi talvez”. E a sensação do fim que se aproxima, mas nunca chega: “Receio da escuridão. Do branco. Do vazio. Que ela desapareça. E o resto. De uma vez por todas. E o sol. Derradeiros raios. E a lua. E Vênus. Só céu preto. Só terra branca. Ou vice-versa. Nada de céu e terra. Fim de alto e baixo. Nada além de preto e branco. Em qualquer parte por toda a parte. Além de preto. Vazio. Nada mais.” E mais adiante: “Longe dela em um canto eis de repente uma arca de época… E em suas profundezas quem sabe a palavra-chave enfim. A palavra fim”.  Por que essa vida afinal?  “Houve algum dia um tempo em que não mais questão de questões? Natimortas até a última. Antes. Assim que concebidas. Antes.”  A arca que poderia ser um símbolo de recuperação do temps perdu, da memória reencontrada: “Examinando demoradamente à noite ela está vazia. Senão bem no último momento sob a poeira um pedaço de folha picotada de um lado como se arrancada de um memento. Com uma tinta pouco legível sobre uma das faces amareladas seguida de um número. Quar 17. Ou Ter. Quar ou Ter 17. Senão em branco. Senão vazia.”

           Na sua apresentação do texto, Fábio de Souza Andrade alude às interpretações que ressaltam as ressonâncias celtas na constituição do imaginário de Mal Visto Mal dito, inclusive os doze dólmens de pedra (sobre os quais ainda não fiz referência) que fazem parte da paisagem da solitária velha: “para além da referência remota e coletiva de Stonehenge, a pouco mais de um quilômetro de sua casa, Beckett conviveu com esses espaços ritualísticos dos druidas. A possibilidade de observar Vênus e o sol das janelas e o brilho que as pedras assumem lembram que esses templos foram projetados em função da observação de fenômenos astronômicos… O imaginário irlandês secularizado e destituído de cunho nostálgico soma-se a um desnudamento e a um desinvestimento do imaginário cristão, aludindo ao sagrado tradicional, mas esvaziado dele, como imagem de dor, sofrimento, vida e morte, agonia e ressurreição (em Beckett, o contrário de uma bênção)… Estamos no manicômio do cérebro, referência  direta a Gólgota, a colina da caveira,  onde se deu o calvário cristão, mas que não faz mais do que reforçar a ambiguidade e a atmosfera soturna já presentes nos lementos temáticos essenciais do texto: a solidão da velha assombrada pelas memórias distantes… Por mais que a identificação nítida seja tentadora, não se pode perder de vista que o princípio formal que sustenta o texto é a confusão voluntária entre jogo ficcional e memórias do narrador, entre a projeção de imagens e a observação criteriosa e detida. Aqui, a instabilidade é essencial…”

      Assim como em O Despovoador a capacidade de olhar se ressente desse passa-fome ontológico e epistemológico: “O que fazer com o olho submetido a esse regime? Esse vai-não-vai”

Nesse vai-não-vai, nesse fluir e refluir de frases-chave, um dos momentos mais extraordinários:

“Ela se perde. Com o  resto. O já mal visto se ameniza ou mal revisto se anula. A cabeça trai os traidores olhos e a traidora palavra suas traições. Única certeza a bruma. Aquele de além dos campos. Ela já os ganha. Ganhará o pedregal. Em seguida o refúgio por todas as suas frestas. Por mais que o olho se feche. Ele só verá bruma. Nem mesmo. Ele próprio não será senão bruma. Como dizê-la. Depressa como mal dizê-la antes que submerja tudo. Luz. Numa traidora palavra. Bruma luz. A grande enfim. Onde nada mais para ver. Para dizer. Calma”.

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https://armonte.wordpress.com/2011/03/24/o-mau-infinito-e-o-mal-infinito/

https://armonte.wordpress.com/2011/03/24/o-fim-nunca-chega-endgame-de-beckett/

 

 

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