MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

07/10/2015

JEAN-CHRISTOPHE: best seller datado, obra-prima ou algo ali pelo meio?

«… quando observamos um escritor, a cada página, em cada situação em que se encontra sua personagem, nunca aprofundá-la, nunca repensá-la por ele mesmo, mas servir-se de expressões feitas, um escritor que não vê seu próprio pensamento, mas se contenta com a aparência grosseira que o mascara para cada um de nós, em todo momento de nossa vida, com o qual o vulgo se contenta numa perpétua ignorância, e que o escritor afasta, procurando ver aquilo que há no fundo… essa arte é a mais superficial, a mais insincera, a mais materialista (mesmo que seu assunto seja o espírito), e também a mais mundana».

As duras palavras acima são de Marcel Proust, o autor de Em busca do tempo perdido, visando seu contemporâneo Romain Rolland e sua principal obra, Jean-Christophe (publicada entre 1904 e 1912, em dez partes). No entanto, Rolland foi guru para muitos nas primeiras décadas do século, uma espécie de Hermann Hesse francês, e seu livro era O caçador de pipas da época. Na edição (1986) através da qual conheci  o seu famoso herói, podia-ser ler como introito: «Esta é a 5a. vez que oferecemos ao leitor brasileiro o texto completo de JeanChristopheJá era tempo de uma nova edição. Já há novas almas livres que precisam conhecer o mais profundo e humano romance deste século».

Agora, 20 anos depois, uma 6a. edição (em 3 volumes) oferece a oportunidade de conferir o acerto ou não das observações de Proust. No primeiro volume (que reúne O alvorecer, A manhã e O adolescente), acompanhamos a sofrida infância e a rebelde adolescência do músico alemão  que cedo tem de sustentar a família devido ao alcoolismo do pai.

Há detalhes fascinantes: acompanhamos as sensações do bebê («o homem que sofre pode diminuir seu mal quando sabe de onde vem; encerra-o pelo pensamento num segmento do corpo, que pode curar-se ou ser arrancado se for preciso; fixa-lhe os contornos, separa-o de si. A criança não tem esse recurso enganador. Como o seu próprio ser, a dor lhe parece sem limites»)e o terror da morte que o assombra e envenena sua infância («há muito ele sabe o que é a morte, que pensa nela e lhe tem medo. Mas nunca a tinha visto, e quem a vê pela primeira vez percebe que nada sabia, nem da morte nem da vida. Tudo é abalado de repente, e contra isto a razão de nada serve. Acreditava-se que se vivia, que se tinha alguma experiência de vida; fica-se sabendo que se ignorava tudo, que não se via nada, que se vivia envolvido numa teia de ilusões tecida pelo espírito, a qual velava aos olhos a imagem terrível da realidade, esses miseráveis seres de lodo e de sangue, cujo vão e total esforço se despende em fixar uma vida que apodrece de hora em hora»).

Porém, há um lado edificante, que realça certa cafonice que talvez seja a ação do tempo sobre o estilo, e principalmente o dramalhão de algumas cenas. Veja-se a detestável conclusão que o narrador tira das agruras de Christophe: «Quando a alma não é entravada, a alma tem muito menos razões para agir. Quanto mais se apertava em torno de Christophe o cerco das preocupações e das tarefas medíocres, tanto mais o coração revoltado sentia a sua independência.  É uma boa disciplina para a arte a contingência de condensar os esforços em limites implacáveis. Nesse sentido, pode-se dizer que a miséria é mestra não só do pensamento, mas também do estilo: ensina a sobriedade tanto ao espírito  como ao corpo. Quando o tempo é limitado e as palavras medidas, não se diz nada de inútil, e adquire-se o hábito de pensar somente o essencial».  Então, ao fim e ao cabo, a opressão faz bem! Pena que Rolland não aprendeu a lição da mestra miséria: estamos longe de ver somente o essencial nas numerosas páginas de Jean-Christophe.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 17 de fevereiro de 2007)

livro-jean-christophe-vol-04-romain-rolland-1948-14583-MLB218931762_359-ORomain_Rolland_au_balcon,_Meurisse,_1914,_source

Anúncios

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.