MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

18/05/2012

O CANTO IANQUE-UNIVERSAL DO RESPONDEDOR

(resenha publicada, de forma mais condensada, em A TRIBUNA de Santos, em 13 de dezembro de 2011)

“Sou imenso, contenho multidões. Se tivesse de apontar o maior evento editorial de 2011, sem hesitação escolheria a tradução de Bruno Gambarotto para Folhas de Relva-Edição do Leito de Morte, lançada com o capricho habitual da Hedra. É, finalmente, a edição séria, bem cuidada e bonita que a súmula da produção poética de Walt Whitman (1819-1892) exigia. Pois, por incrível que pareça, a única versão integral dessa obra-prima fundamental era a da Martin Claret, com aquele estilo meia-boca e descuidado (quando não suspeito) de que essa editora é useira e vezeira.

Houvera a notável edição da Iluminuras, mas se tratava da tradução (de Rodrigo Garcia Lopes)da primeira edição de Folhas da Relva (em 1855), com 12 poemas. A Edição do Leito de Morte foi a nona edição e abarca cerca de 380 poemas. É a obra de uma vida, é o arremate final na construção do mito Whitman, o maior dos poetas americanos. E que foi esse raro fenômeno: um escritor absolutamente original: nunca antes dele alguém escreveu desse jeito, nem utilizou tal temática ou tal vocabulário. É uma experiência de liberdade absoluta, consoante à do país que se transformaria na maior potência mundial e que já se configurava nos anos de vida de Whitman. Ele representa o que de mais norte-americano (para o bem e para o mal) podemos pensar: o desejo de se expandir, de ter um destino grandioso, de incorporar pessoas, culturas, de simbolizar a “democracia”.

É por isso que lemos no fundante Canção de Mim Mesmo (um dos poemas mais extraordinários já escritos): “Vejo que incorporo gnaisse e carvão e a longa malha de musgo e as frutas e grãos e raízes comestíveis/ Estou inteiro revestido de pássaros e quadrúpedes/E longe do que está atrás de mim por boas razões/Mas chamo qualquer coisa para perto de mim quando quiser.

Em outro trecho: “Grandes têm sido os preparativos para mim/Fiéis e amigos os braços que ajudaram// Ciclos conduziram meu berço, remando e remando como alegres barqueiros/Para me dar espaço as estrelas permaneceram afastadas em suas próprias órbitas/Elas enviaram influências para cuidar do que me havia de dar sustento// Antes de nascer da minha mãe gerações me guiaram…”

A todo esse otimismo cósmico, a essa coesão de tudo, de repente sucede uma quebra trágica: no meio do livro temos os poemas sobre a Guerra de Secessão, a divisão do país, a carnificina impressionante que foram essas lutas, durante cinco anos.  E a partir daí, o tom se torna mais melancólico, elegíaco, os plenos pulmões respirando o ar do universo cedem lugar a uma respiração menos abrangente. O grandioso se fora, mas ficara o tecedor de imagens, cada vez mais voltado para o passado, porém já tendo afirmado sua presença (sua influência abarca poetas tão díspares quanto Pessoa, Neruda, Maiakovski, Borges, para citar alguns): “Tece, tece, minha valorosa vida/ Tece ainda um soldado forte e a postos para as grandes campanhas do porvir/Tece o sangue vermelho, tece tendões como cordas, os sentidos, a visão, tece, tece/ Tece a última certeza, tece dia e noite a trama, o enredo, tece sem cessar, não para( …)/ Pois as grandes campanhas de paz têm do mesmo modo os fios trançados de tecer/Não sabemos o que ou por que, mas tecemos, para sempre tecemos.”

Como Tolstói (apesar das diferenças), esse projeto literário-existencial que é Folhas de Relva acabou alçando Whitman a territórios mais escorregadios como a posição de guru, mestre espiritual e coisas do gênero. Mas eu o prefiro sem tanta reverência, tal como caracterizado nos seu maior poema: “Turbulento, carnal, sensual, comendo, bebendo, respirando/ Sem sentimentalismo, sem ficar acima de homens e  mulheres ou distante deles.”

 

 TRADUÇÕES

Como tantos em minha geração, tomei contato com Whitman em língua portuguesa através da seleção/ feita por Geir Campos e publicada pela Brasiliense (à época no auge da popularidade), em 1983: Folhas das Folhas de Relva. Na verdade, esse volume é uma versão refundida de uma edição lançada pela Civilização Brasileira em 1964,  e difere dela pela disposição diferente dada aos versos whitmanianos, que foram “quebrados”, perderam aquele aspecto oceânico, até porque a edição é mais de bolso do que outra coisa, e o verso curto é que mais combina com ela.

Foi uma disposição acertada? Não sei agora, e muito menos poderia sabê-lo aos 18 anos, em 1983. Só sei que Whitman, então,  parecia contrariar tudo o que eu esperava da poesia, portanto me irritou, me enfastiou, e tive muitas dificuldades com ele (então, foi até um acerto que o tradutor e a editora aplainassem um pouco as dificuldades).

Vejamos como Geir Campos traduziu o seguinte trecho de Canção do Respondedor (Song of Answerer), cujo núcleo poético faz parte de Folhas de Relva desde a edição original:

“…as palavras do fazedor de poemas

são o geral da luz e da sombra;

o fazedor de poemas estabelece a justiça,

a realidade, a imortalidade,

ele envolve em sua visão e força

as coisas e a raça humana,

é ele a glória e a essência até aqui

das coisas e da raça humana.

 

Os cantores não criam, o Poeta cria:

cantores são bem-vindos, bem compreendidos,

aparecem com bastante frequência,

mas raros têm sido o dia e o lugar

do nascimento do fazedor de poemas

–o Respondedor.

(…)

Por todo esse tempo e em todos os tempos

ficam à espera as palavras

dos poemas de verdade:

as palavras dos poemas de verdade

não apenas agradam,

os Poetas de verdade

não são acompanhantes da beleza

e sim augustos mestres de beleza.

A grandeza dos filhos

é o que transpira do que têm de grande

as mães e os pais;

as palavras dos poemas de verdade

são o buquê e o aplauso final

da ciência.

 

Intuição divina, vista larga,

a razão como lei,

primitivismo e saúde do corpo,

retraimento, contentamento,

carne curtida ao sol, doçura de ar

–eis algumas palavras de poemas.

O marinheiro e o viajante fundamentam

o fazedor de poemas—o Respondedor;

o construtor, o geômetra, o químico,

o anatomista, o frenologista, o artista,

todos contribuem para

o fazedor de poemas—o Respondedor.

As palavras do  poema de verdade

dão a vocês muito mais que os poemas:

dão a vocês com que possam compor

os seus próprios poemas,

religião, política,

guerra, paz, contos, ensaios,

o dia a dia da vida

e tudo o mais,

dão o balanço de castas, cores, raças,

credos e sexos;

beleza mesmo os Poetas não procuram…”

Na versão de Rodrigo Garcia Lopes para a primeira edição (1855) do livro, publicada pela Iluminuras, tal trecho não será encontrado, já que Whitman, fiel ao seu furor expansionista, aumentou consideravelmente o poema desde então.

Já na versão de Luciano Alves Meira para a Martin Claret (2006), está tal como se segue (com o título Canção do Respondente):

“… mas as palavras do autor de poemas são a própria

                                           [luz e escuridão.

O autor de poemas estabelece a justiça, a realidade,

                                            [a imortalidade,

Sua luz interior e seu poder envolve as coisas

                                            [e a raça humana.

Ele é a glória e o extrato longínquo das coisas

                                             [e da raça humana.

 

Os cantores não criam, apenas os Poetas criam,

Os cantores são bem-vindos, compreendidos,

                                              [aparecem com bastante

           [frequência, mas são raros os dias ou

                                               [as oportunidades de

Nascimento dos autores de poemas, os Respondentes.

(…)

Todo esse tempo e em todos os tempos, espere

                       [pelas palavras dos poemas verdadeiros,

As palavras dos poemas verdadeiros não são aquelas

                       [que simplesmente agradam,

Os verdadeiros poetas não são os seguidores da beleza,

                       [mas os augustos mestres da beleza;

A grandeza dos filhos é a exsudação da grandeza

                        [das mães e dos pais,

As palavras dos poemas verdadeiros são a coroa

                        [e o aplauso final

da ciência.

 

Instinto divino, amplitude da visão, a lei da razão,

      [saúde, rudeza do corpo, capacidade de se retirar,

Alegria, pele morena, doçura do ar, essas são

       [algumas das palavras dos poemas.

 

Os marinheiros e os viajantes subjazem

           [aos autores de poemas, os Respondentes,

O construtor, o geômetra, o químico, o anatomista,

           [o frenologista, o artista, todos esses

      [subjazem ao autor de poemas, o Respondente.

 

As palavras dos verdadeiros poemas dão-te

                    [mais  do que poemas,

Elas são a matéria-prima para que possas fazer

                     [tu mesmo poemas,

     [religiões, política, guerra, paz, comportamento

     [história, ensaios, vida diária e tudo o mais,

Elas põem em equilíbrio as categorias, as cores,

      [as raças, os credos, e os sexos,

Elas não procuram a beleza…”

   E na versão de Bruno Gamborotto volta a ser Canção ao Respondedor, e o trecho fica assim:

“…mas as

          palavras do fazedor de poemas são a luz e a escuridão totais,

O fazedor de poemas instaura a justiça, a realidade, a imortalidade,

Sua visão e poder englobam as coisas e a raça humana,

Ele é a glória e a extrai das coisas e da raça humanas.

 

Os cantores não dão a vida, apenas o Poeta dá vida,

Os cantores são bem-vindos, compreendidos, aparecem até demais,

                                                  [mas raro tem sido

    o dia, e também o lugar, do nascimento do fazedor de poemas,

                                                     [o Respondedor

(…)

Hoje e sempre as palavras dos verdadeiros poemas são aguardadas,

As palavras dos verdadeiros poemas não são somente agradáveis,

Os verdadeiros poetas não são seguidores da beleza, mas

                                     [os augustos mestres da beleza;

A grandeza dos filhos é a exaltação da grandeza dos pais e das mães,

As palavras dos verdadeiros poemas são os louros e

                                      [o aplauso final da ciência.

 

Instinto divino, abrangência da vista, lei da razão, saúde,

                                       [corpo bruto, afastamento,

Felicidade, pele bronzeada, ar fresco, essas são algumas

                                        [das palavras dos poemas.

 

O navegante e o viajante estão na base do fazedor de poemas,

                                                        [o Respondedor,

O construtor, o geômetra, o químico, o anatomista,o frenologista,

                                                        [o artista, todos dão

        Sustentação ao fazedor de poemas, o Respondedor.

 

As palavras dos verdadeiros poemas dão a você mais do que poemas,

Elas dão a você a formação de seus próprios poemas, religiões,

                         [política, guerra, paz,

           Comportamento, história, ensaios, vida cotidiana e tudo o mais

Eles equilibram hierarquias, cores, raças, credos e os sexos,

Eles não procuram beleza…”

 

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