MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

25/03/2013

A “CIDADE DE DEUS” de Doctorow: um fracasso amoroso de leitura

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“Os infelizes migrantes do mundo acham que, se conseguirem apenas chegar aqui, poderão fincar um pé. Manter uma banca de jornais, uma birosca, dirigir um táxi… o que pintar. Você quer dizer a eles que este não é um lugar para pessoas pobres. A linha de fractura racial que corre pelo coração da terra também corre através do seu coração. Somos seres étnicos sujeitos a um código de cor e criadores de enclaves sociais, multiculturalmente desconfiados e verbalmente agressivos, como se a cidade, considerada como uma Idéia, fosse um fardo pesado demais até mesmo para as pessoas que moram nela”.

Nos anos 80, um recorde de estupidez foi alcançado quando a Rocco transformou Roger´s version, de John Updike, em Pai-Nosso Computador. A Record, talvez inspirada por seu nome, tentou quebrá-lo recentemente com o título brasileiro de City of God, de E.LDoctorowDeus—Um fracasso amoroso!!??

Doctorow escreveu um dos melhores romances norte-americanos, O livro de Daniel (1971). Chegou perto com A Grande Feira e a novela Vida dos poetas, e ainda tem outros belos livros, como os muito famosos Ragtime e Billy Bathgate, além de Tempos Difíceis (na verdade, Benvindo a Tempos Difíceis, pois Hard Times é o nome de um lugarejo) e The Waterworks- A mecânica das águas.

Estabelecida, portanto, a minha admiração, é preciso dizer que City of God (traduzido com empenho por Roberto Muggiati) representa um fracasso amoroso de leitura. O título original nada tem a ver com o nosso Cidade de Deus, de Paulo Lins, e sim com Santo Agostinho. Como a metrópole urbana dos nossos dias, representada por Nova Iorque, pode ser o palco da manifestação do Senhor, como podemos nos relacionar com Ele num mundo como o nosso, com seus problemas específicos e carregando o fardo dos horrores muito particulares do século XX?

“…do jeito que as coisas estão acho que temos de refazê-Lo. Se precisamos nos refazer, precisamos refazer o Senhor, Deus”.

Um Deus contemporâneo?  “Estamos vivendo numa democracia pós-moderna. Acha que Deus não sabe disso?”

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O livro de Santo Agostinho serve como referência devido à “toda a sua mala de truques de escritor. Todas aquelas doutrinárias tratadas como se existissem, como personagens num romance de Henry James” (outro padroeiro do romance é Wittgenstein, o qual tem até seu estilo parodiado).

Os problemas de Deus são associados aos problemas dos narradores. Como organizar esse material caótico à nossa volta? Tim Pemberton, o protagonista, diz ao seu amigo Everett:“Está perturbado porque se deu conta… como você, errônea e gloriosamente, presumiu que podia escrever um livro sobre isto!” Everett tenta tecer um romance partindo do roubo da cruz de uma Igreja Episcopal, ato sacrílego que servirá para  aproximar o casal central, o reverendo Pemberton e a rabina Sarah Blumenthal, embora Doctorow, autor evocativo por excelência, continue a exercitar sua máquina do tempo, desta vez com incursões nos guetos judeus da época da Segunda Guerra e nas trincheiras da Primeira, só para dar dois exemplos. Ele se vale também dos nomes de família que utilizou em Mecânica das águas, Pemberton e McIlvaine.

Ele precisava de 350 páginas para exercitar a ironia de contestar a onipresença tanto de Deus quanto do Narrador? Já que estamos no terreno religioso, Doctorow cometeu os pecados do orgulho e da soberba, pretendeu escrever o Livro da virada do milênio, a obra-referência. Não conseguiu. O que salva City of God de ser apenas um romance cansativo e falho, são as mesmas qualidades que também salvavam Loon Lake- O lago da solidão, até então seu trabalho mais discutível: iluminações repentinas, o estilo, enfim,  toda a sua mala de truques de escritor.

(resenha publicada originalmente  em A TRIBUNA de Santos, em  26 de outubro de 2004)

VER TAMBÉM O TEXTO ACIMA NUM CONTEXTO MAIS AMPLO EM:

https://armonte.wordpress.com/2010/05/17/doctorow-rushdie-delillo-e-a-virada-do-milenio/

Writing-Tips-E.L.-Doctorow

19/02/2012

John Le Carré em meados da primeira década do nosso século

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/02/19/john-le-carre-em-meados-da-ultima-decada-do-seculo/

https://armonte.wordpress.com/2012/02/19/john-le-carre-em-meados-dos-anos-70-e-sua-obra-prima/

Se fossem necessárias provas da sobrevida de John Le Carré com relação à Guerra Fria, que ele retratou tão bem, temos agora em 2005 uma adaptação cinematográfica importante de um de seus livros recentes, O jardineiro fiel (não seria melhor O jardineiro dedicado?)e um novo romance, AMIGOS ABSOLUTOS (Absolute friends, em tradução de Roberto Muggiati para a Record), no qual ele mostra seu dom de localizar os temas mais candentes no momento certo, no caso o clima de paranóia anti-terrorista semeado pelos EUA após os atentados do 11 de setembro.

Qual o problema, então? Após escrever clássicos como O espião que saiu do frio & A garota do tambor, sem falar na série Smiley (Sempre um colegial & A vingança de Smiley, por exemplo), Le Carré patinou um pouco por pistas escorregadias, caso de A casa da Rússia & O gerente noturno, no processo de adaptação de sua ficção aos novos tempos. Aí veio o brilhante NOSSO JOGO (abordando o problema da Chechênia) e tudo indicava que ele atingira um patamar mais alto como escritor. O romance seguinte, O alfaiate do Panamá, foi aguardado (pelo menos por mim) com muita expectativa, revelando-se frustrante e marcando o “tom” dos seguintes (três, até agora): o acerto da temática, a narrativa pesada, arrastada, convencional, laboriosa. Nunca ruim, jamais! Lê-se com respeito, porém sem admiração ou surpresas, mesmo com as tradicionais reviravoltas nas tramas.

AMIGOS ABSOLUTOS funcionará mais para quem não leu os romances da Guerra Fria de Le Carré: seu protagonista, Ted Mundy, é o inglês nascido no Paquistão e que nunca chega a adaptar-se à Inglaterra, preferindo estudar alemão e aventurar-se na Berlim ocidental no auge da contracultura e da contestação, no final dos anos 60, onde conhece Sasha, o responsável pelo título, dizendo (na página 119): “Você é meu amigo absoluto”, sabe-se lá por que, já que essa amizade nunca nos convence totalmente (na ficção recente, há histórias mais fortes de duplas de amigos, em que um leva o outro a conhecer aspectos digamos mais “radicais” da existência, basta lembrar de Leviatã, de Paul Auster, e O filho de deus vai à guerra, de John Irving).

Ted e Sasha perdem contato até que ambos são cooptados como agentes do Serviço Secreto britânico, Sasha traindo a Alemanha oriental comunista.Mundy executará várias missões arriscadas do lado de lá do muro, passando-se por traidor também. E o leitor bocejará inúmeras vezes durante essa parte, excessivamente longa, que repisa algo já visto e revisto. E com o dilema típico do heróilecarresiano: ser e representar se confundem na mesma impostura (“não sabe mais que partes de si estão fingindo”).

Perdem novamente contato, o muro cai, a globalização avança, um Mundy decadente tenta “se tornar real depois de muitos anos de fingimento” e agora é guia de museu, vivendo com uma turca e o filho dela. E Sasha reaparece, com uma nova proposta de trabalho mútuo e o leitor pensa, que bom, chegamos ao fundo da questão, o mercado armamentista que necessita de novos conflitos e guerras, como a  invasão do Iraque (apesar da retórica mentirosa que encobre os motivos reais), para expandir-se. Enfim, um novo colonialismo (devolvendo Mundy ao mundo que conheceu na sua infância). Só que sobrou pouco tempo, o livro está para acabarn e tudo fica muito rápido, confuso, insatisfatório, até inconvincente (Mundy e Sasha são tomados como terroristas fundamentalistas).

O que mais irrita em AMIGOS ABSOLUTOS, afora seus personagens anódinos, é o aspecto “pesquisadinho” e cênico de cada local escolhido para a trama: seja o Paquistão ou cidades alemãs parece que saíram de um caderno de notas, nunca adquirindo a vida que sentimos nos maravilhosos romances de Graham Greene, independente do “exotismo” peculiar ao cenário.

Le Carré parece ter sido acometido “pelo cansaço dos seus fantasmas da Guerra Fria: “Por favor, pensa. Já estivemos aqui. Já fizemos esse tipo de coisa. Na nossa idade não existem mais novos jogos a jogar”. Talvez, ao fim e ao cabo, só o cinema consiga salvá-lo, se não com a medíocre versão de John Boorman, outro cansado de guerra, para O alfaiate do Panamá, pelo menos com a vitalidade e juventude de Fernando Meirelles.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  22 de outubro de 2005)

22/07/2011

O VALE DAS CINZAS

 

Azar Nafisi tentou manter a literatura como atividade lúcida e lúdica em meio ao furor fundamentalista que lhe tirou a possibilidade de trabalhar como professora no Irã. Os leitores brasileiros não vivem sob nenhum regime antidemocrático. Nem por isso têm acesso a várias das obras mencionadas no livro de Nafisi, Lendo Lolita em Teerã.

Felizmente, O Grande Gatsby, cujo “julgamento” encenado pelos alunos da autora iraniana (quando lhe era permitido dar aulas) ocupa a segunda parte do livro, ganhou recentemente duas novas traduções: a de Roberto Mugiatti para a Record e a de William Lagos para a L&PM (há uma tradicional versão de Brenno Silveira, já publicada por várias editoras). Ainda bem, pois esse notável romance de 1925 transformou-se no paradigma da visão que os norte-americanos têm de si mesmos e que temos deles.

E isso com a banal história do pobretão que enriquece contrabandeando bebidas, tornando-se famoso por suas festas, embora na verdade só queira reconquistar seu amor do passado, a nebulosa Daisy Buchanan, a qual não consegue se desligar da vida acomodada e esnobe que leva com o marido (enquanto este a engana descaradamente com a mulher de um mecânico).

O narrador é Nick Carraway (que na sofrível versão de Jack Clayton era vivido pelo grande Sam Waterston, a melhor coisa do filme, eclipsando totalmente o casal de astros, Robert Redford e Mia Farrow), cujo envolvimento com o sonho romântico de Gatsby em torno de Daisy nos permite ver como os famosos valores americanos, sempre fortemente arraigados no provincianismo e no puritanismo, são dissolvidos na passagem do Oeste (origem dos personagens do livro) para o Leste.

O enredo se concentra em Nova York e arredores, no contraste entre o brilho da cidade grande e o vale de cinzas (uma região degradada e deprimente que todos têm de atravessar para alcançá-la de Long Island), o qual, em última instância, é sempre onde tudo ganha sua medida final.

Azar Nafisi, em sua defesa do livro no “julgamento”, diz¨”A cidade, como Daisy, tem nela mesma uma promessa, uma miragem que quando é atingida se torna degradada e corrompida. A cidade é o elo entre o sonho de Gatsby e o sonho americano. O sonho não diz respeito apenas ao dinheiro, não se trata de uma análise sobre a América como  um país materialista, mas como um país idealista, que transformou o dinheiro num meio de recuperar o sonho. Não existe nada grosseiro aqui, ou o grosseiro é tão misturado ao sonho que se torna muito difícil diferenciar os dois. No final, todos os melhores ideais e todas as mais sórdidas realidades acabam juntos.”

E, lógico, há a beleza incomparável do estilo de Fitzgerald (além do soberbo e inaparente exercício narrativo) que faz uma história de desilusão romântica terminar como visão de um sonho civilizatório ambíguo (quando Nick observa o Estreito de Long Island, após o melancólico funeral de Gatsby, assistido por quase ninguém, ele que era anfitrião de festas nababescas e com incontáveis convidados), de uma forma quase tão poderosa quanto o que Conrad mostrou ao descrever o Tamisa no início de O coração das trevas.

O grande Gatsby é uma obra-prima desesperada e pungente. Nick fica contente de ter feitor a Gatsby um único elogio (“você vale mais do que eles todos juntos”) porque o “reprovava do começo ao fim”. É essa a empatia que todo grande romance cria e que é tão bem descrita por Azar Nafisi, ecoando Harold Bloom: “Não podemos experimentar tudo o que os outros vivenciaram,mas podemos compreender mesmo os indivíduos mais monstruosos. Um bom romance é aquele que mostra a complexidade dos indivíduos e que cria espaço suficiente para que todos eles tenham uma voz; desse modo, um romance é chamado de democrático, não porque defenda a democracia, mas porque ele é assim, por sua natureza. A empatia está no âmago da questão, no âmago de Gatsby, como no de tantos outros romances; o maior pecado é ficar cego diante dos problemas e sofrimentos de outras pessoas. Não enxergar esses problemas e sofrimentos significa negar sua existência.”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de dezembro de 2004)

 VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/07/22/lendo-azar-nafisi-na-baixada-santista/

https://armonte.wordpress.com/2011/07/22/alcapoes-invisiveis-de-onde-surge-a-borboleta-esquecida-da-revelacao/

17/05/2010

Doctorow, Rushdie, DeLillo e a virada do milênio

Primeira parte

    Nos anos 80, um recorde de estupidez foi alcançado quando a Rocco transformou Roger´s version, de John Updike, em Pai-Nosso Computador. A Record, talvez inspirada por seu nome, tentou quebrá-lo recentemente com o título brasileiro de City of God, de E.L. Doctorow: Deus—Um fracasso amoroso!!??

      Doctorow escreveu um dos melhores romances norte-americanos, O livro de Daniel (1971). Chegou perto com A Grande Feira e a novela Vida dos poetas, e ainda tem outros belos livros, como os muito famosos Ragtime e Billy Bathgate, além de Tempos Difíceis (na verdade, Benvindo a Tempos Difíceis, pois Hard Times é o nome de um lugarejo) e The Waterworks- A mecânica das águas.

      Estabelecida, portanto, a minha admiração, é preciso dizer que City of God (traduzido com empenho por Roberto Muggiati) representa um fracasso amoroso de leitura. O título original nada tem a ver com o nosso Cidade de Deus, de Paulo Lins, e sim com Santo Agostinho. Como a metrópole urbana dos nossos dias, representada por Nova Iorque, pode ser o palco da manifestação do Senhor, como podemos nos relacionar com Ele num mundo como o nosso, com seus problemas específicos e carregando o fardo dos horrores muito particulares do século XX?

      “…do jeito que as coisas estão acho que temos de refazê-Lo. Se precisamos nos refazer, precisamos refazer o Senhor, Deus”.

     Um Deus contemporâneo?  “Estamos vivendo numa democracia pós-moderna. Acha que Deus não sabe disso?”

    O livro de Santo Agostinho serve como referência devido à “toda a sua mala de truques de escritor. Todas aquelas doutrinárias tratadas como se existissem, como personagens num romance de Henry James” (outro padroeiro do romance é Wittgenstein, o qual tem até seu estilo parodiado).

      Os problemas de Deus são associados aos problemas dos narradores. Como organizar esse material caótico à nossa volta? Tim Pemberton, o protagonista, diz ao seu amigo Everett: “Está perturbado porque se deu conta… como você, errônea e gloriosamente, presumiu que podia escrever um livro sobre isto!” Everett tenta tecer um romance partindo do roubo da cruz de uma Igreja Episcopal, ato sacrílego que servirá para  aproximar o casal central, o reverendo Pemberton e a rabina Sarah Blumenthal, embora Doctorow, autor evocativo por excelência, continue a exercitar sua máquina do tempo, desta vez com incursões nos guetos judeus da época da Segunda Guerra e nas trincheiras da Primeira, só para dar dois exemplos. Ele se vale também dos nomes de família que utilizou em Mecânica das águas, Pemberton e McIlvaine.

    Ele precisava de 350 páginas para exercitar a ironia de contestar a onipresença tanto de Deus quanto do Narrador? Já que estamos no terreno religioso, Doctorow cometeu os pecados do orgulho e da soberba, pretendeu escrever o Livro da virada do milênio, a obra-referência. Não conseguiu. O que salva City of God de ser apenas um romance cansativo e falho, são as mesmas qualidades que também salvavam Loon Lake- O lago da solidão, até então seu trabalho mais discutível: iluminações repentinas, o estilo, enfim,  toda a sua mala de truques de escritor.

(resenha publicada em  26 de outubro de 2004)

 

Segunda parte

    Em City of God, de E.L. Doctorow, tentativa meio frustrada de sintetizar ficcionalmente a virada do milênio, se pode ler: “Os infelizes migrantes do mundo acham que, se conseguirem apenas chegar aqui, poderão fincar um pé. Manter uma banca de jornais, uma birosca, dirigir um táxi… o que pintar. Você quer dizer a eles que este não é um lugar para pessoas pobres. A linha de fractura racial que corre pelo coração da terra também corre através do seu coração. Somos seres étnicos sujeitos a um código de cor e criadores de enclaves sociais, multiculturalmente desconfiados e verbalmente agressivos, como se a cidade, considerada como uma Idéia, fosse um fardo pesado demais até mesmo para as pessoas que moram nela”.

     Outro grande escritor, Salman Rushdie, ousou encarar de frente a virada do  milênio elegendo Nova Iorque, o centro do Império, como ponto de inflexão, apesar do resultado não ser tão caudaloso quanto suas imensas (e fabulosas) obras-primas anteriores (Os filhos da meia-noite; Os versos satânicos; O último suspiro do mouro). Enquanto Doctorow investigava manifestações de Deus na secularização triunfante (e Deus é uma obsessão norte-americana, junto com as armas, como bem lembrou Harold Bloom), Fúria (Fury, traduzido por José Rubens Siqueira e lançado pela Companhia das Letras), o modesto—em páginas—romance do milênio de Rushdie , atualiza o mito grego das Erínias, ou seja, as Fúrias, as divindades destruidoras que ameaçam seu protagonista, Malik Solanka, no primeiro verão do novo  milênio, enquanto Bush e Al Gore, ou Gush e Bore, se digladiam pela posse da coroa do Império, com os resultados que conhecemos.

     Solanka está longe de ser o migrante pobre que tenta fincar pé na terra da promissão americana. Pelo contrário, está rico devido à criação de uma boneca, Little Brain, um dos produtos mais rentáveis da indústria cultural. Amargurado com o destino da sua criatura, e após um ligeiro surto psicótico (quando pensara em assassinar esposa e filho), ele abandona sua família em Londres, como já riscara da sua vida suas origens, em Bombaim, procurando a América como lugar de renascimento. Dentro de si ele surpreende o regurgitar de uma raiva avassaladora, com lapsos de memória que o levam a suspeitar que bem poderia ser o assassino de três belas jovens da alta-sociedade, enquanto o eterno ruído da cidade o persegue (“A cidade estava lhe ensinando uma lição. Não havia como escapar da invasão do barulho. Viera em busca de silêncio e encontrara um ruído maior que aquele que deixara para trás. O ruído agora estava dentro dele”).

    “Debaixo da auto-satisfação retórica dessa Améria empacotada, homogeneizada, dessa América com 22 milhões de novos empregos e a maior taxa de casas próprias da história, dessa América Shopping Center dona de ações, de orçamentos equilibradose baixo déficit, as pessoas estavam estressadas, pirando, e falando nisso  o dia inteiro em supercadeias de clichês burríssimos”.

      Não pense o leitor que Fury se limita a ser essa diatribe anti-Império Americano, embora haja passagens assassinas, de uma forma que Michael Moore jamais sonharia.  A grande força de Salman Rushdie, apesar de todo o magma discursivo do livro, que não poupa nada e ninguém, ainda reside no seu talento incomum de contar histórias, com relação ao qual não parece ter perdido o prazer (ao contrário de Doctorow), na teia emocional que ata Malik Solanka às três mulheres mais importantes da sua vida: sua esposa; Mila, uma garota sérvia que lembra (pois quer fazer lembrar) sua boneca Little Brain; e sua verdadeira paixão, Neela, que fará com que ele se confronte com sua infância e o arrastará para fora de Nova Iorque,a city of god da hora,  ainda que para se dar conta de que a Fúria, ou seja, aquela linha de fractura racial que corre pelo coração da terra, está confortavelmente alojada no mundo todo.

(resenha publicada em 2 de novembro de 2004)

 

Terceira Parte

    Em Cosmópolis, o poema em prosa de Don DeLillo a respeito da insubstancialidade do mundo contemporâneo, pode-se ler: “O futuro se torna insistente… o passado está desaparecendo. Antigamente, a gente conhecia o passado, mas não o futuro. Isso está mudando… Precisamos de uma nova teoria do tempo”.

     Há duas semanas, estou comentando obras que vinculam o novo milênio a essa insistência do futuro em detrimento da percepção do passado e o sentimento fantasmagórico que o real, pensado dessa forma, suscita: City of God (2000), de E.L. Doctorow, Fury (2001), de Salman Rushdie. Neste último, vimos como o ruído da cosmópolis (DeLillo: “A cidade come e dorme barulho. Ela faz barulho em qualquer século. Faz os mesmos barulhos que fazia no século XVII, mais os outros que surgiram de lá para cá”, diz o protagonista, que mandara forrar sua limusine com cortiça) correspondia às potências destruidoras agitando-se dentro de Malik Solanka, o professor de história das idéias (passado) que ficou rico com a criação de uma boneca-ícone da indústria cultural (a insistência do futuro).

      Na visão escabrosa de Rushdie, a condição-boneca se torna o epítome da deterioração do material humano, daí a intensa associação entre esse artefato lúdico e três jovens da  alta-sociedade barbaramente assassinadas (“Um corpo morto na rua parece muito uma boneca quebrada”). Em sua origem, a boneca representava diretamente uma pessoa e era um perigo em mãos alheias.Mais tarde, com o advento da produção em massa, tal ligação se rompeu, pois as bonecas passaram para a esfera da linha de montagem, sem personalidade, uniformes: “Tudo isto estava mudando de novo. A conta bancária de Solanka devia tudo ao desejo das pessoas modernas de possuir bonecas não apenas com personalidade, mas com individualidade. Agora mulheres vivas queriam ser como bonecas, cruzar a fronteira e parecer brinquedos. Agora a boneca era o original, a mulher a representação”.

     Nesse caos,com seres humanos-brinquedos,com o virtual devorando o real, há espaço no entanto para um momento literariamente extraordinário, de resgate do Mito em plena cosmópolis. Mila, a garota que imitava a boneca de Solanka, o leva para  o mercado da alta-computação, e vendo-a em frente ao seu laptop, ele assiste, na verdade, à aparição daquele tipo de entidade tão recorrente na cultura da Índia, a que destrói e refaz o mundo: “Mila como Fúria, a engolidora do mundo, o eu como pura energia transformadora. Nessa encarnação, era simultaneamente aterrorizante e maravilhosa”.

(resenha publicada em 9 de novembro de 2004)

 

Quarta Parte

    “Estava parado na rua. Não havia o que fazer. Nunca havia imaginado que isso pudesse acontecer com ele. Era um momento esvaziado de urgência e propósito. Ele não havia planejado aquilo. Onde estava a vida que ele sempre levara?  Não tinha vontade de ir a lugar nenhum, não tinha nada em que pensar, não havia ninguém à sua espera. Como podia dar um passo em determinada direção se todas as direções eram a mesma?”

      Tenho examinado a solução que grandes escritores encontraram (ou não) para representar o início do novo milênio. Nada mais justo que terminar a série com Don DeLillo, autor do maior romance dos derradeiros anos do século passado, Submundo, e cujo Cosmópolis (2003) possivelmente representa a mais alta literatura de ficçãoque se pode encontrar nesses primeiros anos do novo século-milênio-era. Na história do último dia (em abril de 2000) do jovem—já se sentindo ultrapassado (“Eu sempre fui mais jovem que todo mundo. Um dia isso começou a mudar”)—milionário Eric Packer, mega-especulador financeiro, que perde sua fortuna e é assassinado enquanto cruza Nova Iorque para cortar o cabelo (“Ele não sabia o que queria. Então descobriu. Queria cortar o cabelo”), numa limusine gigantesca forrada com cortiça, a grande tentação de qualquer resenhador é citar, citar, citar (mesmo porque a tradução de Paulo Henriques Britto, publicada pela Companhia das Letras, é irretocável). 

    Como se trata de um texto alucinantemente perfeito, pode-se extrair citações incríveis quase que página a página, embora talvez o melhjor seja seguir o conselho da primeira: “Dizer o quê? Era uma questão de silêncio, não de palavras”.

     Parente espiritual do Psicopata americano, de Bret Easton Ellis, Eric move-se (embora o trânsito com freqüência fique congestionado, inclusive com violentas manifestações contra a globalização, numa das grandes seqüências do livro) num mundo em que a obsolescência é muito rápida e no qual as relações esgarçam-se ao ponto da insubstancialidade: “Levou um instante para se dar conta de que conhecia a mulher no banco de trás do táxi ao lado. Era a mulher com quem ele havia se casado 22 dias antes”.

    A característica mais intrigante em DeLillo é que ele consegue manter o estatuto épico, que é básico para uma narrativa (ainda que tão maltrato na ficção contemporânea), mesmo quando mergulha fundo na estética minimalista mais fantasmática. Como Clarice Lispector e Robert Musil, ele mantém-se no mundo do grandioso, evocando mitos e potências muito maiores do que a da pós-modernidade: “Estavam cercados por um crescendo de buzinas. Havia naquele barulho alguma coisa que ele não queria apagar da mente. Era o tom de alguma dor fundamental, um lamento tão antigo que parecia aborígene. Pensou em homens esfarrapados em bandos, dando urros rituais, unidades sociais formadas para matar e comer. Carne vermelha. Era esse o chamado, essa a necessidade gritante”.O motorista de Eric: “Ibrahim parecia desconfiado e reparado, uma preparação que ele adquirira em algum deserto, setecentos anos antes de nascer”. O assassino de Eric lhe diz: “Mesmo quando você se autodestrói, você quer fracassar mais, perder mais, morrer mais que os outros, feder mais que os outros. Nas tribos antigas o chefe que destruía mais coisas dele mesmo que todos os outros chefes era o mais poderoso”.

      A citação que abre este texto mostra como a jornada de Eric por Nova Iorque e sua própria vida são desprovidas de sentido. Cosmópolis, porém, mostra que a literatura ainda faz todo o sentido do mundo.

(resenha publicada em 16 de novembro de 2004)

 

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