MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

25/03/2012

A coroa sem louros da vida de Antonio Tabucchi

Os três últimos dias de Fernando Pessoa, de Antonio Tabucchi, é caracterizado como um “delírio”, pois narra as aparições que os heterônimos (as personalidades poéticas que Pessoa criou: Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Bernardo Soares) fazem ao poeta português que está para morrer num hospital em Lisboa, em 30 de novembro de 1935, devido a uma crise hepática (causada pelos excessos com a bebida).

        Há uma  linha de narrativas que se concentram nos derradeiros momentos de um criador: Hermann Broch escreveu o romance fundamental sobre a agonia do artista diante do fim: A morte de Virgílio (1945). Outras variações que não fizeram feio perto da obra-prima do autor austríaco  são O ano da morte de Ricardo Reis (1984), de José Saramago, Memorial do fim  (1991), de Haroldo Maranhão, e até podemos mencionar Os últimos dias de Charles Baudelaire (1988), de Bernard-Hénri Lévy.

        Como fica Os três últimos dias de Fernando Pessoa nessa linhagem? Fica mal, leitor. O livro de Tabucchi só é perdoável se imaginarmos que ele quis fazer uma apresentação didática de Pessoa, adotando a forma de narrativa, para leitores não-conhecedores da língua portuguesa. Se o que ele pretendeu fazer foi uma narrativa original o negócio muda de figura e o texto se torna um desastre de mediocridade.

        Nos seus Cadernos de Lanzarote, entre um e outro auto-elogio, José Saramago ataca o autor italiano (que ainda não publicara Os três últimos dias): “Tabucchi não me perdoará nunca ter escrito O ano da morte de Ricardo Reis. Herdeiro, ele, como faz questão de se mostrar, de Pessoa, tanto no físico quanto no mental, viu aparecer nas mãos de outrem aquilo que teria sido a coroa  de sua vida, e se tivesse lembrado a horas e tivesse a vontade necessária”.

         Pois bem, Tabucchi resolveu ter “a vontade necessária” e encarar ficcionalmente pessoa. O resultado, porém, dificilmente poderá ser considerado “a coroa da sua vida”. Enquanto O ano da morte de Ricardo Reis é um  livro inventivo e original, que faz o heterônimo Ricardo Reis sobreviver ao seu criador (que lhe aparece como fantasma, numa maravilhosa inversão), Gli ultimi tre giorni di Fernando Pessoa (traduzido por Roberta Barni) , de 1994, parece colocar Pessoa como o Nóbrega de A praça é nossa recebendo convidados que já têm os seus cacoetes cômicos estereotipados e previsíveis ad nauseam.Álvaro de Campos aparece para o seu criador e diz “todas as cartas de amor são ridículas” e aí somos obrigados a dar a mão à palmatória para Saramago. Suas afirmações não eram maledicência competitiva. Existe coisa mais óbvia, clichê e chinfrim em se tratando de Álvaro de Campos? Dá para imaginar qualquer um com cultura de almanaque reconhecendo esse verso e dizendo : ah, isso aí eu conheço.

        Alberto Caeiro, por sua vez, diz que só falou “do tempo que passa, das estações, dos rebanhos”, enquanto Ricardo Reis afirma que “em todas as minhas poesias entrelacei coroas de flores para Neera e Lydia”, como uma Catifunda bucólica. Bernardo Soares, o autor do extraordinário Livro do Desassossego, por sua vez, serve uma dobradinha à moda do Porto ao moribundo porque, é claro, há um poema em que Pessoa diz que ela certa vez “lhe foi servida fria, como um amor frio”. Só faltou “o poeta é um fingidor”.

      A única coisa insólita e inesperada do “delírio” parcamente imaginativo de Pessoa/Tabucchi aparece no detalhe engraçado do papagaio a quem ensinam a falar os versos belíssimos (mas também já tão citados que nos parecem até convencionais) de Tabacaria. “não sou nada, nunca serei nada, não posso querer nada”.

          Fernando Pessoa sobreviveu a tanta coisa, sobreviveu ao monte de bobagens que desencavaram no seu baú, que ele mesmo diz, no texto “estar cheio de gente, os personagens mal cabem lá dentro”. Como se sabe, ele só publicou um livro em vida, o esotérico Mensagem (que eu acho particularmente chato e pomposo), e boa parte da sua produção veio à luz devido aos responsáveis pelo (e estudiosos do) seu espólio, que quase espoliaram sua imensa estatura artístico-intelectual, publicando coisas inomináveis, das quais ele decerto teria vergonha, como aquelas “quadrinhas” ao gosto popular:

 

O manjerico comprado

Não é melhor que o que dão

Põe o manjerico de lado

E dá-me o teu coração.

        Pessoa sobreviveu até mesmo à provação de ser declamado por Maria Bethânia (e olhe que isso já um feito de sobrevivência homérico). Certamente sobreviverá a Tabucchi.

(resenha publicada, com ligeiras alterações, em 24 de junho de 1997)

29/09/2009

MICROCOSMOS, de Claudio Magris

LIVRARIA PORTO DAS LETRAS na internet: acesse www.estantevirtual.com.br/acervo/portodasletras

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“Sentados no Café, estamos viajando, como num trem, num hotel ou pela rua, temos conosco bem poucas coisas,não é possível apor a coisar alguma qualquer vaidosa marca pessoal, não somos ninguém. Naquele anonimato familiar podemos nos dissimular,  livrar-nos do eu como de uma casca. O mundo é uma cavidade incerta, na qual a escrita penetra perplexa e obstinada…”

     Em outubro, sai o Nobel. No ano passado ganhou o francês  J.G.M. Le Clézio, mas o favorito nas bolsas de apostas era o italiano Claudio Magris,conhecido sobretudo pelo inclassificável Danúbio. Além deste e do pequeno relato O senhor vai entender, os quais têm edições recentes pela Companhia das Letras, o único outro livro de Magris publicado no Brasil até agora, salvo engano, é MICROCOSMOS (Microcosmi, 1997)que, há alguns anos, saiu pela Rocco (responsável pela  primeira edição brasileira de Danúbio, nos anos 90). É outra obra que não se pode classificar. Dividido em nove partes, é uma tessitura textual em torno de Trieste, a exótica cidade natal de Magris, italiana  só em parte (o grande Italo Svevo também era de lá),e por certo tempo nem italiana foi. Hermann Bahr dizia se sentir bem ali porque “tinha a impressão de não estar em lugar algum”.

     Há um curioso vezo na melhor literatura italiana das últimas décadas: os escritores-ensaístas, aqueles que escrevem coisas lindas,mas que a princípio poderiam ser considerados escritores teóricos ou acadêmicos (no sentido universitário) e que em aparêcia só pertenceriam a um setor secundário da literatura: Carlo Ginzburg (O queijo e os vermes  é um dos livro fundamental e temos, também, entre outros, Mitos, emblemas, sinais), Pietro Citati (autor de fascinantes biografias de Proust e Goethe, biografias mesmo, como não conheço outras, não acúmulo de fatos e informações, porque totalmente calcadas nas obras deles), Roberto Calasso (que pode escrever Ka, fantasia ficcional em torno da mitologia indiana, e K., análise brilhante da obra de Kafka). E,é claro, o grande, o maravilhoso Umberto Eco (que, para mim, entre eles, é quem deveria levar o Nobel, ainda que todos mereçam). O que são eles? Ensaístas apaixonados por literatura e que fazem exercícios literários? Escritores da gema, porém forjados na pós-modernidade onde tudo se embaralha? Classifique-se-os como se quiser, mas eles em princípio são cinco dos maiores autores contemporâneos. O Nobel deixou boa parte da grande ficção italiana morrer sem premiá-la (Svevo, Carlo Emilio Gadda, Dino Buzzati, Alberto Moravia, Leonardo Sciascia,Italo Calvino, Elsa Morante, Cesare Pavese, Primo Levi), a não ser pelo caso de Grazia Deledda e sobretudo de Pirandello. Premiou mais a grande poesia italiana (Carducci, Salvatore Quasímodo, Eugenio Montale). O último premiado foi, na minha opinião, discutível: em 97 ganhou o teatrólogo Dario Fo. Na ficção propriamente dita, sobrou Aldo Busi (Seminário sobre a juventude & Vida padrão de um vendedor provisório de collant, ambos publicados pela Rocco).

Trieste

“O San Marcos é um café de verdade, periferia da História marcada pela fidelidade conservadora e pelo pluralismo libral de seus habitués. Pseudocafés são aqueles em que acampa uma única tribo, pouco importa se de senhoras de bem, de rapazes ambiciosos, de grupos alternativos ou de intelectuais up to date. Toda endogamia é asfixiante: até os colégios, os campi universitário, os clubes exclusivos, as classes dirigentes, as reuniões políticas e os simpósios culturais são a negação da vida, que é feito um porto de mar, passa de tudo.”

TriesteCanal

“O Café  é uma academia platônica… Nessa academia não se ensina nada, mas aprendem-se e apreendem-se a sociabilidade e o desencanto. Pode-se papear, contar casos, mas não é possível pregar, fazer comícios, lecional. Cada qual, à sua mesa, está próximo e distante em relação a quem está ao seu lado. Ama o teu próximo como a ti mesmo, ou seja, suporta a mania que teu vizinho tem de roer as unhas, assim como ele suporta algum tique teu mais desagradável ainda. Entre essas mesas não é possível lançar modelos, criar alinhamentos, mobilizar prosélitos e imitadores, recrutar discípulos. Nesse lugar do desencanto, no qual já sabemos como o espetácul termina, mas nem por isso perdemos o gosto de assistir a ele ou a indulgência para com o lapso dos atores, não há lugar para falsos mestres, que seduzem com falsas promessas de redenção aqueles que tem uma ansiosa e vaga necessidade de fáciel e imediata redenção.

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