MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

20/10/2012

“If he be Mr. Hyde, I shall be Mr. Seek”: O MONSTRO INCURÁVEL (ou Lendo “O médico e o monstro”)

O texto abaixo, na verdade uma leitura comentada, foi escrito em 2008, como parte do material de leitura para meus alunos do curso As margens derradeiras: textos do limite,  que abordava oito textos curtos e paradigmáticos do século XIX: O médico e o monstro, Bartleby, Memórias do Subsolo, A morte de Ivan Ilitch, O alienista, O mandarim, O coração das trevas & A volta do parafuso; em torno de cada um, analisei outros: William Wilson, O homem invisível, O duplo, O capote, A tumba dos ancestrais, O horla, O homem da areia, A vida privada, etc

 


“…há homens que parecem racionais e sensatos, sábios e virtuosos, e cujo objetivo é levar uma vida regrada e honesta, para agir pelo exemplo sobre seus semelhantes, para provar-lhes que se pode viver moral e racionalmente neste mundo. Mas o que acontece então?  Sabe—se que muitos desses virtuosos acabam mais tarde contradizendo-se e tornando-se personagens de histórias escandalosas.  Agora eu vos pergunto: o que se pode esperar do homem, dessa criatura dotada de tão estranhas qualidades? Derramai sobre ele todos os bens do mundo, mergulhai-o de cabeça na felicidade, tão profundamente que só apareçam à superfície algumas bolhas de ar; satisfazei suas necessidades econômicas a tal ponto que ele nada mais tenha que fazer senão dormir, comer pão-de-ló e cuidar  da continuidade da história universal, pois bem, mesmo nesse caso o homem, por pura ingratidão, pela necessidade de se sujar, cometerá à guisa de agradecimento, uma torpeza qualquer. Correrá até o risco de perder seu pão-de-ló e procurará deliberadamente as bobagens mais arriscadas, os absurdos mais desvantajosos, apenas para misturar a esse bom senso tão positivo  seu pernicioso elemento fantástico. São precisamente seus sonhos fantásticos, é precisamente sua estupidez crassa que ele pretenderá conservar, apenas para demonstrar a si mesmo que os homens continuam a ser homens e não teclas de piano que a s leis da natureza se dedicam a dedilhar…”

(Dostoievski, Zapíski iz Podpólia- Notas do Subterrâneo, 1864)

Um fato demonstra bem que estamos num mundo já contaminado pelo “olhar de suspeita” pós-Nietzsche, pós-Freud e pós-modernismos: qualquer um, ao pegar O estranho caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde sabe que o Sr. Hyde é, na verdade, o Dr. Jekyll, isto é, que o monstro é o médico que se transformou nele. E, no entanto, isso devia ser um fator-surpresa na época e devia causar assombro.  È que nós temos hoje a impossibilidade da candura e da inocência, pois já somos formados na paródia. Além do mais, não faltam versões da história. Nunca assisti a nenhuma que fosse fiel ao original e todas se preocupam muito com a transformação física.

Falemos primeiramente de Robert Louis Stevenson. Ao mesmo tempo em que ele é admirado por escritores do porte de Jorge Luis Borges, é relegado às coleções infanto-juvenis, às adaptações e condensações, o que não seria válido sequer para os seus livros mais aventurescamente “juvenis” como  A ilha do tesouro  ou Raptado (as aventuras de David Balfour), quanto mais para Jekyll e Hyde. Ainda falaremos, em outra aula, sobre O clube dos suicidas, outra de suas obras-primas. Infelizmente falta espaço para O senhor de Ballantrae (traduzido no Brasil com pompa, como O morgado de Ballantrae), seu romance mais importante.

Eu falava mais atrás da pulsão da morte identificada por Freud. Quem fugiu mais dessa pulsão, procurando anelo através de Eros, do que Stevenson?  Desenganado pelos médicos na infância, praticamente sempre viveu com os dias contados, como li em algum lugar. No entanto, nos seus 44 anos, escreveu muito e viajou muito: nasceu em Edimburgo (13 de novembro de 1850) e acabou morando e morrendo (em três de dezembro de 1894) na Oceania, no arquipélago de Samoa, de uma hemorragia cerebral fulminante (e não de sua tuberculose crônica). Nunca viveu em Londres, cenário de Jekyll e Hyde, que ele escreveu aos 36 anos.

É impressionante a sofisticação e complexidade da narrativa (não obstante, o estilo “simples” e “claro”). Um dos grandes efeitos da sua construção indireta é que não precisamos assistir à transformação de Jekyll e Hyde, como querem tanto as adaptações cinematográficas, para sentir a força da história. Além do mais, a construção da narrativa é parte integrante da antecipação freudiana que reivindico no meu curso.

O pequeno romance (o original [1], na edição Penguin de bolso que eu tenho, tem 88 páginas), ou novela, se divide em dez capítulos. Já na abertura do primeiro capítulo conhecemos o Sr. Utterson, o advogado de Jekyll. Ele é o decoro vitoriano personificado, e também um homem compassivo. Costuma dar passeios a pé aos domingos com um parente, Richard Enfield [2]. Um dia, ao entrarem por uma ruazinha de lojas prósperas, na qual há uma “porta” destoante do clima de prosperidade geral, entrada de uma construção decadente e meio sórdida, Enfield conta um incidente relacionado a ela: numa madrugada, passava por ali e viu o encontrão que levaram um cavalheiro e uma menina que vinha correndo (saíra com o intuito de chamar um médico para alguém doente em sua família). A reação do homem foi violenta, inesperada e inexplicável: começou a pisotear a criança. Enfield e outras pessoas intervieram, e no bololô de gente que se formou, um sentimento era comum: aversão ao tal homem, que se apresentou como Sr. Hyde. Um sentimento tanto mais estranho por se ligar mais ao próprio homem do que ao seu ato. Todos se sentiam desconfortáveis diante dele, também, como se carregasse uma deformidade que ninguém conseguia localizar em sua aparência (no mais, era jovem, baixinho e desagradável, além de agir com desfaçatez).  Quando se exige dele uma reparação (cem libras), ele entra pela referida porta e volta com um cheque assinado por uma figura respeitável da sociedade londrina. Todos pensam se tratar de uma falsificação, mas quando o banco abre e o Sr. Hyde saca o dinheiro, os que o acompanhavam (entre eles, Enfield) se certificam de que o cheque é autêntico.

Por que esse incidente interessa ao Sr. Utterson? Pois, ao ser informado desses atos do até então desconhecido Hyde, tem acrescida sua perturbação e inquietação com o estranho testamento de um dos seus clientes (e amigos íntimos), Dr. Jekyll, cujo beneficiário em caso de morte (e, mais estranhamente, de desaparecimento) seria o tal Hyde. Como Enfield, Utterson acha que ele pode estar chantageando Jekyll por algum erro do passado, talvez até mesmo ser fruto de um desses erros. Ao procurar o amigo e mencionar o incidente da menina, ele não consegue nenhuma informação e não vê nenhuma atitude de preocupação, embora se resolva a conhecer Hyde, “emboscando-o” na famosa porta (que é a entrada para a parte de trás da casa de Jekyll, uma parte utilizada como laboratório). Daí temos a famosa frase, “If he be Mr. Hyde, I shall be Mr. Seek”“Se ele é o Sr. Hyde [Escondido], eu serei o Sr. Seek [buscador, ou mais precisamente, perseguidor][3].  No confronto rápido entre os dois, Utterson se vê reproduzindo o mesmo mecanismo psicológico evocado por Enfield: repulsa, aversão, percepção de alguma deformidade oculta.

Então Hyde comete um escandaloso crime: assassina sem motivo, a bengaladas, Sir Danvers Carew em plena rua e com testemunhas.  Utterson colabora com a polícia na investigação do caso, chegando a conhecer os cômodos que Hyde ocupara no Soho londrino. Não se consegue achá-lo, todavia. Mais uma vez, Utterson procura Jekyll, que lhe diz estar preocupado com sua reputação e quer se desvencilhar do protegido, o qual lhe enviou um bilhete, afirmando que “sumiria no mundo”, deixando-o em paz.  Meio aliviado, Utterson se abre com seu funcionário mais graduado, Guest, especialista em caligrafia, que comenta a semelhança entre as letras de Hyde (o bilhete) e Jekyll (em outro escrito), o que escandaliza o advogado (O quê? Henry Jekyll forjou isto para proteger um assassino!”), “sentindo seu sangue gelar nas veias”.

Com o passar do tempo, tendo Hyde desaparecido sem deixar rastros (a não ser o que se apura sobre os seus vícios e delitos), Utterson volta à tranqüilidade e Jekyll sai da sua estranha reclusão de anos, tornando-se socialmente ativo de novo, recebendo e visitando os amigos e “fazendo o bem”.  Até que, dois meses depois, quando Utterson vai visitá-lo, ele começa a não recebê-lo.  O advogado vai à casa de Lanyon, um amigo comum, e o encontra transtornado; pior ainda, de homem saudável e cheio de vitalidade, transformou-se num  homem que tem os dias contados. Lanyon diz que a culpa é de Jekyll e que nunca mais quer revê-lo ou saber dele, mas se recusa a comentar mais detalhes.

Num domingo (é o sétimo capítulo), repete-se o passeio de Utterson e Enfield, e ambos retomam o assunto da “porta” e agora falam explicitamente de Jekyll, resolvendo passar pelo lado da frente da sua casa. Eles o encontram à janela, e o convidam para um passeio. De repente, como se alguém o estivesse ameaçando lá dentro, ele muda sua atitude, mostra-se tomado de pavor e fecha imediatamente a janela, perturbando consideravelmente os dois cavalheiros.

No capítulo seguinte, Poole, o mordomo de Jekyll, procura Utterson e diz que todos na casa estão apavorados e que pode ter acontecido algo ao seu empregador. Utterson vai com ele à casa do amigo, encontra todos os criados reunidos, e indo ao laboratório, ouve o apelo do amigo (que apresenta uma voz bem mudada) de que o deixe em paz. Poole explica que teve de ir a várias boticas procurar um determinado pó, que, trazido, no entanto não satisfazia nunca Jekyll, que o comprara uma vez numa grande encomenda e não o encontrava mais naquele teor de pureza. Mais ainda, Poole transmite a Utterson a sua suspeita de que o empregador fora assassinado e de que a pessoa que está lá dentro é Hyde, o que é meio incompreensível para o espírito lógico de Utterson: por que o assassino permaneceria dias, à mercê da lei, na cena do crime? Mesmo assim, persuadido pelo mordomo e pelos seus próprios temores, assume a responsabilidade de colocar a porta do gabinete abaixo e descobrir quem se tranca ali. Quando isso é efetivado, descobrem o corpo de Hyde, que acabara de se suicidar. Antes de chamar a polícia, Utterson vasculha o laboratório e as imediações, em busca do cadáver de Jekyll. Não o encontra, apenas um novo testamento e uma papelada dirigida a ele. Como Lanyon, o outro amigo, antes de morrer, também lhe enviou uma papelada para ser lida no caso da morte (ou desaparecimento, o termo estranho se repete) de Jekyll, ele se resolve a ler a documentação toda, antes de tomar providências legais que podem manchar a reputação do amigo.

É no capítulo seguinte (o nono, “O relato do Dr. Lanyon”) que o leitor fica sabendo que Hyde é Jekyll transformado pela ação de um preparado.  Lanyon vê isso com seus próprios olhos e esse é o motivo do abalo moral que o liquidou.

No décimo e último capítulo (“O depoimento completo de Henry Jekyll sobre o caso”), o maior do texto, é o próprio Jekyll quem toma a palavra, amarrando todos os pontos da história, que conhecíamos fragmentária e indiretamente. Vou me estender mais nesse capitulo em citações porque, quando recapitular seu mythos (segundo Northrop Frye, a ordem da narrativa, como se apresenta a sua fabulação), em busca da sua diánoia (seu sentido), me concentrarei mais no Sr. Utterson.

Jekyll revela sua dualidade desde a juventude: visava a altos propósitos, queria ser respeitado e considerado, mas gostava de “irregularidades”, para utilizar um eufemismo para o que se poderia considerar devassidão, luxúria ou vício: “… ia-se cavando em mim, mais do que na maioria dos mortais, esse profundo fosso que separa o mal do bem e divide e compõe a dualidade da nossa alma”.

Jekyll mostra-se como um ego plenamente formado, mas que têm consciência do custo da repressão, de sacrificar o Principio do Prazer ao da Realidade, que ele denomina “pesada lei da vida” (“hard law of life”), o que, como pode se ver, é uma formulação já totalmente freudiana. Aliás, ao refletir sobre sua descoberta de que o homem não é uno, mas duplo, de que duas naturezas formam o conteúdo da consciência, ele reconhece que foi até onde alcançou em sua pesquisa, e que outros podem avançar e revelar a multiformidade da pretensa identidade humana (é o trecho que coloquei em epígrafe na seção dedicada a Freud, mais atrás). Seu único equívoco é afirmar que as diversas facetas são independentes umas das outras; na verdade, a pesquisa freudiana revelará como elas são interdependentes. Mas nem precisaríamos dela: basta lembrar que William Wilson não sobrevive ao seu homônimo nem Hyde consegue sobreviver sem Jekyll.

Como cientista faustiano, diria até nietzschiniano, se isso indicar o desprezo pelo horror ao Mal que a moralidade convencional apregoa, ele conta que  se entretinha com a “fantasia deliciosa, o pensamento da separação daqueles dois elementos [o mal e o bem]. Se cada um, dizia eu comigo, pudesse habitar numa entidade diferente, a vida libertar-se-ia de tudo o que é intolerável. O mau poderia seguir o seu destino, livre das aspirações e remorsos do seu irmão gêmeo, a contraparte boa; e esta caminharia resolutamente, cheia de segurança, no caminho da virtude, fazendo o bem em que tanto se compraz, sem se expor à desonra e à penitência engendrada pelo perverso. Constitui uma maldição do gênero humano que esses dois elementos estejam tão estreitamente ligados; que no âmago torturado da consciência continuem a digladiar-se.” Se substituirmos a retórica maniqueísta de “bem” e “mal”, como conceitos absolutos, temos os conflitos que “id” e “superego” deflagram no ego. De fato, o nosso cientista louco tem perfeita consciência do caráter simbólico da identidade humana (o que o leva bem longe do biologismo triunfante daquela época): “Percebi mais claramente do que nunca a trêmula imaterialidade, a nebulosidade efêmera deste corpo tão aparentemente sólido ao qual somos atrelados”.

Bem, Jekyll consegue seu intento. Consegue que seu lado mau (vamos dizer, seu “id” e toda sua expectativa narcisista de satisfação de apetites, afora a agressividade sem freio advinda da pulsão de morte) apareça como uma pessoa autônoma, ainda que saída de si, isto é, substituindo o seu corpo. Ele se duplica, porém não seu corpo, que apenas adquire uma aparência afim à sua natureza. Hyde, o id, é compreensivelmente mais jovem, mais baixo, ou seja, tem algo de infantil e ainda não totalmente formado, o que pode ser o motivo de todos procurarem nele uma deformidade: ele é a criança que leva a vida de adulto. E Jekyll, “quando olhava no espelho para essa feia imagem, não sentia nenhuma repugnância, antes um alvoroçado prazer. Pois se era eu também” inadvertidamente nos revela que a dualidade continua, há um Jekyll espreitando Hyde em algum lugar, pois se não fosse assim ele não poderia olhar para si como Hyde e ter prazer como Jekyll de aquela feia imagem ser ele também! E aqui podemos ver a armadilha que preparou para si mesmo, ao mesmo tempo em que admiramos a perícia do autor, Stevenson, que percorre novamente todos os incidentes da narrativa, agora colocando-as sob a devida perspectiva.

A princípio tudo corre bem, principalmente considerando a divisão de classes e a hipocrisia da sociedade vitoriana. Ele consegue com facilidade retornar ao seu estado “normal” como Jekyll, “regressei um anjo em lugar de ficar demônio” (e logo adiante, um trecho revelador “A poção não tinha nenhuma ação característica, não era diabólica nem divina, apenas abalou as portas da prisão das minhas inclinações”, ou seja, anulou a repressão; “inclinações”= sujeito desejante): “…eu era não só muito conhecido e altamente considerado, como também caminhava para uma idade respeitável e essa incoerência da minha vida principiava a tornar-se importuna. Foi nessas condições que aquele novo poder me tentou até me tornar seu escravo. Bastaria beber um novo copo da poção para me libertar do corpo do médico célebre e assumir, como um disfarce perfeito, a figura de Edward Hyde. Sorri àquela idéia. Parecia-me então ser uma coisa divertida, e fiz os meus preparativos com toda a precaução. Arranjei e mobiliei essa casa no Soho, depois revistada pela polícia, e contratei como governanta, uma mulher que sabia ser discreta e sem muitos escrúpulos. Por outro lado, participei aos meus antigos criados que um tal Sr. Hyde, cujo aspecto descrevi, ficaria com plenos poderes e liberdade de entrar em casa; e para prevenir qualquer problema, eu próprio me tornei, sob o meu segundo caráter e aspecto, assíduo ali. Depois redigi o testamento a respeito do qual Utterson iria fazer tantas objeções; pois se algo me acontecesse na qualidade de Dr. Jekyll, eu entraria sem prejuízo econômico na pessoa de Edward Hyde. E assim precavendo-me, como supus, em todos os pormenores, comecei a usufruir as estranhas imunidades da minha posição…Existem homens que contratam matadores para lhes praticarem os crimes,enquanto a sua própria pessoa e reputação ficam a salvo. Eu era o primeiro que satisfazia os seus instintos, por si mesmo e à vontade… era o primeiro que, aos olhos do público, exibia uma vida de respeitabilidade e que num átimo, como um estudante irresponsável, se despojava dessa hipocrisia e mergulha, de cabeça, no mar da liberdade. Para mim, envolto em um anonimato impenetrável, a impunidade estava garantida. Pense: eu tinha a identidade que quisesse![4]

A contraditória atitude auto-apaziguadora de Jekyll fica evidente numa passagem mais adiante: “Ao voltar dessas excursões, muitas vezes recaía numa espécie de assombro ao pensar na minha depravação… Por vezes Jekyll ficava horrorizado com os atos praticados por Hyde. Mas a situação estava à margem da lei e fora do alcance da consciência. Afinal, era Hyde e só Hyde o culpado. Jekyll não ficava pior por isso: regressava, integro, às suas boas qualidades…” Íntegro? Será que ele conseguiu anular o superego? Não, se atentarmos que, no parágrafo seguinte, ele diz: “fatos subseqüentes me indicaram que o castigo não demoraria a chegar”. Freud nos ensinou que a idéia de castigo é interiorizada durante a formação do ego, sendo um dos papéis do superego. É por isso que tantas vezes determinados indivíduos elegem a autopunição.

Chegamos então ao fato que deu início à narrativa: a agressão gratuita à menina (observe-se a seguinte frase introdutória à sua narração do incidente: “se não tivesse mais conseqüências, nem valeria a pena mencionar”; é a idéia da “conseqüência”, e não o problema ético e moral, que o preocupa). Acontece algo ainda pior: sem o uso da poção, uma noite Jekyll acorda transformado em Hyde: “comecei a pensar mais seriamente nos prós e contras da minha dupla existência. A parte do meu ser que eu tinha a faculdade de projetar fora de mim estava agora mais exercitada e desenvolvida. Era como se o corpo de Edward Hyde tivesse crescido, como se —quando sob essa forma— o sangue me percorresse com mais calor. Foi quando inferi um perigo: se tal coisa se prolongasse, a balança da minha natureza começaria a pender para um lado, o poder da transformação voluntária tornar-se-ia difícil e o caráter de Edward Hyde integrar-se-ia irrevogavelmente no meu… Todas as circunstâncias, na atualidade, pareciam indicar que eu ia perdendo lentamente a influência da minha primitiva e melhor parte, e incorporando-me pouco a pouco no meu duplo, secundário e pior. Era preciso escolher entre os dois… Entregar a minha sorte na carcaça de Jekyll era estrangular todos esses apetites que eu secretamente acariciara durante tempos e de que começava agora a regalar-me. Confinar-me no esqueleto de Hyde era morrer para milhares de aspirações e interesses espirituais e ficar, para sempre, tombado no opróbrio…”

Ele opta por Jekyll, abstendo-se da poção. Sintomaticamente, não se desfaz, contudo, da morada no Soho nem das roupas de Hyde. E o tempo, acalmando os remorsos, traz a tortura das ansiedades e desejos. E aí Hyde mostra como Eros é permeado pelo seu gêmeo Thânatos, pois ao ceder à fraqueza, e tomar a poção, Jekyll libera seu alter ego no ponto mais agressivo e destrutivo, acarretando o assassinato de sir Danvers: “Com um transporte de alegria infernal, ataquei o corpo indefeso, gozando deliciosamente cada golpe que desferia. E foi só quando a fraqueza do braço deu sinal que eu de repente, no auge da fúria, senti-me tomado por um arrepio de terror. A névoa dissipara-se; vi a minha cabeça posta a prêmio —e fugi da cena daqueles excessos, ao mesmo tempo trêmulo e triunfante, satisfeita a luxúria da maldade [Thânatos], e o meu amor à vida[Eros] exacerbou-se até o limite.”  Não é ocioso lembrar que Hyde ataca justamente alguém muito parecido com o seu outro, em idade, posição social e respeitabilidade. A fúria da destruição sempre é voltada para nós mesmos. Como ele não pode destruir Jekyll, por motivos óbvios, vale-se de um substituto.

Como Hyde tornara-se de fato um foragido, Jekyll o reprime inteiramente e temos aqueles meses, após a entrega do bilhete a Utterson, em que o médico retorna à sua antiga (e insatisfatória para ele, embora aos dois amigos, Utterson & Lanyon, pareça uma ressurreição espiritual) existência benemérita e mundana. Um dia, passeando no Regent´s Park e sentando-se num banco, sentiu que “a animalidade dentro de mim remexia-se e instigava a memória; o lado espiritual condescendia, prometendo subseqüente penitência, mas não disposto ainda a começá-la”. E se transforma em Hyde. Procura se esconder, e escreve a Lanyon, pedindo que ele arrombe seu laboratório e apanhe os instrumentos para sua transformação. É quando ele procura o amigo (como Hyde) e se metamorfoseia à sua frente que ele causa o já contado abalo moral que deu cabo em Lanyon e fez com que ele dissesse nunca mais querer revê-lo.  São cruciais ao texto o relato das horas que passou à espera de que Lanyon atendesse seu pedido. Vemos Hyde transformado em id puro: “Ele… não posso dizer Eu… esse filho do Inferno não tinha mais nada de humano: nele mais nada existia além do medo e do ódio”. No meio da noite londrina, protegido pelo anonimato da metrópole, ele vaga, as “duas paixões abjetas” num tumulto dentro de si: “Em certa ocasião houve uma prostituta que se lhe dirigiu, oferecendo-se. Ele golpeou-a na cara, e ela fugiu”.

Depois do incidente com Lanyon, apesar da angústia, Jekyll ainda procura se auto-iludir: “Acordei no dia seguinte, cansado, fraco, mas com algum alívio. Ainda me assustava a idéia de que um animal dormia dentro de mim, e eu naturalmente não esquecera os medonhos perigos da véspera; porém, uma vez mais, encontrei-me na antiga casa, sozinho com as minhas drogas; o fulgor da gratidão por me haver salvado e o resplendor da esperança rivalizavam agora na minha alma.”. Só que a partir daí as transformações serão todas involuntárias e cada vez mais constantes, e ele terá de se trancar no laboratório, despachando Poole às farmácias tentando obter a substância original que fizesse a poção ter a mesma força e resultados das primeiras vezes. Em vão.  E agora as duas partes frontalmente se odeiam. O ódio de Jekyll é o pavor do irracional: “… do fundo do abismo cavado pareciam erguer-se vozes e imprecações, o barro amorfo como que gesticulava e amaldiçoava, o que estava morto, e não tinha forma, tomava o lugar das funções da vida [há um nome para isso na teoria freudiana, é o retorno do reprimido], e isso, essa miséria rebelde, prendia-se a ele, mais abraçado que uma mulher, mais cerrado do que as pálpebras; jazia enclausurado na sua carne, onde o sentia implorando e lutando por nascer; e em cada hora de fraqueza, em cada momento de sonolência, prevalecia contra si e destituía-o dos seus direitos”;  em contrapartida, “O ódio de Hyde por Jekyll era diferente. O medo da forca impelia-o constantemente a cometer suicídios temporários e a voltar à posição subalterna de uma parte do seu todo; mas detestava essa necessidade, aborrecia-o o desânimo em que Jekyll se abatia,ressentido do ódio do qual era objeto. Daí os ardis simiescos com os quais pretendia me enredar, obrigando-me a rabiscar blasfêmias à margem dos meus livros, a queimar cartas e a destruir o retrato de meu pai [mas se Hyde é feito de parte da substância de Jekyll, essas ações específicas ganham um significado maior, não?]. E se não fosse o seu medo da morte, há muito ter-se-ia destruído para me envolver na sua própria ruína. O amor pela vida, contudo, era extraordinário”. Algo que não pode deixar de ser comentado, é a habilidade psicológica de Stevenson, ao mostrar a divisão do médico na própria linguagem, ora utilizando a primeira pessoa, ora a terceira, no movimento mesmo de um parágrafo como o acima transcrito.

O relato termina assim: “É inútil —meu tempo agora é tão curto… — prolongar esta descrição… O meu castigo poderia durar muitos anos, mas essa última calamidade separou-me finalmente da minha própria expressão e natureza. A minha provisão de sais, que nunca fora renovada desde a data da primeira experiência, começou a diminuir. Mandei comprar outra quantidade e procedi à mistura: produziu-se a efervescência e a primeira mudança de cor, porém não a segunda. Tomei-a, e não senti resultado nenhum. Poole deve ter-lhe contado como o mandei vasculhar por toda Londres. Foi tudo inútil. E estou agora persuadido de que o primeiro suprimento é que era impuro e que foi essa desconhecida impureza  a razão da eficácia da poção[5].

         Já se passou quase uma semana, e estou agora encerrando este relato sob a influência da última dose dos primeiros sais. É pois a última vez, a menos que aconteça um milagre, que Henry Jekyll pensa com os seus pensamentos e contempla o  seu autêntico rosto, tão tristemente desfigurado!, no espelho do gabinete. Não devo alongar-me na conclusão deste relato. Se a minha narrativa escapou até agora à destruição, deve-se isso a uma combinação de prudência e de sorte. Quando, no ato de escrever, me tomam as angústias da transformação, Hyde rasga em pedaços o papel. Mas, se decorrer algum tempo, depois de tê-la posto de lado, o espantoso egoísmo do monstro e sua preocupação com o presente, provavelmente a deixarão a salvo. A sentença, que pesa sobre nós dois, começará a esmagá-lo já. Daqui a meia hora, quando de novo e para sempre me tornar aquela personalidade odiosa, sentar-me-ei a tremer e chorar numa poltrona, ou continuarei, com os ouvidos atentos, a passear por este aposento, meu último refúgio terreno, à escuta de algum ruído ameaçador. Hyde morrerá no patíbulo? Ou terá a coragem de libertar a si mesmo, no último instante? Só Deus o sabe. Não me preocupo. Esta é que é a minha última hora, e o que vai acontecer depois concerne a outro, não a mim. Aqui, portanto, ao descansar a pena e selar minha confissão, ponho ponto final na infeliz vida deste médico infortunado que se chamava Henry Jekyll.”

Hyde não suporta viver além de Jekyll, nem tem instrumentos psíquicos para isso, é no fundo uma criança e está despreparado para enfrentar quaisquer responsabilidades, advindas do Princípio da Realidade, que só existia para ele… na forma de Jekyll.

Portanto, com assombrosa intuição e eficiência ficcional, Stevenson se antecipou a Freud.  Rosemary Jackson, em A literatura da  subversão, examina o texto como um parábola do dualismo libidinal: “O outro lado do humano retorna para ativar tendências libidinais latentes escondidas pelo ego social, exemplificando a teoria de Freud da narrativa fantástica como relato do retorno do reprimido”.

Quem, no entanto, dá atenção ao pobre Sr. Utterson, para mim a personagem-chave mais interessante da história? Porque ela é construída para ele, não só porque representa o leitor (já que este o acompanha no deciframento dos fatos), mas porque ele é o verdadeiro superego da trama. Ele é que, apesar de compassivo e tolerante com os pecados do próximo, vai ser o insistente arauto do Princípio da Realidade a cobrar de Jekyll uma explicação, que irá atrás de Hyde e colaborará com a polícia, como um Sherlock Holmes improvisado. É ele que participa de todos os acontecimentos, a não ser nos relatos finais esclarecedores dos seus dois melhores amigos, Lanyon (um superego secundário, falarei daqui a pouco disso) e Jekyll. Ele é que ordenará arrombar a porta do gabinete para esclarecer o que de fato está acontecendo, não tolerando mistérios nem a ambigüidade, embora tomando atitudes com o fito de manter o decoro e a reputação dos amigos que também são clientes (esse século XIX utilitário). Mas que é obrigado, a princípio, a ver “o fio vermelho do crime se misturando à meada cinzenta da vida” (frase de Conan Doyle em Um estudo em vermelho), e no final tem a revelação de que esse fio vermelho sempre fez parte do novelo, e pertence à mesma tessitura. Ele é o investigador do mal que descobre na vítima que fora socorrer o mal que perseguia. Coisa muito comum para nós, leitores do século XXI, mas desconcertante em 1886.

A caracterização do Sr. Utterson, que, não por acaso, abre a narrativa, já é fascinante: “O advogado Utterson era um homem de fisionomia severa, que jamais se iluminava com um sorriso [ou seja, já aqui ele é convocado como representante da sociedade vitoriana, um espelho dela; Jekyll será o espelho deformante]; frio, concentrado, de poucas palavras, reservado; magro, alto, parcimonioso e melancólico, porém de certa maneira simpático, apesar de tudo. Nas reuniões de amigos, e quando o vinho lhe agradava, brilhava-lhe no olhar qualquer coisa de extraordinariamente humano; qualquer coisa que, na verdade, não se exprimia por suas palavras e que falava não só na silenciosa manifestação do semblante, satisfeito depois do jantar, mas, na maioria das vezes, e com eloqüência, nos atos da sua vida. Austero consigo mesmo, bebia gim quando estava só, a fim de se penitenciar do seu gosto pelo vinho; e, embora adorasse o teatro, havia já vinte anos que não freqüentava nenhum [atitude característica do superego, auto-contrariar-se [6]].Mas com os outros mostrava-se condescendente. Por vezes, sentia admiração, quase inveja, por certos espíritos febrilmente empenhados nos seus próprios delitos; e, em qualquer situação, inclinava-se mais a ajudar que a censurar: Solidarizo-me com a heresia de Caim, costumava dizer, Deixo meu semelhante danar-se com suas próprias pernas. Assim, sua sina era ser amiúde a última companhia decente de alguns homens decaídos, ou a última influência favorável de criatura envilecidas. Sempre que vinham bater à sua porta, nunca mostrava a mais leve sombra de alteração em suas atitudes.

         Agir dessa maneira era fácil ao Sr. Utterson, em razão do seu caráter extremamente sereno; e até as suas melhores amizades dir-se-iam também baseadas numa ampla tolerância. É próprio do homem modesto aceitar a roda dos seus amigos do jeito que o destino lhe preparou. E assim acontecia com o advogado, pois os amigos ou eram consangüíneos, ou conhecidos bastante antigos. Os afetos, como a hera, cresciam com o tempo, e não em razão das propriedades particulares do objeto.”

Pensemos um pouco: é um quadro simpático? Favorável? Creio que a ambigüidade já se instalou: o Sr. Utterson é severo, reprimido, tolerante, mas de uma tolerância desdenhosa; compassivo, mas de um jeito que parece dizer que o mundo é assim, e pronto, portanto, representante de certo conformismo, do mais resignado conservadorismo. Os leitores o acham simpático porque é muito bem delineado, até com um toque de humor, e porque seria intolerável a uma narrativa que fosse “levada” quase até o seu fim por um personagem desagradável em primeiro plano. Mas de nenhuma forma ele deixa de ser o olhar vigilante da sociedade em prol da meada cinzenta. Além disso, ele tem outro papel importante: como advogado, ele é o detentor dos documentos, das provas, em última instância, da verdade última da narrativa. É a sua curiosidade (e seu desconforto) sobre o testamento[7] de Jekyll que faz com que o leitor penetre na estranha (e perniciosa) condição de protegido de Hyde. Quando apura dados sobre a personalidade do beneficiado, a partir do caso da menina agredida, vemos como Stevenson tinha uma firme intuição sobre os processos do inconsciente. Se o superego é o nosso lado hiper-consciente e censório, então Utterson tem razão de se sentir inquietado com as imagens inexplicáveis e ameaçadoras que evoca na seguinte passagem: “Bateram seis horas… e ele ainda continuava a debater-se com o problema. Até então encarara-o apenas pelo lado intelectual; mas agora a imaginação incitava-o, ou melhor, dominava-o; e enquanto estivera na cama, agitando-se no escuro da noite e do quarto sombreado pelas pesadas cortinas, voltou-lhe ao espírito como imagens projetadas em tela luminosa. Via-se à noite na cidade cheia de lampiões; um homem seguia velozmente; de outro lado vinha uma criança, da casa de um médico; os dois chocavam-se e o demônio humano pisoteava a menina, sem atender aos seus gritos. Ou então era um quarto numa residência luxuosa, onde o amigo Jekyll dormia, sorrindo no meio de um sonho; a porta abria-se, as cortinas da cama eram violentamente arrancadas, o dorminhoco acordava, e pronto!, ao seu lado estava um vulto possuído de poderes demoníacos; e, àquelas horas mortas, devia ele levantar-se e cumprir determinadas ordens. O espectro nas duas fantasias assombrou o advogado a noite inteira; e, se em alguns momentos, chegou a passar pelo sono, foi só para vê-lo deslizar furtivamente através das moradias silenciosas, ou mover-se cada vez mais rápido, vertiginosamente, pelos extensos labirintos de uma cidade iluminada, e em todas as esquinas esmagar uma criança, abandonando-a sem socorro. O espectro, porém, não tinha rosto pelo qual pudesse ser reconhecido; não, não o tinha em nenhum dos sonhos, ou então escondia-o, ou diluía-se quando procurava fixá-lo. E foi assim que nasceu e se desenvolveu depressa, na mente do advogado, uma curiosidade singular e forte, quase desordenada: conhecer o rosto do verdadeiro Hyde. Se conseguisse vê-lo pelo menos uma vez, parecia-lhe que o mistério seria esclarecido e desvendado claramente, como acontece com as coisas misteriosas quando bem examinadas.” Nem é preciso enfatizar a atmosfera de terror infantil redespertado naquelas imagens de labirintos de ruas, da noite da cidade cheia de ameaças, e a imagem do espectro sem rosto praticando maldades, assombrando a razão e o sono do advogado “são”, “sensato”, por quem a miséria humana era assistida de camarote e binóculo, a raça de Caim caminhando para a danação com suas próprias pernas, e ele sendo solícito e polido.  Como se vê, o foco narrativo em 3ª. pessoa acompanhando o Sr. Utterson enriquece muito o texto e prepara o terreno para a “confissão” (feita para o advogado, o detentor da reputação) de Jekyll.

Ainda a respeito desses primeiros capítulos, não podemos deixar de fazer uma analogia entre a personalidade do Sr.  Utterson (que vai nos dar a abertura para o “estranho caso” do médico e o monstro) e a rua na qual fica localizada a porta para os fundos da residência de Jekyll, isto é, por onde a respeitabilidade vitoriana é virada do avesso. Vale a pena transcrever a descrição, que é digna do início de O coração das trevas, de Joseph Conrad, porque mostra a civilização de fachada, ostensiva, ancorada na idéia de prosperidade e não de uma verdade íntima: “…em um desses passeios, o acaso os conduziu a uma ruazinha de um bairro comercial de Londres. Era uma travessa estreita e sossegada, não obstante nela se fizessem negócios importantes nos outros dias da semana. Os moradores, ao que parecia, eram gente próspera e competiam entre si, cada qual querendo fazer ainda melhor, gastando o que sobrava em melhoramentos; e as fachadas das lojas exibiam-se ao longo da viela, com ar convidativo, como filas de sorridentes balconistas. Mesmo aos domingos, quando se encobrem os mais sedutores encantos e o trânsito quase inexiste, a rua brilhava, por contraste, na escuridão que a cercava, tal qual uma fogueira na espessura dum matagal; e com os seus taipais pintados recentemente, os metais polidos, limpeza geral e ar acolhedor, logo prendia  deliciava o olhar dos que passavam.

         A dois passos de uma esquina, à esquerda de quem vai na direção leste, havia um desvio provocado pela abertura de um pátio; e exatamente nesse ponto avançavam sobre a rua os beirais do telhado de uma sombria construção de dois andares; não se lhe via janela, apenas uma porta no piso inferior, e por cima a testa sem olhos, que era aquela parede desbotada, mostrando os sinais de prolongada e sórdida negligência. A porta, sem campainha nem batente, estava empenada e suja… etc etc. É a porta para o laboratório, esse espaço mítico da imaginação cientificista do século XIX, e ao mesmo tempo  a porta Hyde, no lado oposto à entrada chique da residência Jekyll. E até a porta tem algo de incômodo, desconfortável, que causa um mal estar no meio das luzes da prosperidade que deixa a ruela com um ar de fogueira em pleno matagal (entretanto há um quê de destrutivo nessa imagem, como se para evidenciar a prosperidade algo tivesse que ser carbonizado).

Capítulos adiante, logo ao ser informado de que Hyde assassinou Sir Danvers, o Sr. Utterson, seu advogado e amigo, insiste em acompanhar a polícia ao endereço de Hyde (aliás, é ele quem reconhece a arma do crime, uma bengala que dera de presente a Jekyll). E no caminho até o Soho ele vê com outros olhos a cidade onde mora e nos permite olhar a Londres que desce do nível Jekyll para o nível Hyde: “Enquanto a carruagem seguia de rua em rua Utterson podia observar a quantidade maravilhosa de graduações e matizes de luz matutina: enquanto aqui estava escuro como se estivesse a anoitecer, ali surgia um brilho de castanho rico, mas lúgubre, como o clarão de um incêndio estranho [mais uma vez a imagem incendiária], e, mais além, a névoa esgarçava-se, e uma triste réstia de luz brilhava numa espiral ondulante. O bairro sombrio do Soho distinguia-se sob esses reflexos incertos, com as suas ruas lamacentas, os seus transeuntes em desalinho, os candeeiros que não se apagaram ou haviam sido acesos outra vez para combater a fúnebre invasão das sombras, tudo isso aos olhos do advogado parecia como um bairro de uma cidade de pesadelo. Os seus pensamentos eram tenebrosos; e quando relanceava o olhar pelo companheiro de viagem [o inspetor de polícia] sentia um pouco daquele terror da justiça e dos seus magistrados que às vezes se apodera até das pessoas mais honestas.

         Quando a carruagem chegou ao local indicado, o nevoeiro dissipara-se um pouco, mostrando, numa ruela escura, um botequim; um modesto restaurante francês; um bazar de miudezas; muitas crianças esfarrapadas acotovelando-se nos portais; e mulheres de diversas nacionalidades que saíam de chave na mão, para beber o primeiro copo. Depois o nevoeiro desceu outra vez, cor de terra, frustrando-lhe a visão daquelas misérias à volta. Era aqui que residia o protegido de Henry Jekyll, o herdeiro de um quarto de milhão de libras.” [8] (num capítulo posterior, aquele em que Poole pede socorro a Utterson, e os dois saem pela noite londrina rumo à residência de Jekyll, lemos: “Era uma noite de março, tempestuosa e fria; a lua estava pálida e vencida, como se o vento a tivesse magoado… O vento dificultava a conversa…Parecia ter varrido as ruas, afugentando os transeuntes, a tal ponto que Utterson pensou que nunca tinha visto essa parte de Londres tão deserta. O advogado teria desejado o contrário: nunca na vida sentiu uma vontade tão grande de tocar, de estar perto dos seus semelhantes. Por mais esforços que fizesse para o impedir, no seu espírito pesava o pressentimento da catástrofe”)

Caberia perguntar, se o Sr. Utterson é detentor dos segredos das pessoas amigas e que também são clientes, e se Jekyll o sabe tão zeloso da reputação, por que não o escolheu para ajudá-lo quando se viu na difícil situação no Regent´s Park, preferindo o Dr. Lanyon, com o qual ficou às turras durante anos por não concordarem em pontos científicos, o Dr. Lanyon claramente desdenhando as posições de Jekyll nesse campo. Aliás, Lanyon é bem menos compassivo e mais ácido na sua avaliação do comportamento de Jekyll (…há uns dez anos Henry Jekyll se tornou misterioso para mim. Ele começou a trilhar por caminhos errados…”[9] , óbvio que ele se refere a questões de conhecimento, e não de moralidade) e não se interessa muito pela aparição de Hyde na sua vida. Portanto, não caberia ver no ato de pedir a sua ajuda um pouco do desespero acuado de Hyde, porém muito mais um ato desafiador, provocativo, visando esmagar sua prepotência e arrogância, a sua segurança científica? Hyde (como uma espécie de porta-voz) chega mesmo a dizer, antes da sua transformação (descrita em termos discretíssimos, sem a gula naturalista de um Zola), quando Lanyon admite que está curioso em ver o efeito da poção para poder enfim despachá-lo, agastado que está pela “prestação de inexplicáveis favores”: “Está bem, Lanyon. Mas não se esqueça de que o que vai acontecer é segredo profissional. E agora você que por tanto tempo ficou confinado na estreiteza das coisas materiais, que negou a virtude da medicina transcendental, que escarneceu de quem lhe é superior… abra os olhos e veja!” Para terminar, chamo a atenção de que essa pequena fala de Hyde (uma das poucas que lhe ouvimos no livro) dá a medida da contraditória isenção de Jekyll com relação a ele: pois quem fala aí? O baixinho meio disforme, juvenil e primitivo? Falando em “medicina transcendental”, acusando Lanyon de confinar-se na estreiteza das coisas materiais?  Acho que o médico aí está muito presente no seu monstro…


[1] Quanto às traduções correntes do texto,  tenho muitas, mas estou longe de esgotar todo o campo disponível. As que possuo me deixam com a seguinte conclusão: nenhuma é especialmente ruim, mas todas deixam a desejar em algo. As melhores são as de Heloisa Jahn (Ática), e de Pietro Nassetti(Martin Claret, por incrível que pareça),, minhas favoritas, além da de Rodrigo Lacerda (Nova Fronteira) a do trio José Paulo Golob, Maria Ângela Aguiar & Roberta Sartori (L&PM).a de Flávia Villas Boas (Paz & Terra), a de Adriana Lisboa (Ediouro). Há uma pretensa “adaptação” de Edla Van Steen que, na verdade, é uma tradução muito boa que efetuou pequeníssimos cortes (sempre  imperdoáveis) no texto (Scipione). Discutível, ironicamente, é a premiada: de Lígia Cademartori (FTD), que apresenta erros grosseiros e sérios problemas de revisão

Nota de 2012- O texto em português que utilizo é o de Cabral do Nascimento, fato que só descobri agora, pois  a Martin Claret atribuía a tradução que editava a Pietro Nassetti (como fez, aliás, em diversas ocasiões). É uma tradução excelente.

 

Aqui não estão listadas edições posteriores a 2008. Mas eis algumas capas:

[2] Há uma marcante ausência de interesse feminino (erótico ou amoroso) na trama. Os personagens são todos solteirões: Utterson, Jekyll, Hyde, Lanyon, Enfield. Alguns, entre eles Nabokov, até viram nisso um subtexto homoerótico, mas creio que é mais a representação de um tipo social (afinal, Holmes & Watson, apesar das diversas mulheres que aparecem em suas aventuras, também pertencem à ordem dos solteirões). Só nas jamais explicitadas atrocidades morais de Hyde é que poderíamos tentar fazer com mais afinco tal leitura, mesmo assim foi sábia a decisão de deixá-las por conta da nossa imaginação.

[3] Geralmente, as traduções procuram indicar o trocadilho explicitamente, sem procurar reinventá-lo. Heloisa Jahn optou por deixá-lo implícito na sua tradução: “Se ele quer brincar de esconde-esconde, não perde por esperar”. Fosse eu o tradutor, levaria a coisa ao extremo: “Se ele quer brincar de esconde-esconde, brincarei de pega-pega”.

[4] Note-se que ele não vê dilema em “sobreviver” como Hyde a Jekyll. E podemos traçar com relação à evolução do caso um paralelo com o vício em geral, até na necessidade crescente de uma maior quantidade da droga transformadora, pois as doses já não serão suficientes, não serão tão eficazes e o efeito será mais depressivo que eufórico.

[5] Portanto, a própria poção assimila a dubiedade e mistura das coisas, que deu origem à trama.

[6] No capítulo seguinte, comenta-se que ele sempre termina os domingos, após o jantar, “com algum árido volume de teologia, até que o relógio da igreja próxima batesse meia-noite, quando ia, consolada e prudentemente, para a cama”.

[7] Cujo teor ele considera até meio ultrajante para o seu senso jurídico, por ser inexplicável e gratuito: “Este documento, durante muito tempo, fora o pesadelo do advogado; ofendia-o não só como jurista, mas como pessoa sã e sensata, para quem tudo que fugia à tradição e normalidade era coisa indecente…Já era bastante mau que se tratasse de um nome a respeito do qual não podia saber mais nada; mas ficava ainda pior quando esse nome parecia revestido de execráveis atributos.” Portanto, algo que ele não pode explicar ou ajustar a suas normas.

[8] No final, o herdeiro desse quarto de milhão de libras acaba sendo o próprio Utterson. Vitória do superego vitoriano sobre seus elementos desagregadores e desordeiros.

[9] Mais adiante, ao ser solicitada sua ajuda, manuseando anotações e frascos de Jekyll, ele afirmará: “Tudo isto, que aguçava minha curiosidade, pouco me dizia de concreto: um frasco com alguma tintura qualquer, papelotes com sais, e anotações de uma série de experiências que não haviam chegado, como muitas das experiências de Jekyll, a qualquer resultado prático.” Daí que se pode inferir que, na visão de Lanyon, Jekyll é um fracassado, enquanto cientista, bem entendido.

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07/08/2011

“O Clube dos Suicidas”: um texto central para o imaginário da leitura

(o texto abaixo foi escrito em 2008, como parte do material de leitura para meus alunos do curso As margens derradeiras: textos do limite,  que abordava oito textos curtos e paradigmáticos do século XIX: O médico e o monstro, Bartleby, Memórias do Subsolo, A morte de Ivan Ilitch, O alienista, O mandarim, O coração das trevas & A volta do parafuso; em torno de cada um, analisei outros: William Wilson, O homem invisível, O duplo, O capote, A tumba dos ancestrais, O horla, O homem da areia, A vida privada, etc.

Publico esta parte do material em função do recente lançamento da CosacNaify, O clube do suicídio, que reúne vários textos de Robert Louis Stevenson, para mim um dos gênios da literatura).

Temos o fio vermelho do crime entremeando-se no novelo descolorido da vida e nossa obrigação é desentranhá-lo, isolá-lo, expondo-o em toa a sua extensão.”

(Arthur Conan Doyle, Um estudo em vermelho, 1887)

 “Seguiu-se uma batida forte e autoritária. Entre, disse Holmes. Entrou um homem que dificilmente teria menos de 1,97 m, com o peito e os braços de um Hércules. Suas roupas eram luxuosas, de um luxo que, na Inglaterra, seria visto como beirando o mau gosto… Segurava um chapéu de abas largas e trazia na parte superior do rosto, descendo até abaixo das maçãs, uma máscara negra; parecia ter acabado de ajustá-la, pois a mão ainda estava erguida quando entrou. A julgar pela parte inferior do rosto, era um homem de forte caráter (…) Antes que Vossa Majestade abrisse a boca eu já sabia que estava falando com Wilhelm Gottsreich Sigismond von Orstein, grão-duque de Cassel=Felstein e rei hereditário da Boêmia”.

(Arthur Conan Doyle, Um escândalo na Boêmia, 1891)

 “Labirinto, pura racionalidade destinada a conter o perigo. Sem o perigo (Minotauro, monstro andrógino, duplo e ambíguo), o labirinto seria o sublime ideal, construção sem destino.”

IAutran Dourado,Proposições sobre Labirinto, 1976)

. Antes de Conan Doyle criar seu Sherlock Holmes e fazê-lo percorrer os subúrbios e submundos londrinos, às vezes disfarçado, em 1882 Robert Louis Stevenson lançou The New Arabian Nights, As novas mil e uma noites. Desse grupo (infelizmente pequeno) de histórias, uma parte ficou mais famosa, O clube dos suicidas.

As novas mil e uma noites supostamente são narradas, umas encadeadas às outras, por um “erudito árabe, em dois blocos principais, o já referido O clube dos suicidas (dividido em três histórias, a do rapaz com as tortinhas de creme; a do médico e do baú de Saratoga; e a aventura do cabriolé) e O diamante do rajá (com quatro histórias, a da caixa da modista; a do jovem clérigo; a da casa das persianas verdes; e a aventura do príncipe Florizel e um detetive).

Começa assim: “Enquanto morou em Londres, o fabuloso príncipe Florizel, com seu jeito simpático e sua generosa sabedoria, conquistou o afeto de todas as classes sociais” 1. Exotismo: o príncipe de um país distante (a Boêmia); qualidades de herói: fabuloso, generoso e sábio; liberdade de movimentos: é rico. Estamos numa atmosfera de inverossimilhança e liberdade ficcional, também. E temos de aceitá-las para usufruir as tramas que começam com A história do rapaz com as tortas de creme.

O príncipe Florizel fica entediado quando não há nenhum peça engraçada nos teatros londrinos ou quando a estação do ano não lhe permite um dos esportes em que ele sempre vencia seus competidores, e então ele convoca seu homem de confiança, o coronel Geraldine para experiências na metrópole, convenientemente disfarçados, é evidente): ‘Longa experiência e variado conhecimento da vida deram a Geraldine uma habilidade única em matéria de disfarces; ele conseguia adaptar não apenas o rosto e a postura, mas a voz e quase que os pensamentos, aos de qualquer classe, caráter ou nacionalidade… e às vezes conseguia que os dois fossem admitidos em estranhas sociedades”. Como se vê, é um prenúncio do mundo de Holmes & Watson, e aliás, segue o padrão da dupla díspare: um, com alguma superioridade sobre o outro, seu seguidor e contraste. E não podemos esquecer a mobilidade social permitida por esses expedientes, como se fossem os Hydes de uma dupla de Jekylls.

Dessa forma os encontramos numa noite de março no Bar da Ostra ,nas proximidades de Leicester Square, bebericando conhaque com soda: “o príncipe já começara a bocejar e a cansar-se da excursão, quando a porta foi empurrada com força e um rapaz entrou no bar, seguido pó dois criados. Cada um carregava uma grande bandeja de tortinhas de creme. O rapaz oferece as tortinhas aos presentes. Quando alguém recusa, o rapaz mesmo engole o doce. Ele diz a Florizel que desde as 5 da tarde já comera 27 tortinhas. Florizal pergunta qual é o espírito que rege o oferecimento das tortas: O espírito, caro senhor, é de zombaria”. Como condição de aceitar o oferecimento, o príncipe o convida para jantar. Acompanhando o rapaz, eles visitam outros estabelecimentos. Quando faltam algumas ainda, o rapaz diz: “Cavalheiros, não terão de esperar mais. Embora minha saúde esteja abalada por antigos excessos, arriscando minha vida porei término à circunstância que nos serve de obstáculo” e engole as nove tortinhas restantes (e ele ainda pretende jantar!!??). Chama os criados e lhes dá algumas moedas de ouro: “E dispensou-os, com uma reverência a cada um[notem como Stevenson dá um ar de exotismo aos gestos e cerimoniais em plena Londres oitocentista]. Durante alguns segundos manteve os olhos fixos na bolsa de onde tirara o dinheiro… então, com uma risada, jogou-a no meio da rua e declarou estar pronto para o jantar”.

Num restaurante do Soho, Florizel e Geraldine captam a ansiedade sob a capa de alegria ruidosa. O príncipe se apresenta como Godall e Geraldine como o major Hammersmith: “Passamos a vida à procura de aventuras extravagantes, e não há extravagância com a qual não possamos nos sentir solidários”.

O rapaz conta sua história: dissipou sua fortuna 2 e chegou ao ponto de possuir menos de 400 libras: “Sinceramente, eu pergunto aos senhores: um homem que se respeita pode se apaixonar ou viver com quatrocentas libras?… acelerando o ritmo dos meus gastos, cheguei hoje de manhã às últimas oitenta libras. Essa quantia dividi em duas partes iguais: quarenta libras reservei para um propósito particular[esse propósito particular é que constituirá o centro da história]; as quarenta restantes eu devia gastar até a noite… e quando os senhores me viram jogar a bolsa na rua, as quarenta libras haviam terminado. Agora me conhecem tão bem quanto eu mesmo: um tolo, porém coerente em sua tolice”.

Para os seus interlocutores, a farsa burlesca das tortinhas começa a ter a aparência de uma tragédia disfarçada. E Geraldine lança uma isca: “Ora, não é estranho que nós três tenhamos nos encontrado por mero acaso, em uma cidade tão grande quanto Londres, estando os três na mesma situação”. Ou seja, apresentam-se como arruinados. Para provar sua situação e sua disposição às loucuras, Florizel joga um rolo de notas no fogo. O rapaz tenta impedir e lhe diz que deveria ter guardado quarenta libras: Sem elas, não se pode entrar. O regulamento é rígido… Vida amaldiçoada, onde um homem sem dinheiro não pode sequer morrer!” Ele ainda testa a “situação” do príncipe: “Terá o senhor chegado, depois de uma vida de prazeres, ao ponto em que só pode se permitir mais uma coisa?” Como ele ainda parece desconfiado, Geraldine insiste mais: Nós também, como o senhor, já nos cansamos da vida, e estamos decididos a morrer… Um trio sem vintém deveria entrar de braços dados no reino de Plutão e dar uns aos outros algum apoio entre as sombras!” O rapaz acaba dizendo: “Mal imaginam quão afortunado foi para os senhores o momento em que aceitaram minhas tortinhas de creme! Sou apenas uma unidade, mas uma unidade dentro de um exército. Conheço a porta da Morte; sou um dos íntimos, e posso introduzi-los sem cerimônia e sem escândalos. E explica que as quarenta libras são o preço da entrada para o Clube dos Suicidas: “sabemos que a vida é apenas um palco onde representamos o papel de bufões enquanto isso nos divertir. Faltava ao conforto moderno uma facilidade: uma maneira decente e fácil de sairmos do palco, a escada dos fundos para a liberdade. Vejam a futilidade e desfaçatez de classe embutido nesse discurso. É a frivolidade decadentista com a morte, ainda uma maneira de ser esnobe: “Para pessoas como eu, e para todos os que desejam fugir do laço sem escândalos póstumos, foi criado o Clube dos Suicidas… se estão realmente cansados da vida, posso levá-los a uma reunião esta noite”.

Apesar das reservas de Geraldine (De todas as nossas loucuras, esta é a mais desvairada e a mais perigosa”) quanto a essa aventura, o príncipe aceita o convite. Num beco escuro, após aguardarem um momento o rapaz entrar e conseguir a admissão deles, eles entram numa porta. Num pequeno aposento, eles esperam o presidente do Clube: “Uma janela alta dava para o rio; pela disposição das luzes da margem eles calcularam não estar muito longe da estação de Charing Cross. A mobília era parca, o estofamento gasto, não havia qualquer enfeite a não ser uma sineta no centro de uma mesa redonda e, pendurados em ganchos ao longo das paredes, chapéus e sobretudos de um número considerável de cavalheiros. Que espécie de espelunca é esta, perguntou Geraldine” [e aqui temos o gosto pelo submundo, que caracteriza parte da ficção vitoriana, esses lugares escusos escondidos nas vielas e becos da grande cidade, e que ficariam consagradas particularmente pelas histórias de Sherlock Holmes].

A princípio, o presidente do suposto Clube nega a sua existência e pedem que se retirem do local. O príncipe resolve bancar o durão: “Deixe-me lembrar-lhe que uma pessoa em minhas circunstâncias tem muito pouco a perder e não vou tolerar grosserias”. E assim abre o caminho para a admissão. Eles são entrevistados separadamente então. O presidente pergunta a Florizel qual a sua razão para estar “cansado da vida”: “Pura e simples preguiça [antes do decadentismo imperar, antes de Dorian Gray, que aparecerá só na outra década, antes mesmo de Às avessas, de J.K. Huysmans, Stevenson dá uma cacetada no espírito decadentista] e acrescenta: Não tenho mais dinheiro…isso também é um problema. Eleva minha tendência à preguiça a um ponto sem volta O presidente do Clube: “conheço o mundo o suficiente para saber que as mais frívolas razões para um suicídio são com freqüência as mais difíceis de suportar”.

Após as entrevistas, dando-se por satisfeito, o presidente apresenta-lhes um juramento a ser assinado: “ao homem que aceitava uma promessa tão horrível não devia restar sequer um farrapo de honra ou qualquer dos consolos da religião. São levados para um salão, onde há quinze outros membros, a maioria bebendo champanhe e fumando, num clima de “hilaridade febril”: “enquanto ia de uma pessoa a outra, Florizel mantinha os olhos e os ouvidos atentos, e logo começou a ter uma idéia geral do ambiente em que se encontrava. Como em todos os lugares de convívio social, um tipo predominava: rapazes na flor da juventude, com todos os sinais de inteligência e sensibilidade em sua aparência, porém com poucos indícios de força ou daquela qualidade que leva ao sucesso. Poucos tinham mais de 30 anos, e não poucos não tinham chegado aos 20… A cada nova garrafa de champanhe aberta, a jovialidade crescia visivelmente… Havia pouca decência entre os sócios do Clube. Alguns se vangloriavam de atos indignos, cujas conseqüências os tinham levado a procurar refúgio na morte; outros escutavam sem desaprovação”. É o típico agrupamento de classe alta inglês, meio homo, meio vago. E Stevenson usa o truque do olhar estrangeiro para uma crítica social precisa. A opinião mais engraçada é do rapaz que declara que “nunca teria entrado para o Clube se não tivesse sido induzido a acreditar no Sr. Darwin. Não consigo suportar a idéia de descender de um macaco, explicou esse notável suicida”. Há um homem que se destaca no grupo: um quarentão (mas parecendo ter dez anos a mais), uma verdadeira ruína: “nunca tinha visto um homem mais naturalmente hediondo, mais estragado por doenças e por emoções perniciosas. Imaginem-se as “emoções perniciosas”.

Os sentimentos de honra cavalheiresco do príncipe se revoltam com esse mundanismo dos que já pensam gozar das “imunidades do túmulo”: “Se um homem resolve matar-se, que o faça, em nome de Deus, como um cavalheiro. Este alvoroço e toda esta conversa são impróprios”. De sua parte, Geraldine está apreensivo com relação aos rituais do Clube. Por isso, o falso Hammersmith puxa conversa com o quase inválido quarentão, Sr. Malthus, que afirma freqüentar há dois anos “este Clube maravilhoso”. Geraldine fica aliviado. Se alguém freqüenta tanto tempo tal lugar, “pouco perigo haveria para o príncipe em uma única noite (se ele tivesse lido Breve história de Sonho, de Schnitzler, ele nunca pensaria assim: uma noite pode ser equivalente à odisséia de Ulisses). O Sr. Malthus se vangloria de ser uma espécie de “sócio honorário”. E elogia o presidente, que a Geraldine não impressionara nem um pouco: “Que histórias! Que cinismo! Tem uma enorme experiência da vida e, cá entre nós, é com certeza o bandido mais corrupto de toda a Cristandade!… Esse homem, meu caro Sr. Hammersmith, é de uma engenhosidade sem par. Há três anos vem desempenhando em Londres esse ofício tão útil e, acho que posso acrescentar, artístico[outra característica de época: o lado esteta do criminoso; aliás, sempre tive para mim, desde a primeira vez que li esse texto, que o presidente do Clube dos Suicidas inspirou os arquiinimigos sherloquianos, do tipo professor Moriarty, com sua rede subterrânea de crimes, à sombra da sociedade cumpridora do Dever do universo vitoriano]; jamais surgiu sequer uma sugestão de suspeito. Eu, por mim, acho que ele é inspirado. O senhor sem dúvida se recorda daquele famoso caso, há seis meses, do cavalheiro que foi envenenado acidentalmente dentro de uma farmácia? Que simplicidade, que segurança!”. O Sr. Malthus diz que experimentou “todas as libertinagens, sem exceção”,”colocando a mão no braço de Geraldine…e declaro que não há uma só que não tenha sido grosseira e mentirosamente superestimada… eu me recuso a dizer que o amor é uma paixão forte.O medo é a única paixão forte; é com o medo que deve brincar quem deseja experimentar a intensa alegria de viver”. E ele explica as regras do Clube: cada noite é sorteada uma vítima e um outro sócio, que será o instrumento, o “sumo-sacerdote da morte”: “Meu Deus, exclamou Geraldine, então eles se matam uns aos outros (note-se que, excluindo-se, com o termo “eles”, já que teria ingressado como membro, ele meio que se denuncia, mas Malthus está tão absorto no seu discurso que nem percebe), “Dessa maneira resolve-se o problema do suicídio.

Abrem-se as portas e todos se dirigem a outro aposento, Malthus pedindo o braço de Geraldine para ampará-lo até lá: Mesmo com a bengala e o braço de Geraldine, o Sr. Malthus caminhava com tanta dificuldade que todos já estavam sentados quando os dois, mais o príncipe, que esperara por eles, entraram no salão; em conseqüência, os três tomaram lugares juntos, no fim da mesa”. Nesse recinto, o presidente embaralha cartas e explica que o ás de espadas é o signo da morte e o ás de paus designa o agente da morte: “Geraldine pôs rapidamente o amigo a par de tudo que aprendera com o sócio honorário, e da horrível alternativa diante deles. O príncipe sentiu um frio mortal e uma contração no peito; engoliu com dificuldade e olhou de um lado para outro como um homem preso em um labirinto”.

Começa a distribuição das cartas: “À medida que se aproximava a vez do príncipe, ele se via tomado por uma excitação crescente, quase sufocante; mas tinha algo da natureza de um jogador, e reconheceu, com espanto, que havia certo prazer em suas sensações [Thânatos atrai tanto quanto Eros]. Recebeu o nove de paus, o três de espadas caiu para Geraldine, e a rainha de copas para Malthus, que não conseguiu reprimir um soluço de alívio. O rapaz das tortinhas de creme logo virou o ás de paus. Ficou paralisado de horror, a carta presa entre os dedos; não viera para matar, mas para ser morto[curiosamente, é o papel de agente da morte que configura a perversidade do Clube, como se a própria idéia de um Clube de suicídio, assim como devem existir sites e comunidades no Orkut desse tipo, não fosse perversa a priori].

O presidente inicia a segunda rodada, e a carta da Morte ainda não apareceu. Quando dá o ar da graça, o sorteado é Malthus: um ruído horrível, como de algo que se quebra, escapou-lhe da boca; pôs-se de pé e tornou a sentar-se, sem qualquer sinal de paralisia. Era o ás de espadas: o sócio honorário tinha brincado demais com seus terrores”. Mais tarde, ele permanecerá sentado ali, bêbado e imóvel, “como um objeto quebrado.

Retirando-se nossos heróis dali, Florizel comenta a maçada que é estar preso a um juramento (que fez ao entrar no Clube): Ter que permitir que esse comércio de assassinos continue a dar lucro impunemente! Se ao menos eu ousasse quebrar minha promessa” [note-se que o sentido de aventura amesquinha-se muito sob essa perspectiva; presos nas convenções, por uma ética que não deveria se aplicar à situação, nossos aventureiros padecem de uma impotência aviltante; são vítimas de uma armadilha, e caiu bem a imagem do homem “preso num labirinto”; o labirinto é a racionalização humana: sempre nos perdemos nos seus corredores, porque temos a tendência de pensarmos contra nós mesmos]. Geraldine replica que se é impossível ao príncipe, cuja honra é a honra da Boêmia, quebrar a hedionda promessa, ele ousa, e deve, quebrar a dele: “Geraldine, se sua honra for atingida em qualquer das aventuras a que eu o levo, não apenas nunca o perdoarei, mas também, e acho que isso vai sensibilizá-lo mais, nunca perdoarei a mim mesmo. Geraldine acata sua decisão. Antes de partir, Florizel anota bem o endereço do Clube.

No dia seguinte, lêem no jornal o “trágico acidente” que vitimou Bartholomew Malthus, que teve morte instantânea ao cair do parapeito superior de Trafalgar Square: Quase fico feliz em saber que ele está morto, disse Geraldine, mas confesso que meu coração chora pelo rapaz das tortinhas de creme”. O príncipe fica resolvido a acabar com o presidente, embora não saiba como isso deve ser feito. E recorda a “experiência” que foi o jogo de cartas. Geraldine pressente que ele pretende voltar ao Clube: Os deveres de sua alta posição proíbem a repetição de um risco como esse. E o príncipe faz uma curiosa confissão, que é do superego afrouxando em favor dos impulsos do id: “Não estou inteiramente satisfeito com minha decisão. Sob as roupagens do maior dos potentados, o que existe, senão apenas um homem? Nunca senti minha fraqueza tão agudamente quanto agora, Geraldine,mas ela é mais forte que eu[vejam que genial: a fraqueza é mais forte que ele]… Posso deixar que o presidente siga sem empecilhos sua carreira funesta? Posso começar um aventura tão fascinante e não segui-la até o fim [aqui se entremeiam a exigência ética, deter o presidente, e o capricho, seguir até o fim a fascinante aventura; superego e id tentando um balanceamento]? Não, Geraldine, você está pedindo ao príncipe mais do que o homem é capaz de fazer”.

E pela segunda noite consecutiva eles freqüentam o Clube dos Suicidas, desta vez com menos gente, só meia dúzia de rapazes (entre os presentes, um deprimido rapaz das tortinhas de creme, ou de crime, do qual ele se arrependeu ao que parece, pelo que conta à nossa dupla amiga). O presidente comenta a morte de Malthus com o príncipe, que o cumprimentara pelo sucesso: “O Clube vai ficar irreconhecível sem ele. A maior parte dos sócios é de jovens, senhor; jovens poetas, ainda por cima, que não são grande companhia para mim. Não que Malthy não tivesse sua poesia também, mas do tipo que eu conseguia entender. Posso muito bem imaginar que o senhor simpatizasse com o Sr. Malthus, replicou o príncipe, ele me pareceu um homem muito original”.

Dali a pouco começa nova distribuição de cartas: “Quando o príncipe Florizel viu seu destino sobre a mesa à sua frente, o coração imobilizou-se. Era um homem corajoso, mas o suor começou a pingar de seu rosto: havia exatamente cinqüenta chances em cem de que estivesse condenado. Virou a carta: era o ás de espadas. Um tumulto tomou conta de seu cérebro, e a mesa dançou ante seus olhos… Reconheceu que seu comportamento tinha sido tolo, criminoso: em perfeita saúde, na flor dos anos, herdeiro de um trono, ele arriscara seu futuro e o de um país corajoso e leal”(é interessante ele lembrar-se de seu país “corajoso e leal” quando vive e se aventura em Londres, bem longe dele). Preso à honra, ao superego, ele, que se deixou embaraçar pelo id, sente-se condenado, sem saída. O rapaz das tortinhas de creme cumprimenta-o (ele é o único, além do presidente, e do “agente” da morte que restou no salão; Geraldine escafedeu-se): “Eu daria um milhão, se o tivesse, pela sua sorte. Enquanto o rapaz se afastava, Sua Alteza não pôde deixar de refletir que teria vendido a oportunidade por uma quantia menor”. Ele pergunta quais são as instruções ao presidente: O senhor seguirá pelo Strand na direção do centro da cidade, pela calçada do lado esquerdo, até encontrar o cavalheiro que acabou de sair daqui. Ele dará prosseguimento às instruções, e faça o favor de obedecer; por esta noite ele está investido da autoridade do Clube”.

Florizel se despede e sai, tentando se encorajar. Numa esquina próxima, três homens caem sobre ele e jogam-no dentro de uma carruagem, onde está Geraldine: “Embora estivesse disposto a enfrentar a morte, ficou felicíssimo em ceder à amistosa violência e voltar mais uma vez à vida e à esperança” (mas eu me pergunto: essa ação de Geraldine resolve o problema da honra, da maneira como os personagens o colocam para si? Não é uma fuga, uma quebra do juramento?).

Geraldine explica: “Esta tarde procurei um detetive, a quem pedi e paguei sigilo absoluto. A Vasa estava cercada desde o anoitecer…”. O “agente” da morte foi capturado na saída também e está esperando a sentença do príncipe no palácio, assim como os cúmplices. Quer dizer, então, que se exerce um poder paralelo na grande metrópole? O príncipe pode executar sua justiça pessoal, tem todos os meios à disposição (como os Treze de Balzac); mas não vemos sempre no universo da aventura essa “justiça paralela”?: Vossa Alteza tem no momento um grupo considerável de prisioneiros. Há entre eles pelo menos um criminoso a quem deveria ser feita justiça. Nosso juramento nos proíbe de recorrer à lei; e a discrição nos imporia a mesma proibição, se o juramento fosse anulado. Florizel decide que o presidente deve morrer em duelo e Geraldine sugere seu próprio irmão como adversário.

O clímax da história é a reunião de Florizel, já em roupagem oficial e ostentando as insígnias da Boêmia, com os sócios do Clube dos Suicidas capturados, aos quais passa um sermão (a cena me parece um daqueles finais das comédias de Shakespeare), e depois diz: “Amanhã ouvirei suas histórias; quanto mais franqueza usarem, melhor poderei remediar sua infelicidade. Quanto ao presidente, ele propõe o seguinte, colocando a mão no ombro do irmão do coronel Geraldine: “Eis aqui um jovem oficial que deseja fazer uma viagem pela Europa; peço ao senhor o favor de acompanhá-lo nessa excursão. O senhor atira bem com a pistola? Porque pode precisar disso; quando dois homens viajam juntos, é melhor estar preparado para tudo. Deixe-me acrescentar que se por acaso o Sr. Geraldine perder-se no caminho, terei sempre outro oficial para colocar à sua disposição; e sou conhecido, senhor presidente, como uma pessoa de visão longa e braço igualmente longo” (não sei se isso é muito tranqüilizador, essas conexões do poder absoluto).

O texto termina assim: “Aqui (diz meu escritor árabe) termina A história do rapaz com as tortinhas de creme, que agora é um feliz morador de Wigmore Street, na Cavendish Square. Por motivos óbvios o número da casa não será revelado aqui. Aquele que desejarem acompanhar as aventuras do príncipe Florizel e do presidente do Clube dos Suicidas podem ler A história do médico e do baú de Saratoga…”

Esse flerte com a morte: uma pessoa que tem tudo, todos os privilégios da sociedade ocidental, todo o bem-estar e consideração do mundo, arriscando-se a perder tudo. Por quê? Porque, como nos ensinou nosso bom amigo do subterrâneo dostoievskiano, ‘”derramai sobre ele todos os bens do mundo, mergulhai-o de cabeça na felicidade… satisfazei suas necessidades econômicas a tal ponto que ele nada mais tenha que fazer senão dormir, comer pão-de-ló e cuidar da continuidade da história universal, pois bem, mesmo nesse caso o homem por pura ingratidão, pela necessidade de se sujar, cometerá à guisa de agradecimento, uma torpeza qualquer. Correrá até o risco de perder seu pão-de-ló e procurará deliberadamente as bobagens mais arriscadas, os absurdos mais desvantajosos, apenas para misturar a esse bom senso tão positivo seu pernicioso elemento fantástico” 3.Há uns 2.800 anos, no épico de Homero, Ulisses perdia-se na volta ao lar. Em Breve romance de sonho (1926), o protagonista (não por acaso um médico) tem algumas inesperadas e perigosas aventuras noturnas. Ao cabo da noite, Fridolin sabia agora por que, em vez de conduzi-lo para casa, seus passos seguiam levando-o sempre e involuntariamente na direção contrária”. O mundo do Desejo não conhece lar nem estabilidade.

 

1 Há uma tradução completa das Novas mil e uma noites pela editora Três (só que de 1974); a Rocco publicou em 1985-86 uma série de textos maravilhosos na Coleção Novelas Imortais: um deles foi O clube dos suicidas (outros títulos da série: Sylvie, de Gérard de Nerval; O Homem da Areia, de E.T.A.Hoffmann; Bartleby,de Melville; A fera na selva, de Henry James; O monge negro, de Tchekhov; Um coração singelo, de Flaubert), traduzido por Eliana Sabino.

2 Ele fala do seu “temperamento estouvado”, clássico exemplo de falta de controle do superego: “meu maior divertimento tem sido satisfazê-lo”. Sua educação: “Toco violino quase suficientemente bem para ganhar dinheiro na orquestra de um teatro barato… Aprendi o suficiente de uíste para perder umas cem libras por ano nesse jogo científico. Meu conhecimento do francês foi suficiente para me permitir gastar dinheiro em Paris com quase a mesma facilidade com que gasto em Londres etc.

3 No final das Novas mil e uma noites, após a Aventura do príncipe Florizel e o detetive, lê-se: “Quanto ao príncipe, essa sublime pessoa, uma vez cumprida agora a sua missão, possa ele ir, juntamente com o autor dos mil e uma noites, torvelinhar pelo espaço afora. Mas, se o leitor insiste em obter dados mais específicos, apraz-me informar que uma recente revolução derrubou-o do trono da Boêmia, em conseqüência de suas contínuas ausências e edificante incúria dos negócios públicos e que Sua Alteza atualmente é proprietário de uma tabacaria na Rupert Street, muito freqüentada por refugiados estrangeiros. Vez por outra lá compareço, para fumar e conversar, e vejo que ainda é tão esplêndida criatura como nos seu dias de prosperidade, com o seu ar olímpico por trás do balcão. E embora a vida sedentária comece a evidenciar-se na projeção do colete, sem dúvida ele é, considerando-o em conjunto, o mais belo cigarreiro de Londres”. Ou seja, o avatar do príncipe dos disfarces é o comerciante próspero, burguês, com uma barriguinha começando a ficar saliente. Sinal dos tempos.

O MESTRE DE EDIMBURGO

SOBRE ALGUMAS RELEITURAS E TRADUÇÕES DE STEVENSON

O belo (apesar de alguns pecadilhos) O segredo de Mary Reilly, de Stephen Frears, realizado quase que com a mesma equipe (o roteirista Christopher Hampton, o fotógrafo Philippe Rousselot, o músico George Fenton, John Malkovitch e Glenn Close no elenco) de Ligações perigosas, revisita um dos maiores clássicos do século XIX, conhecido no Brasil como O médico e o monstro.

O livro de Robert Louis Stevenson tem pelo menos três traduções recentes e acessíveis (a melhor edição foi há alguns anos, pela Nova Fronteira, com tradução de Rodrigo Lacerda, que não comentarei aqui): a de Lígia Cademartori (pela FTD), a de Helóisa Jahn (pela Ática) e a de Edla van Steen (pela Scipione).

Mary Reilly não aparece no livro original (o filme de Frears tem como base um romance de Valerie Martin). Quem assistiu ao filme (no qual ela é interpretada por uma Julia Roberts com cara e fragilidade da Mia Farrow de O bebê de Rosemary) sabe como é uma personagem impressionante. Na narrativa de Stevenson (publicada em 1886), quem vai desvendando a história para o leitor, aos pedaços, é outro personagem admirável, o severo Mr. Utterson, advogado do doutor Jekyll. Ele fica intrigado e constrito com a ascendência do rude e marginal Hyde sobre seu cliente e amigo, o qual vai se tornando cada vez mais arisco e misantropo, trancafiado em seu laboratório.

Através de informações diversas, de cartas, de testamentos e confissões (pois a breve narrativa é bem complexa), Utterson descobre que Jekyll e Hyde na verdade são a mesma pessoa e que Hyde aos poucos vai preponderando sobre a personalidade de Jekyll, além de cometer crimes mais e mais perversos.

O romance de Stevenson é genial. Em primeiro lugar, por ter antecipado Freud e a psicanálise ao demonstrar que todos nós temos uma porção irracional que só quer satisfazer seus desejos, não conhecendo nenhuma amarra moral (a não ser o medo da autoridade= prisão, punição), e que essa porção convive com o nosso verniz civilizado. Em segundo lugar, pela maneira como vai oferecendo os fatos ao leitor, de uma forma tão fragmentada quanto a própria personalidade de Jekyll. Esse, aliás, sempre foi o problema das adaptações cinematográficas (e nem a versão de Frears escapou nesse quesito), as quais sempre pecaram por estragar esse requinte de construção narrativa, preocupadas em mostrar a transformação de Jekyll em Hyde.

O mérito de Mary Reilly é fazer o leitor conhecer a história por dentro, através do olhos da seduzida Mary Reilly, num grande exercício de sutileza. Vista pelos olhos de Utterson, a história da dissociação de Jekyll em Hyde podia chocar a época vitoriana, como se fosse uma monstruosidade que surgisse numa sociedade sadia e estável, bem representada por um advogado cheio de valores éticos e apegado às formalidades legais. Vista pelos olhos de Mary, que desde criança conhece o mal que sustenta a própria sociedade, por sua condição servil, não é à toa que a monstruosidade latente em Jekyll e encarnada por Hyde hipnotize a melancólica criada: ela já conhece o avesso de uma sociedade tão obcecada pela moral aparente, pelo senso de dever, mas completamente carcomida pela miséria e pela hipocrisia.

Quanto às traduções, a de Liga Cademartori, embora premiada, peca por detalhes (colocar colégio em lugar de universidade; farol, absurdamente, no lugar de lampião de postigo) e por trechos incompreensíveis. Na cena em que Hyde pisoteia uma menina, as outras duas tradutoras consultadas para esta resenha, colocaram o seguinte: “Segundo o doutor não havia nada de grave com a criança, era principalmente susto” (Heloisa Jahn); [a menina] que tinha ficado mais assustada do que machucada—assegurou o médico” (Edla van Steen). Cademartori coloca: “A criança não era a mais assustada, de acordo com o médico”. Erro de revisão ou de interpretação do trecho?

Também insólito, por outras razões, é o trabalho de Edla Van Steen, que faz parte da bem sucedida série “Reencontro”, que apresenta para o leitor escolar condensações de obras clássicas. Acontece que, a não ser por pequenos trechos, van Steen praticamente mantém intacto o texto de Stevenson. Por que colocar, então, como condensação e por que esses cortes tão insignificantes, mas imperdoáveis, já que desnecessários? e já que ela apresenta um resultado tão bom?

Talvez, feitas as contas, a mais correta seja a de Heloísa Jahn, apesar da horrível edição da Árica (por que eles acham que seu público-alvo gosta de feiúra, de ilustrações chinfrins?).

De todo modo, seja pelo olhar de Mr. Utterson, seja pelo olhar dilacerado e dilacerante de Mary Reilly, o estranho caso do dr. Jekyll e do sr. Hyde é um clássico obrigatório.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 20 de agosto de 1996)

FREUD EXPLICA

    Com seu gosto pelo umheimlich (o sinistro, o estranho), que estudou no grande escritor alemão E.T.A. Hoffmann (O Homem da Areia), Freud com certeza apreciaria O médico e o monstro, enfim reconduzido no Brasil ao seu titulo correto, O estranho caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde, em sua nova versão (na verdade, uma tradução fraca de Fábio Cyrino para a discutível editora LandMark

Esta novela (publicada em 1886) é um dos meus textos prediletos. Eu o colocaria em qualquer lista dos dez melhores do século XIX. Aliás, é preciso enfatizar o gênio de Robert Louis Stevenson (1850-1894), autor de obras-primas como O clube dos suicidas e O morgado de Ballantrae (e por que não A ilha do tesouro?).

Todo mundo sabe atualmente que o Sr. Hyde é o Dr. Jekyll. Quem vai desvendando a história para o leitor, aos pedaços, é o severo e admirável Mr. Utterson, advogado do cientista, o qual fica intrigado e escandalizado com a ascendência do rude e marginal Hyde sobre seu cliente e amigo, agora recluso e insociável. Através de informações diversas, de cartas, de testamentos e confissões, Utterson acompanha um processo em que a porção Hyde prepondera cada vez mais e comete crimes mais e mais perversos, embora acabe revelando um ser desamparado, infantil e patético no final, acuado no laboratório do Jekyll.

Hyde representa o que Freud caracterizou como “retorno do reprimido”, a manifestação dos impulsos inconscientes na consciência que até o século retrasado parecia soberana de nossa mente e da nossa personalidade, tida como unívoca. Stevenson intuiu essa ilusão tão precisamente que até a maneira como os fatos vão se oferecendo ao leitor refletem a fragmentação da identidade do protagonista, abalando os alicerces morais e éticos do vitoriano Utterson: “agora sua imaginação também estava envolvida, ou melhor, escravizada… a figura nessas fantasias assombrou o advogado a noite toda; e se chegava a adormecer, ela surgia rapidamente, movendo-se de um modo furtivo… ou rapidamente, muito rápido, a ponto de rodopiar, através dos vastos labirintos da cidade, a cada esquina pisoteando uma criança e deixando-a a gritar. E ainda que a figura não tivesse rosto pelo qual pudesse ser reconhecido, pois mesmo em seus sonhos ele não adquirira um fisionomia, ou quando o possuía era embaçado e se evaporava diante de seus olhos; e assim era que se espalhava e crescia na mente do advogado, com uma força singular, uma curiosidade quase exagerada de contemplar as feições do verdadeiro Senhor Hyde”.

Esse desejo de Utterson de confrontar o “vilão” que oprime seu amigo é muito natural. Utterson representa as forças da ordem, da razão, da repressão (o princípio da realidade). Hyde representa o irracional, o princípio do prazer assumido sem amarras morais ou considerações éticas, e deveria ficar mesmo “hyde” (escondido), não aflorar pelas ruas da maior metrópole do mundo, o coração da civilização.

(resenha publicada em 6 de dezembro de 2008)

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