MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

08/04/2011

O RETRATO DESFIGURADO

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 05 de abril de 2011)

“A alma nasce velha, mas rejuvenesce. Esta é a comédia da vida. O corpo nasce jovem e envelhece. Esta é a tragédia da vida.”

Pela capa, a recente edição da Landmark para O retrato de Dorian Gray parece querer atrair os jovens que se deleitaram com a saga Crepúsculo, essa renovação adolescente das histórias de maldição eterna (mas também de uma mocidade que perdura indefinidamente), com vampiros lânguidos, capitaneada pela tribo dos “emos”[1], assim como a versão cinematográfica de Oliver Parker (e também se deve levar em conta a “zona de conforto” de adaptações de clássicos, típica do cinema inglês).

No entanto, o que distinguiria mesmo essa nova tradução, feita por Marcella Furtado, de um dos romances mais populares do século XIX é que, ao contrário das diversas já feitas por aqui (das quais a mais célebre é a do “wildeano”  João do Rio), aproveitou-se não o texto em livro de 1891, mas o original publicado um ano antes em revista, a Lippincott´s Monthly Magazine [2]: trata-se de uma versão mais crua, pois ao rever sua criação, Oscar Wilde (então no auge da popularidade, à qual se seguirá a desonra e a prisão) acrescentou sete capítulos, passando de 13 para 20, introduziu personagens e sub-tramas (a jovem atriz destruída pela crueldade de Dorian e levada ao suicídio, Sybil Vane, ganhou uma mãe e um irmão que busca vingança, e enfatizou-se mais a vida mundana do protagonista e do seu “Mefistófeles”, isto é, daquele que o faz cair na tentação de querer prolongar sua aparência jovem, fazendo um pacto sabe-se lá com quais potências, Lord Henry—no filme interpretado pelo ganhador do Oscar deste ano, Colin Firth—, com cenas que parecem tiradas do notável teatro de Wilde), além de atenuar um pouco o homoerotismo, embora —a meu ver— só alguém muito ingênuo não consiga percebê-lo. O fato é que, nessa versão original, Basil Hallward (o pintor do quadro que envelhece e denuncia a deterioração moral do sempre jovem Dorian) declara inequivocamente sua paixão pelo seu modelo. Além disso, fica implícito porque alguns cavalheiros recusam-se a cumprimentar Dorian ou têm reações violentas ao ser mencionado o seu nome, após ele ganhar uma “reputação”.

Na versão mais comprida, Wilde enriqueceu a ação e a textura das experiências de Dorian, ao seguir o credo (mas apresentando-o de forma moralista e crítica) de um de seus ídolos intelectuais, Walter Pater, de que devemos cultivar ao máximo cada momento[3]. Na versão da revista, tudo se torna mais essencial e a fábula vai direto na jugular.

Portanto, seria um tento da Landmark (uma editora que no saldo geral deixa a desejar, mas publicou ótimas traduções de A volta do parafuso e da Divina Comédia) se a editora não sabotasse o próprio projeto com a certamente pior tradução que o texto já recebeu por aqui, e cujas medonhas e bizarras soluções são pioradas pelos incontáveis erros de revisão.

Há de tudo: trechos errados (“Indeed, I should be sorry to look like him” vira “Na verdade, eu deveria lamentar por não me parecer com ele”[4]); escolhas assustadoras (“To realize one´s nature perfectly—that is what each of us is here for” vira “Entender a natureza de alguém perfeitamente—eis o porquê de estarmos aqui”[5]), tempos verbais absurdos no contexto (“That is the reason, I suppose, that you will never dine with me now” vira “Esta é a razão, suponho, pela qual você nunca jantará comigo), trechos truncados e quase  incompreensíveis pela falta de um referente gramatical (“They neither bring ruin upon others no rever receive it from alien hands” vira Nunca arruínam os outros nem a recebem de mãos alheias”—esse “a” é referente a quê?); erros de sintaxe e concordância (“Ele não deveria ser permitido saber”; “Há poucos de nós quem, às vezes, não acordamos antes da aurora”;”Nos místicos ofícios às quais  estes objetos eram usados”; “O retrato ainda estava lá. E se ela fosse roubada?” e por aí vai); e até erros de informação nas notas (o Manon Lescaut a que ele se refere não é a ópera de Puccini, que estreou anos depois de Dorian Gray ser publicado, e sim o fabuloso romance do Abade Prévost, de 1731).

Enfim, perdeu-se uma ótima oportunidade de introduzir leitores neófitos  no universo do grande escritor irlandês e na excelência do seu estilo, atraindo-os para a alta literatura, para além de Stephenie Meyer. É um retrato de Dorian Gray desfigurado e hediondo. E as vítimas somos nós.

VER TAMBÉM

https://armonte.wordpress.com/2011/03/30/mr-hyde-emoldurado/

https://armonte.wordpress.com/2011/04/12/o-livro-de-cabeceira-de-dorian-gray/

dorian_gray_CAPAat.pdf


NOTAS

[1] O mesmo tipo de apelo acontece também com as últimas edições de O morro dos ventos uivantes.

[2] Há um problema aqui: na sua extraordinária biografia de Oscar Wilde (publicada no Brasil pela Companhia das Letras em 1988, um ano após a morte do autor), Richard Ellmann  nos conta que na primeira versão (a da revista), o capítulo X começava assim: “Era 7 de outubro, véspera do seu trigésimo segundo aniversário”, e na versão em livro, por sua vez (e já não como capítulo X) começava assim: “Era 9 de novembro, véspera de seu trigésimo oitavo aniversário”. Na tradução de Marcella Furtado lemos: “Era 7 de novembro, a véspera de seu trigésimo segundo aniversário”. De onde apareceu essa data, já que é improvável que Ellmann tenha errado?

Diga-se de passagem, era pouco crível que Ellmann escrevesse outra obra-prima biográfica, como a que fez de James Joyce (1959; publicada no Brasil pela Ed.Globo), que, a seu modo, é páreo para Ulisses , uma coisa avassaladora, que nos leva para junto dos “trabalhos e dias” de Joyce como se o conhecêssemos intimamente. Para mim, é a maior biografia já escrita, e um espelho apaixonante para a leitura dos livros de Joyce. E o danado do homem ainda repetiu o feito! Ellmann não se limita a nos dar fatos e fatos da vida do autor de Dorian Gray. Ele, por exemplo, analisa as imagens que aparecem nos seus (medíocres) poemas da juventude, mostrando o peso da influência dos gregos nos seus versos. Isso sim é o que se deve fazer na biografia de um autor, e não nos informar o que ele fazia no dia 3 de maio de 1887.

Graças a ele, temos uma quase-antologia da produção do autor de Salomé, um Portable Wilde.

[3] Ele coloca na boca de Lord Henry palavras do próprio Pater:  Henry instiga Dorian a buscar “não o fruto da experiência, mas a própria experiência”. É fascinante ver como muito do livro permanece atual, ou ficou mais atual ainda: essa confusão entre viver o momento e experimentar de “tudo” com manter a juventude, no sentido de aparência física e não de jovialidade e disposição. Nossa sociedade adolescentizada e cada vez mais recauchutada, botoxzada mostra como a fábula de Dorian mantém-se em voga.

[4] Ou ainda: “You never say a moral thing, and you never do a wrong thing…”

“Você nunca diz nada sobre a moral e nunca faz nada de errado…”

[5] “It is better not to be different from one´s fellow…” ficou espantosamente assim em português: “È melhor não ser diferente dos amigos de alguém…” Mas acho que a pior de todas as utilizações desse obsessivo “de alguém” é a da passagem seguinte, uma das mais famosas do livro:

“One´s own soul, and the passions of one´s friends,—those were the fascinating things in life…”

“A própria alma de alguém e a paixão dos amigos de alguém—estas eram as coisas fascinantes na vida…”

O termo “yet” é invariavelmente traduzido como “ainda”, independentemente de ficar absurdo em vários trechos: “That such a change should have taken place was incredible to him. And yet it was a fact”: “Que tal mudança tenha ocorrido lhe era inacreditável. E, ainda, era um fato”. Acho que ela nunca ouviu falar das expressões “ainda assim” “mesmo assim” “apesar disso”.

E os trechos horrorosos do tipo: “Could it be that what that soul thought, they realized?—that what at dreamed, they made true?”: “Poderia ser o quê (sic)aquela alma pensasse, eles realizavam? Que o que fosse sonhado, eles faziam acontecer?”

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