MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

27/06/2017

O QUE TEMER DE CUNHA

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 27 de junho de 2017)

Parece que já temos o livro do ano, infelizmente, a batalha judicial para liberar DIÁRIO DA CADEIA COM TRECHOS NA OBRE INÉDITA IMPEACHNENT: EDUARDO CUNHA (PSEUDÔNIMO), acabou revelando a verdadeira autoria, Ricardo Lísias.

No romance, Cunha está escrevendo “impeachment” onde revela que seu mentor político foi Paulo César Farias, que lhe ensinou a receita da propina: “É verdade, mas eu sempre fui assim, respondi. Sempre gostei muito de trabalhar e fazer arquivos com informações é uma das partes que mais me dão prazer no meu trabalho. Se eu parar de fazer isso aqui, aí é que perco o meu equilíbrio mesmo. Já não tenho a igreja para ir, com exceção das redes sociais, ninguém está respondendo as minhas comunicações.
Nem meus trusts estão ao meu alcance”. Ou seja, o Cunha que conhecemos: chantagista, cabotino, jactancioso.

Há momentos impagáveis (citações bíblicas, uma surra no jornalista Mário Sérgio Conti, palavrões, situações que o leitor de Lísias conhece bem, tiração de sarro do nosso presidente poeta: “Agora, boa noite aos leitores/Nessa vida a gente se afeta/E as coisas nos trazem dores/E então o político vira poeta//Eu pelo menos vou à luta/Já você, Temer, o presidente/É um bom filho da puta/E agora sempre desmente//Mas fizemos muitas reuniões/Para conseguir bastante verba/E você sabia bem as condições/Por fim: sua poesia é uma merda”).

Em contrapartida há uma dimensão patética: o todo poderoso, o ardiloso, começa a sentir o progressivo ostracismo, “nenhum bilhete respondido”, o que Cunha fará? Pois ele vai se tornando um personagem lisianico, perdido entre a linguagem e o caos.

“Michel Temer – Seus limites

  1. Conhecimento de política brasileira – notável
  2. Conhecimento de economia e finanças – notável
  3. Conhecimento de relações interpessoais na política – péssimo
  4. Conhecimento de alma humano – catastrófico
  5. Humildade – inexistente
  6. Conhecimento da palavra de Deus – inexistente
  7. Bondade de capacidade de perdoar – inexistente
  8. Respeito aos valores cristãos – nulo”.

 

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01/11/2016

Destaque do Blog: A VISTA PARTICULAR de Ricardo Lísias

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em primeiro de novembro de 2016).

José de Arariboia é um artista plástico que está conseguindo certo renome, um pouco pela já veterana galerista Donatella (cujo pai fez fortuna com o mercado de obras de aquisição duvidosa, após o final da Segunda Guerra, auxiliado por uma rede de fascistas e nazistas, radicados no Brasil).

Só que Arariboia é um personagem de Ricardo Lísias, cada vez mais se torna “distraído” com relação à realidade sua volta. Essa distração o leva a subir o morro da favela Pavão-Pavãozinho. Não se sabe o que acontece com ele ali. Reaparece numa espécie de procissão mística até o mar de Copacabana. Os vídeos do acontecimento “bombom” no YouTube – curiosamente, foram gravados e editados pelo traficante do morro, Biribó.  Depois de um tempo de recolhimento, Arariboia procura Biribó para propor um projeto: partes da favela transformar-se-ão em “instalações”.

A partir daí A VISTA PARTICULAR (Alfaguara) vai dando pancadas e mais pancadas na complacência do leitor. Durante as Olimpíadas, a “instalação” de Arariboia é transferida para perto do evento esportivo, com partes denominadas “boca de fumo” e “mãe com filho bandido e outro na escola”, por exemplo. O menino é assassinado com uma bala perdida pela polícia e o cadáver incorporado como elemento estético. O projeto da Arariboia vai adquirindo tal dimensão na mídia e nas redes sociais, que a comunidade inteira do Pavão-Pavãozinho acaba sendo levado em exposição na Europa, antes passando por Minas Gerais: “O transporte de Comunidade brava: turismo Brasil formou uma fila imensa de ônibus na rodovia que liga os estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais. A televisão acompanhou tudo de cima, imagem que aliás foi aproveitada por mais um vídeo do Biribó. É com alegria que no primeiro ônibus do cortejo ele conta para o Pê que uma produtora europeia de cinema e vídeo o procurou interessada em levas suas filmagens para o cinema. Isso de internet é muito bom, entusiasmou-se, as uma hora temos que dar um salto.
A montagem do morro foi mais tranquila. Arariba tinha deixado à disposição uma série de materiais, já com as instruções do lugar de tudo. Não era preciso. Com a experiência, os moradores sabiam perfeitamente erguer os barracos, lembravam-se dos lugares onde deveriam ficar a vendinha, a boca de fumo, a igreja evangélica e a biblioteca comunitária. De qualquer forma, não é preciso deixar tudo igual. A arte contemporânea tomou para si, com grande criatividade, o aspecto efêmero das coisas humanas. Haverá alguma pulsão de morte na obra de Zé Arariba?, um crítico se pergunta em um longo artigo de jornal. Esse, por razões que não vêm ao caso, nosso artista leu e ficou abalado. Afinal de contas, estou sempre despedaçando alguma coisa. Às vezes fico pensando se vale mesmo a pena”.

Poucas vezes, o uso da miséria e exclusão social, transformadas em espetáculo (lembram da abertura das Olimpíadas?), a naturalização e estetização da violência, foram tratados de forma tão ácida na ficção brasileira. Ricardo Lísias volta à exuberância narrativa de sua obra-prima O LIVRO DOS MANDARINS, inclusive com a utilização de recursos que lhe são caros, como a redução do nome do personagem ao longo do romance (Arariboia, Arariba, Arara), o relato em espiral e a completa alienação do protagonista: a favela “ganha um mundo”, saindo do controle de Biribó, e Arariboia se desliga totalmente do projeto. Ironicamente, um artista que era considerado um pintor do universo carioca, anuncia um projeto com título #partiuBrasil.

Lísias nunca foi tão conciso e eloquente. Até a interferência do narrador no relato mostra, no final das contas, que tudo é uma representação multiplicada ao infinito da suposta realidade, tudo é simulacro, e às vezes oportunistas. A VISTA PARTICULAR, não poupa ninguém. Faca só lâmina.

 

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06/04/2015

FISIOLOGIA DO TALENTO: “Concentração e Outros Contos”, de Ricardo Lísias

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 07 de abril de 2015)

«…senti uma sensação horrível de derrota. É um fracasso que se manifesta no corpo… Com a literatura, já sei que não vou conseguir dizer o que eu quero da maneira que acho a ideal. Então, terei que fazer repetições. Apesar de conseguir, com isso, uma espécie de alívio contínuo para o mal-estar que sinto, por outro lado a certeza da incompletude da escrita também me angustia».

O trecho acima, de Fisiologia da Dor, um dos 15 textos de Concentração e Outros Contos, no qual Ricardo Lísias, prestes a completar 40 anos, reuniu parte da sua produção no gênero desde 2001, espelha o dilema do resenhista que tenta, em sumários traços, delinear para o seu leitor o universo denso e único daquele que é o mais brilhante escritor da sua geração.

Curiosamente ele publicara até agora apenas outra coletânea, Anna O. e Outras Novelas (2007)[1]. Dela, temos quatro textos: o conto-título (onde um psiquiatra é encarregado do laudo sobre as condições mentais do General Pinochet), Capuz, Dos Nervos e Diário de Viagem, todos narrando situações em que mantras reiterativos da linguagem dos protagonistas, a fixação de “metas” e projetos, a criação de padrões, procuram represar a crescente desagregação, quando não o colapso total (inclusive da própria linguagem)[2].

Mais recentemente, Lísias enveredou pelo caminho da “autoficção”, modismo crítico pós-moderno (que ele parodia num conto com esse título—a meu ver, o texto mais discutível de Concentração) para experiências ficcionais que deformam e confundem os dados biográficos, mesmo que o personagem ostente o nome do autor. Nessa linha, Ricardo Lísias/personagem vivencia diferentes formas de dilaceração e tentativas de serenar o tumulto interno,  tanto no divertidíssimo Evo Morales quanto na mais radical de suas aventuras autoficcionais, Tólia (em que se une a uma seita para salvar o planeta), além da extraordinária seção das Fisiologias (da Memória, do Medo, da Dor, da Solidão, da Amizade, da Infância e da Família), registrando o Brasil pós-Abertura através dos laços familiares e afetivos, com um virtuosismo que só encontra paralelo no argentino Alan Pauls (História do Pranto) ou no chileno Alejandro Zambra (Formas de voltar para casa).

«É um fracasso que se manifesta no corpo». As linhas de força que percorrem Concentração podem ser verificadas no conto-título: Damião sente um excruciante mal-estar físico, só aliviado quando faz a barba (causando graves danos ao seu rosto) a todo instante. Como típico herói de seu autor, apega-se a padrões e rotinas que permitam suportar seu estado agônico; assim, viaja a Buenos Aires atrás de um clube de xadrez e de um casal de dançarino de tangos, a partir de três vagas fotografias, vã odisseia («no país inteiro ninguém sabe mais como dançar tango e jogar xadrez»—desse modo, ele constatará a penúria econômica da população portenha) que envolverá os miasmas dos regimes autoritários latino-americanos, a morbidez argentina em torno dos seus ícones políticos (Perón e Evita), numa corda bamba de racionalizações extremas em meio ao caos e à falta de sentido, que, no fundo, dizem respeito a todos nós, aprisionados pelos muros quase sem brechas da ideologia do mercado global.

Um dos pontos altos da coletânea, esse conto de 2008 tem um dos finais mais perfeitos já escritos, contrariando flagrantemente a afirmação seguinte: «Com a literatura, já sei que não vou conseguir dizer o que eu quero da maneira que acho a ideal». Pena que escrevendo a seu respeito, eu me sinta mais próximo desse sentimento de frustração do que dos seus resultados.

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VER NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/04/14/o-livro-dos-mandarins-satira-deliciosa-a-linguagem-da-globalizacao/

https://armonte.wordpress.com/2012/12/11/destaque-do-blog-duas-vezes-o-ceu-dos-suicidas/

https://armonte.wordpress.com/2013/08/13/a-pele-que-habito-o-problematico-divorcio-de-ricardo-lisias/

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TRECHOS SELECIONADOS

«O avô mora naquela casona perto do museu e quando a gente tropeça, ele logo vai correndo dizer que não foi nada. Não foi nada, nada, apenas que o avô é aquele homem mais velho, careca e engraçado. Ele sabe o que é um astrolábio, consegue fazer um relógio com a sombra e gosta de ir com os netos à praia… E ele corre com a gente: corre em casa, no museu, corre na praia, na rua, corre hoje, corre no ano que vem, na festa da escola, mas cada vez ele corre mais devagar, e depois já não aguenta tanto e quando você vê é o avô que deixou para a sua mãe essa casa.

   Ele é o avô que morre e ensina o que é a morte: é quando o avô morre. »

(Fisiologia da Família)

« Os noventa minutos do jogo entre Brasil e Itália, no estádio espanhol do Sarriá em 1982, foram os únicos em que de fato tive um pai. Precisamos só de um empate, meu filho, mas acho que vai ser 4 a 1. Tentei encostar a mão esquerda naquele braço enorme, mas ele se afastou. Hoje ele não está querendo se deitar: vamos ver o jogo sentados um do lado do outro. Perguntei se Chulapa é o sobrenome do Serginho, que meu pai adorava. Ele não respondeu… Lembro-me da televisão enorme. Como tinha o nome sujo, meu pai não podia comprar nada à prestação. Quem  trouxe foi minha avó. Tem garantia até a próxima Copa, ele me disse quando elogiei a imagem. Meu pai gostava de assistir a todo tipo de programa, menos os telejornais. O comício pelas Diretas Já na Praça da Sé não passou direito, não perdi nada… Minha tia, irmã da minha mãe, quis nos levar para o comício, mas meu avô não achou a ideia boa. Você não viu como seu primo saiu da cadeia? Tudo pode mudar de uma hora para outra. »

(Fisiologia da Infância)

«Naquela época, a gente bebia muito na escola. Então Maria era a líder. Maria bebia muito, então ria muito também. Então. Eu só acompanhava, acho, não posso ter certeza, ela sim tinha muita certeza: então bebe mais um pouco, disse. Então, se sexo oral conta, perdi a virgindade com ela nesse dia então, com ela rindo e tudo rodando.

   Ontem, vi uma foto de Lindbergh Farias no Facebook. Então foi na internet. Ele sorria muito enquanto apertava a mão de Fernando Collor. Nada disso aconteceu. Apenas escritores muito ingênuos acreditam em ficção histórica. E na História, então? Fiquei com muito ódio desse ensaboadinho chamado Lindbergh Farias. »

(Fisiologia da Amizade)

«Sinto-me sozinho (descobri isso quando escrevi meu primeiro livro, sozinho durante um inverno desagradável em Campinas) porque nunca consigo expressar exatamente o que eu quero, e nem da forma que tenho certeza ser a mais adequada.

   Não se trata de humildade. Sou arrogante: algumas vezes, cheguei perto. Mas o cerne do que quero dizer e a forma mais adequada (digo, a ideal para o que eu queria dizer—não estou conseguindo me expressar direito), apenas sei que existem, tenho toda a certeza de que estão ao meu alcance, mas não consigo tocá-los inteiramente. É como se em um determinado momento a comunicação falhasse… Esse isolamento é um sentimento íntimo. Apenas tateio a melhor forma de expressá-lo. Sei que se trata de uma variante muito aguda e intensa de solidão. Só tenho uma possibilidade de me aproximar desse mistério: através da técnica literária. Por causa dela, meu sofrimento é suportável. »

(Fisiologia da Solidão)

« Para mim, as lágrimas e a raiva se complementam. Como sempre tive muita dificuldade para chorar, uso os acessos de ódio para me libertar. Mas não tive a menor chance dessa vez. Levantei agora e, enquanto tomava café, senti uma sensação horrível de derrota. É um fracasso que se manifesta no corpo… Com a literatura, já sei que não vou conseguir dizer o que eu quero da maneira que acho a ideal. Então, terei que fazer repetições. Apesar de conseguir, com isso, uma espécie de alívio contínuo para o mal-estar que sinto, por outro lado a certeza da incompletude da escrita também me angustia. Por isso, achei que as artes plásticas resolveriam o meu problema.

   Ao contrário, agora tenho medo de que arte nenhuma aplaque o sentimento de que não vou conseguir dizer exatamente o que quero na forma que julgo a mais adequada. »

(Fisiologia da Dor)

« Exatamente nesse momento, trêmulo por causa do medo e do frio, caguei nas calças. Não tive tempo nem iniciativa de procurar um banheiro… Dá para ir a pé da avenida Pompeia ao meu apartamento. No caminho, senti um misto de vergonha e pavor. Eu olhava para trás e não conseguia entender se aquelas pessoas estavam me seguindo, rindo porque eu tinha cagado nas calças ou sequer haviam me notado… Eu estava inteiramente sonzinho e, agora escrevendo, lembro que pensei no André enforcado.

   Então, em uma sexta-feira à noite, subindo rapidamente a movimentada avenida Pompeia, morrendo de medo e cheio de merda nas calças, percebi o quanto o André estava se sentindo sozinho quando destruiu o meu apartamento e, uns dias depois, se enforcou… Depois, já perto de casa, senti de novo muita raiva do André: ele me tinha feito descobrir quem eu sou e acho que eu sou exatamente o que o dono (ou o administrador) do cassino clandestino falou, olha aí, você é só um cagão. »

(Fisiologia do Medo)

«… e chorava daquele jeito porque logo o meu amigo André iria se matar, e chorava sem nenhum controle, do jeito que mais me incomoda, sem nenhum controle, porque o André morreu sem conhecer os livros do Roberto Bolaño, não é justo, e eu também sabia que nunca mais iria esquecer: quando a polícia encontrou o corpo do meu amigo André, enforcado lá naquele lugar, havia uma sacola de uma livraria em cima da mesa, com o Noturno do Chile dentro, ele tinha acabado de comprar o Noturno do Chile, então voltou para onde estava morando e se enforcou sem abrir o livro… e eu chorava daquele jeito porque o André nunca mais iria aos meus lançamentos, eu chorava muito, na frente do avião da Japan Airlines, porque as pessoas dizem que eu sou cerebral e eu chorava daquele jeito, como nunca… »

(Fisiologia da Memória)

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NOTAS

[1] Em contrapartida, lançou vários romances, a partir de Cobertor de estrelas(1999): Duas Praças, O Livro dos Mandarins, O Céu do Suicidas; o mais recente dos quais, o polêmico Divórcio.

Convém, notar, entretanto, que vários dos textos de Concentração têm considerável extensão, e dois deles foram publicados separadamente, Capuz e Dos nervos.

[2] «Agora, consigo entender um pouco melhor: meu profundo gosto pela conversa civilizada e inteligente impediu-me de gritar quando vi aquele rapaz sentado no meu sofá. Não sei se já disse, mas posso repetir, que cheguei em casa, vindo da universidade, e encontrei a porta aberta e a luz da sala acesa. Como estava me tratando, o que para dizer a verdade sempre foi um dos sonhos da minha mãe, vivia muito calma naqueles dias e não gritei. Minha intenção era evitar, também, que as pessoas dissessem que eu estava tendo uma crise histérica. Sempre detestei falatórios e costumo ter apenas conversas civilizadas e inteligentes. O hábito de fofocar que minha mãe cultiva com as vizinhas sempre me deixou irritada. Às vezes eu batia a porta e fechava todas as janelas só para não ouvir aqueles murmúrios. Prefiro a conversa civilizada e inteligente. No tempo em que redigia a tese, inclusive, procurava sempre ir a algum café ou bar tranquilo para falar de livros, filmes e música. Claro, e sobre o Padre Vieira. Eu me interessava sobretudo pela questão do gênero: nos mecanismos que diferenciam a fofoca da conversa civilizada e inteligente. Por isso tentava ficar bem quieta para ouvir o que os outros estavam dizendo. Agora compreendo por que ele ficou mudo, deve ter me visto em algum lugar, em algum café civilizado e inteligente, e concluiu que adoro o silêncio», lemos em Dos nervos.

Mais adiante: «Minha mãe sempre me disse, e olha que, que eu precisava. Mas acho que vou ser bem clara com o médico, e dizer que posso perfeitamente criar sozinha o nosso filho. Tenho um bom emprego e, mais, com uma conversa civilizada e inteligente, minha mãe… Por outro lado minha mãe sempre repetia, e olha que ele, que meu pai. Quanto aos meus alunos, o médico… ».

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RICARDO

13/08/2013

A PELE QUE HABITO: o problemático “Divórcio” de Ricardo Lísias

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“De vez em quando, tenho necessidade de ficar muito quieto. Não naquele momento: eu chorava no meio da avenida Paulista para ver se alguém vinha me abraçar e assim me ajudava a conservar, pregada à carne viva do meu corpo, o restinho de pele que minha ex-mulher tinha deixado. Ninguém.” (Ricardo Lísias, Meus três Marcelos)

“Acho que o diário e o que minha ex-mulher fez no Festival de Cannes me feriram tanto porque, ao me descarnar, minha interioridade ficou completamente exposta.” (Ricardo Lísias, Divórcio)

 “Tenho curiosidade por saber o que vou escrever daqui a cinco anos”. (idem)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 13 de agosto de 2013)

MEUS TRÊS RICARDOS

Em Divórcio o protagonista afirma: “meu corpo estava sem pele”, logo na primeira página.  Com a pele arrancada (que vai se recompondo conforme ele se recupera do trauma do seu sórdido divórcio e  fortalece sua técnica de corredor para participar da  São Silvestre de 2011, quando terminará sua provação pessoal e começará, com o ano novo, a escrita do romance intitulado Divórcio), ele, Ricardo Lísias, o personagem, se descola do próprio autor, embora ainda não se transforme de pronto no futuro narrador do livro, frente ao qual ele diz “Estou de fato dentro de um texto que escrevi”[1], e que repassará toda a  agônica experiência[2] de traição, separação e superação em quinze capítulos, que constituem como momentos de uma prova de pedestrianismo em que os três Ricardos se equacionam e se interpelam. Então, divórcio é também uma metáfora para a separação que se opera entre a própria pele e a dos caracteres que se cria num universo ficcional.

Este deveria ser o clímax da série de experimentos notáveis que Ricardo Lísias (o autor) encetou após a publicação de O Livro dos Mandarins (2009), com a chamada autoficção. Trata-se, aliás,  da extrapolação do conto Meus Três Marcelos (2011)[3]: o indiscretamente lido diário da esposa reduz Ricardo Lísias, o personagem, a um papel infantilizado e autista: ela (reproduzindo o comportamento de uma determinada faixa social que “se deu bem” no Brasil pós-FHC e Lula[4]) serve-se do seu status de escritor prestigiado, enquanto o trai sem culpa:

 “Por que eu disse sim? Acho que nem este livro vai me dizer. Poucas coisas são mais ridículas, e de novo clichês, que gente que subiu na vida trabalhando. Aceitei casar com uma pessoa que progrediu com o próprio suor…

    Os bem-sucedidos, que começaram a se tornar muito presentes nos anos do governo de Fernando Henrique Cardoso e se solidificaram com Lula, sempre foram alvo do meu desdém. De repene, eu estava no meio de pessoas que deram certo na vida. Uma galera que ganhou dinheiro trabalhando…”

Em contrapartida:

“Tenho 36 anos e uma renda, há algum tempo, que me permite figurar entre os privilegiados. Mesmo assim, nunca fiz nenhuma aplicação financeira. Não guardo dinheiro. Compro livros com tudo o que me sobra. Jamais quis ter um carro ou me preocupei em comprar uma casa. Já gostei de algumas mulheres e ainda vou encontrar um grande amor para ter filhos e passar o resto da vida.”[5]

Ao longo dessa fase “autoficcional”, na qual se destaca O Céu dos Suicidas (2012), Lísias confirmou-se como o grande nome da sua geração (ele nasceu em 1975), com belos marcos para comprovar sua “liderança” nessa “corrida” imaginária, a partir da estreia em 1999 (Cobertor de Estrelas, que já era ótimo), movimentando-se com destreza desde as mais estreitas vias do conto e da novela até as avenidas mais largas do romance, trilhadas com uma desenvoltura que resultou num romance tão esplêndido como O Livro dos Mandarins.

O novo romance, nessa trajetória, representa um tropeço, um passo em falso. Não só fica a dever a Meus Três Marcelos no impacto e eficácia da dramática e um pouco torpe situação aí evocada-simulada, como deixa a desejar num aspecto em que Lísias sempre se mostrou um craque: a adoção do tom exato para a sua narrativa, por mais que ela nos levasse pelos caminhos do caos e da desagregação da mente e da linguagem dos personagens (sequer seu gosto de desdobrar seus relatos e criar-rememorar incidentes que parecem nada ter a ver com o eixo central mostra-se bem calibrado desta vez).

Pode-se objetar que Divórcio é escrito num diapasão ainda mais experimental do que os anteriores, com sua releitura em espiral dos mesmos elementos, à medida que o personagem vai ficando mais fortalecido e passando o bastão para o narrador, e talvez então se trate de uma não-identificação minha com o texto enquanto leitor (mesmo sendo admirador contumaz dos textos de Lísias, há alguns anos um dos meus ficcionistas favoritos), de uma simples (e total) falta de empatia com esse pôr-se a nu (ou “ficar sem pele”, para ficar nos termos do relato), que me parece artificioso, no pior sentido da palavra. Há um momento em que o livro chega a  crescer, quando narra as reações hostis à utilização do diário da esposa por parte do personagem, a revolta contra o uso de eventos pessoais na “ficção”(“a situação mudou e os fofoqueiros passaram a achar um absurdo que tudo que me contaram fosse registrado. Um deles  disse que eu esta indo longe demais. Para que ser tão radical? (…) a fofoca precisa continuar apenas fofoca, já que as pessoas são assim mesmo, o Brasil funciona desse jeito e ´todo mundo tem a sua zona cinzenta´”)[6]; no geral, ele me deixou a impressão de “mais do mesmo”: o que despontava, na largada, como uma experiência ainda mais “radical”, na chegada aparece com todos os sintomas da diluição.

No entanto, é bom mesmo que se trace uma fronteira nítida entre autor e personagem/narrador. Pois não é possível que Lísias-autor tenha opiniões tão pueris, estreitas e mal formuladas sobre, por exemplo, o adultério (“Adultério é para gente vulgar. Sexo, depois da adolescência, só é bom se tiver afeto junto”)[7] ou a variação de pontos de vista na narrativa do século XX, relativizando a “verdade”[8],   ou ainda se permita descrições sexuais tão constrangedoras[9]. Aí, parece que o descolamento de pele foi total. E Divórcio se ressente de ela não ter se recomposto a contento nas transfusões entre os três Ricardos. De qualquer forma, é apenas um momento menor de um talento de quem nos habituamos a esperar o máximo. Também tenho a maior curiosidade por saber o que ele escreverá daqui a cinco anos.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/04/14/o-livro-dos-mandarins-satira-deliciosa-a-linguagem-da-globalizacao/

https://armonte.wordpress.com/2012/12/11/destaque-do-blog-duas-vezes-o-ceu-dos-suicidas/

e sobre Lísias e a autoficção:

https://armonte.wordpress.com/2012/11/27/destaque-do-blog-diario-de-um-medico-louco-de-edson-amancio/

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[1] “…lembrei do primeiro conto que escrevi na vida, há mais de dez anos, a personagem também repassava na cabeça uma série de coisas para tentar manter a lucidez. Estou de fato dentro de um texto que escrevi.”

[2] “Descarnado, o tempo inteiro eu esperava alguém se aproximar e me dar uma explicação. Um corpo sem pele não consegue achar nenhuma resposta (…) O mundo oferece muito pouco para as pessoas que estão muito vulneráveis.”

[3] Há um conto chamado Divórcio, publicado na PIAUÍ, mas eu não o li ainda.

[4] “Minha ex-mulher não existe: é personagem de um romance. O crescimento brasileiro dos últimos anos correu muita gente em troca de um apartamento próprio, um emprego com salário de dez mil reais e outros duzentos e cinquenta mil no banco.”

[5] O que me leva a especular que Adriano Schwartz em sua resenha do livro na Folha foi muito comedido ao indicar a presença de um “leve” tom panfletário.

VER http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/08/1320743-critica-tema-e-narrativa-evoluem-juntos-em-romance-divorcio-de-ricardo-lisias.shtml

[6] Esse assunto do aproveitamento do material da realidade sempre fascina, e me traz à memória o bafafá com o aparecimento dos primeiros (que depois acabaram sendo os únicos encontrados) capítulos de Preces atendidas, o indiscreto romance derradeiro de Truman Capote, que determinou seu ostracismo social no final da vida.

[7] Convenhamos, o próprio termo “adultério” já é um pouco risível e só na época de Bentinho poderia ser usado sem fazer alguém corar. E toda essa caracterização de “gente vulgar/” ou mais genericamente, “vulgaridade”, faz parte de um pacote panfletário que o discurso de Divórcio não absorve. Ele teria de ter um escopo mais radicalmente moralista (mesmo que não se concordasse com ele), ou pelo menos mais dissolvente (como o que Alexandre Dal Farra atinge em Manual da Destruição) para ser menos superficial.

[8] “Sempre me irritaram os romancistas que pretensamente ´retratariam o ponto de vista do outro´. Aqueles que dão espaço para posições contrárias apresentam vários pontos de vista e relativizam tudo. Parte da teoria literária os tomou como grandes artistas justamente por conta disso: eles não acreditam apenas no próprio ponto de vista e suas personagens e situações sempre mostram o outro lado da moeda. A disseminação desses chavões é normal até nos meios mais especializados. A desonestidade me parece evidente. Os vários pontos de vista são criados pelo mesmo autor e a leitura é determinada por ele. Os mais competentes simplesmente ocultam essa enorme manipulação”. Ora, ora, aqui está sendo confundindo um processo (ou melhor, um procedimento) técnico com um postulado ético. Não sei por qual motivo o foco narrativo variado teria de necessariamente indicar um relativismo moral por parte do autor (Faulkner que o diga). Parece-me que é uma conquista da técnica narrativa para evitar maniqueísmos psicológicos estritamente literários. Agora, seu uso por escritores de segunda e acadêmicos universitários, é outro assunto. Não tem muita serventia fazer declarações generalizantes, tanto quanto dizer que “No estágio atual da ficção, é preciso que o esqueleto de um romance esteja inteiramente à vista” !!!??? Ou ainda: “A transcendência quase sempre está na palavra não!!!??

[9] Em larga medida por causa da terminologia adotada, que aniquila inapelavelmente um texto literário. Ricardo ainda utiliza “pau”, mas temos de aguentar “vagina”, “ânus”, o rapaz foi “penetrado” e outras pérolas pudicas e formalistas que, faça-me o favor! Creio que em geral, mas especialmente num discurso rancoroso e íntimo, caberiam melhor “buceta”, “cu”, “enrabado”. Novamente creio que Alexandre Dal Farra foi muito mais feliz (apesar de toda a “negatividade” do discurso) em Manual da Destruição e creio que A fúria do corpo, de João Gilberto Noll, continua sendo o paradigma (pelo menos, na ficção brasileira) do registro literário de cunho sexual minimamente convincente e natural.

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11/12/2012

Destaque do Blog: duas vezes O CÉU DOS SUICIDAS

“…o júbilo de uma dor tão íntima e aguda…” (Henry James, Os embaixadores)

( abaixo resenha publicada, sem a nota de rodapé, originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 10 de abril de 2012)

I

Assim como os portugueses José Luís Peixoto e Gonçalo M. Tavares, Ricardo Lísias é um escritor ainda relativamente jovem (nasceu em 1975), cuja ficção pode ser considerada  uma das melhores no cenário contemporâneo mundial.

Para isso, a principal contribuição foi a de O Livro dos Mandarins (2009), contudo já no seu livro de estreia, quase no umbral do século XXI, Cobertor de Estrelas (1999),  mostrava a que veio: ao relatar o cotidiano de um garoto que vive na rua, ele criou uma linguagem toda peculiar, de forma que o leitor ao mesmo sentisse o nível de consciência (ou mesmo inconsciência) do menino da sua própria condição e a barra “real”, muito além da mera situação individual[1]. Diga-se de passagem, essa preocupação social distinguia Lísias do “chorus line” dos jovens ficcionistas brasileiros da atualidade, em sua maior parte engajados em tediosos jogos metalinguísticos, em desconstruções do sujeito e do foco narrativo, quando não impregnados pela influência de Rubem Fonseca e da linguagem cinematográfica.

Para cada um dos textos posteriores, como aqueles reunidos em Anna O. e outras novelas (2007), o romance Duas praças (2005), além do já mencionado e maravilhoso Livro dos Mandarins, o talentoso autor paulista forjou uma linguagem própria, na qual víamos o embate entre a racionalização e a loucura, entre a expressão e a inarticulação, de uma feição que o aproxima mais, entre os dois lusitanos citados acima, e apesar das diferenças, de Gonçalo M. Tavares, também um mestre em pôr em cena as velhas dicotomias da mentalidade ocidental regida pelo mercado: produção, eficácia, planejamento, lógica versus loucura, insubmissão, acaso, caos.

II

“Logo avistei meu parente. Por trás de uma mesa, ele acenou e depois me chamou pelo nome —Ricardo Lísias.

   Levantou-se e veio me abraçar. Tentei parecer feliz, mas continuava com muito sono. O jeito foi dizer a verdade: não estou conseguindo ficar acordado direito. Quando me respondeu que superar o fuso é mesmo difícil, senti que talvez tivesse na minha frente um amigo. Contei toda a história do André, inclusive que ele tinha pedido ajuda e eu, assustado, batido o telefone. Senti vontade de chorar e meu parente percebeu. Por isso, pediu água com açúcar.

__ Mas não estou nervoso —expliquei. Desde que cheguei a Beirute,não consigo me livrar do sono. Para me distrair, amigável e compreensivelmente, resolveu mudar de assunto e conversar sobre a família. Decidi ser direto e falei que descobrira fortes indícios de um que um tio-avô tinha ligações, a partir do Brasil, com o terrorismo no Oriente Médio. Meu parente ficou branco.”

O protagonista (chamado Ricardo Lísias) do recém-lançado O Céu dos Suicidas  só  começa a fazer essas investigações inquietantes, que o levam a se indispor com a família toda e a sofrer ameaças no Líbano (há um momento em que ele é quase executado), como se já não bastasse andar aos gritos pelas ruas e  ofender a todos os conhecidos, porque seu melhor amigo enforcou-se.

Até então, após ter abdicado de suas coleções pessoais, sua grande paixão como adolescente, Ricardo acomodara-se  confortavelmente como um “especialista em coleções”. Ou seja, um expert em formas de ordenar o mundo. O pirado André traz o caos à sua casa, quebra todos os aparelhos domésticos, começa a se cortar com um canivete, e  obriga o anfitrião a expulsá-lo. Com sua morte, a culpa pessoal vai cruzar com a proverbial e antiga exclusão dos suicidas da salvação, comum a várias religiões. E aí então o mundo “ordenável” se esfacela, o passado e suas possibilidades perdidas avulta (Ricardo tem “saudades de tudo”) e nosso herói tenta, através de investigações irrisórias e truncadas, além de buscas espirituais (que esbarram sempre no impedimento dos suicidas ao “céu”, seja católico, protestante ou espírita) descobrir um fio de ordem no caos, enquanto vai perdendo a linguagem “dos outros”, sentindo-se incapaz de se comunicar ou se fazer entender…

Aguardado intensamente, após o virtuosismo e brilho de O Livro dos Mandarins, o novo livro, mais comedido e tão rigoroso quanto suas novelas, prova que Ricardo Lísias, o escritor, pode fazer com que seus personagens se percam, mas se mantém no controle e tem ainda muito a oferecer. Como o aspirante a campeão  mundial de xadrez da novela Dos Nervos, já é um rematado mestre, mesmo com as tensões que move no tabuleiro.


[1] Um trecho: “Ruim mesmo é quando, bem no meio da noite, os meninos grandões seguram o braço dos outros e fazem aquela  coisa que dói demais. Teve um dia que até saiu sangue, mas os outros ficaram rindo e jogando o calção do menino de um lado para outro e ficaram falando que ele é mulherzinha. Depois, ele pegou o calção e foi deitar lá do outro lado, só que, mesmo assim, não conseguiu dormir direito, porque ficou com medo de que os meninos grandões voltassem e quisessem tirar o calção e fazer aquela coisa de novo.

    Teve uma vez que o padre gordão ficou sabendo daquilo, quando o menino que caiu da estátua contou que eles ficavam tirando a calça de noite. Foi o pior, porque o padre gordão ficou muito vermelho e falou que isso é uma coisa muito feia de se fazer e que o menino \Jesus está vendo tudo e fica tão bravo que até pode dar um castigo para eles e falou que só gente grande é  que pode fazer besteira e, além de tudo, alguém pode passar e ver.

   O menino não gosta de fazer besteira, mas os outros seguram e depois não dá para ir embora, porque, se não, tem que dormir sozinho lá na praça, e quando isso acontece, é a pior coisa do mundo, porque as luzes ficam piscando e as mulheres que vestem roupa branca e cantam uma música muito baixinho podem vir e puxar o pé. O problema é que os outros ficam gritando e falando que ele é mulherzinha e aí, de vez em quando, dá vontade de chorar, igual no dia que saiu sangue e ficou doendo até muito depois…”

 

(abaixo resenha publicada, de forma ligeiramente mais condensada, na Folha de São Paulo de 14 de abril de 2012

VER http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/36901-livro-faz-leitor-sentir-no-na-garganta.shtml)

I

Na nota de agradecimentos que fecha O Livro dos Mandarins, Ricardo Lísias menciona o suicídio de um grande amigo, André Silva.

Em O Céu dos Suicidas, um personagem (também narrador) chamado Ricardo Lísias desmorona emocionalmente após o amigo André enforcar-se, resvalando num surto no qual se misturam insônia, raiva (grita pelas ruas, insulta  todos os conhecidos) a angústia que explica o título (motivada pelo destino final dos suicidas), por conta da culpa (expulsou o amigo de casa, que a transformara num caos de utensílios domésticos quebrados e depois começara a se cortar com um canivete) e o sentimento difuso de “saudade de tudo”, de sua vida anterior à condição de um “especialista em coleções” (suas coleções pessoais haviam sido descartadas e só restara essa expertise).

Durante a crise, ele tenta refazer passos da vida de André, solucionar um mistério familiar indo ao Líbano, experiência depois da qual procura autoridades religiosas e se submete, por pressão dos parentes. a um tratamento psiquiátrico.:

“Ainda chorando, veio-me à cabeça muito do que eu tinha feito junto com o meu amigo. As duas vezes em que ele cheirou cocaína comigo por causa de um amor bobo, a casa de massagem onde a gente ia, eu atrás de ninguém e ele de Aline, o jeito que ele me abraçou depois da defesa de doutorado. Tudo o que nós dois, os grandes amigos, fizemos de bom e de ruim. Eu chorava porque não esquecia a voz do meu amigo para passar o fim de semana em casa, depois o rosto dele deformado pelos remédios, me ajuda, Ricardo, mas eu estava esgotado, amigão… e foi para o hospício, meu grande amigo, mas eu chorava sobretudo porque sozinho, muito sozinho, com a sujeira escorrendo pelo ralo do banheiro de um hotel do Líbano, tinha acabado de descobrir quem eu sou de verdade, um bosta, deixei meu grande amigo André se enforcar.”

II

Do final de O Livro dos Mandarins, um dos raros romances contemporâneos que poderíamos qualificar de fabulosos, ficou também a expectativa que pesa sobre O Céu dos Suicidas enquanto livro imediatamente seguinte: depois de tanta exuberância narrativa, o que viria?

Dir-se-ia que Lísias voltou ao estilo econômico, em que contenção e uma linguagem no limite conviviam, de suas novelas (reunidas em Anna O.) e de seus pequenos romances Cobertor de Estrelas & Duas Praças.

Não. Apesar da moldura que adotou —88 capítulos curtíssimos, praticamente no mesmo formato— e de se voltar para os mesmos impasses de racionalização extrema (mesmo em situações intoleráveis, como em Capuz) e desagregação, até mesmo da linguagem (embora Lísias, o personagem, não chegue ao ponto da Maria de Duas Praças ou da professora de Dos Nervos), O Céu dos Suicidas não é uma novela disfarçada de romance.

Ele expande uma tendência do universo de Lísias, o escritor, o qual sempre gostou de desdobrar suas histórias e criar pequenos incidentes que pareciam não ter nada a ver com o relato central. No novo livro, o episódico (as picuinhas familiares, a viagem ao Líbano, os confrontos com colecionadores) ganha uma relevância maior e transforma o romance numa gama de possibilidades mesmo que truncadas, resistindo a fechar a conta, a formar uma totalidade narrativa que dê sentido à busca de Lísias, o personagem, atravessando a corda bamba entre o caos (um mundo que grita à sua volta e você grita para o mundo, numa algaravia incompreensível) e uma vida domesticada.

O leitor talvez esteja se perguntando, como hoje é inevitável, o que pode ter O Céu dos Suicidas de biográfico. Eu não sei e não me importa. Pois a dor que deveras sente Lísias, o escritor, foi virtuosisticamente resolvida no “chega a fingir que é dor”: um romance tão elegante, tão irônico, e que faz ainda assim o leitor sentir o proverbial nó na garganta. Só por isso, não importa como venha a morrer um dia (que seja em data distante), ele merece o céu dos escritores.

São Paulo, sábado, 14 de abril de 2012Ilustrada
Ilustrada

CRÍTICA

ROMANCE

Livro faz leitor sentir nó na garganta

No romance “O Céu dos Suicidas”, Ricardo Lísias expande tendência de desdobrar histórias

O episódico ganha uma relevância maior e transforma o romance numa gama de possibilidades, mesmo que truncadas

ALFREDO MONTE
ESPECIAL PARA A FOLHA
Na nota de agradecimentos que fecha “O Livro dos Mandarins”, Ricardo Lísias menciona o suicídio de um grande amigo, André.

Em “O Céu dos Suicidas”, o narrador chamado Ricardo Lísias desmorona após o amigo André enforcar-se, resvalando num surto no qual se misturam insônia, raiva, angústia, culpa (expulsou de casa o amigo, que começara a se cortar com um canivete) e uma “saudade de tudo”, de sua vida anterior à condição de um “especialista em coleções” (suas coleções pessoais haviam sido descartadas e só restara essa expertise).

Durante a crise, ele tenta refazer passos da vida de André, solucionar um mistério familiar indo ao Líbano, experiência depois da qual procura religiosos e se submete a tratamento psiquiátrico…

Do final de “O Livro dos Mandarins”, um dos raros romances contemporâneos que podemos qualificar de fabulosos, ficou também a expectativa que pesa sobre “O Céu dos Suicidas” enquanto livro imediatamente seguinte: depois de tanta exuberância narrativa, o que viria?

Dir-se-ia que Lísias voltou ao estilo econômico, em que contenção e uma linguagem no limite conviviam, de suas novelas (reunidas em “Anna O.”) e de seus pequenos romances “Cobertor de Estrelas” e “Duas Praças”.

Não. Apesar da moldura que adotou -88 micro-capítulos, praticamente no mesmo formato- e de se voltar para os mesmos impasses entre racionalização extrema e desagregação, até mesmo da linguagem, “O Céu dos Suicidas” não é uma novela disfarçada de romance.

Ele expande uma tendência do universo de Lísias, o escritor, o qual sempre gostou de desdobrar suas histórias e criar incidentes que pareciam nada ter a ver com o relato central.

No novo livro, o episódico (picuinhas familiares, viagem ao Líbano) ganha uma relevância maior e transforma o romance numa gama de possibilidades, mesmo que truncadas, resistindo a fechar a conta, a formar uma totalidade narrativa que dê sentido à busca de Lísias, o personagem, atravessando a corda bamba entre o caos e uma vida domesticada.

O leitor talvez esteja se perguntando, como hoje é inevitável, o que pode ter “O Céu dos Suicidas” de biográfico. Eu não sei e não me importa.

Pois a dor que deveras sente Lísias, o escritor, foi virtuosisticamente resolvida no “chega a fingir que é dor”: um romance tão elegante, tão irônico, que faz o leitor sentir o proverbial nó na garganta.

Só por isso, não importa como venha a morrer (que seja em data distante), ele merece o céu dos escritores.

O CÉU DOS SUICIDAS
AUTOR Ricardo Lísias
EDITORA Alfaguara
QUANTO R$ 34,90 (192 págs.)
AVALIAÇÃO ótimo

Leia trecho do livro em
folha.com/no1075312

14/04/2012

O LIVRO DOS MANDARINS: sátira deliciosa à linguagem da globalização

(resenha publicada  originalmente  em A TRIBUNA de Santos, em 19 de abril de 2011)

A China e os países islâmicos do norte da África não saem do noticiário. Um dos mais talentosos romances publicados neste novo século entrelaça essa complicada geopolítica em que a palavra “mercado” é a tônica dominante: O Livro dos Mandarins, de Ricardo Lísias, autor que eu conhecia apenas de uma leitura anterior, Duas praças, que não me preparara para essa explosão de exuberância.

Paulo, o protagonista, é executivo de um banco multinacional. Admirador fervoroso das idéias e da trajetória do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ele impressiona os superiores com seu visionarismo corporativo “até atingir o cargo de diretor do Setor de Desenvolvimento… .  Sua função era basicamente recolher dados e redigir relatórios para que os outros setores do banco pudessem tomar decisões com maior embasamento… foi designado para ocupar o posto principal do Projeto China, uma espécie de força-tarefa que o banco criou para estudar, em Pequim, como poderia lucrar com o desenvolvimento daquele país tão interessante… porém, ele começou a sentir que era o momento de mergulhar em alguma coisa mais pessoal, mesmo que isso significasse um recomeço. Foi então que surgiu a Confucius, uma empresa de consultoria cujo principal objetivo é dar acompanhamento a executivos e oferecer palestras e minicursos de atualização…” (além disso, ao longo desse percurso, Paulo prepara um “Livro dos Mandarins”,  manual para qualquer um que deseje obter sucesso e realização).

Esse resumo pseudo-sério faz parte da pândega machadiana que permeia o estilo de Lísias em O livro dos mandarins. Como todos aqueles que criam um romance único, ele plasmou uma linguagem original e inimitável para satirizar e demolir a mentalidade capitalista cuja impregnação atávica de ganância e arrivismo é maquiada com chavões do senso comum, manipulados pelos gurus da auto-ajuda e da neurolingüística (Paulo se orgulha até de ter criado a “lingüística corporativa” ao estudar os ideogramas chineses). E ás vezes até quem os utiliza de forma oportunista acredita mesmo nesses chavões, que acabam substituindo a realidade.

Na primeira parte, absolutamente fabulosa, enquanto Paulo vai se qualificando para a vaga que todos cobiçam,elaborando suas idéias-chaves, a narrativa adota um tom prognóstico, antecipando incidentes futuros de sua brilhante carreira na China. Depois, entretanto, tudo se revela uma ficção: ele não foi designado para a China coisa nenhuma, e sim infiltrado no Sudão, de um modo “informal”, para dizer o mínimo, pois ali as condições para negócios são, digamos, mais turvas.

Paulo nunca deixará de dizer que esteve na China, e toda a sua empresa de “mentoring, coaching e counseling” é baseada nessa experiência forjada. Mais ainda, na divertidíssima segunda parte, Sudão e China intercambiam-se o tempo todo na narrativa, e prostitutas sudanesas cujo maior apelo (os homens ficam fissurados) é a mutilação genital praticada ancestralmente, depois de serem chamadas, todas, de Salma (os mesmos nomes são permutados entre inúmeros personagens[1]) recebem as alcunhas de Liu Xan Liu Xin e Liu Xun.  No Brasil, elas (após uma fuga rocambolesca do Sudão, que considero as páginas mais fracas do romance, felizmente são poucas) se tornam “gueixas massagistas” que oferecem relaxamento a empresários na recém-criada Confucius (um dos momentos mais deliciosos de O Livro dos Mandarins  ocorre quando a noiva de Paulo se depara com  o grupo, supostamente oriundo da China, no aeroporto). E farão mais sucesso do que os serviços de “mentoring, coaching e counseling” do visionário Paulo, o que encaminhará a terceira parte para um tom mais de chanchada, sem que o romance perca seu virtuosismo e graça.

O maravilhoso romance de Ricardo Lísias, cujas soluções criativas eu mal arranhei nesta resenha, descortina para o leitor tanto um mundo de mensagens subliminares, um mundo emblematizado por aquela cena de lavagem cerebral de Sob o domínio do Mal, de John Frankenheimer, na qual, sob a aparência de plácidas senhoras tomando chá e discutindo flores, ocultam-se militares chineses manipulando mentes, como também  um mundo dominado pela propaganda, mesmo que a mais mentirosa e absurda, como a de O segredo do bonzo, de Machado de Assis. O mundo em que vivemos.


[1] Eu adoro a maneira como Paulo vai ganhando epítetos que substituem seu nome ao longo da narrativa, ora de forma elogiosa, ora de forma depreciativa:

o homem-paulo; Maozinho; Pau**; Pa***; P****; *****; o branquelo; o grande amigo brasileiro; este aqui (ou neste aqui); Belé; Belé porra nenhuma; Versati (ou Versatinho); o bobo; Paulinho; exceção; o menino; um homem-feito; ming ming; o marido dela; o brasileirinho; o amigo aqui; o samurai chinês; seu malandrinho; o homem mais inteligente do mundo; o desgraçado; grande bvndão; essa mula (dessa mula); aquele cara que foi para a China; o doutor; muito detalhista e metódico; o autor; o escritor de verdade; o torto; o homem realizado; qualquer escritor, além de um ideograma chinês que não conseguirei reproduzir aqui.

Fiquei tentado a fazer várias comparações com autores como Don DeLillo (Cosmópolis), na capacidade de extrair material épico mesmo de situações pós-modernas, ou ainda  com Joan Didion (Democracia & A última coisa que ele queria) ou, em certo sentido,  com certos John Updikes.

Mas creio que a similaridade mais tangível é com Machado de Assis mesmo. O livro dos mandarins é o Quincas Borba do nosso tempo.

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