MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

07/09/2010

GATO POR LEBRE: A MANIA DO GÊNIO IGNORADO

“São todos humanos, filhos de Deus, segundo Abel ou segundo Caim. O deus de Abel era manso e bom, e amava o sacrifício dos Abéis do mundo. Já o deus de Caim era ruim e pervertido como os Cains que protegia e a eles recusava a chama loura das aras dos holocaustos…”

      Na Vila do Pasmoso, nas imediações de Cuiabá, Jônatas tenta assassinar o seu gêmeo, Lázaro, devido à ruindade que carrega no sangue, por inveja e por ciúme: é apaixonado pela namorada do irmão, Minira, a quem tenta estuprar, levando um tiro do pai dela. Fugindo, consegue chegar à capital, onde pede guarida a parentes ricos (que sempre ignoraram sua banda da família, a qual vive miseravelmente em Pasmoso), que vivem numa casa senhorial: o primo, Isidoro, está preso a uma carreira de rodas, e impotente, por isso não consegue consumar a paixão que tem pela cunhada, Cecília; o pai de Isidoro, Afonso (que não mora com eles, mas sempre se hospeda na casa por ocasião de finados, em memória da mulher morta, cujo retrato vigia severamente a alucinada prole), por sua vez, deseja a nora, Rosa; o outro filho, Carlos, mantém uma relação incestuosa com a irmã, Sílvia.  É nessa alta-roda degenerada (há sempre festas e cirandas amorosas) que Jônatas vai convalescer, conseguindo engambelar o Afonso no jogo, enriquecendo (o velho é viciado em jogos de azar e vive perdendo dinheiro e propriedades; nesse jogo chega a perder a casa para o sobrinho), e tramando raptar Minira…

Quando consegue seu intento, porém, Carlos, enlouquecido pelo  sentimento de perdição e pecado, dele próprio e da sua gente, bota fogo na mansão…

Deus de Caim foi publicado pela primeira vez em 1968, por uma editora carioca (a terceira edição saiu agora em 2010, pela LetraSelvagem).  De lá para cá, seu autor Ricardo Guilherme Dicke (falecido em 2008), que se retirou para o Mato Grosso, ganhou uma daquelas reputações que beiram o mítico, quando se trata de um autor recluso, fora dos grandes centros: seus admiradores o tomam como um gênio literário.

A carga bíblica do título e da história (inclusive com o clima de juízo final do clímax) e uma linguagem peculiar realmente fazem do livro algo de ambicioso (ainda mais porque o autor tinha pouco mais de 30 anos à época do lançamento original, e vinha consagrado por uma premiação por um júri do qual fazia parte Guimarães Rosa. Na verdade, ele ficou em segundo lugar, perdendo para Jorge, um brasileiro, de Oswaldo França, Jr. E há quem compare essa situação (além de comparar seu universo ficcional ao de William Faulkner) à do próprio Guimarães Rosa, cujo Sagarana também ficou em segundo lugar num concurso dos anos 30, do qual era jurado Graciliano Ramos, para dizer que o vencido era mais ilustre do que o vencedor. Acontece, porém, que Graciliano Ramos fez não só elogios à Sagarana como também severas críticas, o que foi ótimo, pois Rosa só o publicou, depurado, só muitos anos depois. Não foi o caso de Ricardo Guilherme Dicke.

Nada salva Deus de Caim de ser ridículo e pretensioso. Não há nada de gênio recluso e ignorado em  Dicke, trata-se de uma mistificação, gato por lebre, pelo menos nesse romance, que não é nenhuma obra-prima desconhecida, olvidada, tendo de fazer sua reputação à sombra.

Ele é um autor que começa bem[1], tem uns laivos sintático-lexicais (desculpem-me o pedantismo) interessantes, promissores, mas que é incapaz de manter a coerência da sua história, levando-a para discussões sobre arte, literatura e filosofia que são constrangedoras, criando uma mixórdia de enredos, que conseguem se tornar assustadoramente risíveis . Eu já não conseguia mais ler sem rir, gargalhar mesmo (e bem que podia fazê-lo , pois já aturara centenas de páginas ruins[2]), quando Isidoro consegue vencer seu trauma psicológico e possuir a prima, e nisso tudo a casa pega fogo e nos deparamos com trechos como o seguinte, em que o velho patriarca da família dissoluta viola o cadáver da nora em pleno incêndio: “Dava por satisfeito gozá-la enquanto não a enterrassem. Agora pagava bem aquele pouco caso. Sua alma no céu devia estar gozando aquele amor que faziam no seu corpo de cabeça ensangüentada…”

Nada contra o barroco, o hiperbólico, afinal tivemos  Euclides da Cunha. E nada contra esse patológico abeirado do cômico, afinal tivemos Nélson Rodrigues.  Mas toda a parafernália bíblica acionada por Deus de Caim se assemelha, no seu resultado estético-linguístico (novamente, perdoem o pedantismo) àqueles escritores ruins da nossa literatura belle époque, como Afrânio Peixoto.

Às vezes realmente há escritores que, marginalizados e sistematicamente ignorados, trazem algo de novo e raro, como foi o caso, por décadas de Hilda Hilst. Mas é um equívoco misturar recolhimento, e obscuridade com talento e gênio. Os dois nem sempre andam juntos.


[1] Eu comprei o livro (ah, essa mania de querer ler tudo!) porque gostei do título, que acho agora a melhor coisa (junto com a capa, que reproduz uma gravura chamada “O beijo”, de Marcelo Frazão) e do seu início:

“Na rede Lázaro. Zumbidos. O irmão morto na rede. O mundo rodeando sua roda indiferente. Não se importava. Lázaro morto, narinas paradas…” Nas primeiras páginas há uma promessa de algo primordial, infelizmente não cumprida.

E no romance nem tudo é totalmente desinteressante (por exemplo, gosto da maneira como ele mostra a noite de amor, ou estupro consumado, como se queira ver, entre Jônatas e Minira, quando ele consegue raptá-la de Pasmoso e levá-la à mansão; as reações de Minira são melhor elaboradas do que qualquer outra parte do texto).

[2] Veja, leitor, alguns exemplos do “estilo” do livro (deixando de fora o desenvolvimento esdrúxulo do enredo e a tosquice dos personagens):

“Como Mallarmé, já li todos os livros possíveis e impossíveis, já li tudo, poesia, teatro, ensaio, filosofia, romance, crítica, tudo; já ouvi todas as músicas, já vi todas as pinturas e esculturas, já vi todos os filmes; tudo já passou por meus fios cerebrais, religiões, filosofias, estéticas. Que mais existe? Havia estendido baixinho, no quarto, de uma extremidade a outra, a nova antena de rádio. Nas vésperas de chuva aquele fio estirado se enchia de moscas. Pareciam andorinhas num fio de luz, sobre o fio da antena em V, dentro do quarto. Duma vez havia muitas. Pareciam ilusões pousadas no fio da vida. Contou quarenta e duas moscas. Quarenta e duas ilusões. Como fazia, pegou a bomba com inseticida e chif, chif, chif, chif, aspergiu, e uma verdadeira nuvem se enovelou no quarto. Para respirar, encompridou o pescoço para fora da janela, à girafa, até passar o cheiro. No chão, as vítimas. Quase todas. As ilusões mortas. Que farei agora? Que aprendi? Aonde vou? Que lições, que experiências retirei? Acariciava o livrinho e viu uma barata atravessando o soalho, penosamente. Uma barata agonizante pela naftalina, que andava deixando um largo rasto branco de excreção. De repente parou. Morria. Ficou revirada, amassada, torta e quebrada. Mesmo assim andava aos poucos, morrendo e vivendo de teimosia. Ainda movia as patas. Que acontecia no universo àquela hora trágica, em que uma barata arrebentada arrastava no chão a sua ruína…”

 

“A vulva dela era uma máquina cheia de bocas famintas que trituravam açougues. E meu membro era um açougue morto de fome…”

 

“Ele sabia que ele próprio  era um enigma  cheio de complexos, em cujo sangue  corriam  ricas e rubras hemoglobinas de crueldade e ira e vagos e prateados leucócitos  de cobardia e ressentimento. Já aquelas pessoas, uma rara intuição dizia de emaranhadas estruturas e muito mais complexas  e confusas raízes, uma geografia de imbricados gráficos e infinitas disparidades psicológicas.”

(resenha publicada de forma mais condensada em A Tribuna de Santos, em 07 de setembro de 2010)

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