MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

14/04/2014

THOMAS MANN E O INGREDIENTE BRASILEIRO DA SUA ALMA ALEMÃ: um pequeno dossiê

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(o texto abaixo foi publicado originalmente na revista METÁFORA 13, em outubro de 2012)

Thomas Mann conferia um aspecto simbólico ao fato da mãe, Júlia da Silva Bruhns, ser brasileira: nascido (em 1875) e educado numa época na qual teorias raciais se multiplicavam, nunca deixou de considerar tal pitada “exótica” da sua biografia um ingrediente suspeito e perigosamente ambíguo —e pior, inerente à condição de artista.

Essa visão burguesa e “careta” poderia ser um certificado infalível de obsolescência de uma obra. Por incrível que pareça, entre os grandes autores de sua época, Mann ainda é um dos mais reimpressos. Como explicar seu apelo?

Em 1924, ao publicar A Montanha Mágica, enfrentou resistências devido à forma arrojada e enciclopédica (ele mesmo faria —n´ A Gênese do Doutor Fausto (1949)— a afirmação célebre de que “no âmbito do romance, hoje só é levado em consideração aquilo que não é mais romance”). Era, entretanto, a época de Joyce, de Proust, de Kafka e, a partir dessa obra-prima, nunca deixou de ser incluído entre os gênios da prosa modernista. Conta-se que, Nobel de 1929, cogitou-se seriamente (mas sem sucesso), décadas mais tarde, atribuir-lhe um segundo prêmio, em razão da sua inacreditável produção madura: entre outros, José e seus irmãos (1933-1943), Carlota em Weimar (1939), O eleito (1951) e, claro, o avassalador Doutor Fausto (1947).

A proposta de um segundo Nobel também tinha o seu quê de mea culpa. Pois ele fora premiado exclusivamente por seu romance de estreia Os Buddenbrooks (1901). E isso nos leva à outra face curiosa dessa carreira acidentada: louvado pelo maior dos críticos marxistas, György Lukács, como o narrador épico da decadência burguesa, Mann viveu longo período como autor decadente.

Explico-me. A brasileira e de sensibilidade assaz artística Júlia casou-se, não sem tensões, com o próspero comerciante e senador Thomas Johann Heinrich, da cidade portuária de Lübeck.   Como num exemplar romance familiar freudiano, a morte do pai aparentemente resolveu o impasse entre arte e materialismo: a senadora mudou-se para a boêmia Munique e dois de seus filhos lançaram-se com sucesso na carreira literária: Heinrich e Thomas, este com seus primeiros contos e o escandalosamente autobiográfico Os Buddenbrooks.

Só que após o casamento (em 1905) com a judia Katia Pringsheim (acrescentando mais uma pitada “suspeita” à sua existência), ao mesmo tempo em que vendia muito e mantinha uma vida social bem-sucedida, Thomas mergulhou na esterilidade produtiva: durante quase vinte anos foi apenas o “autor de Os Buddenbrooks”. Nem outro romance desse período (Sua Alteza Real, 1909), nem sequer Morte em Veneza (1912, que abriria seu caminho aos poucos para se tornar um dos clássicos do século), revelaram-se soluções para o bloqueio criativo de um intelectual reacionário e apegado às formas mais chauvinistas da germanidade, como demonstrou nos ensaios que escreveu em reação à Primeira Guerra (e ao irmão Heinrich, apaixonado pela França, e que aparecia então como o mais avançado dos dois, o mais capacitado a “durar”).

Ironicamente, após tanta defesa da Alemanha contra as outras nações, nos anos 1930 ele se tornaria um célebre exilado do regime hitlerista. Talvez porque, no final, os ingredientes “suspeitos” e “exóticos” prevaleceram. A mãe brasileira sobrepujou o pai e a modernidade literária e todos nós ganhamos com isso. Pois o “paralisado” Mann da Primeira Guerra, ao morrer, em 1955, lépido e fagueiro criava mais um romance notável (infelizmente, ficou incompleto): As Confissões de Felix Krull, no qual brincava matreiramente com todos esses elementos da sua vida estranha de alemão “contaminado” pelo Brasil.

 senhorita julia

O ARTISTA E O MUNDO

  1. Tonio Kröger (1903) e Morte em Veneza (1912)Em ambos encontramos cristalizada a inquietante visão manniana da realização artística. Escrito aos 28 anos, Tonio Kröger desenvolve à exaustão e de forma lapidar (é, talvez, a melhor porta de introdução ao seu universo) o tema da posição duvidosa e suspeita do artista na sociedade. De forma que o protagonista, já um escritor famoso, ao voltar à cidade natal é confundido com um marginal foragido.Assim como ele, Aschenbach em Morte em Veneza (transformado em músico na grande adaptação cinematográfica de Luchino Visconti) mantém a nostalgia pelo mundo burguês e liga-se à sua ideologia produtiva pela extrema disciplina, procurando a perfeição formal. Na romanesca cidade italiana, onde procura se aliviar do estresse dessa existência ordeira, apaixona-se por um belíssimo efebo de 14 anos e contrai a “peste”: um momento-chave da literatura é aquele em que morre, associando Tadzio ao mar. Vagara por Veneza atordoado por Eros e não sabia que este era o anjo da morte, que o estava conduzindo para o nada. A beleza encarnada no corpo humano serve como perverso umbral para o reino onde não existem formas.
  2. A Montanha Mágica (1924)Nas listas de melhores romances do século XX, sempre aparece como a alternativa a Doutor Fausto: Hans Castorp, “filho enfermiço da vida”, nada afeito às exigências da realidade, vai visitar o primo tuberculoso num sanatório suíço, e de lá não consegue sair por sete anos. Parece condenado à inatividade e à falta de sentido do mundo burguês anterior à Primeira Guerra, mas ali, entre grandes discussões filosóficas, aprenderá (apesar da advertência do primo, “estamos aqui para ficar sadios e não mais sábios”) tudo sobre a vida até que tenha de descer da Montanha Mágica para participar do confronto bélico de 1914-1918, que mudará a Europa.Aliando o realismo simbólico que constituíra sua maior conquista em Sua Alteza Real, Mann aqui hipertrofia (de forma divertidíssima) uma feição tipicamente alemã da prosa de ficção, o “romance de formação” de um protagonista, até atingir uma apoteose do gênero: um romance total, uma forma enciclopédica quase inédita para incorporar “aquilo que não é mais romance”. Além disso, é uma reflexão romanesca sobre o Tempo que nada fica a dever a Marcel Proust.

jovem josé

3. O jovem José (1934) e José, o provedor (1943)

Na figura do imaturo e sonhador José do segundo volume de sua tetralogia, Mann revive suas obsessões: no mesmo passo em que prossegue sua investigação da invenção do monoteísmo (iniciada de forma genial com Histórias de Jacó, 1933), temos o temperamento artístico como ingrediente desestabilizador (devido à sua ambiguidade moral), mesmo na remota ambientação do Antigo Testamento.

Já exilado nos EUA e fã do presidente Roosevelt, em José, o Provedor, volume final da tetralogia (precedido por José no Egito, 1936), publicado em plena Segunda Guerra, Mann desloca seu personagem da esfera “artística”, por assim dizer, e o projeta no plano prático da existência, como administrador e símbolo da liderança democrática, que aqui aparece não só como contraposição à mitologia nazifascista, como—de forma mais profunda—também representando uma virada das suas próprias posições na guerra anterior. José tem de sair da sua “montanha mágica” e pôr mãos à obra no mundo real.

4. Carlota em Weimar(1939)

Thomas Mann sempre se identificou com Goethe. E resolveu fazer uma experiência incrível: entrar na mente do grande gênio literário alemão, num capítulo extraordinário, onde exercita o “stream of consciouness”, o fluxo de consciência consagrado por James Joyce em Ulysses, para mostrar a alquimia que se processa no interior do artista. Enquanto isso, Carlota Kestner, inspiradora da amada de Werther, o idolatrado livro do mestre, vem ajustar contas com ele e recebe, na hospedaria local, várias pessoas ligadas ao Conselheiro de Weimar: nesses episódios, Mann espelha a frustração, a incompreensão e desilusão, a par da admiração e amor, das pessoas à volta da sua própria existência. Um jogo fascinante entre personagens e pessoas reais que os inspiraram, e uma reflexão definitiva sobre o uso que o artista faz da vida dos outros e o que ele é, como ser biográfico, para os outros.

5. Doutor Fausto (1947)

Utilizando a lenda do pacto com o Diabo que inspirou a obra maior (Fausto) do seu ídolo, Mann se vale da paródia e da intertextualidade e, mais radicalmente do que nunca, de tudo “aquilo que não é mais romance” para contar a história de um músico, Adrian Leverkühn, o qual firma um pacto com o Diabo (não deixa de ser curioso que seu filho, Klaus Mann, tenha contado uma história similar no romance Mephisto, de 1936). Oriundo de cidades com profunda impregnação luterana, Leverkühn espelha no seu mergulho na genialidade (meio sinistra) e depois na loucura (consequência da sífilis) a nação alemã impregnada pelo chauvinismo nacionalista até chegar ao delírio nazista. Como síntese de suas obsessões, Mann faz com que a história seja narrada por Serenus Zeitblom, amigo do pactário, uma alma sensata, burguesa, sadia. O espectro de Lübeck e do pai ainda rondando o artista boêmio de Munique e as danações do temperamento artístico. E voltando-se às suas inquietações básicas, a capacidade de criar um dos monumentos do romance modernista, um dos raros a se ombrear com as obras de Joyce, Proust e Kafka.

Tonio Kroger 2Thomas_Mann_Joseph,_der_Ernährer_1943

11/04/2014

O MUNDO… DUAS PONTES : um bosquejo da obra de Autran Dourado

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(uma versão do texto abaixo foi publicada originalmente na revista  METÁFORA 14, em novembro de 2012, com o título  Autran Dourado: uma obra em segredo)

“Veja tudo de vários ângulos e sinta, não sossegue nunca o olho, siga o exemplo do rio que está sempre indo, mesmo parado vai mudando. O senhor veja o efeito, apenas sensação, imagine, veja a ilusão do barroco, mesmo em movimento é como um rio parado, veja o jogo de luz e sombra, de cheios e vazios, de retas e curvas, de retas e curvas, de retas que se partem para continuar mais adiante, de giros e volutas, o senhor vai achando sempre uma novidade. Cada vez que vê, de cada lado, cada hora que vê, é uma figuração, uma vista diferente.”

Desse modo, o narrador-representante da cidadezinha de Duas Pontes fornece ao visitante um modo de olhar esse ambiente provinciano e pacato. O mítico lugarejo no Sul do Minas, ao reaparecer em pelo menos 15 dos livros de Autran Dourado, sempre primará pelas retas e curvas, giros e volutas, sempre representando uma vista diferente.

Ao morrer em 30 de setembro, aos 86 anos, Autran pagava há muitos anos o preço de criar uma obra que parece recôndita, arcaica, “parada”, em suma, vivendo—como escritor—o destino de uma de suas mais inesquecíveis criações, a prima Biela: “uma vida em segredo”.  Pois ele nunca foi de modismos ou de autopromoção. E olhe que sua biografia até permitiria certa margem de sensacionalismo: afinal, acompanhou a ascensão de Juscelino Kubitschek (foi seu assessor), e não falta anedotário na Camelot tropical fundada no planalto central pelo presidente bossa-nova.

No entanto, apesar de contar (parcimoniosamente, como que de má vontade) essa experiência num livro tardio, e de certa forma muito insatisfatório, Gaiola Aberta (2000, ano em que ganhou o prêmio Camões), o confessional evidente nunca foi o forte de Autran—a prova é de que seu mais fraco romance da maturidade é autobiográfico: Um artista aprendiz (1989). Na sua ficção, preferiu transformar o período jusceliano numa paródia mítica e bizarra, meio Teogonia/ meio anatomia do modo mineiro de fazer política, em A serviço del-Rei, publicado nos fatídicos anos 1980, que trouxeram a obscuridade, a plena vida em segredo, para um escritor que nas duas décadas anteriores gozara de enorme prestígio crítico, e uma repercussão segura de suas realizações: de A barca dos homens (1961)  até As imaginações pecaminosas (1981, prêmio Goethe), Duas Pontes foi surgindo em giros e volutas cada vez mais ousados e criativos, com duas exceções importantes: justamente, o primeiro título citado, o salto de qualidade do escritor mineiro para um realismo amplo e simbólico, uma história toda passada em um dia, numa ilha; e Os sinos da agonia (1974), romance que transporta a tragédia de Fedra e Hipólito para a Vila Rica setecentista, numa trama alusiva ao período da ditadura e com uma linguagem extraordinária.

Lembrando o gosto de um dos habitantes de Duas Pontes, o dr. Viriato, pelo alexandrino de Cesário Verde, “Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!”, o mundo era… Duas Pontes; e nela está o melhor dessa obra: a história da prima Biela (Uma vida em segredo), a formação de João da Fonseca Nogueira, uma educação sentimental tipicamente mineira em O risco do bordado (1970), cuja feitura em blocos narrativos deu azo a um ensaio fascinante, cuja forma final intitula-se Uma poética de romance: matéria de carpintaria, publicado em 1976, mesmo ano de Novelário de Donga Novais, suma poética do modo de contar uma história que nos é apresentado na passagem que abre este meu texto e que pertence ao romance mais famoso e emblemático de Autran Dourado; Ópera dos Mortos. Como ali encontramos uma Antígona perdida na “vida besta” imortalizada pelo verso drummondiano, podemos dizer que Autran Dourado concordaria com Milton Nascimento quando este canta: “Sou o mundo, sou Minas Gerais.

metáfora

ANEXO (que não consta da versão da revista)

“MADRID, PARIS, BERLIM. S.PETERSBURGO, O MUNDO”: DUAS PONTES

  1. A TRILOGIA DOS HONÓRIO COTA

Publicado em 1967, Ópera dos Mortos representa um tour-de-force dentro daquele foco narrativo chamado “discurso indireto livre” pelos manuais, no qual há um narrador em 3ª. pessoa que se “cola” à consciência de um personagem que nos faz ver tudo pelos seus olhos. É assim que conhecemos Rosalina, a derradeira representante do clã mais ilustre de Duas Pontes, os Honório Cota,. Brigada com a cidade, ela se tranca no sobrado familiar e vive apenas com os “mortos”.

Numa prova de que suas histórias nunca ficam “paradas”, que tudo pode ganhar nova figuração, importantíssimas revelações (“o senhor vai achando sempre uma novidade”) enriquecem a trama de Ópera dos Mortos em dois romances posteriores, Lucas Procópio (1985) e Um Cavalheiro de Antigamente (1992).

2. EDUCAÇÃO SENTIMENTAL E FORMAÇÃO DO ESCRITOR

Em blocos narrativos de cronologia misturada, O risco do bordado (1973) é o melhor romance de Autran. É a educação sentimental de um personagem através de ritos de passagem e de traumas familiares (quase que ao nível bíblico), mas sem a segurança de um fio linear. É como uma nebulosa de onde vão surgindo os mitos da infância e da adolescência de João da Fonseca Nogueira (alter ego contumaz do autor).

E de encontros com leitores e estudantes, surgiu o relato de como esse romance foi feito, Uma poética de romance. E depois, o relato da formação de Autran Dourado como escritor, como foi tateando até encontrar suas soluções estéticas, o seu universo, a sua linguagem. E o quadro completou-se: Uma poética de romance: matéria de carpintaria. A oficina aberta para todos, Devia fazer parte do currículo dos cursos de Letras.

3. OS SINOS DA AGONIA

Apesar de não ser ambientado em Duas Pontes, é como se aqui tivéssemos a matriz arcaica, o visgo que prendeu toda aquela gente nesse universo imobilista e avesso ao estranho.

Quanto ao exercício narrativo, é puro Autran Dourado, sua quintessência. Cada parte é uma volta do parafuso da tragédia de rivalidade entre pai e filho em torno de Malvina, a Fedra que é um pouco Madame Bovary sufocando na vida besta mineira, sem possibilidade de engrandecer seu destino.

Curiosidade: o título era para ser A morte em efígie, prática jurídica em que o fugitivo era dado como morto, mesmo sem a apresentação do corpo. Era como se ele tivesse deixado de existir.

4. NOVELÁRIO DE DONGA NOVAIS & A EXTRAORDINÁRIA SENHORITA DO PAÍS DOS SONHOS

Esses dois pequenos textos, um de 1976, e outro publicado em Armas e Corações  (1978),, nos dão Duas Pontes no seu nível mais poético e original. No primeiro, um ancião que não dorme nunca e pode ser o sonhador que dá vida àquele universo. Como sempre se expressou em ditados, provérbios e rifões, é como se sua fala estivesse viva, mesmo ele tendo morrido há muito tempo. No segundo, um truculento e gigantesco fazendeiro (pois os coronéis do sutil universo de Autran nada ficam a dever aos de Jorge Amado em violência e desfaçatez) se amasia com uma anã de circo, isolando-se em sua propriedade, e ativando o “moinho de fantasia”, as imaginações pecaminosas, do povoado—por   causa da disparidade anatômica.

Em ambos, uma voz coletiva, “a gente”, fala por Duas Pontes, mostra o avesso da respeitabilidade, a libido aflorando, os germes do desassossego numa estrutura social que parecia destinada a durar eternamente…

novelas de aprendizado

 

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