MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

30/11/2011

ÁCIDO NO LICOR DE LARANJEIRA: “Pau-de-arara: classe turística” e “Livro que vende”, de Regina Rheda

     Quem não conhece pelo menos uma pessoa deslumbrada com o Primeiro Mundo, alucinada com a possibilidade de viver no estrangeiro? Quem não conhece alguém louco para transar (ou até casar) com um gringo? Quem é que nunca sentiu uma ferroada do sentimento de inferioridade por viver no Terceiro Mundo e que viu brilhando com néon na noite do subdesenvolvimento as luminosas palavras PRIMEIRO MUNDO acenando como promoção na vida? Pau-de-arara: classe turística, de Regina Rheda, é o documento definitivo sobre o surto emigratório dos brasileiros em busca de uma vida melhor no estrangeiro.
      Trata-se de um livro de aventuras. Sua heroína, Rita Setemiglia, nunca mais sai da cabeça de quem a conhece. Isso não é novidade para quem leu a coletânea de estréia de Rheda, Arca sem Noé, pois se a autora paulista consegue em poucas palavras e alguns traços característicos criar personagens memoráveis, como nos contos daquele livro, imagine então uma heroína que sai do Brasil e vive peripécias na Inglaterra e na Itália por duzentas páginas!
Sovina Rheda! Por que apenas duzentas? Por que deixar o leitor nesse estado, querendo mais Rita Setemiglia?! Se o romance tem algum defeito é o de acabar muito rápido.
       Em Londres, em meio a perversões sexuais de uma patroa portuguesa, uma paixonite pedófila pelo filho imberbe de outros patrões (ela se transforma numa au pair), transas hilariantes pelas british nights, nas quais pubs, jaquetas, blues e artistas performático-alternativos (e muitos imigrantes) se misturam, Rita tem crises de auto-estima: atravessou o oceano, é formada pela USP, cineasta, seu inglês é o da Cultura Inglesa, e ela está passando pelas mesmas humilhações, tendo o mesmo destino de todos os brasileiros obscuros: a total insignificância. Não importa que a pessoa seja “descolada”, que se dê (ou dê) um pouco melhor, ela sempre é imigrante e veio do Terceiro Mundo.
         Rita, no entanto, tem por trás de si uma escritora que é um twister não registrado por nenhum sismógrafo, mas que varre do mapa qualquer concepção politicamente correta (mostrando pensamentos que todos temos em certas situações, sem que tenhamos coragem de confessar), qualquer deslumbramento. Não poupa ingleses, italianos, brasileiros, deslumbrados ou descolados, e nem a própria heroína, irresistível por certo, porém egoísta e maldosa, escrevendo cartas para uma amiga onde fala mal de outra, e pedindo para pular o “trechinho” se porventura ler para a vítima a missiva.
       Só que ela é engraçada demais. Veja-se um trecho da carta em que descreve os Blakemore, pais do “potro” Brian, com sua crina loura e a calça de uniforme que ressalta o “incipiente rochedo” (e para o qual, num momento de despeito, ela prevê que o tempo o transformará , “a exemplo do pai, num suado pangaré”):
       “Você não acredita na imundície que são as calcinhas da patroa e as cuecas do marido… A máquina chacoalha, lava, esfrega, perfuma, depois enxuga e seca, e devolve quase todas as peças limpinhas, menos as calcinhas e cuecas da sra. e do sr. Blakemore, que continuam encardidas. Porque ali, minha filha, nem a mão do Cristo Redentor consegue resolver. Nem Nossa Senhora, pondo para quarar entre as nuvens do céu, e tão pertinho do sol, faz o milagre de limpar aquelas porcarias… O sr. Blakemore, então, parece que tem um vazamento no fiofó…”
      E, na Itália, quando resolve economizar na alimentação e procura uma entidade que ajuda os necessitados, misturando à massa que espera ser atendida. Espera?!!!:
      “… eles se comportavam como macacos agarrados à jaula e gritando por comida. Mas me meti no meio deles, fazer o quê? Não podia dar uma de pobre orgulhosa. Consegui agarrar uma barra da grade e ali fiquei, esticando o braço com o passaporte na mão. Senti cheiro de cecê, chulé e mau hálito. Fiquei com tanto medo de pegar piolho da pobraiada que meu couro cabeludo começou a coçar… Mais tarde, fiquei sabendo que a pobraiada era formada por africanos, marroquinos, filipinos e ciganos poloneses”.
      O leitor ri bastante durante a passagem do tornado Rheda, só que descobre, a seguir, que nada ficou em pé à sua volta. É uma comédia da vida privada, só que muito melhor do que aquelas historietazinhas insossas de Luiz Fernando Veríssimo, as quais apenas alimentam o bicho-preguiça mental que a televisão embala como uma “au pair” dentro de nós.
          É pena que a respeito de um livro tão maravilhoso e devastador, o que se tenha a falar será sempre pouco e insuficiente. Só a parte da estadia de Rita numa aldeia italiana com o nome impagável de Gentiluomo Calabrese já merecia uma resenha à parte, bem como toda a descrição do mundo feminino, que mostra o olhar agudo e implacável com que Rheda observa o mundo. Das amigas que ficaram no Brasil às inglesas esnobes ou complacentes, da baiana que se descola na Europa à feroz matriarca calabresa, todas as mulheres desse romance picaresco compõem uma galeria de quadros onde se roçam o hilário e o grotesco.
      E já que o deslumbramento com o Primeiro Mundo dá o tom desta resenha, o autor pede licença para roubar as palavras de John Leonard, crítico do New York Times, utilizou para caracterizar Anne Tyler, autora de O turista acidental:
       “Fascinante, graciosa, curiosa, com ouvidos de radar e a pena mergulhada em ácido numa página e em licor de laranjeira na seguinte, uma escritora maravilhosa”.
           Palavras que, aqui no Terceiro Mundo, cabem como uma luva para Regina Rheda.
          Na sua bagagem de volta da Europa, Rita Setemiglia traz (às custas do desejo impossível de ser de um Primeiro Mundo que será sempre estranho a nós e o qual, ele mesmo, esboroa-se visivelmente) preciosas divisas para a inteligência nacional.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 24 de setembro de 1996, e aqui ligeiramente modificada)


PARÃMETROS EXTRACURRICULARES


       Livro que vende, de Regina Rheda, nos deixa insatisfeitos no final da sua leitura. Pela avareza da autora. É a mesma reclamação que fiz com relação a Pau-de-arara: classe turística (seu maravilhoso romance anterior; e ainda temos as duas coletâneas incríveis, Arca sem Noé & Amor sem-vergonha): por que sonegar tanto seu talento, por que apenas 174 míseras páginas de trama?
Pois certamente não se trata de fôlego curto: esse novo texto, o mais complexo que já publicou até agora, é superpovoado de personagens, fragmenta várias linhas narrativas, compondo um mosaico que, inclusive, experimenta diversos procedimentos (incluindo um longo “poema de cordel”, o Rockordel, ao final), o que naturalmente traz dificuldade para comentar um material tão rico e variado, com a marca da prosa anárquica e cruel que vem se destacando em nossa ficção nos últimos dez anos (em 94 foi lançado Arca em Noé).
          Então, a solução é dar uma idéia desse livro original apenas perseguindo um dos fios da sua meada, justamente o que justifica o título (um tanto sem apelo, é preciso dizer): a disputa ente dois autores de coleções didáticas da editora Tornatore, Sandoval Cafeteira e Liamara Minestrone:
       “Dez anos de trabalho consistente junto à Tornatore, e a professora Liamara Minestrone nunca tinha recebido qualquer sinal de reconhecimento por parte da direção. Naquela editora se dava melhor quem fosse mais incompetente. Para Sandoval Cafeteira, por exemplo, notório imbecil, preguiçoso, prepotente, pagavam sete pareceristas, contratavam o planejador gráfico de fora, investiam até em ghostwriter. Já para dona Liamara, professora e autora séria e criteriosa, que entregava a obra praticamente pronta, escrita, reformulada e atualizada de próprio punho, davam o pior copidesque, os pareceristas mais mercenários e negligentes. Se dona Liamara não ficasse de olho, era capaz até de o Douglas roubar meia hora das reuniões com ela para aumentar o tempo de reunião com Cafeteira”.
        Após várias peripécias (entre elas, o envolvimento de Cafeteira com sua copidesque, Maritza Santacatarina, uma espécie de versão mais despudorada da inesquecível Rita Setemiglia de Pau-de-arara: classe turística; e seu casamento com a filha adolescente de Douglas, o editor), o despeito de dona Liamara (com sempre, o mundo de Rheda é povoado de nomes maravilhosos) atinge o auge quando, na suprema farsa da Educação dos últimos anos, a dos Parâmetros Curriculares e os subseqüentes livros recomendados pelo MEC, por se adequarem a eles (leia-se o jogo de interesses de editoras poderosas, tais como a Ática, Scipione, Saraiva ou Moderna, ditando a adoção de suas coleções), a série “A Magia da Ciência”, de Cafeteira, recebe três estrelas, ficando apenas duas e meia reservadas à da dedicada professora Minestrone, “Gramática com Alegria” (esse nome da coleção já valeria o livro, não?). Ela, então, furibunda, resolve sabotar (com a ajuda de um cúmplice, copidesque carola da Tornatore que odeia Cafeteira & Maritza) um dos experimentos sugeridos em “A Magia da Ciência”.

        O livro que vende se torna uma arma, ao deixar crianças com rostos e mãos em carne viva, o que tumultua transações multinacionais (a Tornatore está prestes a ser vistoriada por executivos americanos), expondo a figura de Maritza (que morreu no início da história) e o misterioso “Rockordel”. Mas qual é, realmente, o livro que vende? Apesar das duas estrelas e meia, a “Gramática com Alegria” de dona Liamara se torna o best seller didático, com três milhões de exemplares vendidos. Isso não importa: a experiência explosiva já foi camuflada no livro de Cafeteira e o estilo insidioso, corrosivo, impiedoso de Regina Rheda já entrou em ação para deixar as mãos e rostos de qualquer sentimentalismo ou complacência em carne viva. Cristo pode estar na veia das bandas religiosas moderninhos (ah! isso, e muito mais, aparece no romance também), só que cada um está por si e Deus contra todos. Bendita Rheda.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 20 de abril de 2004, aqui ligeiramente abreviada)

A SEM-VERGONHICE GENIAL DE REGINA RHEDA

Esta resenha vai ter de apelar para a sua imaginação, leitor. O assunto, aqui, é um livro pornográfico, Amor sem-vergonha, de Regina Rheda. Será, portanto, um texto que pudicamente se auto-censura e pede a colaboração da sua fantasia. Mas a pornografia não é isso mesmo?

    Em  Amor sem-vergonha, composto por dez contos que Rheda escreveu para uma “revista de mulher pelada”, segundo ela mesma, onde há pelo menos uns quatro com títulos impublicáveis, e, no mínimo, umas cinco obras-primas, o leitor encontrará: um homem apaixonado pelo próprio membro; um sessentão que precisa de uma violenta fantasia sexual para satisfazer a esposa no aniversário de casamento, única data em que ainda mantêm relações; dois marginais que procuram satisfazer a gula e as necessidades de uma garota seqüestrada; uma mulher a qual, entediada em uma daquelas excursões naturebas que se revelam verdadeiros programas-de-índio, procura arranjar um parceiro sexual para matar o tempo (esses são os contos com títulos impublicáveis); um viciado em sexo anal com mulheres que procura ajuda terapêutica (“O vício”); um marido infiel que descobre na protagonista do filme pornô visto no motel a esposa (“O supermotel”); o homem casado que resolve seduzir a ninfeta que o melhor amigo trouxe para um fim-de-semana em comum entre casais (“Uma promessa de amor e sexo”); um erudito alemão que se apaixona por uma puta carioca (“A princesa encantada”); uma mãe fogosa que tem o péssimo hábito de transar com os namorados da filha (“Coração de mãe”); dois casais vizinhos que se traem mutuamente (“Entre amigos e vizinhos”).

    Mas em se tratando de Regina Rheda a coisa vai mais fundo (sem trocadilhos), apesar da superfície graciosa e radiante. Antes de mais nada, nunca é demais exaltar a perícia com que ela trabalha as histórias, fazendo com que os contos fiquem estruturalmente perfeitos, redondos, sem uma palavra a mais ou a menos.

     Depois, é impressionante como, ao narrar as situações, a autora paulista desvela cirurgicamente, na verdade, a codificação que as pessoas fazem das fantasias sexuais, as “receitas” que compõem o limitado imaginário sexual. Nessa perspectiva, as maiores vítimas dos contos são justamente os aparentes destinatários: os homens. Na maior parte dos casos, a situação erótica reverte contra o próprio macho, que fica recoberto de ridículo, como o protagonista do fantástico “Uma promessa de amor e sexo”, o qual pensa estar levando a melhor sobre o amigo e ao fim e ao cabo está sendo enganado por ele: a “ninfeta” é uma profissional contratada para distraí-lo, deixando o terreno livre para que o amigo e a esposa continuem seu romance.

    Os nomes dos personagens de “Uma promessa de amor e sexo” são Aldelair, Lourival, Gorete, Daphne Verônica. Nos outros contos desfilam Josmaracindo, Adamastor, Noelandy, Havanir,  Munhoz, Eloá, Leilane, Oberdã, Edileusa, Edimílson, Nádia Helena, Dulce Jane, Gildete, Noronha, Gaudêncio. E, entre fantasias e situações codificadas pelo repetitivo repertório pornô do ser humano, destila-se a crueldade com que Rheda vê o cotidiano, e a crua precisão com que consegue, com um mínimo de recursos, caracterizar uma pessoa, um lugar, uma situação. Humorista e perversa por natureza (uma perversidade humorística que nada tem a ver com perversidade sexual, pois não há nada de bizarro nas situações apresentadas), cada vez mais, a cada livro que publica, a autora do sensacional Pau-de-arara: classe turística, me lembra, guardadas as devidas proporções, o estilo de Vladimir Nabokov, o grande autor de Lolita e Desespero, no qual as complicações sexuais das tramas eram apenas engrenagens do motor do seu “veneno retórico”.

    Veja-se “O supermotel”, um dos melhores momentos (e um dos momentos citáveis) da coletânea. Munhoz e Leilane, sua secretária, vão para o motel, que “misturava estilos arquitetônicos diversos a complicados arabescos paisagísticos, e objetos caríssimos de gosto duvidoso a equipamentos de alta sofisticação”. Em poucas, seletivas, implacáveis palavras, temos um “perfil” da secretária, cuja reação ao motel assim descrito é: “Que luxo… Se eu tivesse dinheiro, compraria um lugar assim para morar”. A secretária, na ótica de Munhoz, é um estouro. Porém, em certo momento, ela coloca os óculos “que combinavam tanto com a sua nudez deliciosa quanto os objetos de decoração do motel entre si”.

    Portanto, Regina Rheda, essa humorista que Deus (que não é bobo) mandou para a terra aliviar nosso tédio e afiar nossa mente com o gume da sua inteligência, mesmo escrevendo para uma revista masculina não conseguiu fugir do seu estilo e da sua percepção peculiaríssima das comédias da vida privada, que se desenrolam com pessoas que podem ser qualquer um de nós, nossos amigos, parentes e vizinhos, que pensam “naquilo”, enquanto  passam óleo de urucum para bronzear o corpo ou repelente para espantar muriçocas, ou quaisquer outros detalhes comezinhos que não escapam do olho vigilante de um dos maiores talentos surgidos nesta década.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 17 de junho de 1997, aqui ligeiramente modificada)

 
 
 

A difícil decisão: ser Jonathan Swift ou Marina Silva (entre a veia satírica e a “seriedade” da mensagem militante)

humana festaregina rheda

  A FESTA HUMANA E O SOFRIMENTO DOS ANIMAIS        

    Regina Rheda, um dos grandes talentos da nossa ficção atual, já há alguns anos mora nos EUA e milita pelos direitos animais e em prol do veganismo (o qual vê os animais como escravos explorados pelo ser humano). Após quatro irresistíveis livros, em Humana Festa, seu terceiro romance, resolveu expor suas idéias a respeito. O que será que predominou: o talento narrativo ou a pregação?

    O humor e a sátira são a especialidade de Rheda e aqui ela não poupa ninguém, nem veganos nem sectários da “cultura da carne” (uma das várias expressões ridículas que aparecem na história, tais como “paradigma hierárquico especista”, para não falar do uso de termos totalmente inadequados como luta abolicionista, escravo e campo de concentração em se tratando de animais).

    Há duas linhas narrativas. Uma delas envolvendo as americanas Megan e Sybil, ambas militantes veganas, que têm problemas com seus homens: o marido de Sybil, um chef, sabota sua dieta com produtos animais; o namorado de Megan, o brasileiro Diogo, um neófito nos arcanos da alimentação não-carnívora, titubeia a princípio, mas acaba aderindo com entusiasmo, o triste é que ele pertence a uma família de latifundiários que vive da exploração pecuária. A outra envolve dona Orquídea, colona de uma das fazendas da família Bezerra Leitão, da qual Diogo é herdeiro, uma matuta que também não aprecia o culto da carne e que sente desgosto em ver os porcos chafurdando, presos, no chiqueiro: “Para ela, a idéia de que animais com olhos de gente gostassem de viver metidos em excrementos carecia de tanto bom senso quanto a de que seres humanos gostassem de comer animais imundos como porcos de chiqueiro. Mas que sabia dona Orquídea? Não sabia coisa nenhuma, não mandava nem em si mesma. Os homens e as mulheres da fazenda, empregados e patrões, gostavam tanto dos pratos feitos com animais imersos em merda que chegavam até a celebrar o nascimento do próprio Menino Jesus com leitoa a pururuca, farofa de lingüiça e presunto tender…”

    As duas linhas se encontram quando Megan visita a fazenda dos pais de Diogo e dona Orquídea é contratada para cozinhar especialmente para ela, acarretando um disse-me-disse entre as empregadas da casa, numa guerra de picuinhas que resulta em greve, no escancaramento das tensões sociais do latifúndio e até numa inesperada conscientização política de dona Orquídea junto a sindicalistas, sem-terras e ambientalistas.

    A caracterização da família Bezerra Leitão é um primor, mesmo que irritem aqui e ali as liçõezinhas de moral embutidas no livro. Com o desenvolvimento da história, porém, tudo vai ficando mais integrado, embora eu considere sua conclusão precipitada (com relação aos eventos brasileiros) e mal ajambrada ao concentrar o clímax nos eventos americanos.

    O que não dá para entender mesmo é como uma defensora de uma boa causa dessas (afinal, o sofrimento dos animais nos rodeia, basta ver os cavalos explorados na nossa região, um dos maiores escândalos sociais que o cidadão é obrigado a suportar, sem falar no triste destino das pombas, transformadas em mendigas urbanas pela humanidade, e ainda vilipendiadas e perseguidas) se deixa levar pela frivolidade e escolhe porta-vozes personagens tão hilárias e folclóricas quanto Megan ou Sybil (elas pertencem àquela categoria de chatos que utilizam sua ideologia para aporrinhar a vida alheia, porque não só querem que as coisas mudem, mas que a linguagem seja antisséptica e purificada também). Na relação entre elas entra, todavia, um dos charmes perversos (e recorrentes) do universo de Regina Rheda: para além da sua orientação ideológica bom-mocista, há todo um mundo de intriguinhas e perfídias femininas, competição, rancor, que também se entremostra na relação patroa-empregada (Dona Marcela e Vanessa, parentes, de Diogo, e dona Orquídea), enquanto elas tecem críticas cruéis ao universo machista e patriarcal. O roto falando do esfarrapado. E os animais pagando o pato.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 13 de junho de 2009, aqui ligeiramente modificada)

 LEITURA DIA A DIA DE “HUMANA FESTA”

Primeiro dia de leitura (09.06.09)  

   Gostei muito dos quatro livros anteriores de Regina Rheda. São duas coletâneas de contos, Arca sem Noé e Amor sem-vergonha e dois romances, Pau-de-arara: classe turística (ainda o meu favorito) e Livro que vende (o mais complexo literariamente). Esta semana me ocuparei do seu terceiro romance, Humana festa. De saída, coloco o problema: ao longo dos últimos anos, Rheda aprofundou sua militância “vegana”, indo além do vegetarianismo: é o ativismo em defesa dos direitos dos animais (é preciso dizer que os animais na verdade não têm direitos? -isso é uma concepção antropomórfica; o máximo que podemos desejar, e mesmo isso é muito pouco factível, é que o ser humano, tendo poder sobre os animais, os tratem “dignamente” –eis outro termo antropocêntrico; agora, como esperar isso, se aqueles que detêm o poder e fazem as regras, que somos nós, vivem entre si tão caotica e indignamente?).

      O que eu queria (não sei se será possível) é abordar Humana festa de um ponto de vista estritamente literário.  Tomo como precedente, por exemplo, um dos livros que mais amo, Mulheres apaixonadas, de D.H. Lawrence: há toda uma parte insuportável em que um dos protagonistas, Rupert, faz preleções “vitalistas” e emancipatórias que irritam qualquer um (mas também o que esperar daquela paisagem demoníaca em que as minas de carvão dominam tudo e fuliginizam até as almas?). Mesmo asssim, ele não consegue atrapalhar a imensa beleza do romance. Há também o fato de que Tolstoi e Doris Lessing, as duas únicas autoridades “morais”, por assim dizer, que eu reconheceria na minha vida de leitor, também às vezes serem chegados a uma doutrinação, a uma reeducação existencial.

    Tudo somado, o que encontrei nos três primeiros capítulos e 103 páginas do romance de Regina Rheda que li entre ontem e hoje?

    No primeiro capítulo, conhecemos o casal Megan- Diogo; ela, americana e vegana radical, que está fazendo uma tese comparando aspectos veganos na poesia de Shelley (que, aliás, forneceu o título do romance) e na prosa de Coetzee, que na minha opinião escreveu o mais impressionante romance da atualidade, Desonra; ele, brasileiro, filho de fazendeiros que exploram animais, mas que está se convertendo à ideologia da namorada, enquanto estuda problemas ambientalistas numa universidade da Flórida. Quando começa a história, ele a está levando a uma pequena cirurgia para extirpar um tumor indicativo de uma forma menos agressiva de câncer de pele (e no trecho em que uma especialista dá o diagnóstico, Rheda já mostra suas garras inconfundíveis: “Se você tiver de ter um câncer, é o melhor câncer para você ter”).

    Se eu não conhecesse a obra de Regina Rheda, mesmo com a frase citada, teria desistido do livro nesse primeiro capítulo. Não posso imaginar nenhuma pessoa mais insuportável e pentelha do que Megan, e só posso crer que a autora esteja tirando sarro de posturas como a dela. Se estiver endossando (e essa dúvida me corroeu durante toda a leitura até agora), creio que só posso dar um sorriso amarelo diante de uma tipa que anota todos os comentários “especistas” (ou seja, que denigrem os animais, ou que comparem  comportamentos humanos a supostas características animais, como no caso dos xingamentos de trânsito). Sendo uma escritora irônica por natureza, ela sabe que tais comentários nada têm a ver com os animais, é a velha e básica linguagem figurada, que usamos (e que eu amo). Só faltava o politicamente correto chegar aí. Aliás, a linguagem do politicamente correto é apenas um pretexto para o velho patrulhamento ideológico: a linguagem sempre será toldada pelas nossas referências, nossos limites, e portanto, nossos preconceitos, para isso existem a paródia, a ironia, a sátira, a diatribe. Megan é como os comunistas e esquerdistas obtusos, os evangélicos fundamentalistas e os eco-chatos que já conheci na vida. Há sempre uma ideologia que serve como uma luva para gente mal resolvida e neurótica aporrinhar o próximo. Os animais têm direitos ?, eu também tenho, de não ser chateado. O capítulo tem até um episódio constrangedor no seu mau-gosto, quando Diogo não resiste a comer galinha frita, contrariando todas as promessas veganas que fez à ridícula amada.

     Felizmente, não parei. No segundo capítulo já entramos nos esplendores do mundo-Rheda. Há um comentário na 4a. capa (justamente sobre Pau-de-arara: classe turística) em que  Bernardo Ajzenberg diz o seguinte: “Bem-humorada e despretensiosa, a linguagem de Rheda foge de clichês e carrega em descrições saborosas”;  só concordo com a fuga de clichês, não acho Rheda nada despretensiosa e muito menos apenas saborosa. Para mim, ela é como Anne Tyler, uma escritora em que uma aparência de bonomia e suavidade oculta uma visão ácida da vida e das pessoas. E é esse ácido que permeia a visita do casal Diogo-Megan à casa da mãe desta, Sybil, tão radical quanto a filha (e que mora com um chef, Bob, que impera na cozinha, enquanto Sybil e seus 12 gatos pretos, com nomes musicais, que aliás dão nome aos capítulos do romance, imperam no resto da casa). O veneno das relações humanas é mostrado sem dó nem piedade: a mãe sempre distante, a filha subserviente, que até ignora o namorado, que se ressente com a mãe; o ciúme que a filha tem da mãe, que lhe rouba os namorados… enfim, as unhas estão afiadas e toda a narrativa enfatiza esses aspectos dúbios e deletérios das relações humanas mínimas. Diante disso, não levei mais a sério a ideologia das duas “preciosas ridículas” do veganismo, Sybil (esta já imagino como alguma atriz histrionicamente folclórica de hollywood, quase uma Kim Cattrall) e Megan, com sua risível mania de dar um sentido útil  a todos os atos (se mãe e filha vão conversar a sós, têm de fazer alongamento juntas), O QUE É SE DAR MUITA IMPORTÂNCIA NO CONJUNTO DAS COISAS. Quase que dá para querer ser caótico, machista, mal educado, troglodita, patriarcal e retrógrado diante de um cotidiano desses. Volto a dizer:  não vejo como é possível que Rheda se identifique com ela ou que não as esteja caricaturando cruelmente.

      Porém, o perigo não está nelas. Está em Diogo, o personagem mais identificado com o público em geral e que está se rendendo aos arcanos do veganismo. É por meio dele que a pregação se torna sub-reptícia e malsã. Felizmente, como falei, há a observação perfeita das relações humanas nada veganas, e o próprio Diogo é explorado num campo que Rheda domina perfeitamente: o das manifestações fisiológicas do nosso organismo.  É aqui que reconhecemos uma perita nos segredos do veneno retórico.

     Ainda não consegui julgar com muita exatidão o terceiro capítulo (vamos ver o conjunto do romance). Representa uma guinada para o mundo rural brasileiro e nele Rheda mostra que está dominando todos os recursos do seu ofício, escrevendo bem para caramba. Ela mostra uma senhora rural, dona Orquídea, que tem horror à matança dos bichos, mas que tem de preparar comida para o filho, para os vaqueiros, para os patrões, enfim, um inferno de tripas, cortes, degolas, depenações, etc. O filho tem uma paixonite pela sobrinha do fazendeiro (pai de Diogo), Vanessa, que aparece aqui e ali, come da comida dos pobres (e, bulímica, depois vomita tudo às escondidas), e que com a desfaçatez de quem manda, às vezes alivia a vida dos bichos que cercam a casa dos colonos, mais talvez por capricho do que por convicção. Tudo é muito bem caracterizado, muito vívido, inclusive pelo contraste com as cenas anteriores, só me incomoda o seguinte: como falei, Rheda está senhora do seu ofício, para o bem e para o mal. Ela aproveita cada parágrafo, cada observação, cada pensamento para fazer sua doutrinação sobre os males que os humanos inflingem aos bichos, fica na cara que tudo serve a esse propósito. Ela até carrega nas tintas: o filho de Dona Orquídea está no córrego tendo um devaneio sexual com Vanessa e aí aparece a porca Mortandela e ele, interrompido (e com medo de ser apanhado em flagrante e ridicularizado, de pau duro com uma porca por perto) lhe dá um chute que a deixa manca. Precisa? Mais sutileza, dona Rheda.

     Mas ao longo desta semana veremos se vence o talento narrativo ou a doutrinação…

Segundo dia de leitura (10.06.09)

    Ontem eu me perguntava se o talento narrativo seria páreo para enfrentar a pregação e a doutrinação em Humana festa, de Regina Rheda, escritora que tenho acompanhado desde o seu primeiro e inspirado livro, a coletânea Arca sem Noé (os contos todos se passavam no mítico e babélico edifício Copan de São Paulo, e a autora ganhou o Jabuti na categoria), em 94 ou 95, e que desde então considero um dos grandes nomes contemporâneos da ficção brasileira.

    Pois tenho a alegria de informar que sim, o talento falou mais alto. Pelo menos é o que penso após a leitura de seis capítulos e 211 páginas, em especial o sexto capítulo, “Lá”, onde encontramos a autora muito à vontade e em plena forma narrativa. Mas antes, é preciso passar pelos espinhos: os problemáticos capítulos 4 (“Fá”) e 5 (“Sol”).

   O quarto capítulo foca a briga/separação entre Sybil e o marido Bob porque ela descobre (por intermédio da filha, que soube por meio do namorado brasileiro) que o marido, que é quem preparava a comida, sabotava sua dieta vegana com produtos animais camuflados. A situação é engraçada, os diálogos são ótimos, Bob é um personagem maravilhoso, e cheguei à conclusão de que realmente Rheda só pode ter criado Sybil com seu instinto cômico e caricatural (uma de suas falas me fez rir muito: “Vivo dizendo isso para ver se você entende por que o aspecto central da luta abolicionista tem de ser a ênfase na dieta!”)  .

       Minha implicância com o capítulo vem de dois fatores:

a) no fundo, Bob é uma caricatura do homem, sempre coçando o saco, varzeano, tosco e simplório nas suas expectativas de resolver os problemas sem ter de esquentar muito a cabeça. Ele é uma realização dentro do que Harold Bloom chama, muito sabiamente, de  “escola do ressentimento” por parte de escritoras feministas, escritores gays, escritores de raças oprimidas, etc. Uma das escritoras-pontas de lança da “escola do ressentimento”, na acepção de Bloom, é justamente Alice Walker (A cor púrpura) que fornece uma das epígrafes de Humana festa;

b) a caracterização da ex-companheira de Sybil, Karen, que está cuidando de um santuário de elefantas maltratadas. Sou muito implicante ou será que esse santuário transformou as elefantas num grupo de lésbicas? A homologia entre um grupo sapatal e as paquidérmicas resgatadas da opressão humana (ou do homem?) é tão gritante, que me pergunto: será que essa é a visão de Regina Rheda dos militantes das boas causas? Todos que ela apresenta são grotescos, hipertrofiadamente caricatos (aliás, um dos muitos pontos problemáticos desse livro é que ele nos afasta dos personagens, ao invés de aproximarmos dele, não sei se essa era a intenção da autora, todos são quase bufões; até os animais são antipáticos, veja-se os doze gatos de Sybil: tenho cinco gatos e nunca vi uma descrição tão irritante de indolência e esnobação, parecem nobres do ancien régime, ninguém sente a menor simpatia ou empatia por ou com eles, e aliás ninguém seria atraído por nenhuma boa causa através do livro).

trecho: “Observou as elefantas. Pareciam mais calmas. Quem sabe a matriarca Malásia abraçasse Mirna com a tromba. Karen já vira essa prova de amizade uma vez, no monitor do escritório, para o qual uma câmera instalada perto do lago transmitia imagens durante o dia. Era possível que o gesto de carinho se repetisse com frequência.”

     O quinto capítulo é simplesmente um caso de enxerto. Se eu estivesse lendo Humana festa antes de ser publicado, diria à autora que o capítulo está sobrando, apesar de ser mais uma volta do parafuso na crueldade e desfaçatez humanas (ou do homem?). Exímia contista, foi isso que Rheda escreveu: um conto, destacado do corpo principal da trama. O dr. Stanley, que operou o tumor  “inofensivo” de Megan se afeiçoa a um pássaro (um corvo? uma gralha?) que faz repentinas aparições no seu campo de visão. Caçador que é, resolve o problema de manter o pássaro junto a si matando-o e mandando-o empalhar.

     Bem, após passar por Cila e Caribde, pela caricatura malévola e pelo texto enxertado, chegamos ao que realmente interessa: o ótimo capítulo 6, um alentado exercício narrativo que vai da pág. 139 à pág. 211. O capítulo começa com dona Orquídea, que não gosta de comer carne, ou seja, é uma vegana naîve, indo trabalhar uma semana na casa grande dos Bezerra Leitão para preparar comida vegana para Megan, a namorada em visita aos donos da casa. Já de cara há a maravilhosa situação de picuinha das outras encarregadas da cozinha, que ficam despeitadas, numa “rebelião de picuinhas”,  inclusive porque dona Orquídea vai receber o dobro delas: “O disse-que-disse chiava na fritura, jorrava da torneira”

      Depois se passa para um banquete, onde são apresentados todos os membros da família, seus visitantes (um padre, parentes de fora), com uma verve e uma simultaneidade que só me lembro de encontrar nos maiores filmes de Robert Altman (por exemplo, Cerimônia de casamento, uma das obras-primas do cinema americano). Ninguém escapa (esse efeito de conjunto em que todos se tornam caricatos não incomoda tanto quanto a distância que a autora nos impinge dos personagens quando são focalizados sozinhos ou em cenas mais íntimas). Entre as vinhetas mortíferas, há o primogênito que não serve para nada e que resolve escrever poemas: “Tiago não suportou o vexame de decepcionar os pais. Esfacelou-se. Ao se recompor, viu-se um homem de idéias.  Rabiscou poemas, poucos demais para formarem um livro. Consolidou-se poeta inédito”. Eis aí, senhoras e senhoras, o que Regina Rheda tem a oferecer para nós, leitores, seu talento para a pincelada assassina. E eu apenas escolhi um exemplo, embora a personagem que roube a cena aqui seja a mãe, dona Marcela, surpreendida por uma greve das mulheres da cozinha, capitaneadas pela até então insupeita dona Orquídea (outro momento maravilhoso, é quando Diogo traz os empregados para cantar o parabéns para você junto dos convidados, fazendo com que dona Marcela literalmente fique com cara de parabéns).

     Nossa solerte autora quase estraga seu inspirado capítulo porque, como já disse ontem, o perigo sempre esteve em Diogo, já que no primeiro capítulo ela no-lo apresentava como neófito da filosofia vegana, é claro que seria ele que faria o discurso “resumindo” os princípios que regem o livro (enquanto doutrinação, bem entendido). Instado, pressionado mesmo, pela família, a se manifestar sobre o assunto, ele resume as idéias pró-direitos dos animais para que nós, leitores comuns, fiquemos informados do básico. Não é um recurso ilegítimo, longe disso, só é irritante, principalmente quando lemos:  “Acho que a melhor forma de responder a questão das plantas é resumir a teoria dos direitos animais“, começa o nosso herói, expondo as idéias de Tom Regan (de que os animais são alguém, não coisas,são seres complexos) e de Gary Francione (não importa a complexidade dos animais, basta vê-los como seres sentientes, que sentem dor,medo, e por isso é necessária a luta abolicionista).

    Depois do banquete, há um tour-de-force em que diálogos diferentes são apresentados simultaneamente (dona Marcela e o marido comentando a atuação de Diogo, o filho preferido para assumir os negócios da fazenda, na história da greve das empregadas da cozinha; Diogo e Megan comentando o mesmo episódio sob outro prisma; um grupo reunido na venda do Norato, sem-terras, ambientalistas, sobre as modificações tecnológicas introduzidas pelo fazendeiro e que vão alijar os homens do campo dos seus empregos).

     A partir daí nos afastamos da casa-grande e vemos que dona Orquídea, pasmem, está participando da assembléia, assimilando que sua atitude da vida toda (não comer carne) tem uma aplicação política. Aliás, numa das viradas típicas de Rheda (basta ler Livro que vende) a ação já passa para outro nível, incluindo sabotagem das coisas da fazenda, soltando os porcos da construção onde estão sendo presos, e a nossa amiga já quer participar da ação radical. No meio de tudo, discussões políticas prementes e importantes são colocadas no texto, da maneira correta: como forma de expressão da verdade de cada personagem, e em debate, não como pregação absoluta.

      Um capítulo e tanto.

Terceiro dia (11.06.09)

    Humana festa continua crescendo no meu conceito. O sétimo capítulo (“Si”), bastante longo também, provou-se tão bom quanto o anterior, se não melhor, já que indica um aumento na intensidade da trama. Curiosamente, no capítulo 6, tinha lido “que o motor da história não é o vegetarianismo, nem o veganismo, nem o ambientalismo, nem o veadismo e nem o caralho a quatro, mas sim a luta de classes”, fala de Pé-de-Anjo, um dos personagens, que poderia muito bem ser tomada como mais uma das brincadeiras caricaturais da autora, embora seja (anacrônico que sou) o que eu penso da vida. E não é que “Si” confirma essa fala? Vanessa se revela: irritada com dona Orquídea, revela a representante da classe patronal que escondia sob um comportamento caprichosamente “paternalista” e sentimental: “Vanessa esbugalhou os olhos, arreganhou as narinas, espichou os lábios em um bico. Dona Orquídea levou um susto. Nunca tinha visto uma moça tão linda se enfear tanto, tão rápido”. A patroa improvisada obriga nossa heroína a capinar erva daninha para benefício de Megan, que quer ver a colona em “ação”. Esse momento de intimidade entre Megan e dona Orquídea, apesar das diferenças entre as duas, é o momento mais simpático da veganista no romance até agora, o momento em que Rheda a torna mais humana e próxima do leitor, e também é um dos melhores momentos de Humana festa porque aqui também dona Orquídea adquire uma humanidade mais premente (há termos ridículos e imprecisos, e que não servem para nada, no capítulo, como nos outros, como chamar os cavalos de “escravos” e a edifício dos porcos de “campo de concentração”, “cultura da carne”, porém o estilo da autora está tinindo: na chegada de Vanessa e Megan, dona Orquídea que tirava um cochilo roubado dos patrões e do filho após tantos anos “acordou com o atropelamento de um sonho por um carro”; outro exemplo da graciosidade brejeira do estilo mais adiante, quando Diogo recebe a notícia de que é o herdeiro dileto do pai: “petrificado, a notícia tentando aprender a voar na sua mente, ave dando voltas sem rumo”). A cena fica ainda mais enriquecida em contraste com outra que se desenvolve no capítulo, entre Diogo e o pai, que cavalgam pela fazenda. Pela primeira vez no livro, vemos a doutrinação vegana se descolando das palavras dos personagens como pregação e discurso para se incorporar na própria tessitura da narração, na paisagem, tal como (segundo eu já comentei) D. H. Lawrence fez em Mulheres apaixonadas (e em certa medida em O amante de Lady Chatterley). O único resvalo, a meu ver, é quando Diogo insere a questão das mulheres africanas que têm seus clitóris decepados, um enxerto inconveniente e besta num tecido narrativo mais poderoso em que a fazenda dos Bezerra Leitão se assemelha a uma “waste land”, algo demoníaco e sinistro: “O rio Perobinha do Campo já deixara de ser cristalino quando Digo, ainda moleque, nadava nele. A turvação de suas águas se devia ao constante pisoteio das boiadas de todos os fazendeiros da região. Mas Diogo conseguiu caracterizar o rio de sua infância como um processo da natureza, forjado na evolução e na paciência de milhões de anos. Agora, o que o estudante de Floresta enxergava pelo binóculo era uma doença na epiderme do planeta… o rio tornara-se um fluxo de lama, droga e dejeto.Sufocava sob a terra caída das margens esfaceladas e achatadas pelos cascos de bois. Era uma chaga escorrendo…”

    Infelizmente, Megan volta ao seu natural pentalhal (dona Orquídea e a família de Diogo gozam da incapacidade de pronunciar “ão” da americaninha, cujas terminações de palavras sempre redundam em “al”), numa discussão com o namorado, magistralmente entremeada com uma conversa dos pais dele, mas pelo menos agora Rheda tem um objetivo bem próprio do seu mundo ficcional, de detectar as pequenas crueldades e mistificações das suas personagens femininas: ela descobre que terá muito trabalho pela frente, se ficar com Diogo e tentar modificar o destino das fazendas dele, e resolve voltar para o ex-, River, numa vida mais fácil e confortável, onde tudo que a cerca a confirma em suas crenças, e ela não precisa enfrentar as anacrônicas e marxistas marchas da história, que dona Orquídea começou a compreender. Instalada na sua visão do (não riam, por favor)  “paradigma hierárquico especista”, ela não tem o menor pudor de dar um sumário pé na bunda no herdeiro brasileiro fazendeiro (os diálogos e o texto, aqui, são deliciosos).

    Gostei bastante de “Clave de fá”, o oitavo capítulo, simplesmente porque ele conseguiu (de forma diferente, mas com efeito similar) deixar bem nítida a diferença entre satirizar pessoas com a filosofia vegana (caso de Megan, Sybil, River, Karen) e mostrar os horrores a que os animais são submetidos (horrores que incluem a linguagem dos veganos). Volto a repetir: não consigo imaginar Rheda escrevendo o que dizem essas personagens e as levando a sério.  No capítulo em questão, Sybil  está se sentindo culpada por ter sido enganada (?!!) por Bob na alimentação, por ter sido negligente com a filha, e quer mudar para perto dela. River, o ex- de Megan quer lhe mostrar casas, e ao mesmo tempo fazer uma nova tentativa de seduzir a mãe da namorada. Veja-se que trecho delicioso; “O mais perto que ele conseguira chegar do segredo de Sybil fora Megan. Como se parecia com Sybil, a menina! Ou pelo menos era assim que River a enxergava. A filha, uma versão fresca da mãe. O fetiche em duplicata. Tesão dobrado. Será que, como a mãe, Megan também se descobriria homossexual, um belo dia? Ele se deleitava. Lésbicas, a suprema fantasia do macho humano heterossexual americano contemporâneo! Sybil e Megan lésbicas… e incestuosas! River dava corda aos sonhos, masturbava-se…”  Claro que no fundo há aquela crítica ao macho da “escola do ressentimento”, mas acho que mais no fundo ainda está o amor de Rheda pelas intrigas da vida comezinha, por essas ardilosidades que o ser humano, em sua várzea afetiva e sexual, arma para si e para os outros, e que ela desvelou tão bem em Amor sem-vergonha (e Megan vai chegar, vai apanhar a mãe e River no banho, mas não vou contar os pormenores para quem quiser ler o romance). O que quero enfatizar é que nesse mesmo capítulo, há uma pungente visita a um santuário de animais, em que a biografia de cada um nos é contada de uma forma que  não precisa de discurso ou pregação. Tudo fala por si, entremeado à dinâmica da trama que se desenvolve entre o trio. Fiquei emocionado com a pantera Wanderlust sem ter deixado de rir muito com os ardis de River com relação a Sybil e com as reações de Megan. É preciso um bruto talento para conseguir isso.

    (meu feriado foi bem aproveitado, portanto; amanhã termino)

Quarto e último dia (12.06.09)

    Confesso que achei muito morno o final de Humana festa. O último capítulo (“Semifusa”) não poderia ter sido mais mal escolhido e anti-climático. Mas vai ser pior este comentário final sobre o livro: vou desempenhar uma das tarefas mais antipáticas como leitor, isto é, botar a colher no melado alheio, e sugerir como as últimas 49 páginas poderiam ter sido mais bem resolvidas.

    Há um contra-senso lógico-narrativo, na minha opinião: Diogo testemunha tudo o que acontece na fazenda (dona Orquídea e asseclas libertam os porcos do seu “campo de concentração”, porém a ação é atrapalhada e mal alinhava, e onde deveria haver uma explosão de granada, há várias, e o que seria uma ação política afirmativa se torna uma bandalheira, explorada pelos patrões; de dona Orquídea e seu filho Zé Luis teme-se o pior destino…afinal, ela já não era figura muito grata no latifúndio dos Bezerra Leitão) e simplesmente… vai para a Flórida (ele participa então, com Megan cujo namoro com River foi retomado de uma bem-sucedida ação política vegana contra um clube de caça do qual participa até  o governador). Pode-se argumentar que ele foi atrás de Megan, só que é uma atitude muito solipsista, autista demais, e não me convence que, vendo o bicho pegar na fazenda da qual será o herdeiro, ele simplesmente parta tranquilamente e mal se interesse pelos acontecimentos (parece que não há jeito no Brasil e que é melhor se concentrar no mundinho vegano dos EUA, pelo menos mais bem organizado e no qual uma pessoa pode circular a vida inteira sem ser afrontada por contradições sociais… e lá se foi minha simpatia por Diogo). Por outro lado, a narrativa da ação dos veganos contra o clube de caça é engraçadinha, diverte (inclusive pelo estilo da autora, já tão exaltado aqui: a secretária do presidente do clube arruma-o para uma grande comemoração, criando espaço para uma “mesa desmontável, sobre a qual será exposto o apetitoso necrotério. Cobre a mesa com uma toalha branca. Em cada ponta, ergue um mausoléu de pratos empilhados e baldes de prata contendo talheres. Espalha os guardanapos, bandagens para as bocas sangrentas. Olha o relógio. Dez para as dez. Em dez minutos chegará o pelotão de comensais com apetite pontual e ventres tumulares), mas não é nada demais no seu clima de pastelão, e no entanto parece que a autora deu a ela uma importância tal que a fez ofuscar a ação política dos colonos brasileiros (fadada ao fracasso), a qual ela narra rápida e abruptamente, tão desinteressada quase quanto seu personagem Diogo. Só que essa ação política chinfrim foi preparada durante vários capítulos e é muito mais importante do que a outra, e deveria ser o clímax do romance. Quanto ao “ataque” ao clube de caça, a figura de Sarah Palin o torna pálido, arrepiante como é, com sua ideologia e seu triunfalismo americanos.

     A solução narrativa perfeita seria fazer com que Diogo partisse da fazenda, antes da ação de dona Orquídea e comparsas e narrar, simultaneamente, como fez em outros momentos, os dois ataques, um enriquecendo o outro pelo contraste e pela complementação de perspectivas. E o livro deveria terminar com as frases finais do antepenúltimo capítulo (“Clave de sol”): “Todos os porcos soltos da edificação foram capturados e presos outra vez. Com Mortandela e seu grupo de capados na mata ninguém teve tempo de se incomodar”. Dito isso, gostei bastante da carta de dona Marcela para Diogo, descrevendo o rumo das personagens brasileiras, numa ortografia capenga e muito brilho por parte da autora.

   E o que dizer então do conjunto formado por Humana festa, após uma leitura tão parcelar? Creio que Regina Rheda ousou, e ousou muito, temática e estilisticamente. O que diminui o escopo desse salto na sua carreira é que, a meu ver, ela parece ter procurado se alinhar a um tipo de ficção recente (e de bastante sucesso principalmente nos EUA) que Harold Bloom chama desdenhosamente de “escola do ressentimento”, só que numa outra visão, positiva, seria a desconstrução ou denúncia de paradigmas como a visão patriarcal, etnicamente eurocêntrica, greco-romana-cristã, e pautada por horizontes em que a eco-bio-preocupação é maior do que os dilemas e embates psicológicos e épicos tradicionais.  Acontece que há um toque gaiato na visão do mundo de Rheda, bem típica em nós, brasileiros, um não levar tão a sério as coisas que conflita radicalmente com um projeto desses. Não que não possa haver humor num tipo de ficção desconstrutiva e pós-patriarcal (ufa, que termos!), só que não é o tipo de humor zombeteiro, que mina tudo pela raiz, que parece ser o vezo de Rheda. Se ela quiser embarcar nessa ficção “positiva” e “afirmativa”, por assim dizer, ela vai ter de se reformular totalmente enquanto escritora. Ou bem ela aprofunda um caminho ou o outro, se não vai derrapar na frivolidade, que para mim é o principal defeito de Humana festa: frivolidade porque ela não consegue levar a sério os personagens que defendem as causas defendidas pelo romance. Pode-se ser dramático ao extremo, paródico ao extremo, só não se pode ser frívolo, ainda mais com assuntos tão portentosos.

    Esse é o fundo da minha eterna implicância com os irmãos Coen: não posso dizer que seus melhores filmes não são bons: entretanto, à exceção de No country for old men (e mesmo assim eles quase estragaram tudo com a personagem bufa de Javier Barden, que todo mundo acha sinistra, mas eu acho mera caricatura de psicopata), mesmo aqueles de que eu gosto (Fargo, O homem que não estava lá) deixam um gosto de “e daí?”, o que se agrava em filmes com potencial altamente dramático, como Barton Fink & Miller´s crossing. Volto a repetir, pode-se ser dramático até o limite do solene(Todd Field e seu In the bedroom), grotesco (os filmes de Cronenberg), bizarro (os de David Lynch), só não se pode ser frívolo e cortejar o besteirol (pelo menos, não quando a ambição é evidente: já disse que Rheda não é a autora “despretensiosa”que julgavam). A “graciosidade” que formava a película mais superficial dos livros anteriores dela era pertinente às tramas, aos ambientes, às pessoas. Mas vê-se que ela está lidando com outras coisas em Humana festa: um pouco mais de sentido de urgência moral, menina! No country for nasty girls.

    Bem, de qualquer forma, é apenas minha opinião e os irmãos Coen são muito cultuados. E não posso deixar de pensar que, com suas novas opções, Rheda me tornou a vida de leitor, esta semana, mais difícil, porém mais interessante também.

 

29/11/2011

AS MUITAS BABÉIS DO EDIFÍCIO COPAN

I-A fauna da arca

Em São Paulo, “vastidão de caixotes amontoados”, há um caixotão de 32 andares que se destaca pela população (mil habitantes!): é o Copan. Originalmente projetado (por Niemayer) para ser um prédio de luxo, em sua decadência precoce tornou-se o símbolo do mergulho da classe média no empobrecimento, na degradação de costumes e na violência, “uma cidade vertical cheia de contrastes e problemas”.

Os contos de Arca sem Noé, de Regina Rheda, selecionam oito espécimes da fauna do Copan, em meio ao dilúvio sem guia salvador que é o caos urbano do fim de século. Entre eles, dona Adelaide, senhora de 88 anos que já viveu tempos bem melhores e que, obcecada por limpeza, tem de conviver com um vizinho porco e grosseiro, incapaz de fechar uma lixeira, apesar de afamado dramaturgo; ou Vera Lúcia, dona de casa sessentona a qual, após ser abandonada pelo marido, descobre os prazeres da permissividade prometidos pelo mercado pornográfico; ou o porteiro Agenor, que viveu toda sua existência em função do prédio e, jamais devidamente reconhecido, repete sua servidão no Além, sem descanso; ou, ainda, o  vigia Genevaldo, aflito por ter de revelar a um dos moradores a prostituição da mulher do dito cujo, e que descobre, surpreso, que não só o chefe do lar sabe como apóia e ainda dá comissão ao síndico pela leniência.

II- bordados e hibiscos

Estreante, Regina Rheda tem um estilo picante e incisivo, uma combinação da sofisticação da grande cronista da solidão urbana que foi Dorothy Parker (Big Loira) com a loucura e violência marinadas em humor nego implacável que povoam o universo de Quentin Tarantino, do esplêndido Pulp fiction. Ela faz o leitor cair na tentação de sair citando as mais venenosas e cruéis passagens do livro. Cruéis, venenosas. E admiráveis. E precisas. Como a descrição do Mau vizinho, de Dona Adelaide, calcada num conhecido dramaturgo-tarólogo santista:

“Estômago e barriga, aliados, expandiam-se sem escrúpulos, ultrapassando os limite do corpo, invadindo territórios que por direito não lhe pertenciam… A camiseta de malha barata, que ostentava no peito um involuntário bordado de caldo de sopa, entornado de uma colherada sem mira durante qualquer jantar ancestral… Nos calcanhares rachados embrenhava-se uma substância escura que lembrava o lodo sobrevivente dos leitos secos dos rios”.

Ou então o espetáculo sexual testemunhado por Vera Lúcia (no genial  A voyeuse, meu preferido na coletânea):

“O namorado penetrou a amante como uma planta que esconde suas flores entre as folhagens da outra, confundindo seus galhos e seu tronco com o dela… encobrindo-a em total indiferença aos esforços de dona Vera que, retorcendo-se no sofá, tentava inutilmente enxergar, em meio à agitada vegetação, o rubro e libidinoso hibisco”.

     Hibiscos cobiçados à parte, nem tudo são flores: nem sempre a talentosa autora sabe concluir e há um texto, Falta d´água, que poderia ser extraordinário e que fica no meio do caminho, como se faltassem água e fôlego. Mesmo assim, para uma estréia Arca sem Noé tem vigor, verve, observação crítica e demolidora. E muito estilo. Dá para o leitor ficar com água na boca esperando mais. De resto, o leitor santista que riu muito com a caracterização física de Plínio Marcos fecha o livro desejando que apareça um escritor local com esse talento e que conte histórias sobre o nosso Copan: o Universo Palace, edifício onde se localiza a Pink Panther. Para isso, todavia, o autor da façanha haveria que convocar outro santo padroeiro, além de Dorothy Parker & Quentin Tarantino: Pedro Almodóvar.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 11 de abril de 1995)

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