MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

17/11/2010

A LIÇÃO DA “MESTRA”: anti-homenagem ao centenário de Rachel de Queiroz

resenha publicada em 05 de maio de 1998, em A TRIBUNA, de Santos)

    A coleção da Record/Altaya, “Mestres da Literatura Brasileira e Portuguesa” tem se mostrado uma decepção. Como explicar que dela faça parte um insignificante volume de crônicas como AS TERRAS ÁSPERAS? Aliás, a própria inclusão de Rachel de Queiroz numa coleção de “mestres” da literatura de língua portuguesa já é discutível, pois numa carreira de romances chinfrins, só mesmo Memorial de Maria Moura (1992) se salva, não por ser grande literatura, e sim por ser uma leitura envolvente e agradável. Nesse livro, nossa pretensa “mestra” conseguiu a coisa mais rara na ficção brasileira: entretenimento de boa qualidade.

     Agora: o que dizer de As terras ásperas? Teria sido melhor que as crônicas nele reunidas tivessem ficado enterradas nas páginas dos jornais.Nos melhores momentos de Rubem Braga, Fernando Sabino ou Stanislaw Ponte Preta, uma anedota ilumina e resgata o cotidiano de sua banalidade. No caso de Rubem Braga, uma imponderável poesia transfigura seus insights sobre o cotidiano de uma forma que lhe garante lugar entre os grandes. As crônicas reunidas em As terras ásperas cobrem o período de 1988 a 1992. A “mestra” escreve sobre a falta de água no Rio, sobre ecologia, sobre o calor, sobre o hino nacional, sobre superprodução, sobre sua bisneta, sobre sua admiração por Floriano Peixoto (!!!???), sobre Paris, sobre as elites, sobre a queda do muro de Berlim, sobre o porte de arma, sobre a burocracia, sobre Santo Antônio, sobre a velhice, sobre a morte, sobre a pena de morte, sobre o índio, sobre as posses na Academia Brasileira de Múmias (ela foi a primeira mulher a pertencer a essa indigesta instituição), sobre a guerra, sobre a violência urbana, sobre as primeiras-damas, sobre o fuso horário, sobre Ulysses Guimarães, sobre Mikhail Gorbatchov…

    Como se vê, parece um rico panorama. Só que a “mestra” trai o espírito da crônica e, ao invés de valorizar através da escrita as “miudezas” do ramerrão diário, ela se põe a pensar. Ai, Jesus. É aí que o caldo entorna, porque a “pensadora” Rachel de Queiroz é de uma mediocridade atroz, é incapaz de enunciar qualquer coisa acima da superficialidade mais rastaqüera.  É claro que nenhum autor tem obrigação de ter um pensamento profundo e original. Porém, quando é o próprio autor que resolve coletar os frutos do seu “pensamento”, é impossível não criticá-lo no que tem de frágil e medíocre.

     Por exemplo, numa das piores crônicas do livro, Rio, coração do meu Brasil, onde defende o Rio dos seus detratores, a nossa “mestra” da literatura escreve as seguintes pérolas de originalidade: “E diga-se o que se disser, o fato é que o Rio continua lindo. Mesmo depois do furacão Brizola. Mesmo chagado de favelas, infestado de bandidagem, ninguém nos consegue tirar a montanha, a floresta e o mar. Ninguém nos tira a alegria da praia…”!!!??? Ainda bem que o Rio continua lindo, apesar do “estilo” das nossas “mestras” da literatura.

     Essa superficialidade e essa nulidade estilística não incomodariam tanto, se de vez em quando não emergisse das palavras da “mestra”, claro e indecente, um reacionarismo ultrajante, senão alarmante. É o caso do horroroso texto sobre porte de arma (que ela condena), no qual, fazendo uma analogia com o tráfico e o consumo de drogas, nossa “mestra” da literatura afirma: “Defende-se a sociedade de tudo que lhe ameaça a saúde e a sobrevivência. Tóxicos, por exemplo: produzi-los, transportá-los, vendê-los, usá-los, é crime gravíssimo em qualquer país. Desde plantar a maconha e a papoula, passando pelo fabrico, o refino, o transporte e a venda, até chegar ao consumo—todas essas atividades são perseguidas no mundo inteiro com louvável rigor. No Irã, enforca-se”.

    Note-se a expressão “com louvável rigor” que dá bem a medida da superficialidade reacionária da nossa “mestra”. Ela sequer é capaz de raciocinar que toda essa perseguição feita com “louvável rigor” esconde uma grande hipocrisia, uma vez que há uma indústria gerada pela ilegalidade,q eu favorece justamente os traficantes e quem se beneficia da repressão. E a naturalidade com que ela passa da frase “são perseguidas no mundo inteiro com louvável rigor” para “no Irã enforca-se” dá até um arrepio, pois a impressão que se tem é que ela aprova isso e aplaude (esquecendo-se de que, no Irã, também há sentenças de morte para escritores).

     Quando o interesse maior de um livro é a detecção das idéias reacionárias de seu autor, o negócio é grave. No seu texto sobre a posse de Ariano Suassuna na Academia Brasileira de Mun-Rás, a nossa “mestra” diz: “Afinal, a Academia não é um simples arquivo de vaidades, uma galeria de aposentados. Ali há talento, há sangue, há vida inteligente”. Não é, decerto, o caso de As terras ásperas.

 

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