MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

03/05/2011

Chandler após 50 anos: mestre da pulp fiction, do noir ou da boa e velha ficção em geral?

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“Havia uma porção de bugigangas orientais nas vitrines. Eu não sabia se tinham valor ou não, as únicas antiguidades que eu colecionava eram contas atrasadas”; “A casa em si não era grande coisa. Menor que o palácio de Buckingham e com menos janelas que muito arranha-céu de Nova Iorque”.

Frases de efeito como essas são típicas de Philip Marlowe, o detetive particular canônico do noir, a feição mais consagrada que a ficção policial norte-americana adquiriu. Há 50 anos morria Raymond Chandler, que o havia criado exatamente 20 antes, em The Big Sleep-O Sono Eterno (também um clássico do cinema, na versão de Howard Hawks, conhecida no Brasil como À Beira do Abismo, a qual tornou lendária a união de Humphrey Bogart e Lauren Bacall). Das aventuras de Marlowe, as mais famosas, além da sua estréia, são Adeus, Minha Adorada (1940), A Dama do Lago (1943) e O Longo Adeus (1953), apesar dos fãs mais ardorosos nunca esquecerem de A Irmãzinha (1949)  e Playback (1958).

Muito superior a seu rival (com o qual decerto compartilha muitas características), Dashiell Hammett, Chandler fez da região em torno de Los Angeles um espaço definido e singular, quase mítico, da literatura, com seus tiras corruptos, suas milionárias “da pá virada”, velhos ricaços com esposas bem mais jovens e de passado duvidoso (além de um apetite sexual indiscreto), traficantes, charlatães, ex-condenados. E no meio dessa desmoralização toda, o detetive sempre pobretão, perdedor, desiludido, sarcástico, sempre em apuros com a polícia e os clientes (porque nunca desiste de investigar um caso, apesar de todas as advertências), no fundo honesto e sentimental. Ele deu o tom do noir clássico: é sempre o narrador de suas próprias desventuras, catalogador suas ilusões perdidas, uma a uma.

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Não há dúvidas de que Chandler era um grande escritor. Não conheço muito bem sua produção como contista, porém ele tinha evidentes dificuldades ao escrever romances, como mostrou de saída em O Sono Eterno, onde faz uma brincadeira: “… fiquei pensando em Harry Jones e sua história. Parecia muito certinha demais. Tinha a simplicidade austera da ficção ao invés da das tramas emaranhadas da realidade”. Acontece que não há trama mais emaranhada do que a desse romance (o roteiro do filme de Hawks, então, é sem pé nem cabeça). O meu palpite é que o criador de Marlowe não tinha fôlego de romancista (o que não tira o charme de nenhum deles), e contista experimentado, se sentia mais à vontade no episódico. Até na sua obra-prima absoluta, Adeus, Minha Adorada (que teve a sorte de ter duas belas versões: a primeira, dos anos 40, Até a vista, querida, com William Powell muito melhor do que Bogart na pele de Marlowe, para mim é o melhor noir calcado na figura do detetive particular; a segunda, dos anos 70, tem o grande Robert Mitchum envolvido numa atmosfera crepuscular), nós vemos a trama geral se estilhaçar em episódios isolados. O grande problema é que, na hora da explicação final, as pontas soltas e o material excedente ficam óbvios.

Em O Sono Eterno, Marlowe é contratado para investigar uma chantagem que ameaça uma das duas belas e doidivanas filhas de um ricaço inválido. Há uma trilha de mortos na seqüência dessa investigação (pelo menos três), contudo o crime principal, o cerne da questão, permanece recôndito a maior parte do tempo, só assumindo sua importância na parte final. Defeito técnico (em outros esse traço se tornou um maneirismo, um artifício) ou intuição certeira? Em nossa época de fragmentação e evanescência, essas pistas que dão em nada, esses fios que permanecem soltos, esses romances que sempre têm um ar de incompletude e confusão, esses arremedos de esclarecimentos que nunca configuram uma verdade final e unívoca, e mostram que não há Sherlock que dê conta de todos os fatos, são afinal, muito modernos. Ou pós-modernos, como se queira.

(resenha publicada em quatro de agosto de 2009)

william powelladeus,minha adorada

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A SIMPLICIDADE AUSTERA DA FICÇÃO OU AS TRAMAS EMARANHADAS DA REALIDADE?

      “Toda essa história é da minha conta. Estou sendo pago pra descobrir” (Philip Marlowe)

raymond chandler & gato

“___Quanto você está recebendo por essa história toda?

___Vinte e cinco dólares por dia, mais o reembolso pelas despesas…

___E por essa quantia você está disposto a criar caso com metade da polícia dessa cidade?

___ Querer isso, eu não quero –respondi– mas o que você quer que eu faça, porra? Estou trabalhando. Estou vendendo o que eu tenho pra vender pra ganhar a vida. A pouca coragem e inteligência que Deus me deu e mais disposição pra aguentar todo tipo de pressão pra proteger meu cliente… Os tiras ficam todos irritados e rigorosos quando um cara de fora tenta esconder alguma coisa, mas eles fazem exatamente a mesma coisa todo dia, pra favorecer um amigo ou alguém que tem influência. E ainda não terminei. Continuo trabalhando no caso. Se fosse preciso, eu faria tudo de novo”.

Esse é um diálogo do capítulo 18 de O SONO ETERNO (The Big Sleep), de 1939, o primeiro romance em que Philip Marlowe aparece. Vinte anos depois, falecia seu criador, Raymond Chandler (nascido em 1888), criado na Inglaterra, mas que fixou Los Angeles como cenário do policial noir, da pulp fiction de alta qualidade, muito antes de James Ellroy.

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O noir tem um peso canônico na nossa cultura, em grande parte devido ao cinema dos anos 40 (e um pouco dos anos 50, sem falar nas constantes releituras), preto e branco, expressionista. Em termos da figura do detetive particular, os dois filmes paradigmáticos que sempre vêm à memória são aqueles em que Humphrey Bogart personificou o Sam Spade de Dashiell Hammett (O falcão maltês, dirigido por John Huston, em 1941, e que aqui no Brasil foi intitulado Relíquia Macabra) e o Marlowe de Chandler (a adaptação de O SONO ETERNO, dirigida por Howard Hawks em 1946, e cujo título brasileiro é À beira do abismo; foi aqui que se consolidou o casal Bogart-Lauren Bacall).

Já assisti aos dois várias vezes e esta semana mesmo tive a oportunidade de rever o filme de Hawks, e há uma inversão quanto ao que acontece com os livros: eu não aprecio muito o romance de Hammett e acho o filme de Huston sensacional (apesar de alguns detalhes, como a improvável Mary Astor como femme fatale), embora não seja o melhor noir de detetive particular (creio que esse posto deveria ser ocupado por Murder, my sweet ou Até à vista querida, de Edward Dmitryk, com William Powell como Marlowe); acho fundamental o livro de Chandler, mas creio que o filme de Hawks se perde no caminho, apesar de sua atmosfera realmente marcante. O problema é o roteiro: ele segue fielmente até quase o final o romance, eliminando algumas coisas importantes, decerto, só que derrapa mesmo porque há a necessidade de dar a Lauren Bacall mais espaço, o que atropela a compreensão da história. Eu não sei se alguém que não tenha lido o livro algum dia pode entender a explicação para a complicada trama de À beira do abismo. Eu mesmo o vi algumas vezes e nunca entendi. Até ler o livro, que foi lançado pela Brasiliense nos anos 80 (e depois pela L&PM, ao que parece), traduzido por Paulo Henriques Britto. Toda a parte final da trama fica comprometida pelas cenas finais, após Bogart matar o famigerado Canino. A cena em que ele conversa com Bacall é sem pé nem cabeça, a não ser para registrar a tensão sexual entre os dois no filme inteiro (diga-se de passagem, não considero que Bogart esteja particularmente feliz no personagem; ele funcionou bem como Spade, mas eu não entendo que tanto sex appeal vêem nele… O que é essencial numa história em que logo nas primeiras cenas uma das personagens femininas se joga em cima dele e ele diz: “ela tentou sentar no meu colo quando eu estava em pé”; contudo, é lógico que isso é uma questão de gosto pessoal).

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Narrado em primeira pessoa, O SONO ETERNO contraria, como todos os livros de Chandler (mas sem o quase nonsense da sua adaptação cinematográfica), uma reflexão do narrador e protagonista Marlowe no capítulo 25: “Voltei para o escritório, sentei e fiquei pensando em Harry Jones e sua história. Parecia muito certinha demais. Tinha a simplicidade austera da ficção ao invés da das tramas  emaranhadas da realidade”.

Marlowe é contratado por um milionário (o dinheiro veio do petróleo), o inválido general Sternwood, por causa de chantagem. Acontece que as duas filhas muito jovens do velho general são da “pá virada”, principalmente a mais nova, Carmen. O dono de uma loja de livros raros, Geiger, parece tê-la fotografado como veio ao mundo, quando estava drogada e bêbada. Geiger é assassinado (por um dos amantes de Carmen, Owen, chofer da família, que depois aparece morto também); a funcionária da loja de fachada (pois na verdade é um comércio pornográfico disfarçado), Agnes, prepara um esquema com outro ex-amante de Carmen, Joe Brody, para assumir os negócios de Geiger, porém Brody é assassinado por Carol Lundgreen, o michê que vivia com Geiger (pois ele pensa que Brody é quem matou seu, digamos, protetor). A incansável Agnes se associa a outro cara, Harry Jones, que conquista a simpatia de Marlowe, mesmo carregando todo um lado patético (essa reação de Marlowe me lembrou a do narrador de Fim de Caso, de Graham Greene, com relação ao apatetado detetive que investiga as supostas traições de sua amada Sarah). E Harry Jones também é assassinado (por um tipo chamado Canino, do qual já falarei, e é preciso dizer que esse assassinato é uma das motivações para Marlowe insistir em prosseguir investigando o caso, apesar de todos os conselhos em contrário). Mesmo com essa lista nada modesta de mortos (Geiger, Owen, Brody,Jones) ainda nem estamos no veio principal da mina.

O que toda a sucessão de mortes e perambulações de Marlowe por cinco dias (“Toquei a campainha. Eu a havia tocado pela primeira vez há cinco dias. Parecia um ano”, afirma Marlowe no capítulo 30, quando se inicia o clímax do romance, que não consta do filme de Hawks) prepara para o leitor, além de um retrato verticalizado do perfil urbano e das complicadas (e muitas vezes desmoralizadas e corruptas) relações sociais que a transformação dos pequenos povoados numa região metropolitana, em volta de uma das cidades míticas do nosso tempo, é que na verdade tudo aponta para o assassinato principal: o do marido de Vivian, a outra filha do general Sternwood (e a personagem de Lauren Bacall, que no filme açambarca ações de uma outra personagem do romance,resultando numa mixórdia incompreensível:  a Peruca Platinada, da qual também já falarei). Rusty Regan, apesar de um passado meio nebuloso e gangsteresco, é um cara simpático (conquista até o general), mas está desaparecido. A versão da polícia é que ele se envolveu com a mulher de um dos grandes nomes do crime de Los Angeles (com o qual Vivian tem relações porque joga e perde muito no seu clube), Eddie Mars  (que morre no filme, como uma espécie de vilão-mor). Duas hipóteses: ou Regan e Mona escapuliram juntos e caíram no mundo ou Mars deu cabo deles.

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O curioso é que o general Sternwood pede a Marlowe (no início) para investigar apenas o caso de chantagem, e depois todos ficam perguntando a ele se está investigando o sumiço de Regan e meio que o desaconselhando a prosseguir nessa investigação. Quando toda aquela cadeia de mortes já citada se conclui, parece que não há razão para continuar no caso, mesmo porque recebeu 500 dólares do general e pode se dar por satisfeito. Mas… ele não engole a história toda e acontece a morte de Jones e o aparecimento do sinistro Canino, que é o principal assecla de Eddie Mars.

Para Marlowe, Mars tem a polícia e a promotoria no bolso e Canino deu fim a Regan & Mona. Só que Agnes, a vulgaríssima e interesseira parceira de dois dos presuntos da trama vende a Marlowe a seguinte informação: que Mona está vivíssima e o paradeiro do seu esconderijo. É claro que nosso herói (numa climática atmosfera de chuva incessante) vai até o lugar, nos arredores ermos de uma fábrica que produz veneno contra rato, numa oficina onde carros roubados ganham nova aparência, e Canino o domina e o soca com um saco de moedas. E então a conhecemos, Mona, a grande figura feminina da história, a Peruca Platinada (ela a usa porque cortou o cabelo bem curtinho, para se disfarçar). É ela quem mais atiça a libido de Marlowe e o ajuda a escapar (essas ações foram atribuídas de forma absurda, se alguém se der ao trabalho de prestar atenção na história, a Vivian Sternwood, na adaptação de Hawks). Graças a ela, Marlowe acaba com Canino (em retribuição ao que fez com Harry Jones).

Mas quem matou Regan (se Mona está viva, decerto ele estará morto)? Eddie Mars. Claro que não. Foi a doidivanas da Carmen, que além de ter ataques epilépticos, se é que o são, não suporta que nenhum cara a rejeite. Marlowe faz isso quando chega a sua casa e a encontra nua na sua cama (ele não ia comer a filha de um cliente, isso não entra na ética do detetive durão, sucessor remoto mas legítimo dos cavaleiros andantes: “Escuta aqui, disse eu, apontando o cigarro para ela. Não vá me obrigar a vestir você outra vez. Estou cansado. Agradeço a oferta. Mas é demais para mim… Sou seu amigo. Não vou fazer issso, apesar de você mesma querer que eu faça. Eu e você temos que continuar amigos, e não vai ser desse jeito que vamos continuar amigos. Agora seja boazinha e se vista, está bem?… Não é por causa dos vizinhos, eles não ligam nem um pouco. Tem muita mulher dando sopa em qualquer prédio de apartamentos, e não vai ser por causa de uma a mais que esse edifício vai cair. É uma questão de orgulho profissional. Eu estou trabalhando pro teu pai. Ele é um homem doente, muito frágil, totalmente indefeso. Ele tem uma certa confiança em mim. Você quer fazer o favor de se vestir, Carmen?).

Quando é chamado, no final do livro, à mansão Sternwood, para se explicar ao general porque investiga o sumiço de Regan (e afinal era isso mesmo que o general queria, vá se gostar de um genro assim… e sem beijo no asfalto), Carmen o leva até as proximidades de um campo petrolífero e atira várias vezes em Marlowe (só que ele colocou balas de festim no revólver que devolveu a ela, um dos muitos detalhes de um enredo enovelado) é a repetição do que fez com Regan, só que no caso deste último os resultados foram fatais. Vivian teve de procurar ajuda e se comprometeu com Eddie Mars, que assim começou a chantageá-la e dominar sua vida. Como se vê, toca-se aqui num dos pontos do noir: a proximidade das classes privilegiadas com o submundo do crime.

Marlowe, que no fundo tem um coração de ouro, faz um acordo com Vivian: ele não aceitará os mil dólares que o general lhe propôs para descobrir o paradeiro de Regan desde que ela interne a irmã em algum lugar, onde fique vigiada e segura, para não causar mais desgraças. Portanto, toda a cadeia de crimes e sordidez maciça que acompanhamos foi acionada pelas leviandades de uma mocinha mimada e que acha que pode tudo (um pouco como a Daisy de O grande Gatsby, guardadas as devidas diferenças, é claro), a mítica “little sister”, a irmãzinha mala sem alça, dos livros de Chandler.

No final, sobra a pobreza honesta, a desilusão e a nostalgia erótica do único contato físico com a Peruca Platinada, Mona:

“Encostei-me nela e apertei-a contra a parede. Encostei a boca em seu rosto. Falei nessa posição:

__ Não tem pressa nenhuma. Me dá um beijo, Peruca Platinada.

      Seu rosto parecia gelo encostando nos meus lábios. Ela pegou minha cabeça e me deu um beijo forte na boca. Os lábios delas também eram como gelo.

     Saí e fechei a porta, silenciosamente, e a chuva me pegou na varanda, não tão fria como os lábios dela.”

Raymond-Chandler-in-1940-001

27/12/2009

Em relação ao século XX: 100, 75, 50, 25 anos de obras e autores

[Juan Carlos Onetti]

{Eugene Ionesco}

[Norberto Bobbio]

[Selma Lagerlöf]

100 anos- Em 2009, a escritora alemã Herta Müller ganhou o Nobel. Exatamente cem anos atrás, a sueca Selma Lagerlöf (1858-1940) tornava-se a primeira mulher a receber o prêmio. Não conheço muito bem sua obra,  só li algumas histórias de De saga em saga, uma coletânea que aparece numa coleção dos premiados com o Nobel, porém há um ensaio excelente de Marguerite Yourcenar sobre ela em Notas à margem do tempo, e que nos faz vislumbrar um universo fascinante.

    No mesmo ano em que a autora de A saga de Gösta Berlings (seu livro mais conhecido) se tornava a pioneira de uma lista ainda muito pequena, nascia na Romênia natal de Herta Müller um dramaturgo originalíssimo, que faria parte do chamado “teatro do absurdo”: Eugene Ionesco, de A cantora careca, Os rinocerontes; A lição; e, no Uruguai, um dos prosadores que mais mereceriam o Nobel no século XX: Juan Carlos Onetti, com obras do calibre de A vida breve, O estaleiro & Junta-Cadáveres, e que forma, com o argentino Jorge Luis Borges e o mexicano Juan Rulfo a santíssima trindade da ficção hispano-americana.

      Também em 1909, nascia o grande pensador italiano Norberto Bobbio, autor dos ensaios maravilhosos reunidos em Nem com Marx, nem contra Marx. E na Letônia nascia o luminoso Isaiah Berlin (que faria carreira na Inglaterra), o autor de Pensadores russos, um pensador que gostava mais de escrever ensaios do que preparar “livros”.  E naquele ano, Lima Barreto lançava seu libelo anti-racista que também, e principalmente, é um poderoso romance, Recordações do escrivão Isaías Caminha.

75 anos- De 1934, gostaria de destacar dois romances essenciais: o maior livro de Graciliano Ramos, São Bernardo (ser o melhor livro de um escritor como Graciliano é um fato por si só notável; para mim, aliás, os maiores romances brasileiros do século passado são Grande sertão: veredas; A maçã no escuro; São Bernardo  & Triste fim de Policarpo Quaresma); e o terrível e avassalador Morte a crédito, de Louis-Ferdinand Céline (que talvez seja até maior do que sua obra-prima anterior, Viagem ao fim da noite). Vidas secas e cheias de angústia no Nordeste e na França. A vida lembrada, cá e lá, como memórias do cárcere

[raymond chandler]

50 anos- É difícil escolher o acontecimento literário supremo de 1959, ano em que morria o grande Raymond Chandler, pois nesse ano iniciavam suas carreiras gloriosas nomes como Günter Grass, com O tambor de lata, certamente um dos maiores romances já escritos; os outros não começaram já nesse patamar: Philip Roth (Adeus, Columbus), Vargas Llosa (Os chefes) e Dalton Trevisan (Novelas nada exemplares). O único título comparável em magnitude ao de Grass talvez seja O almoço nu, que revelou o universo muito peculiar de William Burroughs, mas cuja legibilidade maior foi possível graças à notável versão cinematográfica de David Cronemberg (a versão de O tambor nada tem de notável). Mesmo assim, um romance cinquentenário pelo qual tenho um carinho especial é Um cântico para Leibowitz, de Walter M. Miller Jr, merecidamente um clássico da ficção científica, mas que não se restringe a um “livro de gênero”. Na área de contos, é difícil pensar num título mais importante do que As armas secretas, de Cortázar, não só por causa da sua qualidade literária (o meu favorito é “Cartas da mamãe”, mas o mais considerado é “O perseguidor”, baseado na vida de Charlie Parker), como pela sua influência na literatura dos anos 60 e 70: basta lembrar que “As babas do diabo” foi a inspiração de Antonioni para seu Blow up (1968). Também não se pode esquecer a irreverência, a jovialidade e o trato de linguagem de Zazie no metrô, a obra-prima de Raymond Queneau.

     Em 1959, Jean-Paul Sartre dedicou-se a escrever um roteiro imenso (depois não utilizado, naquela época não existiam as produções para a tv a cabo, não existia a HBO; mesmo assim, Sartre resmungou que as pessoas tinham paciência para ver quatro horas da vida de Ben-Hur e não tinham para ver a vida do criador da psicanálise) sobre a vida de Freud para John Huston. O filme é ótimo, mas o texto de Sartre não fica atrás: Freud, além da alma; o marcante romancista português Vergílio Ferreira lançou sua obra mais famosa, o difícil porém importante Aparição; e há quem ache uma obra-prima (não é o meu caso) Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso, ainda assim um livro que se deve levar em conta. Em todo caso, eu prefiro o folhetinesco Asfalto selvagem, as deliciosas desventuras em série de Engraçadinha, uma das grandes criações de Nélson Rodrigues

25 anos- Em 1984, morriam tanto Cortázar quanto outro autor genial, Truman Capote, cujo inacabado romance Súplicas atendidas foi lançado no Brasil este ano pela L&PM, e que prova o incrível trabalho feito pela sua alcoólica mãe (que tinha vergonha da homossexualidade do filho) para lhe incutir culpa e autodesprezo. Numa vertente gay oposta, de eliminação de toda essa automortificação, temos um clássico da nossa ficção recente, Vagas notícias de Melinha Marchiotti, de João Silvério Trevisan, um romance paródico, inventivo e infelizmente pouco conhecido, assim como Democracia, da norte-americana Joan Didion, e até mesmo O ano da morte de Ricardo Reis, o menos popular (e o melhor) José Saramago. Muito conhecido, pelo contrário, e igualmente notável é O amante, de Marguerite Duras.

julio cortázar & truman capote]

25 anos- Em 1984, morriam tanto Cortázar quanto outro autor genial, Truman Capote, cujo inacabado romance Súplicas atendidas foi lançado no Brasil este ano pela L&PM, e que prova o incrível trabalho feito pela sua alcoólica mãe (que tinha vergonha da homossexualidade do filho) para lhe incutir culpa e autodesprezo. Numa vertente gay oposta, de eliminação de toda essa automortificação, temos um clássico da nossa ficção recente, Vagas notícias de Melinha Marchiotti, de João Silvério Trevisan, um romance paródico, inventivo e infelizmente pouco conhecido, assim como Democracia, da norte-americana Joan Didion (sempre cito uma de suas frases, “ninguém está isento do movimento geral”, e sua heroína, Inez Christian Victor, é como se fosse uma amiga pessoal), e até mesmo O ano da morte de Ricardo Reis, o menos popular (e o melhor) José Saramago. Muito conhecido, pelo contrário, e igualmente notável é O amante, de Marguerite Duras, a qual justamente em 1959 havia escrito o mais belo dos roteiros em hiroshima, meu amor, dirigido por Alain Resnais.

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