MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

23/12/2009

170 noites com Sharazad

Com o primeiro volume da sua tradução (direta do árabe) do Livro das Mil e Uma Noites, Mamede Mustafa Jarouche conseguiu a proeza de tirá-lo do limbo folclórico em que se encontrava e reconduzi-lo, devido à repercussão do seu trabalho (um inesperado sucesso de vendas também), à sua condição  como uma das fontes primordiais do imaginário da humanidade, através da interpenetração do oral e do letrado.

O que Jarouche nos oferece, na sua versão da história de como  Sharazad seduz o desiludido rei  Shariyar (os nomes estão  grafados aqui diferentemente do livro) não pelos seus encantos físicos (os quais não seriam suficientes para salvá-la, já que o rei decidiu matar cada mulher com que passasse a noite, após a traição da esposa), mas sobretudo com seus dotes narrativos, cujo poder mantém a execução suspensa, é a primeira edição brasileira com um suporte filológico de fontes, notas e anexos com variantes e textos similares.

Esse primeiro volume traz 170 das noites, com 31 histórias  entrelaçadas (aliás, as personagens vivem contando histórias umas às outras, até o vizir, pai de Sharazad, para dissuadi-la de se oferecer ao rei, conta uma história edificante (o lado de ensinamento moral é marcante no livro).

O que torna um pouco chata a narrativa para o gosto atual é a repetição da mesma moldura convencional: Sharazad suspende a história ao amanhecer (“a aurora alcançou  Sharazad, que parou de falar), sua irmã  Dinazard comenta infalivelmente (“como é agradável e assombrosa a sua história”, com ligeiras variantes) e a “tecelã das noites (la tisserande des nuits)”, como já foi chamada, infalivelmente replica (“isso não é nada  perto do que irei contar-lhes na próxima noite, se eu viver e o rei me preservar”).  Nas primeiras noites, Shariyar repete o seu famoso, “por Deus que não vou matá-la até ouvir o restante da história”, entretanto a partir da nona noite, isso se torna esporádico. É o caso da 39ª noite, na qual se narram amores incestuosos entre irmãos (“por Deus que adiarei sua morte até ouvira notícia das jovens com os dervixes, e só então a matarei, como fiz com as outras”).

Na desgraça familiar e física que atinge o primeiro dervixe nesse passo da história, o leitor encontra uma das fontes de que se serve um autor de primeira linha do nosso tempo como Salman Rushdie. Como não reconhecer a filiação direta de narrativas rushdieanas, como O último suspiro do mouro (se acrescermos o elemento de humor e paródia), em trechos como os seguintes: “Minhas aflições se renovaram, meus pesares aumentaram, e me recordei o que ocorrera a meu tio, a meu pai e a meus primos, além da perda do  meu olho” e para salvar-se da morte certa “não encontrei nada que me garantisse a vida e salvasse senão raspar a barba e as sobrancelhas. Modifiquei minhas roupas, passando a usar a vestimenta dos mendigos e servindo a ordem dos dervixes carandéis”.

No arremate da noite: “Foi o destino que nos conduziu à sua casa, e vocês fizeram a caridade de nos deixar entrar e nos trataram com tamanha gentileza que eu me esqueci da perda de meu olho e da raspagem da minha barba”.  Nas Mil e Uma Noites, como de resto em quase toda a épica mundial, as tribulações espirituais e fisiológicas sempre se misturam, o que sempre dá um toque de humor, apesar do livro ser, segundo Jarouche, um “repertório fantástico” jamais igualado, de fábulas de terror e piedade,  de amor e de ódio, de medo e de paixões desenfreadas, de atitudes generosas e de comportamentos cruéis, de delicadeza e de brutalidade.”

Para arrematar, é preciso dizer que a narrativa enaltece a astúcia (Sharazad vai tecendo suas narrativas, como uma teia, trama infinita no seu desdobrar-se, na sua não-linearidade) diante do poder autoritário. Belo golpe de estado!

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 16 de julho de 2005)

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