MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

21/02/2017

O GIGANTE DE PIMDORAMA: RADUAN NASSAR

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raduan-nassar Obra Completa de Raduan Nassar

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em 21 de fevereiro de 2017 em A TRIBUNA de Santos)

Certa vez, num debate sobre a América Latina (assolada por ditaduras militares), Otavio Paz, Nobel de Literatura de 1990, (grande poeta e ensaísta, mas com posições ideológicas discutíveis), afirmou que existiam dois tipos de escritores, os indignados e os resignados. O também mexicano Juan Rulf, autor prodigioso replicou de forma definitiva: na verdade, existiam os indignados e os indignos.

O vencedor do prêmio Camões de 2017, o paulista, descendente de libaneses, Raduan Nassar, aos 81 anos, revelou-se, no discurso ao receber o galardão, um gigante ao atacar veementemente as forças obscuras que tomaram o poder em nosso país, utilizando o agourento lema “ordem e progresso” (a maior prova disso é a indicação de Alexandre de Moraes, para o STF). Ele já mostrara uma estatura gigantesca, logo no primeiro livro, LAVOURA ARCAICA, uma das obras primas de todos os tempos na prosa de língua portuguesa. Ali, ele reinventava a história do filho pródigo, com resultados perturbadores, abalando os alicerces da tradição patriarcal. Aqui cabe o clichê: se não tivesse publicado mais nada, Nassar, ainda assim, seria um dos maiores escritores do século 20.

Dois anos depois, ele publicou uma das mais mortíferas paródias do machismo, UM COPO DE CÓLERA, qual pertence o trecho seguinte: “E eu já vinha voltando daquele terreno baldio. Quando notei que ela e dona Mariana, nessa altura, estavam de conversinha… a claridade do dia lhe devolvendo com rapidez a desenvoltura de femeazinha emancipada…ela não só tinha forjado na caseira uma plateia, mas me aguardava também com um arzinho sensacional que era de esbofeteá-la assim de cara, e como se isso não bastasse, ela ainda foi me dizendo ‘não é para tanto, mocinho’”.

         O clichê acima mencionado acabou sendo ironicamente premonitório: Nassar desistiu da literatura, dizendo que era uma etapa ultrapassada.

E, uma coincidência curiosa, o outro “indignado”, Juan Rulf só publicou dois livros, o maior romance hispano-americano, PEDRO PÁRAMO e os contos de PLANALTO EM CHAMAS (os dois publicaram alguns textos e esparsos ao longo dos anos). Mas ambos continuaram a representar a luta contra os indignos, dentro ou fora do mundo literário. Além dos livros de Raduan Nassar, atualmente publicados pela Companhia das Letras, recomendo o volume dedicado a ele pelos “Cadernos de Literatura Brasileira”, organizado pelo Instituto Moreira Salles.

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17/06/2012

Nem a muleta de uma frase feita ao alcance

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 05 de outubro de 1993)

   Uma enquete sobre a literatura brasileira entre especialistas da área apontou as dez obras de ficção mais importantes, de 1970 para cá. Esquecimentos à parte (a área é sempre minada), foram lembrados livros essenciais como A hora da estrela (Clarice Lispector) e A guerra conjugal (Dalton Trevisan). E também UM COPO DE CÓLERA, publicado pela primeira vez em 1978.

   Raduan Nassar mais do que narrar, presentifica as ações (e emoções à flor da pele) de um homem que tem uma noite de sexo com uma mulher, num relação que parece—a princípio—disciplicente e descomplicada.

  Esse mesmo homem, entretanto, fica à beira de um ataque de nervos (se é que não despenca, pois é um longo capítulo—numa curta novela—chamado O esporro), quando vê sua mulher-fêmea agindo como uma mulher-pessoa, em colóquio com a caseira, sem consciência da presença dele, do seu poder e aura de macho: “e eu já vinha voltando daquele terreno baldio..quando notei que ela e dona Mariana, nessa altura, estavam de conversinha… a claridade do dia lhe devolvendo com rapidez a desenvoltura de femeazinha emancipada…ela não só tinha forjado na caseira uma plateia, mas me aguardava também com um arzinho sensacional que era de esbofeteá-la assim de cara, e como se isso não bastasse, ela ainda foi me dizendo ´não é para tanto, mocinho´, aquele ´mocinho´ foi de lascar”.  Note-se que o termo “conversinha” pretendia instaurar o tom condescendente do Homem com H maiúsculo diante das insignificâncias a que as mulheres se dedicam, e de repente, essa modulação é espezinhada, quando não dinamitada por um tom correspondente da parte dela, ao utilizar o termo “mocinho”.De fato, é de lascar.

   Nos capítulos anteriores, ele exibira toda a sua segurança aparente e o fascínio que exercia sobre a mulher. O relato,  a partir daí, adentra por um labirinto de autojustificativas, de narcisismo ressentido e de pruridos visando à anulação do Outro, que lembram (apesar do figurino mais moderninho) as tentativas de Paulo Honório em coisificar Madalena, em São Bernardo (Graciliano Ramos).

   UM COPO DE CÓLERA chega quase ao tosco, ao primitivo do ser humano. E é também um superior exercício de linguagem, um tour-de-force: absolutamente compreensível, ao ponto de parecer muito simples, consegue no entanto nos transmitir toda a voltagem psíquica de seu protagonista. Não é bem um romance do “fluxo de consciência”, à la Ulisses ou O som e a fúria (nos quais os autores tentam nos passar a “forma” do pensamento, num discurso fragmentado e associativo). Nassar nos comunica, epidermicamente, é verdade, o “conteúdo” conceitualizado do pensamento, fazendo com que percebamos nitidamente os mecanismos que o regem, de forma que o seu livro é um belo desmascaramento existencialista de consciência em plena performance de má-fé, de um protagonista que, em certo momento se vê, majestosamente, como “um ator em carne viva”.

   Por isso mesmo, UM COPO DE CÓLERA sobretudo é uma reflexão sobre a linguagem, pelo que podemos depreender da perplexidade do próprio “ator em carne viva” se debatendo em sua performance existencial: “ao mesmo tempo em que acreditava, piamente, que as palavras…cada uma trazia, sim, no seu bojo, um pecado original…me ocorreu que nem banheira do Pacífico teria água bastante para lavar (e serenar) o vocabulário, e ali, no meio daquela quebradeira, de mãos vazias, sem ter onde me apoiar, não tendo a meu alcance nem mesmo a muleta de uma frase feita…”

   Nassar só publicou mais um livro até agora, Lavoura arcaica (1975), afirmando que a criação literária não vale a pena. Raul Pompéia é um clássico com apenas um romance, O ateneu. É a essa estirpe avara e severa que o grande escritor paulista pertence.

nota de 2012- A adaptação cinematográfica de Aluízio Abranches, de 1999, é um horror. Eu não sou exatamente fã da versão de Lavoura arcaica, mas ela pelo menos tem uma respeitabilidade inata. O filme de Abranches, até por causa dos maneirismos meio chanchadescos de Alexandre Borges, não tem densidade, força nem impacto. Só apleação.

 

A PARÁBOLA PARADOXAL: “Lavoura Arcaica”

(resenha publicada, com ligeiras alterações, em  A TRIBUNA  de Santos, em  22 de janeiro de 2002)

    As concorridas sessões da versão cinematográfica de Luiz Fernando Carvalho para o extraordinário LAVOURA ARCAICA, de Raduan Nassar, me fazem esperançoso de que sempre haverá público se também houver o interesse em exibir filmes mais difíceis e intrigantes.

     Texto belíssimo (publicado originalmente em 1975), já com status de clássico da nossa ficção, LAVOURA ARCAICA subverte a linguagem das parábolas bíblicas, das fábulas que contêm um ensinamento moral e edificante (é o que o pai do narrador, André, gosta de fazer durante as refeições familiares), como a da “volta do filho pródigo”, que enaltece o lar, a tradição e o dever filial. Contudo, que moral, que ensinamento edificante pode ter uma parábola onde o filho sai de casa por cometer incesto com a irmã (e uma atmosfera incestuosa já existia entre ele e a mãe) e, ao ser persuadido a voltar, na mesma noite volta a agir incestuosamente, desta vez com o irmão caçula?

    Portanto, o leitor é obrigado a enfrentar uma história sobre o dever filial, o peso da tradição, da família e da propriedade, onde os julgamentos morais estão suspensos e onde a perplexidade é o fator dominante. Por um lado, o pai diz que “o amor na família é a suprema forma de paciência”; por sua vez o filho afirma que “o amor nem sempre aproxima, o amor também desune; e não seria nenhum disparate concluir que o amor na família pode não ter a grandeza que se imagina”.

     LAVOURA ARCAICA, como texto que privilegia muito mais o discurso do que a narrativa,  é um confronto entre duas linguagens, ambas oriundas de uma matriz bíblica (no sentido de uma Lei que nos rege): uma, petrificada, solene, categórica (a do pai), onde a palavra é semente que alimenta e consola; outra, a do filho, tateante, passional, na qual a palavra, como semente, “traz vida, energia, pode trazer inclusive uma carga explosiva no seu bojo: corremos graves riscos quando falamos”. Esse perigo latente na linguagem (que aparece no reencontro com o irmão, quando André percebe que ele procura um bordão qualquer para se acalmar diante de suas revelações), também rege o discurso do narrador de UM COPO DE CÓLERA (o único outro livro que o avaro Nassar publicou): “…acreditava piamente que as palavras… cada uma trazia, sim, no seu bojo, um pecado original… me ocorreu que nem banheira do Pacífico teria água bastante para lavar (e serenar) o vocabulário, e ali, no meio daquela quebradeira, de mãos vazias, sem ter onde me apoiar, não tendo a meu alcance nem mesmo a muleta de uma frase-feita”.

    Luiz Fernando Carvalho criou o equivalente visual perfeito para o irredutível  desencontro de linguagem entre pai e filho no filme, o pai (vivido com majestosa gravidade por Raul Cortez) uma figura impecável, limpa, sempre com gestos medidos, perfeito para aparecer associado a terras cultivadas, ordenadas; por sua vez, André (Selton Mello), está sempre associado à terra no que ela tem de musgo, húmus, coisas viscosas, que deixam nódoas e marcas no corpo, folhas mortas, insetos, que combinam com uma movimentação nervosa e convulsiva, sem repouso.

    Com isso, Carvalho criou um filme importante e surpreendente (pelo menos para quem, como eu, se aborrecia mortalmente com seus dramalhões televisivos), quase sem concessões ao público, mas que peca na escolha do ator central: é decerto admirável o esforço de Selton Mello, ainda mais com a presença massacrante do seu personagem em cena; só que nenhum esforço sobrevive a uma dicção horrível, e em certas cenas capitais (como na capela, masturbando-se diante da irmã, ou na cena da crise epiléptica) reúne o que há de pior na impostação teatral, exagero e respiração ofegante, histérica.

      Além disso, o diretor exagera nos efeitos visuais (como já acontecia nos seus trabalhos anteriores) e os 183 minutos de um filme no qual deveria prevalecer a densidade acabam sendo cansativos e torturantes pelos motivos errados. É inegável, porém, que LAVOURA ARCAICA, o filme, se destaca na última safra do cinema nacional por sua ousadia e radicalidade.

      Quanto ao livro, na época em que foi publicado, apareciam algumas grandes experiências com a linguagem narrativa em nosso país. É o caso de Maíra (Darcy Ribeiro), de A hora da estrela (Clarice Lispector), de Novelário de Donga Novais (Autran Dourado) ou de A rainha dos cárceres da Grécia (Osman Lins), obras-chaves da segunda metade da década de 70. Entretanto, LAVOURA ARCAICA e UM COPO DE CÓLERA representam algo de majestoso (tal como o pai de André) e único, mesmo no confronto com as obras citadas. Os dois textos de Raduan Nassar são um cadinho iningualável de experiência, memória e  linguagem: “…qual o momento, o momento preciso da transposição? que instante, que instante terrível é esse que marca o salto? que massa de vento, que fundo de espaço concorrem para levar ao limite? o limite em que as coisas já desprovidas de vibração deixam de ser simplesmente vida na corrente do dia-a-dia para ser vida nos subterrâneos da memória…” 

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