MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

09/12/2011

O “tudo que é sólido desmancha no ar” dostoievskiano: OS DEMÔNIOS

VER TAMBÉM:

https://armonte.wordpress.com/2011/12/09/o-tudo-o-que-e-solido-desmancha-no-ar-turguenieviano-pais-e-filhos/

(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 26 de fevereiro de 2005)

Na sua coluna da Caros Amigos, o saudoso Léo Gilson Ribeiro contava como desistiu de ler Dostoiévski em português porque achou abomináveis as traduções de Rachel de Queiróz e saúda a recente versão (feita do russo) de Os Demônios  (1872)realizada por Paulo Bezerra na esteira de Crime e Castigoe  O Idiota.

Pois bem, eu confesso que então me falta a compreensão do que é uma boa tradução. Conhecia Os Demônios e era apaixonado pelo livro, justamente através da tradução de Rachel de Queiróz (publicada pela José Olympio) e também a de Natália Nunes (nas Obras Completas da Aguilar, com seus erros e acertos), e sempre considerei ambas perfeitamente aceitáveis.

Instigado pelas palavras de Ribeiro, e mesmo tendo sido quase derrotado pelas traduções anteriores de Paulo Bezerra, enfrentei sua versão da história de Stávroguin & outros conspiradores. Ora, mais de uma vez foi preciso recorrer a dupla Rachel & Natália para que certos trechos ficassem claros. Mais ainda: o leitor que só conhecia Os Demônios em português através das outras versões conhece o essencial do livro e não perdeu nada. São escassos (e insignificantes) os momentos em que se acrescenta algo novo à compreensão das personagens, do seu modo de falar, das suas idéias e da atmosfera do romance. O que nos leva à conclusão, diante do alarde que certas versões recebem, que marketing existe até no insuspeito território da tradução.

Por exemplo, o início da 2ª parte (depois de uma série de cenas teatrais e extraordinárias, dignas de Shakespeare) foi traduzido assim por Rachel de Queiróz: “É claro que corriam a cidade estranhos rumores a respeito da bofetada, do desmaio de Lisa, e dos outros acontecimentos daquele domingo memorável. E aquilo muito nos admirava: como aqueles fatos teriam sido tão rapidamente espalhados, até nos pormenores mínimos ?” Natália Nunes, por sua vez: “Na cidade, não se falava, é claro, senão da bofetada, do desmaio de Lisa e dos outros acontecimentos daquele famoso domingo. Mas uma coisa nos espantava: como tudo quanto se passara tinha podido ser conhecido tão depressa e com tal precisão ?” Vejamos a “contribuição” de Paulo Bezerra para o leitor brasileiro quanto ao mesmo trecho: “É dispensável dizer que pela cidade correram os mais diversos boatos, isto é, a respeito da bofetada, do desmaio de Lizavieta Nikoláievna e de outros acontecimentos daquele domingo. Mas uma coisa nos deixava surpresos: através de quem tudo aquilo poderia ter vazado com tal velocidade e precisão?”

Não se está tentando diminuir, é evidente, o tour-de-force de um tradutor que tem enfrentado as obras mais intensas e tumultuosas da ficção, e a partir do original, mas é um esnobismo ridículo  desdenhar versões que fazem parte da nossa tradição de leitura.

No mais, depois de ter criado a mistura russa de Hamlet e Dom Quixote (com a sombra de Cristo pairando ainda por cima) em O Idiota (talvez seu mais belo livro), Dostoiévski surpreendia mostrando um grupo de terroristas ideológicos empenhados numa sutil operação de desmoralização e desestabilização de uma província. E isso através de uma narrativa oblíqua, complexa e devoradora. O que acontece nos bastidores é tão importante quanto o que acontece no palco. Daí a escolha genial de um narrador provinciano, que convive com os protagonistas, mas sempre está também à parte, atrasado,  diante de fragmentos contraditórios e controversos.

Como, depois de um livro desses, Dostoiévski ainda pode escrever Os Irmãos Karamázov, que parece ainda mais vasto e exorbitante ?

(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA  de Santos, em  05 de março de 2005)

“Proclamaremos a destruição…porque…porque mais uma vez essa ideiazinha é fascinante…Espalharemos incêndios…Espalharemos lendas… Aí qualquer grupo sarnento será útil. No meio desses mesmos grupos encontrarei pessoas tão dispostas que darão qualquer tipo de tiro e ainda ficarão agradecidas pela honra. Bem, aí começará o motim! Haverá uma desordem daquelas que o mundo nunca viu…A Rússia ficará mergulhada em trevas…”

Continua-se aqui o comentário a respeito da tradução de Paulo Bezerra (direta do russo) para Os Demônios, um dos quatro romances supremos de Dostoiévski (junto com Crime e Castigo, O Idiota e Os Irmãos Karamázov).

O fio condutor da trama (uma sábia decisão do autor) é a relação de amor irrealizado/ódio entre dois personagens inesquecíveis, Stiepan Trofímovitch Vierkhoviénski e Varvara Pietrovna Stavróguina. Ela se torna a protetora dele, um intelectual pomposo e inerte, que se resigna a um parasitismo abjeto, como agregado de luxo. Os dois principais “demônios” do título são os filhos de ambos, Piotr Stiepánovitch (de quem são as palavras acima) e Nikolai Vsievolódovitch, o famoso Stavróguin, que retornam à província e propagam conspirações, crimes, atos de terrorismo e desatinos à sua volta, chegando a envolver até o governador, Lembke e sua pretensiosa esposa, Yúlia Mikháilovna, que se julga “avançada” e pronta para orientar jovens, quando na verdade está sendo manipulada e desmoralizada.

O objetivo, segundo Chigalióv, um dos membros do grupo criado na província pelo filho de Vierkhoviénski, é “desacreditar constantemente, mediante uma propaganda sistemática de denúncias, a importância do poder local, gerar perplexidade nos povoados, engendrar o cinismo e escândalos, a total descrença no que quer que exista… e, por fim, lançando mão de incêndios como meio predominantemente popular, no momento determinado lançar o país até no desespero em caso de necessidade”.

Esse mesmo Chigalióv antecipa sinistramente os crimes cometidos em nome do socialismo, ao afirmar um sistema ideológico no qual, partindo da liberdade ilimitada, chega-se ao despotismo ilimitado. Noventa por cento da humanidade ficaria escrava do iluminado dez por cento que a colocaria para trabalhar e modificar sua natureza através de gerações.

Uma das maneiras de assegurar lealdade ao grupo é o crime cometido em comum, o sangue derramado servindo como elemento de coesão. A vítima escolhida é Chátov, tido como delator devido às intrigas do venenoso Piotr Stiepánovitch. Esse incidente é baseado num fato real que serviu como idéia-mestra de Os Demônios.

Não se pode deixar também de citar Kiríllov e seu projeto de matar-se para libertar o homem da idéia da morte e cujas idéias sobre suicídio foram amplamente discutidas por Albert Camus (o qual, aliás, adaptou Os Demônios para o teatro).

Há ainda outras complicadíssimas personagens femininas, como a irmã de Chátov, Dária, dama de companhia da mãe de Stavróguin, e Liza, mais uma representante das “histéricas” dostoievskianas, e não obstante, objeto da paixão de vários personagens, entre os quais o próprio narrador, esse ser tão ambíguo criado por Dostoiévski, que nos revela diálogos íntimos por inteiro, aos quais não poderia ter assistido, mas que deixa boa parte da ação ocorrer nos bastidores e está sempre a nos informar da sua insuficiência para o papel, mesmo tendo convivido com todos os protagonistas. Por exemplo, logo no início da 3ª parte: “É claro que ninguém está no direito de exigir de mim, como narrador, detalhes excessivamente exatos…”

O fato é que toda a recente onda de terrorismo trouxe novo interesse a um livro que já era fascinante, embora terrível de se ler, tortuoso e atravancado como é, e ainda tendo de açambarcar as tendências reacionárias do seu autor  e seu ajuste de contas dissimulado com inimigos na vida real. Mas com gênios o negócio é assim: tem que se aceitar o pacote inteiro.

07/12/2011

A CONDIÇÃO HUMANA: “Os irmãos Karamázov”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em oito de janeiro de 2002)

A editora 34 lançou nova tradução de Crime e Castigo. A Ediouro, por sua vez, veicula mais uma vez (e com sucesso, segundo os livreiros) a já conhecida versão de Natália Nunes & Oscar Mendes para outro clássico dostoiévskiano, Os Irmãos Karamázov (dessa vez tiraram  o “i” que tradicionalmente fazia parte do título, seguindo o original russo, de 1880, Brátia Karamázovi).

É um volume gigante, com uma capa que chama a atenção, papel de boa qualidade, mas com vários problemas: apesar de haver uma preparadora de originais, uma responsável pelo copidesque e duas revisoras, o leitor se defronta com inúmeros erros,que muitas vezes atrapalham a compreensão (Ivan diz a Aliócha que está na região há “quatro anos”, quando na verdade só está há “quatro meses”) e que já devem vir acompanhando (mas para quê, então, tanta gente na equipe, se não fizeram nada?) as edições de uma tradução complicada, que ainda contém um forte sabor lusitano (por essa razão, sempre preferi—aliás, acho-a não só inegavelmente melhor, como também maravilhosa (opinião não muito compartilhada, devo dizer)—a de Rachel de Queiroz, publicada pela José Olympio e feita a partir da versão francesa)[1].

Na página 718, no final da defesa do advogado de Mítia Karamázov, aparece até um trecho enorme de um capítulo anterior. Isso sem contar as discrepâncias incômodas entre as duas traduções: numa, os fatos ocorreram há “treze anos”; noutra, há “trinta”!!!???

Mesmo com todos esses percalços, a releitura de Os Irmãos Karamázov reiterou o óbvio: é o maior romance do século XIX, junto com Guerra e Paz. Se Crime e Castigo era o Hamlet do grande autor russo, a história dos Karamázov, com seu conflito de gerações, é o seu Rei Lear;  por ter um grupo de personagens como protagonistas (embora o narrador insista no fato de que Aliócha é o herói da narrativa, por ser o elemento “positivo” da trama, aquele que aprende com os erros alheios e os próprios), e por se passar numa cidadezinha provinciana, longe da esfera de Petersburgo—a qual domina boa parte da obra dostoiévskiana, o livro se aproxima mais de outro Dostoiévski supremo, Os Demônios; além disso, ambos têm um narrador ambíguo e discutível —em termos literários, com relação à construção do ponto-de-vista narrativo—, que se apresenta como alguém da cidade, um cronista, que meramente acompanhou os fatos, mas que possui o poder da onisciência divina: sabe até o que os outros pensam e sentem.

Na cidadezinha de Skotoprigonievski, Fiódor Karamázov vê, de repente, todos os filhos à sua volta, embora nunca tenha ligado para nenhum deles, após a morte das duas esposas: Mítia, com o qual disputa os favores de Gruchenka (e, por essa razão, é ameaçado de morte pelo filho diversas vezes, principalmente quando ele sabe que o pai fica esperando por elas todas as noites), Ivan e Aliócha.

O que define os Karamázov (e Aliócha se salva por causa do exemplo do “stáretz” Zózima, homem santo cuja vida ocupa um dos inúmeros desvios narrativos do romance) é a voracidade, a avidez sem limites, que faz com que eles toquem os limites da condição humana e sintam que só podem se redimir pelo sofrimento (é o que diz Mítia, ao ser preso: “Quero sofrer e redimir-me pelo sofrimento”).

Ivan é como Raskólnikov (de Crime e Castigo): desenraizado, dominado por teorias racionalistas e niilistas, cujo sofrimento é estéril (porém comovente, leia-se o capítulo “A Revolta”), ao contrário do de Aliócha, o qual consegue se ligar ao povo e ser amado por ele (isso fica claro num capítulo suprimido na edição da Ediouro, mas que está na da José Olympio: o julgamento de Aliócha por executar a fuga de Mítia e sua absolvição aclamada pela audiência lotada).

Não é à toa que Ivan, prestes a ficar louco, receba uma das duas visitas mais famosas que o Diabo fez até hoje na alta ficção (a outra é feita a Adrian Leverkühn, em Doutor Fausto, de Thomas Mann). A fórmula decorrente da postura de Ivan, “se Deus  não existe, tudo é permitido”, leva o bastardo Smerdiákov, invejoso e cruel (vivendo como cozinheiro na casa de seu provável pai), a se julgar autorizado para executar o parricídio.

Assim, Dostoiévski radicaliza e complica o problema do crime, que já era central em Crime e Castigo: desta vez, o personagem possuído por teorias destrutivas não executa o crime, mas é o seu mentor intelectual. O parricídio, crime primordial, é atribuído a Mítia, o mais provável suspeito, que é preso, julgado e condenado, numa seqüência narrativa admirável.

Esbanjando seus recursos como ficcionista, certamente consciente de que atingia o auge da sua obra, Dostoiévski dissemina mil ironias, que ampliam seu drama familiar para um painel imenso: enquanto o padre Fierapont, um religioso fanático, inimigo do “stáretz” Zózima, vê em todos os lugares diabinhos, que ele supostamente “esmaga”, o Senhor do Mal age livremente em meio aos incrédulos (como Ivan) e até entre moças aparentemente inocentes (é  caso de Lisa, apaixonada por Aliócha, uma das personagens mais estranhas de Dostoiévski, não obstante TODAS as mulheres do livro apresentarem um comportamento dúbio).

Até em meio a uma aparente ramificação secundária da trama, onde aparece um grupo de meninos que se apega a Aliócha, o livro aprofunda um dos seus temais centrais: a tragédia que é a cisão entre pensar e sentir. O menino Kótia já é um pequeno ideólogo, com reservas contra a pieguice e o sentimentalismo. Não estaria nele a semente de um futuro Ivan Karamázov, isto é, de futuros crimes, sem uma influência positiva? Já não se estaria preparando um drama para a próxima geração?

Otto Maria Carpeaux (que eu geralmente considero superestimado, um crítico literário discutível—e desculpem-me se invisto aqui contra o senso comum) escreveu algo interessante sobre Os Irmãos Karamázov: “É um mundo completo. Tão completo que o leitor pode viver durante anos dentro dos muros desse mundo sem chegar a conhecê-lo completamente, ao ponto de perder-se, às vezes, nos corredores entre os quartos escjuros e entre as celas dos monges”. Ao tentar escrever sobre esse mundo, é que nos damos conta da verdade dessas palavras.


[1] Em duas resenhas, publicadas originalmente em 13 e 20 de dezembro de 2008, comentei o lançamento de uma nova tradução.

Abaixo, o texto:

O lançamento de Os Irmãos Karamázov marca o auge das traduções que Paulo Bezerra vem realizando (diretas do russo0 da obra de Dostoiévski, já que se trata do maior romance da literatura mundial, ao lado de Guerra e Paz e Madame Bovary.

É a história de um parricídio: Fiódor Pavilovitch é assassinado e a culpa real recai sobre o filho mais velho, o desbragado Dmitri, mas os outros filhos também poderiam ter assassinado o pai: o místico Aliócha, o niilista Ivan e o bastardo Smerdiákov (uma mistura de Iago com Calibã).

Além de painel perturbador das contradições sociais da Rússia imperial, um alucinante clima simbólico perpassa Os Irmãos Karamázov, cujo objetivo é mostrar extremos da condição humana. Dois personagens reúnem-se aos Karamázov para que o livro consiga esse efeito: Grúchenka (pomo da discórdia entre o velho Karamázov e o filho) e o stárietz Zóssima, um santo homem. Através do triângulo amoroso, descortina-se o papel das pulsões sexuais. O stárietz, por sua vez, representa o dilema da espiritualidade, o salto da fé. Nem ele é poupado: quando morre, seu corpo começa a feder de forma intolerável e blasfema. Zóssima é o contraponto de Fiódor Pavlovitch para que Aliócha possa se tornar o princípio positivo do romance.

Aliás, a obra-prima suprema de Dostoiévski tornou-se um marco ao mostrar inequivocamente que nós somos porque nos confrontamos com consciências alheias, fazendo a vocação mais original do romance (enquanto gênero literário) ser a polifonia, como nos ensinou o grande compatriota do autor de Os Demônios, Mikhail Bakhtin: a estratificação da narrativa em várias vozes que se entrechocam, entredevoram-se e criam um efeito de amplitude como nunca se viu antes na milenar atividade de contar histórias.

Quando se escreve sobre Os Irmãos Karamázov nunca se deixa de ter em mente o capítulo “O Grande Inquisidor”, no qual Ivan demole as igrejas enquanto instituições, colocando-as como a grande impostura da Humanidade. A certa altura, afirma-se que o paraíso não vale uma lágrima de criança. E atinge-se, então, aquela revolta que Albert Camus considerava a mais nobre virtude do homem: “Por que entre eles não poderia aparecer nenhum sofredor, atormentado pela grande tristeza, e que amasse a humanidade? Supõe que entre esses que só desejam bens materiais e sórdidos tenha aparecido ao menos um como meu velho Inquisidor, que comeu ele mesmo raízes no deserto e desatinou tentando vencer a própria carne para se tornar livre e perfeito, mas, não obstante, depois de passar a vida inteira amando a humanidade, de repente lhe deu o estalo e percebeu que é bem reles o deleite moral de atingir a perfeição para certificar-se ao mesmo tempo de que para os milhões de outras criaturas de Deus sobrou apenas o escárnio, de que estas nunca terão condições de dar conta de sua liberdade, de que míseros rebeldes nunca virarão gigantes para construir a torre, de que não foi para esses espertalhões que o grande idealista sonhou a sua harmonia. (da resenha de 13 de dezembro)

Na semana passada, comentando a nova tradução de Os irmãos Karamázov, deu-se destaque aqui ao capítulo “O Grande Inquisidor”, que teria especial interesse em nossa época (dominada pelo pensamento e pela figura de Nietzsche, o Dostoiévski da filosofia), no qual  Ivan, o mais intelectualizado dos irmãos Karamázov, demole as igrejas enquanto imposturas. Citando Nietzsche, “Deus está morto, a piedade pelos homens matou-o”. Ou seja, o cristianismo tinha desfibrado o homem, transformando-o em escravo. Mas atenção: nenhum personagem pode ser tomado como porta-voz de Dostoiévski, e no fato de declararem a morte de Deus ele via o perigo supremo, pois se o Ser Supremo, se a nossa idéia de transcendência (que permite julgar os atos terrenos), estão mortos, “tudo é permitido” e nada subsistiria: a moral, a ética, e por extensão, a existência “humana”.

Essa dilaceração entre o extremo a que se pode chegar na linha das idéias e o horror gerado por elas é um dos pontos mais fascinantes entre os muitos da obra-prima de Dostoiévski, que parece a síntese (não por acaso foi seu último livro) das várias experiências anteriores através do drama da família-título (o livro se move em torno do assassinato do pai). Temos de Crime e Castigo a idéia do “crime intelectual”, racionalizado; temos de O Idiota (talvez o mais belo entre os supremos livros dostoievskianos) a tentativa de uma existência “espiritual” no mundo contemporâneo que se revela quixotesca e só atrai desgraças; temos de Os Demônios o tom da narrativa (feita por um morador da cidade provinciana, onde se passam os acontecimentos) e as discussões ideológicas; e temos de todas elas, e mais outras tantos (como Notas do Subsolo; O Sósia, Um Jogador, por exemplo) o clima “febril”, a sensação de que mergulhamos um pouco numa alucinação. De brinde, o livro tem uma das duas visitas do Diabo mais importantes da história do romance (a outra aparece em Doutor Fausto). Pudera, tanto em Dostoiévski quanto em Mann, ele não poderia faltar em uma reflexão sobre o destino de um povo. (da resenha de 20 de dezembro)

17/11/2010

A MELHOR IDADE DE RACHEL DE QUEIROZ

Introdução a três resenhas:

      Durante muito tempo, Rachel de Queiroz (nascida em 17 de novembro de 1910 e falecida em 04 de novembro de 2003) foi mais importante como tradutora para mim do que como autora dos próprios livros; destes, pouco me lembrava de João Miguel e Caminho de Pedras, ela era mais a autora de O Quinze e As Três Marias (além, é claro, de crônicas que nunca foram as minhas favoritas). Em compensação, são essenciais na minha história de leitor suas traduções de Dostoievski (especialmente  de Os Demônios e Os Irmãos Karamázov), hoje tão criticadas, mas que defenderei sempre; suas traduções de Galsworthy, da Crônica dos Forsythe (O proprietário e Irene), sua tradução de Mansfield Park, de Jane Austen, de O morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë, sua tradução das Memórias de Tolstoi. No entanto, acho que além de Dostoievski, a tradução feita por Rachel de Queiroz (se bem me lembro, esta foi em colaboração com alguém) que mais me marcou foi a de O mágico de Lublin, de Isaac Bashevis Singer.

    Só com a leitura de Memorial de Maria Moura nos anos 90 é que comecei a ver a escritora Rachel de Queiroz, mais que a tradutora. E ainda assim, como logo em seguida tive o desprazer de ler a coletânea de crônicas As Terras Ásperas, continuei sempre com uma sensação de antipatia e distanciamento.

   Por conta do centenário de nascimento de Rachel, fiz uma seqüência de leitura de quatro livros: O Quinze, As Três Marias; Dôra, Doralina e O Galo de Ouro.

 

Dedico o texto abaixo à minha querida amiga CLÁUDIA

I.                  O MELHOR ROMANCE:  SEM ENJÔO NA VIAGEM

(resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, de forma mais condensada, em 16 de novembro de 2010)   

 

“…já levava muito gosto naquela vida da Companhia, a luz e os aplausos e os homens assobiando, e o dia trocado pela noite, e a gente hoje aqui amanhã além. Era uma aventura que não parava e eu sempre tinha sonhado com aventuras”.

                 (Rachel de Queiroz, Dôra, Doralina)

     João Fonseca da Nogueira, alter ego de Autran Dourado em algumas das suas histórias dizia que gostava de  ficar perto de velho, pois velho é quem sabe das coisas importantes.    Ou qualquer coisa bem parecida.

    A melhor coisa que aconteceu para Rachel de Queiroz enquanto escritora foi ter ficado velha. Sempre pensei que tivesse dado um salto de qualidade já octogenária, com Memorial de Maria Moura (1992), entretanto descobri nos últimos dias sua melhor obra, publicada aos 64 anos: Dôra, Doralina (1975), um quarto de século depois da sua última experiência no gênero (O galo de ouro, só publicado em livro em 1985).

    Nesse romance excelente, ela apresenta não só o fôlego narrativo e a vitalidade da história de Maria Moura, como também um universo mais rico, mais variado, e sobretudo uma narrativa em primeira pessoa que é um show à parte [1]. Chega a ser irônico que, ano após ano, Rachel de Queiroz venha mantendo a aura de nome importante na literatura brasileira mais pelo livro de estréia, O quinze (cujas qualidades inegáveis não o impedem de ser limitado, indicando mais um talento mediano) enquanto Dôra. Doralina é o ponto mais próximo a autora cearense que chegou de produzir ficção de primeira, vigorosa.

     O livro é dividido em três partes: na primeira, numa fazenda no interior do Ceará, Dôra descobre que sua dominadora mãe (chamada por todos de Senhora) mantém um romance com seu marido, Laurindo, o qual será assassinado por um protegido da moça, um ex-bandoleiro esquisito, Delmiro. Após a morte de Laurindo, conhecedora do segredo da mãe e não conseguindo enfrentá-la, Dôra vai para fortaleza e se incorpora a uma trupe teatral das mais mambembes (ela representará os papéis de “ingênua” na companhia, apesar dos avanços de alguns: “Bom, nisso tudo o que eu quero dizer é que antes de eu entrar na Companhia, tinha o meu corpo como se fosse uma coisa alheia que eu guardasse depositada, e só podia dar ao legítimo dono, e depois de dar a esse dono era só dele, não adiantava eu querer ou não, porque o meu corpo eu não tinha o direito de governar, eu vivia dentro dele mas o corpo não era meu. Já agora o corpo era meu, pra guardar ou pra dar, se eu quisesse ia, se não quisesse não ia, acabou-se”), com a qual excursiona pelo Norte e pelo Nordeste, sempre em situações precárias e incidentes deliciosos (o episódico é a seara de Rachel de Queiroz).

    Durante a Segunda Guerra, fazem uma viagem por Minas até o Rio, e é nesse momento     que Dôra conhece aquele que será seu grande amor, o contrabandista Asmodeu, mais conhecido como o Comandante (a essa altura da sua vida, ele dirige uma barca pelo rio São Francisco, antes de perder o posto devido a seu negócio paralelo).

    Através das trajetórias da narradora, do Comandante e do pessoal da trupe (especialmente o casal que a comanda, Carleto Brandini e Estrela) vamos descortinando nosso país dos anos 30 aos 50, e também o arco que a literatura brasileira vai fazendo no século XX, do poderoso romance regional nordestino dos anos 30 até o triunfo da ficção urbana, concentrada justamente no Rio de Janeiro, no qual se passa a maior parte do terço final de Dôra. Doralina. É como se fôssemos de José Lins do Rego para Rubem Fonseca, passando por alguns mineiros de permeio.

   Ao contrário das protagonistas da juventude de Rachel de Queiroz, Dõra é irresistível: trata-se de uma mulher machista, submissa ao seu homem, passiva, deixando mais as coisas acontecerem do que tendo participação ativa, sendo “levada pela vida”, por assim dizer  (ao contrário da autoritária mãe), e no entanto o sabor da sua “fala”, o colorido da sua peculiar voz narrativa são cativantes, assim como a voz e a fala de Holden Caulfield de O apanhador no campo de centeio ou da Romana de Alberto Moravia. Alguns exemplos: quando o Comandante é preso por suas atividades ilegais, “Corri a telefonar ao Chefe Conrado e foi uma demora enorme para ele atender, acho que lá por dentro aquele quartel do morro era um vaticano”; ou quando procuram casa no Rio: “Meu sonho era um apartamento, e bem alto, acima do décimo andar. Porque, pra mim, criada onde fui, morar em apartamento era o máximo, a própria essência de viver no Rio de Janeiro”.  Ou ainda o “negócio” do Comandante: “E, desse dia em diante, as coisas que ele começou a trazer para casa eram de muito maior valor,  cortes de linho, sedas de Hong Kong (até aquela data, nunca na minha vida eu tinha escutado falar em Hong Kong), ventarolas, um serviço de chá, tudo ajaponesado, que eu não sabia de onde vinha. E perfumes, e bebidas, na maioria argentinos. Era o tal negócio prometido pelo Chefe Conrado que já ia começando…”

   Não é à toa que, ao contrário de Maria Augusta de As Três Marias, ao sair em viagem de barco Dôra não enjoa a viagem toda. Ela tem muito a viver…

II- ROMANCE POPULAR

  O galo de ouro  (não confundir com o livro homônimo do grande escritor mexicano Juan Rulfo)  foi inicialmente publicado em 1950 seriado na revista O Cruzeiro. Rachel de Queiroz tinha lá seus 39,40 anos. A publicação em livro se deu em 1985. Creio que ela mexeu muito no texto (embora não tenha como fazer essa apuração), transformando-o, aos 75 anos,  num romance perfeito, seu maior livro ao lado de Dôra Doralina.

    Explicitamente exumado por nostalgia a uma vida mais idílica e menos urbana na Ilha do Governador (onde ela morou por muitos anos), O galo de ouro é um dos poucos (e um dos melhores) exemplos de um verdadeiro “romance popular”, ou seja, de um romance que se passa no meio do povo e convence totalmente.

   É um encanto supremo acompanhar as aventuras da Macabéa de A hora da estrela, de Clarice Lispector, mas não se trata de um romance popular, no sentido que evoco aqui. É um encanto acompanhar a voz peculiar de Dôra  em Dôra, Doralina, e a narrativa é mais criativa, mais evidentemente “literária”. Mas o que conquista o leitor no romance-folhetim (segundo classificação da própria autora cearense) é a quase invisibilidade do literário, seus truques de transparência. Em nenhum de seus livros a “sabedoria épica”, acompanhar cada personagem sem tomar partido de nenhum, em todas as contingências da vida, foi tão forte.

    A trama acompanha Mariano. A princípio, garçom, ele se envolve com Percília, vão viver juntos, têm uma filha (Gina) e aí a companheira, que freqüenta uma tenda espírita e fez amizade com uma moradora da Ilha do Governador, dona Loura, tenta convencer o marido a se mudarem para lá, levantarem uma casinha e sair da casa de cômodos onde se espremem com diversas outras famílias.

   Após uma primeira visita à Ilha, o casal é atropelado por um automóvel: Percília morre, Mariano fica meses internado e quando sai está com um braço inutilizado. Não dá mais para garçom. Começa a trabalhar no jogo do bicho. Enquanto isso, comadre Loura toma conta de Gina e o próprio Mariano se instala na casa dela e de seu companheiro, José Galego, após uma prisão (causada por problemas com os “secretas” da polícia que extorquem os bicheiros), Mariano fica de molho por algum tempo e resolve levar adiante o plano de erguer ali na Ilha uma morada. Mesmo porque começa a se interessar por uma doidivanas local, Nazaré, que apesar da vigilância da mãe, é louca por bailes, cinemas, a vida na cidade, e que além de envolver-se com Mariano, tem um namorado metido a malandro, um ex-pivete, Zezé, candidato a cafetão.

    Como se vê, cruzam-se muitas linhas caras à população brasileira nesse enredo: o jogo do bicho, a inclinação pelo espiritismo em suas diversas formas, um pé na respeitabilidade e na honestidade, outro pé na contravenção e na informalidade… Mas Rachel de Queiroz vai além. Ao mostrar o relacionamento (depois eles acabam se casando) de Mariano com Nazaré, ela nos desenha dois personagens inesquecíveis, e incrivelmente autênticos nos mínimos detalhes (a seqüência narrativa que começa com Zezé dando de presente um anel roubado para Nazaré e que terminará na morte do malandrinho, devido a uma trampa armada por Mariano e policiais conhecidos, é particularmente memorável, inclusive pelo apego de Nazaré ao anel que faz com que ela minta, afronte os tiras, faça o diabo…).

     Se em 1950, O galo de ouro já era assim, eu fico assombrado de não ter tido a menor repercussão, e fico assombrado mais ainda com a modéstia da autora, que não cogitou de publicá-lo, sendo ele tão melhor que seus quatro romances anteriores. Como não acredito em milagres nem em modéstia de escritor, é por isso que prefiro acreditar (a não ser que venha prova em contrário) de que foi na demão de 1985 que o livro ganhou a forma atual, absolutamente inesquecível. Trata-se de um texto tão irretocável que não consigo nem citar parte alguma, pois ele é ação narrativa pura, uma tessitura inconsútil. A experiência  de ler O galo de ouro é a de ler o tipo de romance que apaixona Vargas Llosa, nas suas próprias palavras:

“Eu quisera que meus livros fossem lidos como eu li os romances de que gosto. Os romances que me fascinaram, mais do que entrar pela inteligência, através do puro intelecto, da pura razão, me enfeitiçaram literalmente, quer dizer, se converteram em histórias que de certa forma destruíram toda capacidade crítica em mim. E me faziam perguntar: O que vai acontecer? O que vai acontecer? Este é o tipo de romance que eu gosto de ler e este é o tipo de romance que eu gostaria de escrever. Então para mim é muito importante que todo elemento intelectual, que é inevitável que esteja presente em um romance, de alguma forma esteja dissolvido fundamentalmente em ações, em episódios que deveriam seduzir o leitor não por suas idéias, mas por sua cor, por seu sentimento, suas emoções, suas paixões, por sua novidade, por seu caráter insólito, pelo suspense e o mistério que possa emanar deles. Para mim, a técnica do romance é fundamentalmente conseguir isso, conseguir diminuir e, se possível, abolir a distância entre a história e o leitor. Nesse sentido eu creio que sou um escritor do século XIX. Para mim o romance continua sendo o romance de aventura, que se lê desse modo especial, tomado pela história.”

 

III- MOURÍADA

Resenha publicada em 31 de maio de 1994, com o título “Maria Moura resgata a subversão feminina”, em A TRIBUNA de Santos, na época da exibição da minissérie da Globo.

   Pega-se para ler MEMORIAL DE MARIA MOURA com má vontade e pé atrás. Sem contar as posições políticas de Rachel de Queiroz durante a ditadura, sua obra (iniciada em 1930, com O quinze) sempre foi mais para mediana. Apesar disso, ou talvez por isso mesmo, foi eleita para a Academia Brasileira de Múmias (aliás, foi a primeira mulher).

    Parece, entretanto, que 80 anos de vida serviram para alguma coisa. Cega como cidadã, ela mostra como narradora, em MARIA MOURA, a vidência de um Homero ao relatar como três trajetórias paralelas se unem na Casa Forte da Serra dos Padres: a da personagem-título, a de sua prima Marialva, e a do padre José Maria.

     Rachel de Queiroz não apenas narra com um fôlego até então insuspeito, que faz com que nos sentemos pensando em ler dez páginas e acabemos lendo duzentas, para usar o velho chavão, como também utiliza habilmente um repertório literário que resgata temas caros ao século XIX (no qual é ambientada a trama, ainda no Império). Temos um pouco do mundo de José de Alencar (aliás, antepassado da autora cearense), o de O sertanejo & O guarani (a casa-fortaleza); o mundo da Luzia-Homem de Domingos Olímpio; o mundo do Seminarista e do Padre Amaro.

    É por isso que, se há clichês, e os há, eles não incomodam em nada. Toda história de ação meio folhetim, seja uma novela de cavalaria, faroeste ou thriller, manifesta suas convenções como marcas de identidade. Note-se também que Maria Moura se inscreve numa linha de subversão feminina, das “donzelas guerreiras” (ligadas à figura paterna) que assumem a linhagem e o destino masculino, como a Luzia de Domingos Olímpio, a Guidinha do Poço, e mais recentemente a Diadoriam, de Grande sertão: veredas.

    As “donzela guerreiras” do século passado eram vencidas muitas vezs pelo seu “lado feminino”. Maria Moura, contudo, mesmo enredada na sua paixão pelo jagunço Cirino consegue dar a volta por coma e ainda mandar executar o amante traiçoeiro, sem precisar cair nos braços da outra ponta do triângulo, Duarte.

    Como nos poemas homéricos, não há “dramaticidade”, no sentido que atribuímos geralmente à palavra. Tudo é narrado de forma equânime e tudo flui sem tensão. Pode-se observar essa característica com relação aos primos de Maria Moura, Tonho e Irineu, que brigam com ela pelas terras do Limoeiro e depois desaparecem da narrativa, quando se esperaria (numa história mais “dramática” e concentrada) algum tipo de revanche, em prol do “suspense”. MEMORIAL DE MARIA MOURA é um romance de aventuras e tende ao infinito, como deixa claro o final em aberto. Só a história do padre/beato Romano apresenta certa dramaticidade, mais esta serve mais como contraponto à evolução de Maria Moura, como a de Marialva: três pessoas que “ganham o mundo” para cumprir diferentes sinas.

    Ao contrário de outros ficcionistas nordestinos, Rachel de Queiroz carrega muito pouco na religiosidade. Há fé, mas a vida pragmática predomina, e muito mais importante é a “posse da terra”, como revela Marialva: “A verdade é que todo aquele povo, tal como os meus irmãos e a minha cunhada, só davam valor à terra, sobre tudo neste mundo. E não só os fazendeiros, mas os padres, as beatas, os comerciantes,  o pessoal da rua e do mato; pra eles só vale a terra, acima de qualquer outro bem… Por causa de um corredor de terra de uma braça de largura, numa extrema,  todos são capazes de matar, de morrer e de mandar matar”.

 

  


[1] “E então deu-se, quando eu andava pelos meus quatorze anos, apareceu na Soledade um homem, um estranho, por nome Raimundo Delmiro.

    Aliás tinha outro nome, contudo esse ele só me disse mais tarde e bem no ouvido e eu jurei nunca repetir a ninguém—jurei e cumpri. O seu nome segundo era Lua Nova, mas isso já fica sendo um caso dentro do outro e terá de vir depois”.

“Do outro lado da parede uma folhinha com figura de mulher nua. Cem anos que viva não esqueço. Pior do que os quartos de pensão onde a gente às vezes se hospedava. Cem anos? Mil anos que eu viva não esqueço”.

Centenário de Rachel de Queiroz: AS TRÊS MARIAS- enjôo na travessia da vida

     Neste mês (dia 17) se comemora o centenário de nascimento de Rachel de Queiroz que, na sua longa vida [1], teve como atividade principal a crônica em jornais,  e  foi uma romancista bissexta, ou seja, passava largos períodos sem publicar nada no gênero: após uma década inicial produtiva (O quinze, 1930;  João Miguel, 1932; Caminho de pedras; 1937; As três Marias, 1939), ela escreveu um folhetim para a revista “O Cruzeiro”, O galo de ouro, em 1950 (só publicado em livro em 1985); um quarto de século depois, Dôra Doralina (1975); e em 1992, Memorial de Maria Moura, grande romance de aventuras, no qual a octogenária narradora mostrava uma vitalidade admirável, que até então não fora a tônica da sua obra ficcional. E até então eu nunca fora  leitor entusiasta de Rachel de Queiroz. Sempre considerei suas crônicas bastante discutíveis, especialmente do ponto de vista ideológico, por seu conservadorismo e reacionarismo (mas elas também são fracas de um ponto de vista estritamente literário), e embora O quinze tivesse seu valor, o restante era muito fraco.

    Motivado pela data comemorativa, e porque mesmo depois de Maria Moura não fizera ainda uma revisão a sério dos livros da escritora cearense, reli nos últimos dias O quinze e As três Marias. O primeiro apresenta qualidades inegáveis, inclusive a sabedoria épica que norteia o seu livro da velhice (e, afinal, ela tinha cerca de 20 anos quando o publicou)[2]. Entretanto, ao terminar As três Marias dá para entender o motivo por que Rachel de Queiroz produziu tão espaçadamente romances. Ela simplesmente não tinha paciência nem se interessava em narrar uma história mais longa, isso é gritante, pelo menos nessa fase da sua vida.

     O romance é narrado por uma das Marias, Maria Augusta (as outras duas, Maria da Glória e Maria José mal aparecem[3]), desde o momento em que ingressa num internato dirigido por freiras (onde conhece as outras). Rachel de Queiroz perdeu uma grande chance de apresentar um equivalente feminino de tantas narrativas masculinas de confinamento em colégios e internatos, sendo a mais ilustre (no Brasil) O Ateneu, de Raul Pompéia. Acompanhamos a violenta veia anti-religiosa da autora de Beata Maria do Egito[4], sentimos a insatisfação feminista com o destino oferecido à mulher, e a vida irrisória e asfixiante destinada às moças da Fortaleza do começo do século (ainda que a própria mulher interiorize o moralismo e a estreiteza da sociedade à sua volta) [5].

    Volta e meio nos surpreendemos com um trecho que poderia pertencer à literatura existencialista (Camus, Sartre, Simone de Beauvoir), até com impressionante antecipação (pois eles ficaram famosos depois e começaram a escrever por essa época)[6], ainda que houvesse uma tendência católica que apresentava esse mesmo tema do abafamento existencial e angústias de formação.

    O que falta é empenho da autora, e por isso As três Marias não se tornou o romance marcante que tinha tudo para ser. Ela tem pressa de terminar, as histórias são mais vinhetas do que partes de um romance (e olhe que acontece coisa: ela tem um romance com um pintor casado, viaja e conhece um imigrante judeu, por quem se apaixona, volta para o Ceará, sofre as conseqüências de um aborto que ela mesma provocou), o tom adotado por Maria Augusta é mais de explicação didática (e crescentemente pobre [7]) dos seus problemas do que uma verdadeira narrativa, e a própria Maria Augusta no fundo é uma personagem bastante antipática (a Conceição de O quinze já não era nenhuma maravilha em termos de empatia).Que distância estamos da Joana de Perto do Coração Selvagem (Clarice Lispector) ou da Virginia de Ciranda de Pedra (Lygia Fagundes Telles), protagonistas inesquecíveis. Maria Augusta descortina o que parece ter sido o grande mal de Rachel de Queiroz, pelo menos a julgar pela sua literatura: a parcimônia, a avareza com que ela enfrentou a existência. Nada enriquece suas personagens, nada as aprofunda,  tudo parece sempre descolorido e ressequido. Ela só adquiriu alguma grandeza, 53 anos mais tarde, quando aderiu à ação pura, sem tempo para seus dramas mesquinhos (que a sua prosa torna mesquinhos): “Nunca eu tinha estado a bordo antes. Um navio era, para mim, o palácio feérico, levando através do mar toda uma carga de prazeres inéditos e de deliciosas convivências…Rapazes estrangeiros, vestidos de fazenda clara, contando histórias de terras longínquas, orquestras às refeições, bares, coquetéis, salões de dança… Tudo o que eu nunca vira, que nunca me atrevera a desejar, na minha vida sempre austera e sem prazeres… E naturalmente não encontrei nada disso… Enjoei toda a viagem”. Antes disso, seus romances eram isso: um enjôo durante toda a viagem.


[1] Ela faleceu em 2003.

[2] Tenho certa dificuldade de determinar se o livro está mais para resignado do que para revoltado. Quando falo em “sabedoria épica”, estou dizendo que a narração dos aspectos contingentes e imanentes da existência  é de tal forma poderosa que o autor nos fornece a ilusão da “realidade” quase tal qual. Porém, e isso é intrigante, quase todos os narradores pós-homéricos que apresentam essa qualidade (a sabedoria épica), e entre eles coloco Tolstói e Doris Lessing como os maiores,também apresentam uma contrapartida de visionarismo. Mesmo Vargas Llosa, que decerto não é nenhum visionário, em A guerra do fim do mundo, por estar tratando de visões apocalípticas e escatológicas, não deixa  de ser contamnado por essa característica radicalmente antípoda. Rachel de Queiroz, porém, nunca apresenta mais do que a superfície, não há profundidade ou sombreamento no quadro de O quinze: acompanhamos a atração frustrada entre os primos Vicente e Conceição, e a terrível miséria de retirante da família de Chico Bento, e é isso: tudo muito bem contado, e nada por trás.

     E quanto à resignação, ela parece alimentar até a frase mais revoltada de Chico Bento (no sentido de que a vida é assim mesmo, não há outro jeito): “Deus só nasceu pros ricos!”.

    

[3] No começo, parece que ela traçará destinos paralelos e que as três terão um peso equivalente, mas tal expectativa não se cumpre: “São as inseparáveis! Já notaram, meninas? [aqui quem fala é Irmã Germana] Essas três vivem juntas, conversando, vadiando, afastadas de todas. São as três Marias…

          A classe achou graça, o apelido ficou. Nós mesmas nos orgulhávamos dele, sentíamo-nos isoladas numa trindade celeste, aristocrática, no meio da plebe das outras… Adotamos superiormente a divisa…” Tanto que resolvem fazer uma tatuagem consagrando o apelido: “…sentadas no chão, com as meias descidas, fizemos na coxa,com a ponta da tesourinha, as três estrelas juntas, em fila.”

[4] “…é preciso dizer que já há muito tempo eu me desprendera da religião trazida do colégio… A verdade é que nunca acreditei direito em nada, a crença era, em mim, uma casca exterior, e o meu maior ato  de fé talvez fosse  me exaltar liricamente pelos mistérios da comunhão e do êxtase, assumir a atitude da prece, ´sentir´ a devota em mim, como o ator no palco sente em si o personagem que encarna.

     A falta de prática foi me mostrando a fraqueza de minha fé. Deixei de crer porque deixava de orar, deixava imediatamente de sentir o meu personagem quando não o representava mais em cena… e perderam-se as convicções. Tentei segurá-las, talvez me doesse um pouco sair da trilha em que as outras andavam, perder aquele apoio místico, que é como as muletas naturais de muita gente. Mas não lutei muito, ou não lutei nada, deixei a crença me fugir do coração como um pouco de água livre me escorrendo entre os dedos”.

[5] Foi assim com a Conceição de O quinze, que fica horrorizada com a intimidade do primo (de quem ela gosta) por uma capiau “negra”, é assim com a narradora de As três Marias: “Agora Violeta estava perdida, rapariga. Interroguei  Maria José de todas as maneiras, para conseguir detalhes. Ela, porém, não sabia quase nada, pouco perguntara à ´Vovó´, horrorizada com a frase dela, Perdeu-se…

    Fiquei pensando nos olhos bonitos de Violeta, na sua alma terna e arisca. Agora estava perdida, com a porta aberta, para todos os homens. E eu tentava imaginar o horror daquela vida (…) De repente, lembrei-me de mim. Não estava também em caminho de perdição, namorando com um homem casado?”

[6] “Eu ia fazer 14 anos quando tive, pela primeira vez, vontade de me matar.

      Naturalmente sem motivo. Creio que nesse caso é elemento secundário o que costumamos chamar ´o motivo´: isto é, uma causa concreta, imediata, responsável pelo impulso suicida. Os que precisam desse motivo, matam-se por acidente. Mas quem tem vontade de se matar, mata-se sem carecer de um pretexto trágico, tremendo e instransponível; mata-se em razão mesmo dessa sua obscura aspiração de morte, mata-se porque uma coisa chama, porque sofre uma atração violenta e invencível”. Ou mais adiante: [eu e Maria José] “éramos como duas mulheres de nações diferentes e língua estranha… Acordei mais tarde, assustei-me com um vulto inclinado junto  à cama de Maria José. Era ela, que ainda rezava. Punia-se, naturalmente, pelos gozos terríveis que o seu coração desejava, pelos maus desejos que teimava em alimentar. Como se eles existissem, Maria José. Como se as coisas ruins não fossem apenas ruins, sem poesia nem beleza…. Quem sabe neste mundo, onde estão os culpados? Quem sabe mesmo se há culpados?”

[7] Já quase no final: “Parece que a vida só chega para cada um tratar de si mesmo e vagamente circular os olhos pelas caras mais próximas”.

resenha publicada, sem as notas de rodapé, em “A Tribuna” de Santos, em 09 de novembro de 2010

A LIÇÃO DA “MESTRA”: anti-homenagem ao centenário de Rachel de Queiroz

resenha publicada em 05 de maio de 1998, em A TRIBUNA, de Santos)

    A coleção da Record/Altaya, “Mestres da Literatura Brasileira e Portuguesa” tem se mostrado uma decepção. Como explicar que dela faça parte um insignificante volume de crônicas como AS TERRAS ÁSPERAS? Aliás, a própria inclusão de Rachel de Queiroz numa coleção de “mestres” da literatura de língua portuguesa já é discutível, pois numa carreira de romances chinfrins, só mesmo Memorial de Maria Moura (1992) se salva, não por ser grande literatura, e sim por ser uma leitura envolvente e agradável. Nesse livro, nossa pretensa “mestra” conseguiu a coisa mais rara na ficção brasileira: entretenimento de boa qualidade.

     Agora: o que dizer de As terras ásperas? Teria sido melhor que as crônicas nele reunidas tivessem ficado enterradas nas páginas dos jornais.Nos melhores momentos de Rubem Braga, Fernando Sabino ou Stanislaw Ponte Preta, uma anedota ilumina e resgata o cotidiano de sua banalidade. No caso de Rubem Braga, uma imponderável poesia transfigura seus insights sobre o cotidiano de uma forma que lhe garante lugar entre os grandes. As crônicas reunidas em As terras ásperas cobrem o período de 1988 a 1992. A “mestra” escreve sobre a falta de água no Rio, sobre ecologia, sobre o calor, sobre o hino nacional, sobre superprodução, sobre sua bisneta, sobre sua admiração por Floriano Peixoto (!!!???), sobre Paris, sobre as elites, sobre a queda do muro de Berlim, sobre o porte de arma, sobre a burocracia, sobre Santo Antônio, sobre a velhice, sobre a morte, sobre a pena de morte, sobre o índio, sobre as posses na Academia Brasileira de Múmias (ela foi a primeira mulher a pertencer a essa indigesta instituição), sobre a guerra, sobre a violência urbana, sobre as primeiras-damas, sobre o fuso horário, sobre Ulysses Guimarães, sobre Mikhail Gorbatchov…

    Como se vê, parece um rico panorama. Só que a “mestra” trai o espírito da crônica e, ao invés de valorizar através da escrita as “miudezas” do ramerrão diário, ela se põe a pensar. Ai, Jesus. É aí que o caldo entorna, porque a “pensadora” Rachel de Queiroz é de uma mediocridade atroz, é incapaz de enunciar qualquer coisa acima da superficialidade mais rastaqüera.  É claro que nenhum autor tem obrigação de ter um pensamento profundo e original. Porém, quando é o próprio autor que resolve coletar os frutos do seu “pensamento”, é impossível não criticá-lo no que tem de frágil e medíocre.

     Por exemplo, numa das piores crônicas do livro, Rio, coração do meu Brasil, onde defende o Rio dos seus detratores, a nossa “mestra” da literatura escreve as seguintes pérolas de originalidade: “E diga-se o que se disser, o fato é que o Rio continua lindo. Mesmo depois do furacão Brizola. Mesmo chagado de favelas, infestado de bandidagem, ninguém nos consegue tirar a montanha, a floresta e o mar. Ninguém nos tira a alegria da praia…”!!!??? Ainda bem que o Rio continua lindo, apesar do “estilo” das nossas “mestras” da literatura.

     Essa superficialidade e essa nulidade estilística não incomodariam tanto, se de vez em quando não emergisse das palavras da “mestra”, claro e indecente, um reacionarismo ultrajante, senão alarmante. É o caso do horroroso texto sobre porte de arma (que ela condena), no qual, fazendo uma analogia com o tráfico e o consumo de drogas, nossa “mestra” da literatura afirma: “Defende-se a sociedade de tudo que lhe ameaça a saúde e a sobrevivência. Tóxicos, por exemplo: produzi-los, transportá-los, vendê-los, usá-los, é crime gravíssimo em qualquer país. Desde plantar a maconha e a papoula, passando pelo fabrico, o refino, o transporte e a venda, até chegar ao consumo—todas essas atividades são perseguidas no mundo inteiro com louvável rigor. No Irã, enforca-se”.

    Note-se a expressão “com louvável rigor” que dá bem a medida da superficialidade reacionária da nossa “mestra”. Ela sequer é capaz de raciocinar que toda essa perseguição feita com “louvável rigor” esconde uma grande hipocrisia, uma vez que há uma indústria gerada pela ilegalidade,q eu favorece justamente os traficantes e quem se beneficia da repressão. E a naturalidade com que ela passa da frase “são perseguidas no mundo inteiro com louvável rigor” para “no Irã enforca-se” dá até um arrepio, pois a impressão que se tem é que ela aprova isso e aplaude (esquecendo-se de que, no Irã, também há sentenças de morte para escritores).

     Quando o interesse maior de um livro é a detecção das idéias reacionárias de seu autor, o negócio é grave. No seu texto sobre a posse de Ariano Suassuna na Academia Brasileira de Mun-Rás, a nossa “mestra” diz: “Afinal, a Academia não é um simples arquivo de vaidades, uma galeria de aposentados. Ali há talento, há sangue, há vida inteligente”. Não é, decerto, o caso de As terras ásperas.

 

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