MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

13/03/2011

Férias com Durrell (quinta e última parte): QUINCE ou O Conto do Estripador

Ao Quarteto de Alexandria da Marechal Deodoro: Neno, Dóris, Xuxu e Clarinha

“Foi naquele exato momento que a realidade fundamental correu em ajuda da ficção e o totalmente imprevisível começou a acontecer!”

(de Quince ou O conto do estripador)

“Mas  continuar apenas, sem realizar nada digno de nota—a idéia era intolerável. E acabar na velhice destruído pelo priapismo terrível de muitos velhos—ineficaz, ardente, solitário, e sem nada poder contra as dores da luxúria diurna…”

(de Quince ou O conto do estripador)

(março de 2011)

Estava devendo aos meus leitores esta última seção sobre a minha leitura de férias de O Quinteto de Avignon, de Lawrence Durrell, mas, após muita hesitação, eu cheguei à seguinte conclusão: os dois últimos volumes do “Quinteto” me desiludiram muito, mal conseguia ler o último, de tanta impaciência, e além disso, acho que já escrevi tudo o que importa sobre a obra, sobre seus aspectos fascinantes e seus aspectos discutíveis e/ou francamente ridículos (“E digam-me, por que não um estilo de prosa aberrante[1], para fazer eco à discordância que existe no coração de toda a natureza?”).

Quince (o título brasileiro para Quinx desfigura a correlação do título em termos de letras—cinco—com o projeto geral do conjunto de romances) tem como subtítulo O conto do estripador (The ripper`s tale, 1985), mais uma ardilosidade de Lawrence Durrell, já que o leitor fica esperando que o assassino que aparecera em Sebastian tenha alguma importância na trama, mas nem ele nem qualquer outro estripador aparece no livro.

Esse não é o problema principal de Quince: o romance é quase ilegível (diga-se de passagem, a edição brasileira, pela Estação Liberdade, capricha na abundância de erros, e certas páginas realmente são quase palimpsestos, e não por nenhuma veleidade criativa do autor inglês, simplesmente por falta de revisão e péssimo copidesque).

Por tudo isso, ao invés de percorrer a tradução de Waltensir Dutra, como fiz com os outros, limito-me a transcrever a resenha que escrevi em função da minha primeira leitura do Quinteto, e que foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 16 de novembro de 1993, com o título Durrell, em ritmo de montanha russa:

Quince ou O conto do estripador, de Lawrence Durrell, encerra os vários caminhos percorridos pelo grupo de personagens do Quinteto de Avignon: uma seita que exige o suicídio dos seus membros (fato gerador do primeiro volume, Monsieur ou O Príncipe das Trevas); a Europa encaminhando-se para a Segunda Guerra, enquanto o grupo está no auge da juventude (o segundo, Livia ou Enterrado Vivo); já em plena guerra, explorações místicas no Egito confrontam-se com a psicanálise de cunho freudiano (o terceiro, Constance ou Práticas Solitárias); a chegada da maturidade e a aparição de um terrível assassino que está sendo psicanalisado (o quarto, Sebastian ou Paixões Dominantes)…

Colocar a obra assim é empobrecê-la, porque o rico e complexo repertório de temas se entrecruza em todos os volumes: dessa forma, a seita solicita o suicídio de Affad, em Paixões Dominantes, só que a carta estabelecendo sua morte extravia-se e pára nas mãos do assassino.

Dois escritores, Blanford e Sutcliffe, sendo este criação do primeiro, disputam a narração. E todos os personagens criados por um e por outro e que sobreviveram à guerra reencontram-se na Provence (sul da França), eixo do livro, no clima de pós-guerra do Conto do estripador.

Durrell é um narrador insuperável quando simplesmente “conta”. Por que, então, resolve torrar a paciência do leitor com elucubrações sexuais e pseudofilosóficas tão chulas e infantis, que criam a suspeita de que ele já estava meio gagá (morreu em 1990, tendo nascido em 1912, e publicado o livro em 1985)? Tal lado menos feliz era devidamente controlado nos volumes anteriores (embora atravancasse), mas a integridade desse “conto” é retalhada não pelo estripador, e sim por esclerosados aforismos sobre pênis, clitóris, Eros e civilização, que envolvem os debates sem graça entre Blanford e Sutcliffe, quando o autor deixa de resolver questões prementes que ficaram em aberto.

É pena, já que nenhum escritor da atualidade tem um mundo ficcional tão genuinamente “romanesco”, tanto poder de imaginação a par do estilo personalíssimo, como já ficou mais que provado no Quarteto de Alexandria (1957-1960).

Sobra ainda muito clima: a concentração dos ciganos na Provence para cultuar uma padroeira, que se entrelaça com a barganha de um agente duplo visando sua libertação—revelar o segredo da localização do tesouro dos templários, procurado desde O Príncipe das Trevas; há o relato maravilhoso e irônico de uma expedição, na China, à pretensa caverna de um místico. O suficiente para valer a leitura, apesar da decepção.

Ler todo o Quinteto é um passeio em ritmo de montanha russa pelos altos e baixos de um exercício superior da ficção.”


[1]  Há até pastiches de Heráclito: “O Big Boss, cujo santuário é em Delfos, não esconde nem revela, mas simplesmente significa ou sugere!” Mais adiante, lemos: “Por vezes textos imperfeitos emanam uma radiação autêntica, como as fragmentárias linhas de Heráclito…” O que não deixa de ser verdade, mas não sei se exatamente com relação à obra de Durrell, penso mais em O livro do desassossego, Um sopro de vida, O homem sem qualidades  ou mesmo os últimos e tumultuados volumes de Em busca do tempo perdido.

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