MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

10/12/2013

QUATRO SOLDADOS e os caminhos que não levam a nenhum centro

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 “É um mundo aberto e cada um vai-se por onde bem entende, como crianças a brincar em sua caixa de areia. Chegará o tempo em que poderá, como marcadores de página no tempo e no espaço, retornar aos momentos em que as decisões foram tomadas e, dali, partir-se para outras possibilidades? Não cabe a mim dizer. Tampouco, sai aqui a cantar alegres baladas primaveris para compensar-te. Não é do meu feitio fazer rimas. Contudo, se buscas agora um divertimento leve, posso começar a última destas narrativas em tom de anedota, pois,  de fato, é assim que ela começa.

    Entra um padre ao bordel…”

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 10 de dezembro de 2013)

   Em meados do século XVIII (há pouco acontecera o célebre terremoto que destruiu Lisboa, acarretando o debate universal sobre a Providência Divina), o Sul brasileiro, com os imbróglios (por vezes sangrentos) das divisões territoriais entre Portugal e Espanha, pode ser considerado um “fim de mundo”, no mais amplo sentido. Aí desfrutamos as aventuras do inexperiente Licurgo, do íntegro Antônio Coluna, do turbulento Andaluz e do estranho Silvério (ou Índio Branco), os quais justificam Quatro Soldados como título do primeiro romance de Samir Machado de Machado (a obra é especialíssima, o nome do escritor não menos, como se vê), uma vez que seu livro anterior, O professor de botânica, é considerado uma novela.

Há um Narrador cuja identidade só será revelada na página 278 (não aqui, apesar da tentação). É ele quem nos conduz pelas quatro partes do livro, exercitando-se de forma assaz garbosa: “Outra vez é minha a ingrata tarefa, na qualidade de teu narrador, de escolher uma história dentre muitas para ser narrada. Minto: tal assertiva não é verdadeira, pois não há diversas histórias. Há apenas uma, sempre a mesma, infinita, e obrigo-me a te convencer de que esta única história, que é o mundo, compõem-se de várias histórias menores, quando em realidade somente assim lhe parece por que arbitrariamente escolhi onde começar e onde encerrar. Então, por que narrar? Pelo simples motivo de que não há verdade ou fraude, tudo é ilusão, e nenhum significado maior pode ser atribuído enquanto não se tenha participado de uma narrativa e que esta seja contada—é a única forma de encararmos o vazio. E o primeiro modo que dispomos de narrativa é a própria memória, moldada à nossa conveniência, para dar sentido ao que somos…”): a princípio, com Licurgo na expedição a um entreposto isolado e cheio de mistérios (é cercado por um labirinto e no seu interior o alferes  encontra um velho que zela por uma biblioteca, a qual contém inúmeros clássicos e outros títulos não tão canônicos assim); depois ao âmago de uma mina (supostamente cafua de escravos fujões) onde vive um animal primevo e amedrontador[1].

Na primeira aventura, Licurgo é resgatado pelo valoroso capitão Coluna[2]; na peripécia subterrânea, tem como comparsa o Andaluz, contrabandista de livros, jogador, mulherengo —vive  num bordel em Laguna[3], onde investigará, na quarta parte, alguns assassinatos (por exemplo, o de um padre visitador), com a colaboração contrafeita do fanático, racista e perigoso Silvério, antagonista de Coluna (na missão de escoltar uma família rumo à sesmaria de sua propriedade) na terceira.

Não falta movimento (ou colorido) aos episódios.  Nem referências, muitas remetendo aos textos de Jorge Luis Borges[4]; outras, indo do pós-moderno Thomas Pynchon (cujo portentoso Mason & Dixon cobre o mesmo século, e fornece uma das epígrafes de Quatro Soldados) aos romances que plasmaram o gênero tal como conhecemos (pelo lado mais realista, tal como Fielding; pelo lado mais fantástico e/ou satírico, tal como Swift), dos enciclopedistas do Iluminismo ao Hamlet shakesperiano,  de Umberto Eco à memória afetiva da indústria cultural (como a mulata Adele Fátima, figura feminina que povoou a imaginação de muito marmanjão). Os aficcionados por games ou RPG também se sentirão em casa.

O paralelo é evidente (o que não torna Quatro Soldados menos criativo): assim como hoje a Internet e todas as possibilidades eletrônico-virtuais minam paradigmas, propondo possibilidades ainda a explorar (muitas delas, assustadoras para alguns), a Enciclopédia e o Romance no século XVIII abalaram um Centro já combalido, mudando a percepção humana com relação ao universo à sua volta, com seus reflexos chegando  confusamente à periferia da civilização[5].

Nas trajetórias dos quatro (embora Silvério tenha um aproveitamento no relato diferente dos demais)  mesclam-se o romance de formação, as aventuras fabulosas, a dialética de ideias e posições ideológicas, a intertextualidade. Como diz o Andaluz, referindo-se ao terremoto de Lisboa e à Enciclopédia: “São tempos interessantes, estes em que vivemos. Em que outra época se poderia imaginar que tamanha tragédia pudesse ocorrer no coração dos mais devoto dos impérios? Ou que todo o conhecimento do mundo possa se tornar universalmente acessível por um ÚNICO livro? As cousas estão sempre em transição, mas, em algumas épocas, parecem mudar mais rápido do que em outras.”.

As duas primeiras partes do romance de Machado de Machado (até o nome dele enfatiza o desdobramento de possibilidades, além de nos lembrar  nosso maior escritor) são extraordinárias. E é uma pena que as outras duas não alcancem igual nível (pelo menos, a meu ver), mesmo estando muitíssimo acima de qualquer média: aparecem elementos de besteirol como um infame cervo branco falante, e o próprio Andaluz muitas vezes se porta como aqueles chanchadescos personagens das telenovelas de Carlos Lombardi, trogloditas de bom coração, praticando um machismo “esclarecido” (nem por isso menos chauvinista)[6].

Não obstante esse desequilíbrio, o talento narrativo e a linguagem plasmada pelo autor gaúcho para mostrar o esgarçamento da costura de uma determinada era (“There are more things…—repetiu o Andaluz.—Sabes o que é irônico? O Tratado de Tordesilhas estabelecia o fim do mundo conhecido bem aqui, sob nossas cabeças, e tudo o mais que houvesse além era uma incógnita. E aqui estamos agora, à beira do fim do mundo, não é curioso? Esta é a nossa Tordesilhas…”) deixando entrever  um novo Zeitgeist (para o bem ou para o mal), garantem Quatro Soldados como uma memorável (e muito divertida) estreia no gênero.

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TRECHO SELECIONADO

“__ (…) Mas, de qualquer modo, voltando ao Voltaire, este homem, o Micrômegas, não nasceu na terra, e sim no planeta Sirius, e vem ao nosso mundo acompanhado de um amigo de Saturno para conhecer nossos costumes e…

__ Como se pode levar a sério tal cousa?

__ Ora, tanto se me dá, que são só firulas para divertir. O que importa é tentar ver nossos costumes do ponto de vista de outrem, como nós vemos aos estrangeiros. Um estrangeiro que fosse de outro mundo veria a todas as nações como donas e prisioneiras dos mesmos hábitos viciados, e nisso está o mérito de uma história assim….

    Licurgo encolheu-se nos ombros.

__ Já me disseram para esgotar os clássicos antes de partir a ler os novos—lembrou o garoto.—Afinal, não há tempo para se ler tudo… ainda mais que os tais romances não distinguem os fatos da ficção, não é o que dizem? Inventando geografias falsas e seres que não existem?

__ Ah, agora tudo se explica! Quem te meteu um dislate desses na cabeça!?—o Andaluz exaltou-se, erguendo os braços dum modo intimidante, particularmente seu, de tenor de ópera.—Se queres conhecer o passado, busca os clássicos, se queres prever o futuro, vá a um astrólogo… mas para interpretar os dias em que vivemos, só vais encontrar as respostas lendo a ficção do nosso tempo. E algumas das mais fabulosas e distantes histórias do que se considera a Verdade e a Realidade são, por consequência, as que mais próximas chegam da essência das cousas. Todo homem anseia por ver cousas impossíveis, inimagináveis, não apenas para divertir e entreter seus sentidos, mas para ser deslumbrado ao confrontar o que antes julgava inconcebível.

__ Mas ainda assim é uma mentira. Como pode a Verdade nascer de uma mentira?

__ Decerto que conheces o Tratado de Tordesilhas? Teu rei assinou com o rei de Espanha um documento, dividindo a América entre os dous. Consegues ver Laguna daqui?—apontou para trás, para a vila, já distante deles mas ainda visível no horizonte.—Laguna era o limite do tratado. Por um acaso vês alguma linha traçada na terra ou no céu, a dividir o mundo em dous? Por um acaso algo muda no ar, nas árvores ou nos rios, ao serem separados entre dous reinos? O que é um mapa, senão uma mentira na qual todos consentem em acreditar?”

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[1] Além da referência clara ao paradigma das estórias romanescas, esse episódio reflete a  obsessão dos gaúchos com a lenda do m´boitatá.

[2]  Coluna talvez seja o personagem mais marcante do romance:

“Estou cansado, e esse não é mais o meu mundo. Vossas mercês que nasceram nesta era de névoas podem ver cousas que aqueles como eu, nascidos em tempo de luz e treva, jamais compreenderiam mesmo que estivessem bem à frente (…) dar-me-ia a honra de saber-lhe o nome?

__ Antônio Coluna.

__ Ah, enfim. Sólida e constante, algo que não pode ser movido num mundo que não pode ser parado.”

[3] “…as moças gostavam dele em específico e ele das moças em geral, o que era de se esperar visto que, sendo soldado, e elas prostitutas, eram as duas profissões mais antigas do mundo dês que a primeira dama em perigo abriu as pernas em troco da proteção dum cavalheiro.”

[4] Tem o labirinto, a biblioteca, Astérion, há até uma brincadeira jocosa com a “escrita do deus”:

“Com o sabre, ele abriu-lhe a boca para ver-lhe as presas afiadas. A pele cor de chumbo tinha manchas negras que, num primeiro olhar, pareceram-lhe específicas e geométricas. Logo as percebeu aleatórias, como a pelagem de qualquer animal (…) Lembrava-se de já ter visto algo assim desenhado numa tapeçaria do palácio de Lisboa, por sua vez cópia de outra que havia em Paris, mas os artistas se baseavam em relatos exagerados, por vezes fantasiosos. Um índio, entretanto. Lhe falara certas vez sobre feras como aquela: jagua-ru…”

Aliás, com relação à aleatoridade das coisas:

“__ Não entendi. Está sugerindo que Deus não se importa?

__ Talvez Ele tenha abandonado seus filhos. Talvez tenha nos deixado sozinhos em sua criação. Ou talvez sempre estivéssemos sozinhos, e só agora percebamos.”

[5] “Perceberam então que não havia nenhum caminho que levasse ao centro.”

[6] Acho que o reparo acima precisa ser melhor explicado: eu, que não sou muito afeito a novelas, sempre achei as de Carlos Lombardi mais interessantes e inteligentes do que as de, digamos, Manoel Carlos ou Benedito Ruy Barbosa. Mas a sua fórmula foi repisada à exaustão (como vemos na atual Pecado Mortal, onde ele está tirando leite de pedra) e me incomoda basicamente por nos propor um herói que às vezes se revela uma incrível sagacidade, ás vezes uma incrível tosquice (e sempre, sempre há um sub-texto homoerótico entre ele e outros machos da história). Ora, é claro que Samir Machado de Machado opera num nível muito mais sutil, e basta ler o TRECHO SELECIONADO para ver que o Andaluz não é meramente um burrão (quando convém ao autor) gostosão lombardiano, mas em alguma medida o talentoso romancista se deixou levar por essa propensão de exaltar um tipo quase caricaturalmente másculo que fica provocando um outro (no caso mais gritante, Silvério). E, ao fim ao cabo, considero uma nota dissonante na harmonia do relato, pelo exagero (mas também pode ser apenas uma implicância minha).

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