MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

14/02/2012

Pessoa liberto das garras dos especialistas

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 07 de outubro de 2006)

 “Toda a literatura consiste num esforço para tornar a vida real (…) a vida é absolutamente irreal, na sua realidade direta; os campos, as cidades, as idéias, são coisas absolutamente fictícias, filhas da nossa complexa sensação de nós mesmos (…) Dizer! Saber dizer! Saber existir pela voz escrita e a imagem intelectual! Tudo isto é quanto a vida vale…”

     Um dos muitos lançamentos de impacto da Alfaguara, novo e agressivo selo  no mercado brasileiro, Quando fui outro, antologia de textos de Fernando Pessoa organizada por Luis Ruffato, destaca-se em meio ao caudal de publicações pessoanas (ora recopilações do material existente, ora “inéditos” que brotam mais do que as batatas da terra daquela canção “Morango do Nordeste”) devido a uma  feição característica (ao mesmo tempo, uma qualidade) muito simples: os textos (cinqüenta e seis, mais algumas das constrangedoras cartas escritas por ele para sua semi-noiva Ophélia Queiroz) são apresentados por eles mesmos, sem indicação de data, heterônimo ou importância na obra.

    Para o leitor iniciante (com o acréscimo do capricho da edição) é uma ótima introdução: ele pode entrar em contato com parte da melhor produção do genial poeta português sem precisar ser contagiado pela neurose dos especialistas. O leitor mais experiente também suspira de alívio: finalmente um momento de lazer no incansável parque industrial Fernando Pessoa e seus laboriosos, zelosos e ciumentíssimos operários, os quais se refocilam prazerosamente no “esterco metafísico” que angustiava o fundador da fábrica e anulava seus “propósitos todos”.

     Temos várias obras-primas supremas. Certamente a maior de todas(não, não é O guardador de rebanhos), Tabacaria divide com A terra arruinada, de T.S. Eliot, e Elegias de Duíno, de Rilke, a primazia entre os poemas do século 20:

    “Estou hoje dividido entre a lealdade que devo

    À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real

                                                                [por fora,

    e à sensação de que tudo é sonho, como coisa real

                                                               por dentro.”

Há trechos admiráveis de um dos dois grandes projetos de Pessoa, em prol dos quais ele se consumiu durante anos: o Livro do desassossego (o outro é  Fausto-Tragédia subjetiva). É o caso de Tudo se me evapora que fala  da sensação—esse vocábulo tão pessoano— despertada pela releitura de antigos escritos: “Reconheço que sou o mesmo que era. E, tendo sentido que estou hoje num progresso grande do que fui, pergunto onde está o progresso se então era o mesmo que hoje sou”.

     A leitura de Quando fui outro levou o autor deste artigo a se interrogar mais uma vez sobre a estranha irmandade que une Pessoa a Kafka (este último capaz de escrever que se aborrecia com tudo que não fosse literatura) e Borges (produto de uma formação “inglesa” similar e que acabou por redescobrir e recriar sua cidade natal, Buenos Aires, tal como o autor de Mensagem fará com Lisboa). E o transeunte de tudo, até de si mesmo (“continuamente sinto que fui outro, que senti outro, que pensei outro. Aquilo a que assisto é um espetáculo com outro cenário. E aquilo a que assisto sou eu”), o homem que odiava os começos e os fins das coisas, espírito constituído de hesitação e dúvida, acaba por capitular diante de um mero gato de rua:

    És feliz porque és assim,

    Todo o nada que és é teu.

    Eu vejo-me e estou sem mim,

    Conheço-me e não sou eu.”

       

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