MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

21/06/2012

Prometheus ou O desastre espacial de Ridley Scott

Filed under: resenhas especiais — alfredomonte @ 9:59
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Eu não sei se estou envelhecendo e ficando ranheta demais, mas me chocou a ideia de que alguém possa considerar PROMETHEUS, filme a que assisti esta semana, bom. Achei tão ruim, tão ridículo, que não resisti a uma resenha azeda.

A produção de Ridley Scott é vendida como ficção científica que flerta não só com o terror, mas também com temas mitológicos fundamentais, com a procura do homem pelas suas origens, por seus prováveis criadores e quejandos. Além disso, dentro da carreira específica do diretor, seria algo como um prólogo de Alien- O oitavo passageiro (1979), ótima fusão dos dois gêneros. O que eu gosto nesse antigo trabalho de Scott, que vi pela primeira vez aos 14 anos,  é da sua simplicidade narrativa: ao fim e ao cabo, temos uma personagem absolutamente só no espaço lidando com o Desconhecido numa forma aterradora, mais ainda, aniquiladora. Mais primordial e básico, impossível. Sem se dar ao trabalho de explicar de onde veio e o que é exatamente a criatura alienígena, o filme original  faz o espectador torcer por uma mulher (Ripley), a qual, a princípio nem despertava muita simpatia (como, aliás, o resto dos personagens humanos),mas que pelo rigor imposto ao ritmo do filme, pela intensidade e talento da atriz, então quase desconhecida (Sigourney Weaver) e pela própria situação-limite em que estava envolvida, nos forçava à identificação.

Como Scott vinha de um filme (um tanto superestimado, eu diria) bastante bonito, para o bem e para o mal, Os duelistas, o impacto de Alien foi ainda maior. Pouco depois, Scott ainda manteria a honra da firma, por assim dizer (mais popularmente, poderíamos dizer que ele nos tapearia) com mais um trabalho marcante, Blade runner. E ficamos por aí. A partir do melancólico A lenda, nada mais tinha a nos dizer. Eu sei que há muitos fãs de Thelma e Louise (1991), entretanto trata-se de um roteiro psicologicamente canhestro e maniqueísta, muito raso, e sua sorte é ter duas atrizes fabulosas, ambas em plena forma, e a revelação de Brad Pitt (creio que no futuro esse último fator será o único ponto a ser lembrado).

Depois, cada “continuação” representava mais uma volta no parafuso da apelação, embora todas tivessem uma “personalidade”: houve a Ripley sacudida da ressaca pós-Vietnã e, paranoica, justiceira e descontrolada, salvando o que podia ser salvo em Aliens, de James Cameron; houve a Ripley quase pseudo-messiânica com laivos de misticismo milenarista e apocalíptico, com a influência inicial de Vincent Ward e a pretensão final de David Fincher, em Alien 3,; e houve a  Ripley em versão freak, numa espécie de fantasia sadomasô em Alien-a Ressurreição, de Jean-Pierre Jeunet (que namora com o autoparódico).

Nenhuma delas, apesar de todos os seus defeitos e apelos oportunistas, é tão diluída e tosca quanto Prometheus. Note-se que  toda aquela bobajada sobre as civilizações e suas similaridades, a descoberta das pinturas rupestres pelo casal central (Elizabeth Shaw e Charlie Holloway, vividos por Noomi Rapace e Logan Marshall-Green) que levará à expedição da nave-título, ocupa 10% do tempo de exibição, quando muito. Até o divertidíssimo Stargate aproveitava mais e melhor as sugestões da civilização egípcia. E me sinto até envergonhado agora de achar tão risível o final spielberguiano-polyanna de Missão: Marte, de Brian de Palma (de resto, um filme notável a maior parte do tempo).

O grosso de Prometheus consiste em reciclar descaradamente clichês da forma mais burocrática possível, “receitinhas” de bolo: o androide traíra (eu acho particularmente incômodas a caracterização física e a linguagem corporal do—ótimo, ainda assim—Michael Fassbender, com seu visual explicitamente à Lawrence da Arábia sugerindo elementos arianos em excesso, fascistas, e transformando a ambiguidade da sua condição  em ambiguidade sexual, e por extensão, em ambiguidade de caráter), e que acaba desmembrado (Ian Holm já viveu isso e mesmo o bonzinho Lance Henriksen também); a mulher fria, gélida mesma, executiva feroz, que pode ela mesma ser um androide, vivida por Charlize Theron; o bilionário que financia tudo e  que está por trás de todas as maldades, só porque quer fugir da mortalidade, quantas vezes já não vimos isso (o que é surpreendente é a má qualidade da maquiagem de Guy Pearce numa produção desse porte); há os membros da tripulação truculentos (sempre com um visual que destoa do que a plateia média considera certinho) e que já estão marcados para morrer, há as discussões que parecem coisa de colégio ou os dramas familiares (pai e filha, Pearce & Theron,não se entendem, a mocinha, Dra. Shaw, teve  o pai—com o qual, evidentemente tinha uma ligação muito forte–morto tragicamente, para variar, mas carrega consigo uma lembrança dele,  uma cruz, contra todas as vicissitude e contra a descrença geral); há aquelas burrices com personagens-cientistas que resolvem se desgarrar do grupo num lugar completamente estranho e inóspito (e é lógico que vai acontecer algo com eles) ou se aproximar de criaturas desconhecidas…

O que vai acontecendo em Prometheus é ao mesmo tempo irritantemente pífio (as mortes, as transformações, as inoculações) e previsível: quem não sabia, no público, que o bilionário jamais poderia estar morto, como anuncia na sua aparição holográfica inicial, e quem não sabia que, no diálogo entre o androide traíra e o namorado da mocinha (o dr. Halloway)  o primeiro batiza a bebida com a substância alienígena que vai infectá-lo e fazê-lo engravidar a amada com um ser monstruoso? Aliás, a meu ver, a partir da cena em que ela nocauteia aqueles que a levariam para ficar congelada até a volta à Terra (carregando consigo seu “bebê”) e vai se submeter a uma cesariana numa máquina ultra-sofisticada, tirando a criatura de si, não dá para levar mais o filme a sério e só podemos  encostar na poltrona e acompanhar a sucessão de tosquices. Que falta faz um bom roteiro! E como as pessoas mais talentosas não têm vergonha de encenar bobagens.

Acho que há até uma solução de continuidade nessa sequência da cesariana: tudo é tão monitorado na nave e fora dela, e ninguém se dá conta do que ela está fazendo? Depois, pela conveniência dos roteiristas e produtores, todo mundo ignora que uma coisa monstruosa está crescendo ali dentro (pois o bebê não morreu)? Acho que ninguém (quero dizer na produção, não na nave) quis se nesses meros detalhes de mera carpintaria narrativa porque a partir o filme dessa sequência lamentável, tudo se transforma num corre-corre para o clímax (o bilionário encontrando o alienígena que nos criou e sendo morto por ele, e a heroína tendo de correr para lá e para cá a fim de fazer jus à sua condição de protagonista, e  como as idéias faltaram, há colisão de naves,  efeitos em pencas,  ataque de monstros, e ela—com toda a tecnologia disponível—tendo como arma uma espécie de machadinha, enfim, o som e a fúria indispensável para disfarçar o vazio).

Diga-se de passagem, não vai surgir uma Sigourney Weaver aqui. A atriz Noomi Rapace a parece mais uma estrelinha das novelas da Globo (e isso não é um elogio, acho detestável o “naturalismo” que rege as interpretações globais, por isso nem consigo ver telenovelas), com aquela cara-padrão de horário das seis. Se o espectador pelo menos tinha se livrado do seu namorado, vivido por um ator (Logan Marshall-Green) que faz tantas caras, bocas e poses para a câmera quanto Cristiano Ronaldo em campo, temos que aturá-la até o final, pois ela é aquela que sobrevive a tudo. Nem por isso nos identificamos ou torcemos por ela, tão anódina é e tão indiferente a seu destino ela nos deixa.

Pois nem essa elementar apelação sentimental o filme consegue fazer: nos identificar com seus personagens. Olha que há até surtos (no caso, realmente inexplicáveis) de abnegação e autossacrifício (por parte do piloto da nave, Idris Elba—totalmente desperdiçado—que impede a partida da nave alienígena rumo ao nosso planeta), porém como não dá para acreditar nesses personagens e eles não crescem diante de nós (como a Ripley do primeiro filme, façam a experiência de vê-lo e constatar como isso vai sendo construído), tanto faz.

E de brinde há ainda a cena do nascimento do Alien, tal como conhecemos (ótimo design de H.R. Giger). No primeiro filme, ele arreganhava os dentes e era aterrador. Agora, arreganha em close, e nos faz rir. 33 anos depois de uma ótima realização, o mesmo diretor nos fazer rir da sua criação memorável, é prova de que este mundo pirou mesmo e que Walter Benjamin estava certo; não há mais aura.

(escrito especialmente para o blog, junho de 2012)

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