MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

22/10/2012

A REDE SOCIAL

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA  de Santos, em 27 de maio de 1997)

Há uma sincronicidade nas queixas de quem acompanha diariamente o noticiário:  aos poucos sentimo-nos embrutecendo diante de fatos que parecem atingir um pico insuperável de horror, mas que são superados pelos fatos seguintes, e começamos a achar qualquer horror perfeitamente assimilável.

Para Doris Lessing, nas cinco conferências que compõem Prisões que escolhemos para viver (Prisons we choose to live inside, traduzido por Jacqueline Klimeck Gouvêa Lima), realizadas em 1985  (no Canadá), esse estado de coisas é uma reação inconsciente de forças retrógradas contra o impulso para a frente que se delineia nos  últimos séculos na humanidade. A tese do livro é que a raça humana atualmente dispõe de uma quantidade enorme de informações esclarecedoras sobre o nosso comportamento e as razões que nos fazem agir dessa ou daquela maneira em determinadas situações “mas que não as utilizamos na melhoria de nossas instituições e, conseqüentemente, de nossas vidas”.

Isso acontece porque contra a porção sensata, disposta a aprender, da mente humana, há uma camada de primitividade, selvageria e reações irracionais, muito mais profunda e arraigada, que responde imediatamente aos apelos “emotivos”: “Parece-me, cada vez mais, que estamos sendo governados por ondas de emoções de massa e que, enquanto o fenômeno durar, não será possível avaliar respostas sérias, ponderadas e desapaixonadas que poderiam nos salvar. Olhando para a minha vida, que agora conta sessenta e seis anos, o que vejo é uma sucessão de grandes eventos de massa, de emoções inflamadas, de paixões selvagens e sectárias (…) Um movimento de massa sucede a outro: pela guerra e contra ela; pela tecnologia e contra ela… E cada um cria nas pessoas um determinado ânimo: violento, emocional, sectário, suprimindo os fatos que não convêm, mentindo e abandonando a sensatez da fala ponderada, que, para mim, é a única maneira de chegarmos á verdade. E, paralelamente, enquanto todas essas convulsões sociais ocorrem, surge uma outra revolução, silenciosa, baseada na sensatez e na observação acurada de nós mesmos, de nosso comportamento, de nossas capacidades”.

O grande obstáculo à “revolução silenciosa” que é a observação acurada de nós mesmos, são as táticas dos governos para permanecerem no poder, utilizando a propaganda e manipulando a sociedade como um todo. Como se afirma no texto, na nossa “democracia” “as pessoas (as sortudas, as que não são excluídas) são treinadas apenas para atuarem em determinado estágio, quase sempre temporário, da tecnologia, educadas para atuarem a curto prazo”.

Nada do que é dito em Prisões que escolhemos para viver é original. O mérito, nem um pouco desprezível, desse pequeno livro é colocar as coisas de maneira clara, impondo-se como uma boa síntese da nossa época.

Uma das causas do nosso aprisionamento na teia de primitividade e emoções de massa é o medo do pensamento individual, medo de contrariar o grupo, medo de ficar sozinho. Quem já leu as obras de ficção, as maiores da nossa época, de Doris Lessing, sabe que essa é uma antiga preocupação da genial escritora inglesa: a falácia da valorização do indivíduo pela sociedade democrática: “O fato é que vivemos nossas vidas em grupos—grupos familiares, profissionais, sociais, religiosos e políticos. Pouquíssimas pessoas, na realidade, são felizes sozinhas, e tendem a ser vistas pelos vizinhos como esquisitas, egoístas ou coisa pior. A maioria não suporta a solidão por muito tempo. Estão sempre querendo pertencer a grupos (…) O perigo não está em pertencer a um grupo, mas em não compreender as leis que governam o grupo e, conseqüentemente, os indivíduos. A coisa mais difícil do mundo é manter uma opinião pessoal dissidente, sendo membro de um grupo”.

Sofremos uma lavagem cerebral diária para que não pensemos por nós mesmos, para aderirmos a uma visão-padrão, para nos embrutecermos diante dos fatos concretos que aparecem à nossa frente e quebram a conveniente superfície das coisas. E tanto o conhecimento que poderíamos ter sobre nós mesmos quanto a sensatez que poderíamos cobrar de nós mesmos vão por água abaixo para podermos nos manter “ajustados”, “antenados” com um mundo que se dissolve a cada dia.

Ler Doris Lessing, e isso fica bem claro em Prisões que escolhemos para viver, é uma atitude antípoda à leituras dos livros de auto-ajuda, que prometem fazer com que nos ajustemos à sociedade. Lessing propõe justamente o oposto: o ajustamento à sociedade causa a fragmentação da mente e da personalidade (tema do magnífico Roteiro para um passeio ao inferno, possivelmente seu romance mais marcante, ao lado de A cidade de quatro portas e de Shikasta, embora não haja um livro de Doris Lessing que não valha a pena ler).

As fórmulas-miojo da auto-ajuda querem tornar confortável nossa prisão, simplificando a realidade, assim como os dogmas, as posições sectárias, a indústria cultural. Contra a lavagem cerebral da simplificação, o melhor antídoto são as iluminadoras palavras abaixo:

   “Todo avanço do mundo, todo seu desenvolvimento, estão ligados à complexa capacidade de nutrir várias idéias, muitas vezes contraditórias, ao mesmo tempo”.

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