MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

23/09/2012

O desastre de “DOIS RIOS”: maldição do segundo romance, zombaria das ondas ou pose demais e ficção de menos?

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em primeiro de maio de 2012)

Como tantas outras pessoas, apreciei o primeiro romance de Tatiana Salem Levy, A chave de casa (2007). Ali estava uma escritora promissora, apesar da atmosfera sufocante e áspera do texto. Como o li mais ou menos na mesma época de Homem no escuro (2008), de um dos meus autores favoritos, Paul Auster (a condição de impotência, entre física e espiritual, dos protagonistas, dá um ar de parentesco aos dois livros que já pensei em explorar em alguma resenha ou estudo), e junto do qual ela não fez nada feio, a comparação lhe rendeu mais pontos favoráveis ainda, caso precisasse.

Eis que de repente assisto a uma entrevista da jovem autora (nasceu em 1979) com Maurício Melo, no programa “Leituras” da TV Senado, e o que me parecia rispidez talentosa durante a leitura do romance começou a soar mais como uma postura afetada, enjoadinha, um ar de o mundo não merece esse ser inefável que sou: Tatiana Salem Levy se me afigurou como aquelas pessoas que minhas tias, numa infância povoada delas, anatematizavam como “entojada”. Mais do que antipática,  porém,sua atitude (ou melhor, sua pose) na entrevista me deixou entrever algo que só posso diagonosticar como uma anorexia espiritual que me tirou qualquer vontade de voltar a lê-la.

Por motivos que não vêm ao caso, seu segundo romance, Dois rios, acabou nas minhas mãos. Não obstante a autora enjoadinha, não mereceria uma lida, em vista da promessa de A chave de casa?

O pequeno introito acima é para o leitor que detectar má vontade a priori no meu comentário a seguir, embora eu mesmo, fazendo um exame de consciência, não ache que li Dois rios com má disposição (por exemplo, sempre tive a maior antipatia pela figura de Rachel de Queiroz, o que não me impediu de me encantar com seus romances tardios, Dôra Doralina & Memorial de Maria Moura: a leitura de um bom texto sempre me conquista), saiba dos possíveis motivos, caso chegue a tal conclusão.

Dois rios (que, a princípio, ao que parece, tinha o título Em silêncio) apresenta como protagonistas os gêmeos Joana e Antônio: nascidos e criados em Copacabana, passavam as férias no lugarejo da Ilha Grande que dá título ao romance. Muito unidos, em Dois Rios houve um episódio incestuoso que coincidiu com a morte repentina do pai. A partir daí, os irmãos começaram a se afastar até de uma forma hostil (como se uma presumível “culpa” pelo ocorrido com o pai impedisse o relacionamento de fluir): Joana ficou em casa, cuidando da mãe, portadora de transtorno obsessivo-compulsivo, e Antônio caiu no mundo como fotógrafo free-lance. Do pacto infantil que os unira, só restaram  ressentimento e incomunicabilidade.

O livro é estruturado em duas partes, cada uma focada num dos irmãos. Na primeira, narrada por Joana, que está presa ao apartamento onde nasceu, com a mãe disfuncional, com a vida estagnada, aparece uma francesa, Marie-Ange, por quem ela se apaixona, iniciando um processo de libertação. Há alguns bons momentos[1], Salem Levy sabe utilizar habilidosamente as técnicas de ficção (desdobramento do tempo e do espaço). O que não impede que essa parte seja muito ruim. Somos obrigados a ler passagens do tipo “Nossos olhos se cruzaram, e num único segundo, senti aflorar a minha intimidade mais secreta”. Pior ainda, quando Joana e Marie-Ange encetam uma viagem reparadora a Dois Rios, e seu amor se funde à descrição da natureza, temos trechos que—tirando o tom mais moderninho—poderiam ter sido escritas por Cassandra Rios (penso em Macária, por exemplo), sem o seu charme kitsch. A própria Marie-Ange, a qual parece egressa do universo de Roberto Freire (o chatíssimo escritor reichiano de Cléo e Daniel e Coiote, não o político), como um anjo liberador das repressões, diz coisas hilárias do tipo: “Só o real importa, Joana. O mar, a areia, o sussurro da mata. Esquece o resto. Seus medos tolos, sua ansiedade, essa fantasia que, em vez de te soltar, te prende. Escuta o vento, as ondas que rebentam zombeteiras…”!!!??? Por que, cargas d água, as ondas rebentariam zombeteiras? Talvez porque a natureza, em Tatiana Salem Levy, pareça tanto um “cenário”, não evocando nada de vital ou verdadeiro.

Na segunda parte, ela faz um truque narrativo à David Lynch (o de A estrada perdida & Cidade dos sonhos), e é Antônio quem, na França, conhece Marie-Ange, a qual, ao invés de vir ao Brasil, o leva para a Córsega, sua terra natal, onde os dois têm tórridas experiências amorosas, depois das quais ela desaparece. O errante, o desenraizado, então, sofre um processo contrário ao da irmã, permanecendo ali, numa postura de espera impotente, no povoado corso, no meio de gente rústica e simples, ligada ao mar.

Duas coisas ficam claras, então: o leitor comum, que costuma se atrapalhar com experiências  “ousadas”, não precisa ficar inquieto, porque apesar do truque adotado, a autora explica tudo tintim por tintim (além de todo o desenrolar da narrativa ser mais ou menos previsível, inclusive o final), e essa parte, em que Antônio, ao narrar, está se dirigindo à ausente Marie-Ange, é extremamente fake: soa falso em todos os seus aspectos, de tal forma que acabamos até preferindo a primeira, que era fraca, mas parecia mais crível. Apesar de ausente, Marie-Ange não é menos chata: “Foi você quem me disse que todos os dias ele [o pai dela] faz a mesma coisa, como os animais que dormem, comem, vão ao riacho procurar água e nunca se colocam em desacordo com o mundo. Meu pai faz parte da paisagem como os calhaus da praia, você dizia. E continuava. Quando ele morrer, não haverá mais pescadores no vilarejo, pois os homens passaram a achar, num determinado momento, que ser humano é entrar em desacordo com o mundo…”

E como essa literatura “sofisticadinha” acabou roçando a auto-ajuda? “Nenhum dos dois conseguiu cumprir nem descumprir seus destinos, eles apenas esqueceram de ser felizes. Era uma coisa ou outra: seguir à risca a trajetória planejada, ou dar espaço para a felicidade. O erro deles foi achar que o amor os salvaria das desavenças. Mas o amor não salva.”

Dizem que há a maldição do segundo romance, que muitas vezes ele pode ser um passo em falso mesmo numa carreira posteriormente  bem-sucedida. Portanto, fica em aberto se Tatiana Salem Levy vai seguir o caminho fecundo, ainda que difícil, da sua estréia, ou vai capitular de vez rumo às falsidades oportunistas (pois convenientes à sua “pose” entojadinha ou portadora de anorexia espiritual) delineadas por esse seu segundo (e mero) “exercício” romanesco. Talvez dependa das ondas zombeteiras. Mas que não dependa das Marie-Anges da vida, por favor !


[1] Gosto do personagem da mãe, da narração das verdadeiras viagens que são as visitas da avó e do pai dos protagonistas ao presídio da Ilha Grande, onde está preso o tio por motivos políticos; gosto também da descrição da intimidade física entre os irmãos.

QUESTÃO DE GÊNERO: O “Inferno Provisório” de Luiz Ruffato

“O  todo          igual para todos          destino uno

para o justo e para o iníquo

para o bom          e para o puro e para o impuro

e para quem oferenda

e para aquele           que não faz oferendas

Tanto o bom           quanto o que peca

quem jurou

igual           a quem refugou o juramento

 

Eis o mal          em tudo o que é feito           sob o sol

pois é um o destino           para todos

E também no coração dos filhos do homem

infla-se o mal          e a loucura no seu coração

enquanto vivos

e o após de cada um          junto aos mortos

 

Pois aquele          que se vincula

ao todo dos viventes          segura-se à esperança

Pois cachorro vivo          é melhor

que leão            morto”

(Qohélet-O-que-sabe, o Eclesiastes, na versão de Haroldo de Campos)

“Por volta das nove horas, encorajando-se, rumou para a MG-285. O farol do Gol varria o matagal que abraçava a estreita faixa de asfalto. Milhares de estrelas ardem o breu da noite. Em breve, numa curva, o rio Pomba se entremostraria, indolente, e Cataguases, precários favos cinza mal iluminados, emergiria, açulando recordações. Trepado na garupeira da bicicleta do Toninho, o vento cálido acaricia seu rosto… A mão macia da Júlia conduz o espanto das letras no caderno-de-caligrafia… A volta na Kombi do Armazém do Lino, que o Lalado entregava compras, a molecada hidrófoba… A mãe, cheiro de querosene do fogareiro vermelho na tarde excluída do tempo… A viagem com o pai para São Paulo, uma semana cravada em seu coração simples, a certeza de que, a partir de então, Cataguases afundaria, lenta e inexoravelmente, numa terrível agonia, até morrer  um dia, agora talvez, quando, sorrateiro, corta a cidade deserta…”  (Luiz Ruffato, Domingos sem Deus)

(a resenha abaixo é uma versão ampliada da publicada em A TRIBUNA de Santos, em 22 de novembro de 2011):

Domingos sem Deus encerra a série Inferno Provisório, iniciada em 2005.  Seu criador, Luiz Ruffato, afirma que é um painel romanesco. É direito dele classificar como quiser seu projeto. Eu me permito—como leitor—discordar: a categorização como romances, o excesso de títulos, subtítulos, epígrafes e dedicatórias prejudicaram cinco típicos livros de contos e novelas (mesmo se levando em conta a recorrência de personagens), que seriam melhor avaliados sem essa pirotecnia editorial toda. Imagine se Dalton Trevisan decretasse que cada uma das suas coletâneas é parte de um romance em progresso. De qualquer forma, os textos emperiquitados das orelhas  e certos comentários sobre a série me fazem crer que Ruffato embrulhou bonitinho seu peixe para fazer as delícias e delírios do povo do mundo acadêmico, onde estudarão os “jogos semióticos” e os palimpsestos contidos nos cinco volumes. Mesmo sabendo que o romance é um gênero-terreno baldio que aceita tudo, é muita forçação de barra.

O mesmo se pode dizer da intenção que moveu a escritura de Inferno Provisório. O autor mineiro tem enfatizado se tratar de um resgate da história do proletariado brasileiro no último meio século, sem o maniqueísmo ideológico de praxe, e com uma linguagem inovadora, não-naturalista. Ora, ora. O que eu vi sempre, oculto sob as dobras de veleidades tipográficas maçantes[1], foi um ótimo escritor tradicional, de veia realista (e não há problema nenhum nisso), que continua a tradição dos escritores católicos (Otto Lara Rezende, Gustavo Corção) ou dos injustamente esquecidos mestres da sondagem psicológica, como João Alphonsus ou Antonio Olavo Pereira. Não é inovação, é a posse de uma memória afetiva, de uma ambientação, de um miasma próprio e autêntico, e muitos recursos expressivos para trazê-los à tona.

No saldo final, dos cinco volumes apenas o segundo, O mundo inimigo (2005), me parece totalmente bem realizado, Mamma, son tanto Felice (2005) e Vista parcial da noite (2006) apresentam altos e baixos gritantes, e O livro das impossibilidades (2008) vale basicamente por uma das suas três histórias, a última (“Zezé e Dinim”), muito superior às outras duas, não obstante as irritantes e desnecessárias firulas tipográficas que me lembram o pior lado de Cortázar (por exemplo, no Jogo da Amarelinha aquele tipo de capítulo frívolo onde se lia uma linha sim, outra não…).

Domingos sem Deus é o mais fraco do conjunto, o mais decepcionante, sem comparação. Ele apresenta seis histórias. É sempre a mesma coisa na maioria delas; pega-se um personagem num momento “presente” (a série não ultrapassa 2002, permanecendo na soleira do governo Lula) e a partir daí se reconstitui o passado (às vezes num estilo “relatório” monocórdio muito chato), sempre com a perda da referência (a região rural de Rodeiro, a cidade de Cataguases, em Minas, como ponto de passagem do rural para o operário e o lúmpen, e as fugas para os grandes centros: Rio, São Paulo, o ABC), imposta ou almejada, os vínculos familiares desfeitos, os sonhos frustrados, a criminalização cada vez maior de parte da sociedade, o aburguesamento caracterizado pelo consumo e pelos eletrônicos de ponta…

Vemos isso em “Trens”, “Sorte teve a Sandra”, “Outra fábula” (de onde tirei a epígrafe acima, e que seria uma espécie de ponto-de-fuga da série, atando as pontas com a primeira história de Mamma, son tanto felice. “Uma fábula”, que nos apresenta o mundo rústico de Rodeiro de forma brutal[2], e em “Mirim”, a fotografia de formatura da quarta série é o que dá a um velho num asilo o sentimento de ter existido, por isso é o melhor momento da sua vida”.

O ponto alto da coletânea, no entanto, é “Milagres”, uma das melhores coisas que Ruffato já escreveu: uma família relativamente próspera, em viagem (os pais tiveram que chantagear os filhos adolescentes com presentes caros), tem de fazer uma parada para consertar um pneu rasgado, e o borracheiro conta ao pai a sua trajetória de vida, como foi parar ali naquele fim de mundo. Aquela famosa dicotomia dos “dois brasis” dialoga em poucas e notáveis páginas, prova de que Ruffato é um escritor de grande talento que está desperdiçando seu vigor em grifes estilosas. O desfile pode ser chique, mas não muda a qualidade do tecido ou do material usado.


[1]  O leitor do meu blog talvez estranhe tal afirmação, uma vez que há alguma semanas elogiei a exuberância tipográfica de Minha irmã, meu amor, de Joyce Carol Oates. Só que, ali, fazia todo o sentido, e era expressão da personalidade-performance do narrador, Skyler Rampike (assim como tais recursos fazem sentido em Sterne ou Machado). Na maior parte das vezes, a meu ver, os recursos tipográficos aplicados em INFERNO PROVISÓRIO são gratuitos e inúteis, e me fazem lembrar maldosamente de um comentário de Ernesto Sábato (em O escritor e seus fantasmas). Sem ter o texto à mão, o argentino afirmava mais ou menos o seguinte, sobre Joyce e seus “seguidores”: o sujeito inventa o boeing e os demais se preocupam em mudar o tamanho das janelinhas, a melhoria dos assentos, a posição dos cinzeiros etc.

Embora Ruffato tenha realmente experimentado com êxito uma narrativa heterodoxa e multifacetada em Eles eram muitos cavalos, uma das mais importantes obras da ficção nacional recente e que está completando dez anos.

[2] “Na tarde em que avistou, do alto do estreito caminho que, abandonando a estrada de chão que liga Rodeiro à Serra da Onça, levava àquele fundo de grotão, a casa seis-cômodos náufraga no fundo da perambeira, a ampulheta da vida de Chiara Bicio, a Micheletta velha, inverteu-se: ela começou a morrer. E esgotou-se hora a hora, a saúde murchando na sangria estúpida de partos, e o juízo escapando por entre as fímbrias das úmidas árvores que uivavam nas noites intermináveis. De começo, pensava, pelo menos a visitaria a família, mas, desatinou, o Pai rompeu com os Bicio, assenhorando-se de que parente nenhum viria rondar coisas suas, algemando-a nos cordões umbilicais de gravidezes sem-fim, largando-a desamparada, minguando num quarto de portas e janelas trameladas por fora, de onde saiu, trinta e cinco anos, rija, enrolada numa toalha-de-mesa, tão pássara que até o vento insistia em carinhá-la em sua derradeira viagem de carro-de-boi cantador até a Igreja de São Sebastião, quando, para comparecer decente à missa de corpo-presente, vestiram-na em madeira…”

   

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 REMORSOS E RANCORES- antologia de trechos de “Inferno Provisório“:
“Seu Zé Pinto, com a desculpa de aprumar uma parede que ameaçava desabar, empurrou Dusanjos para um dois-cômodos, nos fundos do beco, na verdade temeroso até de que não desse conta de pagar o aluguel. Mas ela havia tomado uma resolução: não era justo para o José Batista que continuasse assim, amofinada, morta-viva. Voltou à lavagem de roupas, passou a dar pensão-de-comida para duas mulheres da Ilha, pegou um capado para criar à-meia. Mas, quando o beco submergia na noite, não conseguia pregar os olhos. Ouvia o cricri dos grilos, o coaxar dos sapos, o barulho das corredeiras, e de novo era menina-moça deitada no colchão-de-pena a sonhar outra vida, longe da lavoura que detestava, que engrossava suas mãos pretas de enrolar fumo, nunca arranjaria um namorado assim, a planta dos pés esgravatada, meu deus, a mesma tristeza, a mesma sensação de abandono, se ao menos soubesse,  tivesse certeza do que aconteceu, mas não, ninguém sabia de nada, acordava, passos lá fora, É ele! O coração disparava, alguma porta abria, o silêncio, a solidão, horas em que achava que estava ficando louca, podia ´sentir´ a presença do Donato, ele chegando à tardinha, encostando a bicicleta na sala, sentado no banco da cozinha e falando Dusanjos, ó Dusanjos, ela vinha, enchia a bacia de alumínio com água temperada, ele perguntava, enquanto tirava o conga, E o menino, Dusanjos?, ela se abaixava para lavar seus pés, Passou bem o dia, só quer saber de mamar. Esse menino!, ele comentava, ensaboando as mãos e o rosto. Ah, queria morrer e não queria.  Onde estaria ele agora? Deus, acaba logo com essa agonia!” (Mamma, son tanto felice)

Segundo Ruffato, em Mamma, son tanto Felice ele incorporou textos de dois livros anteriores (que eu não li), Histórias de remorsos e rancores e (os sobreviventes). Dos seis contos que compõem o primeiro volume de Inferno Provisório, escolhi um trecho de “O alemão e a puria”.

“Vanin sentiu um calafrio. E agora? Tramelou a porta, tirou os sapatos, deitou na cama. Ia sentir falta daquela gente, ah, ia. E das telhas pretas de fumaça, da cumeeira cheia de picumã, do barulho das corredeiras do rio Pomba, dos passarinhos (Preciso trocar a água e o alpiste deles, não posso esquecer), da bicicleta, da… da Zazá. Em cima da penteadeira, o retrato deles dois, dia do casamento, ela sorrindo, parecia tão feliz, ele sério, preocupado. Meu deus, é certo o que estou fazendo? Ah, mas logo logo, se tudo corresse direito, voltaria. Chamaria o Ditão e o Ditinho, o Natanael e a Mariinha, o Zico e o Zeca, fariam uma serenata para a Zazá, traria um monte de presentes, um vestido novo, um par de sapato, perfume, uma noite inesquecível! Olha o Vanin aí, Zazá, como está diferente o danado… Peste ruim! Desgraçado! Ih, lá vem a Zazá com aquele nervosismo. Sai, sai. Não, ela ia adorar, um monte de gente tocando violão, cantando só pra ela, quem não gosta?, quem? A Zazá ia ficar fula da vida, pegar um caldeirão de água fervendo e jogar em todo mundo. Que gênio, essa mulher, que gênio! Adormeceu.

 

    Ansioso, comprou passagem, cedo ainda, tentou se distrair olhando a televisão da rodoviária, tomou um café, dois. Na bolsa, duas mudas de roupa, o violão a tiracolo. Três vezes perguntou se demorava muito ainda. Queria entrar, dormir, acabar logo com aquela agonia. E se a Zazá aparecer aqui? Nossa senhora, vai ser um deus-nos-acuda! Deus me livre! Suor nas mãos, as pernas vara verde. Mastigou um pacote de biscoito-maria, andou de um lado para o outro, pensou em tirar uns acordes, os dedos duros.

   O ônibus encostou, a porta abriu, Vanin percorreu afoito o corredor, observando a fisionomia de cada um, ninguém conhecido, Graças a Deus, sentou, o motor roncou. Ê meu povo, vou embora, adeus!, as luzes se apagaram, atravessou a Ponte Nova, cortou a Vila Minalda, Meu deus, o quê que estou fazendo?, pegou a estrada rumo à Leopoldina, Cataguases sumiu atrás dos morros, o breu da noite, vontade de levantar, falar para o motorista que tinha esquecido os documentos em casa,  Vê se pode, não sei onde estou com a cabeça, pode parar aí mesmo, seguir viagem, tem problema não, e descer, voltar no beco, conversar com o seu Zé Pinto, Vamos esquecer aquele negócio, seu Zé, pensei melhor, bobagem minha, ele ia entender, seu corpo não se mexeu, Meu deus, a Zazá vai querer me matar…

   No meio da escuridão o ônibus engolindo o asfalto.”

              (O mundo inimigo)

Assim como o anterior, segundo o autor, há o reaproveitamento de textos de Histórias de remorsos e rancores e (os sobreviventes). Dos doze contos de O mundo inimigo, escolhi um trecho de “A decisão”.

“O delegado, doutor Aníbal Resende, apertou a mão do meu pai (camarada) Obrigado, seu Sebastião, por ter aceitado o nosso convite. Isso só me dar mais convicção de que se trata de um grande equívoco… e é o que, aliás, nós vamos esclarecer agora… (acende um cigarro) Pode se sentar, seu Sebastião, fique à vontade. Bom, pra não me estender muito, seu Sebastião, vamos direto ao ponto:  (irônico, a voz alterada) Que raio de história é essa que o senhor anda espalhando por aí, seu Sebastião, de que Cataguases vai ser invadida pelos alemães? Quem foi que inventou uma besteira tão grande, seu Sebastião? (compreensivo, a voz mais baixa) Seu Sebastião, deixe-me explicar uma coisa para o senhor: o senhor, a sua família, são pessoas de bem, conhecidos, ordeiros, cumpridores do dever, todo mundo sabe… Agora, o senhor já ouviu falar dos comunistas? (didático) Existe em nosso país gente que quer implantar o terror, irmão matando irmão, (a voz amplifica-se, o suor escorre da testa) (As mãos gesticulam, teatrais) quer ver o Brasil nas mãos dos comunistas, da Rússia!, seu Sebastião, da Rússia!, onde os valores cristãos  de nada valem, onde os homens dividem as mulheres com os amigos, as filhas dormem com os pais, os padres são enforcados por pura diversão, onde não há lei, onde reinam a anarquia, a bagunça, a perdição… (gritando) São esses comunistas, seu Sebastião, que divulgam notícias como a que o senhor anda espalhando, com o objetivo de provocar o pânico, a desordem, a desconfiança… (esmurra a mesa) (Levanta-se, acende outro cigarro, acalma-se) Seu Sebastião… seu Sebastião…deixe-me fazer uma pergunta pro senhor e queria que  o senhor me respondesse com toda sinceridade: (fixa seus olhos nos olhos do meu pai) Seu Sebastião, o senhor conhece algum comunista? Já viu um? Não? O senhor sabe quem é comunista? Não? (Senta-se, limpa o rosto com um lenço, enfia-o de novo no bolso de trás da calça) (sarcástico) Nem nós, seu Sebastião… Nem nós, da polícia… Sabe por quê? Porque comunista não traz isso escrito na testa… Como posso ter certeza de que o senhor, seu Sebastião, não é comunista, se o senhor está agindo como um? Bom, então vamos da um voto de confiança pro senhor, seu Sebastião. (autoritário). Agora, a partir de hoje o senhor está proibido, proibido, entendeu?, de abrir a boca pra falar sobre isso. Proibido! Outra coisa: vamos confiscar, temporariamente apenas, todos os aparelhos de rádio e televisão que o senhor possua em casa… (gritando) Eu não tenho nada com isso! Se o senhor ainda está pagando a televisão, problema seu! Estou sendo seu amigo, seu Sebastião, não sei se o senhor percebeu? (Acende mais um cigarro pega um papelzinho na gaveta) (a voz mais mansa, confidente) O senhor tem um filho… Reginaldo?, Reginaldo… tinha um tio meu que chamava Reginaldo… Bom, o Reginaldo trabalha na Manufatora, não é mesmo? E tem uma filha… Mirtes… a Mirtes trabalha na sala-de-pano da Industrial?, belo emprego, heim, seu Sebastião?, belo emprego! Os filhos bem-encaminhados, graças a Deus… (camarada) Pois é, e tem gente que jura que o senhor é comunista, só pra ver os seus filhos serem mandados embora, só pra ver a família do senhor passando dificuldades… Que mundo, esse, seu Sebastião, que mundo! (amigo) Ah, não esquece  de levar o menino no psiquiatra, como recomendou o professor Guaraciaba…” (Vista parcial da noite)

Dos onze contos de Vista parcial da noite, escolhi um trecho de “O ataque”.

“__ Era? Caralho, Zezé, você lembra de cada coisa!

(pausa)

Dinim: Como você lembra dessas coisas?

Zezé: Eu lembro de tudo…

__ De tudo?

__De tudo…

__ Eu não lembro de porra nenhuma…

__ Bom pra você…

__ Bom?

__ É

__ Por quê, bom?

__ Pelo menos assim você não sofre…

__ Não sofro?

__ Eu lembro de tudo… E isso machuca a gente… Eu lembro da primeira chinelada que a minha mãe, coitada, deu na minha bunda… Eu lembro quando eu vi uma mulher pelada lá na Ilha, lembra da Ilha? Lembro de todas as vezes que neguim olhou pra mim com desprezo, aqui, no Rio… E da régua que a dona Ângela, nossa professora no quarto ano, quebrou na minha cabeça, Ô criolim burro!, ela falou, a sala inteira rindo… E da tabuada que ganhei uma vez, toda despedaçada… arrumei com durex, encapei ela… E tudo… um monte de coisas… (pausa) Por isso que eu digo, feliz é você, que não lembra de nada…

(pausa)

Dinim: É… você lembra… eu penso… Toda noite eu não consigo dormir… Na minha cabeça fica martelando que eu tomei o caminho errado, que eu desviei em algum lugar… E que não tem mais jeito… E que eu estou fodido… E que todo mundo que fica perto de mim se fode…

(pausa)

Dinim: Pra nós não tem saída, cara, não tem…

Zezé? Do que você está falando, cara?

__ Porra, Zezé, só durmo na base de Valium, tenho úlcera no estômago, colesterol alto, pressão alta, estou gordo, fumo pra caralho, bebo pra caralho, cheiro pra caralho… (pausa)… Velho, cara… me sinto um velho… E estou com trinta e cinco anos, você também, não é?, trinta e cinco anos…

(pausa)

Dinim: Cara, todo dia penso numa solução… todo dia…

Zezé: Que solução?

__ Não sei… ainda… Mas tem que ter alguma…”

(O livro das impossibilidades)

   Segundo Ruffato, foi reaproveitada nesse quarto volume de Inferno Provisório uma das histórias de (os sobreviventes). Dos três contos longos (dois podem ser considerados novelas), escolhi um trecho de “Zezé e Dinim”.

“Eu estou aqui há mais de trinta anos… Uma vida…E foi por acaso que vim pra cá, acredita? Puro acaso… Eu tinha dezoito, dezenove anos, a roça não dava mais sustento pra todo mundo, a gente estava passando um aperto danado, aí meu irmão Valério mudou pra Ubá, conseguiu emprego numa fábrica de móveis e acabou me carregando com ele. A gente morava nos fundos da casa da dona Maria Bicio, de uma família conhecida nossa lá de Rodeiro. Eu arrumei trabalho numa oficina de lanternagem, aprendiz de pintor, e as coisas iam encaminhando bem. Aí comecei a sair com a filha caçula da dona Maria. A Arlete andava com todo mundo, tinha uns quinze anos, mas era muito avançada, ela, assim, facilitava bastante, não sei se entende… E vai que um dia ela apareceu grávida e começou a me pressionar pra assumir o filho. Sinceramente não sei se era verdade ou não, mas meu irmão me convenceu de não casar com ela de jeito nenhum, ele falava que ela era uma vagabunda e que ia me botar chifre com a cidade inteira, e que todo mundo ia rir da minha cara, porque eu era um ingênuo, um capiau… Eu fiquei intimidado, outra época, outros costumes, isso dava cadeia, dava morte… Aí a Arlete amarrou uns panos na cintura e escondeu o inchaço até não poder mais. E no dia que ela desmaiou na rua, e descobriram tudo, fugi pro Rio de Janeiro. Fiquei lá um ano, morrendo de medo, sem contato com ninguém… Achava que logo-logo o episódio ia ser esquecido, e as coisas voltavam aos eixos. Mas…

    Nilo, as mãos suadas, esticava as pernas, agitado.

__ Eu trabalhava num restaurante, de garçom, e uma noite, voltando pra pensão, em Guadalupe, cismei que tinha um sujeito me seguindo, e a partir daí perdi a razão, minha vida virou um inferno, passei a achar que todas as pessoas sabiam da minha falta, me olhavam e me condenavam, não conseguia mais comer, nem dormir, e a situação ficou tão insuportável que um dia, desesperado, desci na rodoviária só com os documentos e a roupa do corpo, e comprei passagem pro primeiro ônibus de saída. Arranchei em Feira de Santana uns meses, sobrevivendo de biscate, até que conheci um rapaz, gerente desse posto, já até morreu, coitado, que Deus o tenha!, que perguntou se não queria tocar uma borracharia aqui… No começo ainda imaginei, escondo uns tempos, espero a poeira baixar, volto, mas me sentia um covarde, decepcionei minha família, envergonhei a família de Arlete, falta de cabeça, quando a gente é jovem faz umas besteiras, depois não tem como ajeitar. Aí vai ficando, ficando… me acomodei…

    Cabeludo levantou. Nilo caminhou apressado rumo ao Siena preto.

__ O resto é o que está vendo… Ninguém me incomoda, não incomodo ninguém…” (Domingos sem Deus)

Dos seis contos de Domingos sem Deus, escolhi um trecho de “Milagres”.

 

Cinquenta tons de fúksia

 “Se não é capaz de escrever um romance, que não o escreva…”

  Se o título Procura do romance fosse de Nora Roberts, ou nos vários tons a percorrer o espectro do rosa ao cinza, de suas similares, a heroína procuraria o romance amoroso, o final feliz.

Há uma outra forma de imaturidade  fetichista da qual Procura do romance parece ser o epítome: enquanto há mocinhas e mulheres maduras que anelam pelo amor verdadeiro, há homens, mais jovens ou mais maduros, cujo gozo é a metalinguagem, a ficção autorreferente (que encontra  bastante eco nos prêmios literários, assim como a literatura à Nora Roberts encontra sua realização na lista dos mais vendidos; o mercado divide bem a esfera dos desejos, e só  nós, que queremos ser “leitores de verdade, autênticos” somos bobos, no final das contas).

A procura de romance, nesse caso, é a procura do gênero literário: dado o diagnóstico-ladainha constante de que o romance morreu, é preciso resignar-se aos jogos intertextuais, na esfera do que se denominou recentemente de “literatura exigente”, aquela que pressupõe um Sujeito moribundo, um foco narrativo (des)enraizado na desconfiança, fazendo tabula rasa do psicológico, do biográfico, da “realidade”.

Assim, o livro de Julián Fuks pode ser tomado como o 50 tons de cinza (se não for, seguindo a sugestão genial de Diogo Ávares, 50 tons de fúcsia) da metanarrativa. Como brincou uma amiga minha, quando lhe enviei trechos, dos quais rimos muito, ele é um típico exemplar dos “escritores-promissores-contemporâneos-urbanos-globalizados-deslocalizados-umbiguistas-autoficcionistas-grantistas”, ufa!

Mas seria injusto dizer que Fuks em seu livro procede como aqueles escritores que vão passar um mês em qualquer lugar do mundo, ou uma temporada na, digamos, Mongólia, e fazem questão de mostrar em seus livros  (pois há sempre livros, mesmo com o  gênero moribundo, porque afinal há prêmios e bolsas) que não vão falar do lugar, que vão ignorá-lo, e que ele é um palco como qualquer outro seria para o exercício da linguagem.

No caso de Procura do romance o Espaço é bem circunscrito: seu protagonista, embora brasileiro, é filho de argentinos, e até chegou a morar por alguns anos (à época da infância) num apartamento em Buenos Aires, para o qual volta, com o intuito de escrever um romance, embora seja um “homem neutro” e não haja assunto para tal empreendimento: q ue poderia ser proustiano, pois há a lembrança das carências quando menino, beijos maternos,  terrores infantis; que poderia ser cortazariano, pois há jogos sutis entretecidos entre o protagonista e uma moça desconhecida numa visita a uma exposição de Picasso; que poderia enveredar pelo fantástico do tipo kafkiano e borgiano, com alguns elementos insólitos a quebrar a rotina; que poderia ser joyceano ou woolfiano ao dar relevância a elementos outrora considerado irrrelevantes do cotidiano; só que todas essas possíveis veredas já magnificamente exploradas pela ficção romanesca no seu auge modernista são contrariadas, canceladas, truncadas. Procura-se o romance, não se chega a ele. Retomando a citação que abre este meu fúcsio comentário:

“Se não é capaz de escrever um romance, que não o escreva, mas que ao menos guarde consigo a evidência do seu empenho [permitam-me: !!!!????}, o montante de sua contribuição ao mundo das letras, sua espera fixada no tempo, sua promessa em perpétuo adiamento, seu livro por vir, se ainda lhe vale a soberba.

E com sua mirrada resma alinhada às pressas e apertada junto às costelas, parte o homem sem mais delongas até a porta da frente…”  E mais adiante: “…engole a própria náusea, assume a angústia e compreende que as paredes que o circundam serão para sempre o cenário autêntico não de uma perda, mas de uma derrota, ingente e desprezível a um só tempo, eloquente e indizível a um só tempo, uma derrota que, se não o justifica ante os outros, ao menos o devolve aos limites de si mesmo…”  Creio que, no fundo, lá no fundinho, tais  “limites” são ilimitados e ilimitáveis.

São 142 páginas nessa toada. É chocante constatar que Fuks caiu no ridículo de escrever tal besteira beirando os 30 anos. Se ele tivesse 18, apesar de chatinho, seria mais justificado. Aos 30 anos, parece uma empulhação tamanha que me dá preguiça até de percorrer seus 16 capítulos, como  faço habitualmente para o meu leitor ter uma ideia clara da obra que estou comentando.

Fuks escreve com um traquejo que se assemelha àtradução ruim de um original argentino. Nem isso ele conseguiu: poderia ser uma experiência legítima de linguagem, a  junção de duas línguas, tal como fez Junot Díaz no ótimo A breve e maravilhosa vida de Oscar Wao. Infelizmente, parece que basta procurar o romance, não se precisa encontrá-lo.

Vou me limitar a transcrever alguns trechos “preciosos ridículos”, que fizeram a festa para mim e alguns amigos, que os saboreamos muito,  variando do presunçoso ao mais-que-batido ou à reinvenção da roda made in “literatura exigente”:

Vejam, seu protagonista não lê um livro apenas: “AS RETINAS VÃO SE MACULANDO DE TODOS AQUELES INCONTÁVEIS SINAIS GRÁFICOS    (deve ser aquela coisa toda de “literatura e cegueira”).                   ;

Chove? não, é claro, caem ‘AS GOTÍCULAS DO LÍQUIDO NATURAL DESPEJADO .

“NÃO ME PREOCUPO EM ABRIR AS JANELAS E ATINAR COM O MUNDO, PORQUE NÃO PARECE HAVER NO MUNDO NADA QUE POSSA ME INTERESSAR

E ainda o acusaram de ser:   “UM SUJEITO AUTO-CENTRADO, UM EGÓLATRA“!!!???

E numa livraria (onde mais?) ele sonha: “SITUAR SEU INOMINADO PROTAGONISTA E ENTREGÁ-LO A SEU HABITUAL SOLILÓQUI DE DEVANEIOS MEDITADOS À EXAUSTÃO, QUIÇÁ ESSE SUJEITO–SE ESCRITOR– COGITANDO A POSSIBILIDADE DE SITUAR SEU RESPECTIVO PROTAGONISTA NAS MESMAS CONDIÇÕES E ENTREGÁ-LO A OUTROS–OU OS MESMOS–DEVANEIOS MEDITADOS À EXAUSTÃO”

Num ônibus, trocando frases com outros passageiros: “… embora tenha julgado que naquele torvelinho de amenidades e frases feitas devia se esconder um sem-número de verdades mundanas de indubitável valor para aqueles que se propõem a abarcar o mundo em suas histórias, e tenha lamentado sua própria incapacidade de prestar atenção nelas por mais de alguns mesquinhos segundos…”

 “Mas, novo mal que se anuncia, terá também passado a era de matizar abatimentos, terá sido a melancolia sucedida por uma prostração irredimível? E, se assim for, caberá a escritor e artista dar conta exclusiva do vazio, fazer da tinta que macula a tela gotículas ínfimas de vácuo?”

“Não pode, não poderia [ mas deveria, se tivesse simancol] , não seria de seu feitio arremeter o corpo contra a janela obstrutiva, estilhaçando vidro e pele e ossos na malograda tentativa de atravessar o espaço intransponível—de vidas e narrativas trágicas já parecemos exauridos…” …”

“…e agora Sebastián caminha pela antiga calle Serrano, agora Jorge Luis Borges, já bastante distanciado do lugar que estipulou consigo mesmo chamar de seu apartamento ou sua casa, não sem consciência mas ao menos esquecido, abstraído ou desatento ao fato de que é Sebastián e de que caminha pela calle Borges já bastante distanciado do lugar que estipulou chamar de casa…”

“Sente-se bem, e esse sentir-se bem, pensa, parece não se concentrar na região do encéfalo, parece não se constituir de meras sinapses entre os neurônios superiores desligados das demais células, pelo contrário, pensa sem tentar fraguar um discurso claro ou encontrar as palavras certas, sentir-se bem é algo que se irradia espinha abaixo entre as vértebras e pelos tramos do sistema nervoso, algo que se expande da medula aos demais órgãos e acaba por lhes conferir uma inesperada unidade, a unidade de seu ser, um ser que por complexos trâmites internos caminha em ritmo constante sem dar a ver as mil engrenagens necessárias ao processo, revelando-se tão somente em sua superfície de ser e com sua superfície elidindo sua natureza infinitamente fragmentária…”

 

O meu trecho favorito: “Não, prossegue em seu caminho e se indaga em questionamentos erráticos, por que esse impulso de roubar para o texto o que é da vida, de converter em ficção o que a ficção não comporta, por que quer brindar seu personagem ou o personagem de seu personagem com essa manifestação patente de voluptuoso acaso quando poderia guardar para si e só para si essa volúpia…”

O narrador fuksiano não precisa se preocupar. Da vida, no seu texto, ele não tirou nada. Só o nosso tempo. A não ser que pensemos nas 200  mil pilas que ele pode amealhar com essa abobrinha no dia 24 de setembro, caso venha a ganhar o Prêmio São Paulo de literatura 2012. Será a abobrinha mais cara da história. Quem disse que a “literatura exigente” não pode ser um bom investimento?

(escrito para o blog em setembro de 2012)

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