MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

04/11/2014

O BUDA NO SÓTÃO, de Julie Otsuka: destaque entre as traduções de 2014

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[uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 04 de novembro de 2014]

Um desafio tremendo enfrentado por quem se propõe a escrever um romance é encontrar o “tom” da voz narrativa e, nesse sentido, O Buda no sótão [“The Buddha in the attic”, 2011, que comento na tradução de Lilian Jenkino, lançada pela Grua], de Julie Otsuka, pode ser considerado, sem precipitação, um belíssimo experimento com a linguagem romanesca.

Em seu segundo trabalho no gênero (estreou com Quando o Imperador era divino, 2002), a autora nascida na Califórnia (em 1962) aborda a experiência de famílias japonesas nos EUA desde a chegada das mulheres num navio (os casamentos arranjados com pretendentes que já haviam imigrado e que enviaram o dinheiro da passagem) até a revoltante e traumática segregação em campos de concentração, após o ataque a Pearl Harbor, em função da paranoia generalizada, uma das maiores vergonhas na história da nação[1].

Na incessante ficção feita por descendentes de imigrantes, geralmente acompanha-se uma família típica, desde o núcleo inicial, a partir daí mostrando-se o inevitável choque de gerações na complexa adaptação a uma sociedade como a norte-americana (tomada em sua essência como “supremacia anglo-saxã e protestante”). Cristalizou-se um padrão, o qual perpassa tanto textos literários ambiciosos quanto rasos e previsíveis dramalhões televisivos (deles, tivemos nossa cota também, basta lembrar das novelas de Benedito Ruy Barbosa).

O Buda no sótão foge do clichê já por sua extensão: o relato dá conta de uma imigração maciça e de algumas gerações, em cerca de 130 páginas, e mesmo assim surpreende pela amplitude e fôlego épico (vocações naturais do gênero), onde já se viu!? No entanto, o toque de mestre está mesmo na maneira como Otsuka venceu o desafio de plasmar uma voz para sua mirada na história: se a primeira pessoa do plural, boa parte das vezes em que é empregada numa narração, apresenta um quê de postiço e brega, desta vez foi encontrado o acorde preciso e irretocável para dar vida e ritmo a uma experiência coletiva, soma de inúmeras vivências pessoais irredutíveis. A magia do livro está em nunca deixar passar em branco essa imponderável equação[2].

Vejamos um trecho exemplar (os japoneses, mesmo após décadas no território americano — com todos os episódios de servidão, espoliação e humilhação — passam à condição de virtuais traidores durante a guerra[3]): “Todas as noites, após o cair do sol, começávamos a queimar nossas coisas: velhos registros e comprovantes bancários, altares budistas da família, pauzinhos de madeira, lanternas de papel, fotografias de nossos parentes carrancudos no vilarejo natal, com suas roupas estranhas de interioranos. Fiquei olhando o rosto do meu irmão virar cinza e subir flutuando em direção ao céu”.

Note-se o deslizar do “nós” para o “eu”, recorrente no romance, como se pode constatar em outra passagem, a respeito “deles” (os americanos): “Uma de nós os culpava por tudo e desejava que eles morressem. Outra os culpava por tudo e desejava que ela estivesse morta. Outras aprendiam a viver sem pensar neles em absoluto. Nós nos lançávamos ao trabalho e ficávamos obcecadas pela ideia de arrancar mais uma erva daninha. Deixávamos os espelhos de lado. Parávamos de pentear o cabelo. Esquecíamos a maquiagem…Esquecíamos de Buda. Esquecíamos de Deus. Desenvolvíamos uma frieza interna que ainda não derreteu. Temo que minha alma tenha morrido…”

    No campo e na cidade, a enumeração e justaposição de várias existências nunca causa a sensação de esquematismo, e o leitor ganha uma densa “lição de coisas”: sobre a vida conjugal, sobre a dureza das condições de trabalho, sobre a criação dos filhos, sobre o preconceito e o racismo (além da histeria xenofóbica), a partir do momento em que as noivas (a primeira frase é lapidarmente irônica: “No navio éramos quase todas virgens[4]) desembarcam após penosa e interminável travessia, em busca de uma terra cujas promessas de prosperidade e felicidade são tão enganosas quanto as fotografias enviadas pelos futuros esposos: “Agora estamos na América, arrancando as ervas daninhas para o homem que eles chamam de Patrão… Meu marido não é o homem da fotografia. Meu marido é o mesmo homem da fotografia, mas muito mais velho. O homem da fotografia é o melhor amigo lindo do meu marido…” Todas acalentavam uma equivocada noção das casas americanas, do lar que as esperava, descobrindo, desiludidas: “Casa era onde quer que nossos maridos estivessem”[5], ou seja, párias num sistema de exploração, precariedade, segregação, no qual se culpa a vítima (por se aferrar aos seus costumes, isolando-se). Diga-se de passagem, além do impacto do início de O Buda no sótão, que em momento algum se dilui nos sete capítulos restantes, é preciso ressaltar o segundo, um dos pontos altos da prosa recente: nele, são narradas as inúmeras “primeiras noites” com seus maridos das imigrantes.

Com a possível exceção do poderoso O melhor tempo é o presente, o último trabalho da recém-falecida Nadine Gordimer, O Buda no sótão é, a meu ver, o destaque entre as traduções de romance lançadas em 2014, até agora.

Julie Otsuka - The Buddha in the Attic (v5.0)Julie-Otsuka-Certaines-navaient-jamais-vu-la-mer

 

TRECHO SELECIONADO

“Asayo—a mais bonita de nós—partiu do Rancho Novo em Redwood carregando a mesma maleta de junco que havia trazido consigo 23 anos atrás no navio. Ela ainda parecia novinha em folha. Yasuko partiu do apartamento em Long Beach com uma carta de um homem que não era o marido, cuidadosamente dobrada e guardada dentro do estojo de maquiagem no fundo da bolsa. Masayo partiu depois de ter dado adeus ao filho mais novo, Masamichi,  no hospital de San Bruno, onde ele morreria de caxumba no fim daquela semana. Hanako partiu com medo e com tosse, mas tudo o que tinha era um resfriado. Matsuko partiu com uma dor de cabeça. Toshiko partiu com febre. Shiki partiu em transe. Mitsuyo partiu com náuseas e com uma gravidez inesperada, pela primeira vez na vida, aos 48 anos de idade. Nobuye partiu se perguntando se havia desligado o ferro de passar roupa, que usara pela manhã para retocar as pregas da blusa. Preciso voltar, ela dizia para o marido, que só olhava para a frente e não respondia. Tora partiu com uma doença venérea contraída na última noite no Hotel Palace. Sachiko partiu praticando o abecedário como se fosse apenas um dia qualquer. Futaye, que tinha o melhor vocabulário de todas nós, partiu atônita. Atsuko partiu com o coração despedaçado depois de se despedir de todas as árvores de seu pomar. Eu as plantei quando eram mudas. Miyoshi partiu com saudades de seu cavalo grande, Ryuu. Satsuyo partiu procurando os vizinhos, Bob e Florence Eldridge, que haviam prometido aparecer para se despedir. Tsugino partiu com a consciência tranquila depois de gritar um segredo horrível e há muito tempo guardado dentro de um poço. Eu enchi a boca do bebê com cinzas e ele morreu. Kiyono partiu da fazenda em White Road convencida de que estava sendo punida por um pecado que cometera em uma vida passada. Devo ter pisado em uma aranha (…) Shizue partiu do Acampamento número 8 na Ilha Webb entoando um sutra que havia acabado de lembrar depois de 34 anos. Meu pai costumava recitá-lo todas as manhãs diante do altar (…) Chiyoko, que sempre insistira para a chamarmos Charlotte, partiu insistindo para que a chamássemos Chiyoko. Mudei de ideia pela última vez (…) Haruko partiu deixando uma pequena imagem de latão de um Buda risonho lá no alto, em um canto do sótão, onde ele ri até hoje.”

manzanar

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NOTAS

[1] Um dos motivos do meu imediato interesse pelo romance de Otsuka é um antigo filme, Adeus a Manzanar (1976), com direção de John Korty, que assisti ainda menino quando exibido pela Rede Globo e que deixou marcas na minha imaginação sobre esse tema. Nunca mais o revi nem sei como o avaliaria a esta altura, mas é daquele tipo de experiência imaginativa precoce que abre os olhos e alarga a imaginação.

[2] Por isso, as recorrentes enumerações nunca cansam, moduladas como são num ritmo narrativo impecável. VER O TRECHO SELECIONADO.

[3] Só que “traidores” (título de um dos capítulos) ganha um duplo sentido na narrativa, o clima de desconfiança se interioriza nas comunidades japonesas:

“Agora, sempre que converso com alguém, tenho que me perguntar: Será que essa pessoa é capaz de me trair? Precisávamos ter cuidado com o que falávamos perto dos nossos filhos mais novos também. O marido de Chieko foi denunciado como espião pelo filho de apenas oito anos de idade. Algumas de nós começavam a refletir sobre o próprio marido: Será que ele tem uma identidade secreta que eu não conheço?”

[4] Assim como é irônico o recurso à proverbialidade, muito ligada à “sabedoria das mães”: “… espelhos de prata dados por nossas mães, cujas últimas palavras ainda ecoavam no ouvido. Você vai ver: mulheres são fracas, mas mães são fortes.”

[5] “Porque se nossos maridos tivessem dito a verdade nas cartas—que não eram mercadores de seda, mas apanhadores de frutas, que não viviam em casas com muitos cômodos, mas em barracas, em celeiros e ao ar livre, nos campos, sob o sol e as estrelas—, jamais teríamos vindo para a América fazer o trabalho que nenhum americano com amor-próprio aceitaria fazer.” Como lemos numa outra passagem: “Porque no Japão a pior ocupação que uma mulher pode ter é a de serviçal.”

buda no sótão

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