MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

30/07/2014

“Verão de 1914” (“Os Thibault”): o estupendo retrato ficcional do mergulho da Europa na Primeira Guerra Mundial

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Recuso-me por instinto às ilusões metafísicas. Jamais o nada teve para mim tanta evidência. Dele me aproximo com horror, com uma revolta do instinto, mas nenhuma tentação de negá-lo, de procurar refúgio em absurdas esperanças.”    

                                   (Antoine Thibault)

Os Thibault (Les Thibault), iniciado em 1922 e dividido em oito partes, foi um dos mais influentes do século passado, embora hoje esteja um tanto esquecido[1].

Em 1936 (um ano depois, ganharia o Nobel), Roger Martin du Gard deu maior fôlego e amplitude à sua obra-prima, com Verão de 1914 [ “L´ÉTÉ 1914], a sétima parte (há ainda um longo Epílogo, publicado em 1940), onde narra  a transição entre o mundo tradicional e sufocante da  “Velha França”, que parecia tão sólido e duradouro[2], e a convulsão efetivada pela Primeira Guerra Mundial.

Jacques Thibault vive em Genebra, após abrir mão da herança paterna. Atua como jornalista e principalmente como agitador socialista, no meio de um grupo de expatriados, cujas discussões e prognósticos conspiratórios a respeito do que as grandes potências farão a partir do atentado em Sarajevo (enquanto estão na expectativa do congresso da Internacional Socialista, marcado para agosto de 1914, em Bruxelas) preenchem um vasto espectro ideológico,  que vai dos anarquistas aos socialistas e militantes comunistas mais radicais.

Uma coisa fica clara: o imperialismo capitalista precisa da guerra e fomenta a sua aparente necessidade e inevitabilidade.

Para alguns leitores, os imensos diálogos podem parecer áridos e as idéias velhas. Com seu poder narrativo, porém, du Gard consegue fazer com que mergulhemos de cabeça na “mentalidade” que precede a guerra, de um modo mais palpável e palpitante do que qualquer livro de história, mesmo um do nível de A era dos extremos, de Hobsbawn.

Numa das suas “missões”, Jacques volta a Paris, onde reencontra o irmão, Antoine, o qual  ao contrário de Jacques, tomou posse de sua parte na herança, utilizando-a numa guinada ambiciosa de sua carreira. Na verdade,  transformou-se num grande burguês, em muitos aspectos parecido com o pai (há um momento em que dá uma risada e se assusta ao constatar que ela é igualzinha á do pai, a quem tanto ridicularizara). Jacques fica chocado com sua alienação com relação à ameaça de guerra. Essa opção por uma existência “monadista”, indiferente aos destinos gerais, como se estivesse isento do que acontece no resto do mundo, já distanciava Antoine da libertária Rachel, seu primeiro grande envolvimento amoroso (agora tem uma ligação com a mulher de um amigo, Anne).

Antoine já percebia as “cadeias” que o ligavam ao mundo burguês, da “honesta França”: “mas não desejava nem por um momento rompê-las; e experimentava, contra tudo o que Rachel amava e lhe era tão estranho, a aversão de um animal doméstico contra tudo o que ronda e ameaça a segurança da casa”.

Apesar de Os Thibault ser a história dos dois irmãos, Jacques é quem domina a cena de Verão de 1914. Ele vê pouco a pouco a opinião pública sendo compelida a resignar-se (e até a rejubilar-se) com a perspectiva da guerra iminente e percebe que nem os círculos socialistas são capazes de resistir á sedução dos apelos patrioteiros e chauvinistas. Mesmo o seu irmão, Antoine, e o seu amigo de infância, Daniel de Fontanin, engajam-se na mobilização geral. Poucos romances mostraram tão bem o que é um país preparar-se para entrar em guerra.

Jacques está decidido a tentar de tudo para evitá-la e a não lutar nela. Nessa roda-viva, ainda encontra tempo de efetivar sua ligação com Jenny, irmã de Daniel (dessa ligação nascerá um menino que mais tarde simbolizará para Antoine, o tio, a “humanidade futura”). Quando finalmente o conflito começa, Jacques resolve abandonar Jenny e realiza um ato de sacrifício, tentando sobrevoar as trincheiras num aeroplano para espalhar panfletos pacifistas. O avião cai e ele fica gravemente ferido. É tido como espião pelos soldados franceses, que o arrastam numa padiola durante uma retirada, até que ele se torna um tal estorvo, que se é obrigado a abatê-lo. Esse terrível final de Verão de 1914 é um momento antológico da ficção.

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Por algum tempo, pensou-se que era também o desfecho de Os Thibault. Jacques aparecia como o grande personagem da obra, uma vez que a figura do  outro irmão não sofrera maior evolução . Para o grande crítico húngaro Georg Lukács, por exemplo, o centro de irradiação do ciclo é “o encontro decisivo de Jacques Thibault com o socialismo”. Será mesmo?

Lançado já em plena Segunda Grande Guerra, Epílogo muda tudo. Em 1918, Antoine está condenado à morte devido aos gases utilizados na guerra que está por terminar. Ele enfrenta a realidade de sua extinção pessoal próxima num sanatório (após uma rápida visita a Paris, quando ficamos sabendo mais ou menos do destino das outras personagens importantes de Os Thibault).

Muita gente considera esse epílogo um mero prolongamento de uma obra que já dissera o que tinha a dizer. Não concordo: tanto a figura de Antoine quanto essa seção final são marcantes demais para serem consideradas “mero prolongamento”[3]. Pelo contrário, levam o livro a dimensões insuspeitadas. Um traço da alta ficção do século XX é o enciclopedismo, o passeio por discussões e áreas que ampliam sobremaneira o enredo e a linguagem. No diário que Antoine escreve antes de sua morte, o leitor vai sendo alçado a esse clima enciclopédico (que domina também A montanha mágica, de Thomas Mann, ou Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, certamente os monumentos do romance europeu do século XX). É o destino de um personagem, mas também é o destino da civilização que está em pauta, além de toda uma gama de conhecimentos (filosofia, política, história, medicina, biologia, etc).

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[1] No Brasil, ele foi publicado em 5 volumes. A edição mais recente é de 2002 (ainda usando uma já antiquada tradução de Casemiro Fernandes, ed. Globo). Há alguns anos assisti a uma  competentíssima adaptação em forma de minissérie (de 2003, escrita, entre outros, por Jean-Claude Carrière), com direção de Jean-Daniel Verhaegue. Jean Yanne fazia maravilhosamente Pére Thibault, Malik Zidi interpretava Jacques, e gostei muito do Antoine de Jean-Pierre Lorit.

[2] Retratado de forma indelével nas seis partes anteriores.

VER AQUI NO BLOG: https://armonte.wordpress.com/2010/10/24/da-velha-franca-a-guerra-mundial-numa-obra-prima-do-romance/

[3] Talvez esse meu ponto de vista tenha a ver com a minha identificação maior com a figura de Antoine mais do que com a de Jacques.

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10/07/2014

O FILHO INCORRIGÍVEL DAS DITADURAS: Imre Kertész e “História Policial”

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-uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 08 de julho de 2014;

-uma versão da resenha abaixo foi publicada em LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO em 09 de julho de 2014- VER:

http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2014/07/imre-kertesz-o-filho-incorrigivel-das.html

Em Eu, um outro (1997), Imre Kertész deu a si mesmo uma veredito irrevogável: “Sou filho incorrigível de ditaduras, ser estigmatizado é minha particularidade”.

Vinte anos antes, em História policial [Detektívtörténe], curto romance lançado agora no Brasil pela Tordesilhas, o Nobel de literatura de 2002 examinava de forma implacável a lógica das ditaduras (infelizmente, Direita e Esquerda, em suas contrafações, equivalendo-se no tocante aos resultados históricos): mesmo que calcadas, a princípio, em lutas pela justiça social, não passam de projetos de poder, tudo o mais se subordina à sua manutenção; para isso, tornam-se “estados policiais”, mantendo os cidadãos sob vigilância, apelando para o arbítrio, a tortura, a supressão de qualquer oposição.

Numa passagem arrepiante, um torturador afirma: “O mundo seria diferente se nós, policiais, fôssemos unidos… Não apenas aqui em casa, mas no mundo todo”. O narrador, “novato” no ramo, replica: “Você quer dizer também os policiais dos países inimigos?”, obtendo a seguinte resposta: “Os policiais nunca são inimigos, em lugar algum[1].

Kertész tinha um background nada invejável (se não levarmos em consideração o rendimento literário) para seu esmiuçar cirúrgico dos fundamentos dos regimes totalitários: aos 14 anos, foi enviado para Auschwitz, Buchenwald e Zeitz, campos de concentração nazistas, experiência-limite que propiciou a base de seu romance de estreia (ainda seu livro mais famoso), Sem Destino (1975), certamente um dos relatos mais desconcertantes e perturbadores sobre o tema[2]; depois da guerra, viu seu país, a Hungria, transformar-se num dos satélites da União Soviética: uma tentativa de revolução, em 1956, foi esmagada virulentamente, transformando-se no evento cristalizador da desilusão de toda uma geração com o comunismo.

Transpondo a ação para um país imaginário da América Latina, para cavar a publicação (as editoras, como de praxe no universo soviético e adjacências, eram estatais e submetidas à censura), Kertész conseguiu criar não só uma alegoria da opressão em seu país natal, como também (sem que esse fosse seu objetivo) uma síntese acurada dos processos truculentos então levados a cabo na nossa realidade latino-americana, com sua cota trágica de regimes autoritários de direita, ou seja, o outro lado do espelho.

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História policial narra a investigação que leva à prisão de Enrique, filho do importante empresário Federico Salinas, que almeja participar da luta clandestina contra o governo, sempre esbarrando na hostilidade e desconfiança contra a sua classe social. Após um episódio emblemático (fora alvo de uma diligência policial ao, provocativamente, ficar abaixo do limite de velocidade permitido numa faixa de rodovia próxima a um dos sinistros locais de reclusão de presos políticos; contudo, sua condição de membro de uma família importante o salvaguardara de represálias maiores), ao desabafar com o pai, descobre que este pertencia a um grupo de resistência.  Vigiado de perto, e num momento em que há a ameaça de um atentado (verdadeiro ou fabricado pelos agentes do regime, pouco importa), Enrique é levado para o “Departamento”. Seu pai, iludido quanto à própria imunidade pessoal, ali adentra para se informar do seu paradeiro, e o destino de ambos ali é selado.

Além da dinâmica da relação entre Federico e Enrique (há uma revelação surpreendente quanto a isso), o grande achado de História policial é que a narrativa é feita por um dos torturadores, justamente o “novato”, aquele que ainda está aprendendo os códigos da ação repressiva. Após a queda do governo, preso, confessa que está em sua posse o diário pessoal de Enrique, pelo qual tem um peculiar apego, verdadeira fascinação (eu, um outro?).

Através desse diário, ficamos sabendo que a insatisfação do mauricinho vai além da situação política, escancarando um mal estar que os frequentadores da obra de Imre Kertész (além das já citadas, o ambicioso romance O Fiasco, por exemplo, onde podemos ler a seguinte passagem: “se bem que ocorreu a Köves: será que o homem já não vive de um jeito impossível de viver, e ao final acaba descobrindo que apesar de tudo sua vida teria que ser essa?”[3]) reconhecerão de imediato: “Parece que após a filosofia do existencialismo só poderia vir a filosofia do não existencialismo. Ou seja: a filosofia do existir sem existir”[4]. E então o leitor começa a se perguntar que tipo de pessoa pode ser, de fato, o novato: “Fiz o curso, passei por uma lavagem cerebral. Não foi o suficiente, longe disso”.

Outro trunfo do texto é a sua sugestão dos horrores praticados no “Departamento”, sem ser preciso nenhum detalhe explícito. De explícito, apenas o horror da lógica totalitária, como na cena em que um tabelião colaborador do regime é submetido à tortura por sua associação meramente comercial com Federico Salinas:

“__ Não entendo os senhores, não os entendo. O que querem de mim? Pois se o Estado confia em mim…

__ Bem, sim.—Díaz balançava a cabeça como um professor primário.—O problema é que nós não confiamos no Estado…

__ Não entendo, não entendo… Então acreditam em quê?

__ No destino. Mas no momento nós é que assumimos o papel do destino: portanto, em nós mesmo—disse Díaz com seu sorriso inigualável…”

È a esse destino que o filho incorrigível e pródigo sempre retorna.

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NOTAS

[1] Utilizo a tradução de Gabor Aranyi. Nessa versão lançada pela Tordesilhas há uma passagem que ficou estranhíssima em português, logo no Prefácio do autor, escrito em 2004 para a edição alemã. Nele, Kertész relata como História policial surgiu a partir da recusa de um romance anterior (seu segundo), O rastejador (ainda não lançado em português, mas conhecido em inglês como The pathseeker); lemos então que o diretor da editora (que aprovara a publicação do primeiro romance do autor húngaro, Sem destino) “leu O rastejador e também o editaria de bom grado—declarou-me—se fosse um texto maior. Um livro precisava ao menos de dez páginas (sic) inteiras para que tivesse corpo, e o meu texto não passava de seis páginas (sic), se tanto. Sugeriu-me que acrescentasse algo. Então me veio à mente o enredo de História policial”.

Bem, ou na Hungria o conceito de página é diferente do nosso, ou aí há um grosseiro erro de interpretação,e um ainda mais grosseiro de revisão.

Devo dizer, embora lamentando (por causa da louvável iniciativa editorial) que esse desleixo de revisão é constante nas edições que a Planeta fez das obras de Kertész (foram lançados quatro importantes títulos: Sem destino; O fiasco; Eu, um outro; A bandeira inglesa). Na tradução de Sandra Nagy para Eu, um outro, lemos: “Pois é: no final das contas, fora os meus dois livros, o Sem destino e o Fiasco, que acabavam de ser publicados naquele mesmo ano, nada mais constava da lista dos meus crimes”. Ora, a Planeta editou tanto Sem destino, que é de 1975, quanto O fiasco, que é de 1988, ninguém ali se deu conta do absurdo da passagem?!

Os outros títulos kertészianos lançados até agora no nosso país são Kadish, por uma criança não nascida (Imago), que compõe uma trilogia com Sem destino e O fiasco; a coletânea de ensaios A língua exilada e o primeiro romance pós-Nobel, Liquidação (ambos pela Companhia das Letras).

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[2] Como amostra, transcrevo a extraordinária passagem do anúncio da libertação dos prisioneiros do campo (utilizando a tradução de Paulo Schiller):

“Talvez já fosse quatro da tarde quando, por fim, o alto-falante emitiu alguns estalidos e, depois de um breve chiado e de sons sibilantes, deu a entender a nós todos que era o LagerältesterKamaraden, disse, lutando audivelmente contra um sentimento que o asfixiava e ora o fazia engasgar, ora a voz fica mais aguda, gemente, wit sind frei!, ou seja, estamos livres (…) e para minha grande surpresa, de repente: Atenção, atenção! O comitê húngaro do campo…—e pensei: nem suspeitava que isso existisse! Porém, não valeu a pena prestar atenção, pois também ele, como todos antes dele, só falou sobre a libertação e não fez nenhuma referência à sopa que não tinha vindo. Eu também fiquei muito feliz, sim, naturalmente, por estarmos livres, mas não tenho culpa de ter sido obrigado a pensar em outra coisa… A noite de abril estava escura, Pjetyka também havia voltado, vermelho, excitado, cheio de milhares de palavras incompreensíveis, quando o Lagerältester se apresentou de novo pelo alto-falante. Dessa vez, dirigiu-se aos membros do antigo destacamento dos Kartoffelschäler pedindo-lhes que fizessem a gentileza de reassumir os postos na cozinha, e aos demais moradores do campo solicitou que ficassem acordados ao menos até o meio da noite, pois começaram a cozinhar uma grossa sopa de gulash; só então me deitei, aliviado, no travesseiro; só então alguma coisa se desprendeu lentamente de mim, e só então pensei—talvez pela primeira vez com seriedade—na liberdade”.

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[3] Cujas primeiras 100 páginas são uma experiência formal desafiadora, com seus parênteses incessantes e frases que vão e volta para depois mergulhar numa fábula kafkiana, cuja atmosfera pode ser exemplificado pelo seguinte diálogo entre Köves (o protagonista) e a mulher que o aloja em casa:

““ __ Sim, Köves disse, só que não estou trabalhando para nenhum jornal—depois, pouco se incomodando com a decepção que poderia causar à mulher (quem sabe ela até já se tenha vangloriado de ter um inquilino jornalista)—acrescentou rapidamente: Fui despedido…

__ Então foi despedido—a locadora falou de novo, agora com certa familiaridade, como se não tivessem mais nada a esconder um do outro, ao mesmo tempo com a voz baixa, como se não quisesse que outros a ouvissem (apesar de ninguém mais estar no quarto além deles)—Por quê?…

__E pode-se saber?

__ Não—respondeu a mulher, deixando-se pender lentamente sobre a cadeira, momentos antes oferecida porém logo recusada, enquanto toda e qualquer expressão abandonava seu rosto, como se de repente se tivesse dado conta de sua incomensurável fadiga—não se pode… O senhor sabe… às vezes sinto que já não entendo mais nada…” (utilizo, fazendo algumas adaptações, a tradução de Ildikó Sütö).

[4] Não concordo nem um pouco com Luís S. Krausz, no posfácio à edição da Tordesilhas, intitulado Nos subterrâneos do século XX, quando diz que o “não existencialismo” é uma “cultura de resignação”, “única postura viável diante das arbitrariedades”. Fosse uma ética de resignação, a obra de Kertész perderia boa parte da sua força. Eu diria que é uma tortuosa ética de teimosia e obstinação, o que é muito, muito diferente.

Resignação, ou conformismo, é o que Enrique Salinas observa (revoltado) à sua volta, ou seja,  a acomodação ao regime, ao ponto de seus aspectos mais gritantes tornarem-se “invisíveis”, parte da paisagem social: “Estava andando pela cidade. Fazia um calor infernal. À minha volta, a algazarra noturna de sempre. Casais de namorados nas calçadas e gente se acotovelando rumo aos cinemas e às casas noturnas. Como se nada tivesse acontecido, nada. Vivendo sua vida inexistente. Ou será que eles existem e eu não? Na rua, um ou outro parecia ter perdido alguma coisa. Por toda parte se via gente com cara de policial, farejando, ouvindo as conversas e pensando que ninguém se incomoda com eles. E estão certos: as pessoas não se incomodam com eles. Bastaram esses poucos meses para se acostumarem com eles”.

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02/10/2013

APOSTAS PARA O NOBEL

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 6 de outubro de 2007)

Chega outubro e as pessoas começam a perguntar: quem você acha que merece ganhar o Nobel? Quais as suas apostas?

Há 50 anos Albert Camus foi anunciado como o vencedor. Quem sabe em 2007 o nome escolhido seja tão fundamental para a literatura…

Se Doris Lessing  é o primeiro nome a vir à mente do responsável por esta coluna, dos grandes escritores ativos da atualidade o que produziu as obras mais impressionantes em anos recentíssimos (caso de Submundo e Cosmópolis) foi Don DeLillo. Nos EUA, além dele, seriam escolhas mais que justas Philip Roth, John Updike, Thomas Pynchon,Joyce Carol Oates, Joan Didion, John Irving, sem falar no lendário Norman Mailer, cuja obra-prima Um sonho americano acaba de ser reeditada no Brasil.

Na América Latina, o peruano Mario Vargas Llosa é imbatível, embora o mais venerável (ainda que inativo) seja o argentino Ernesto Sábato (e não possamos esquecer o uruguaio Mario Benedetti). O Brasil também poderia passar a existir no mapa Nobel com o genial Dalton Trevisan, nosso maior escritor vivo, ou com Autran Dourado. Na nossa ex-metrópole, o nome mais cotado é mesmo o de Antônio Lobo Antunes.

A literatura da França anda muito fraca, mas seria justo lembrar o espanhol que criou obras-primas em francês, Jorge Semprún (A grande viagem, A segunda morte de Ramón Mercader, Um belo domingo); ou do tcheco Milan Kundera, que após ter escrito alguns dos melhores livros do século XX (A brincadeira, A valsa dos adeuses) na sua língua natal, adotou a língua do seu país de exílio nos seus últimos textos.

É, aliás, a síndrome Camus (escritor que veio da Argélia para o coração da literatura de língua francesa). Os “que vêm de fora” lentamente dominam a cena. Ninguém exemplifica melhor isso do que o extraordinário anglo-indiano que escreveu Os filhos da meia-noite, Os versos satânicos, O último suspiro do mouro e Fúria:  Salman Rushdie.

Mas se o império britânico agoniza e os imigrantes é que lhe trazem seiva nova, um escritor como Ian McEwan, com livros da categoria de Amsterdam, ainda representa seu último alento.

Aqui também não poderia faltar a canadense Margaret Atwood, de Madame Oráculo e Olho de gato. E um autor insólito e inventivo de um país que foi destruído e pulverizado, a Iugoslávia: Milorad Pavitch, de Dicionário Kazar e Paisagem pintada com chá. E por falar em paisagens na neblina temos ainda o albanês Ismail Kadaré, de Abril despedaçado e Dossiê H.

E se o mundo islâmico é a maior inquietação do Ocidente de Bush, um escritor lúcido e poderoso não pode faltar nesta lista: Táriq Ali, de Sombras da Romãzeira e Medo de espelhos.

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Apostas feitas.

22/10/2012

MÚLTIPLA DORIS LESSING

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Na semana passada, num artigo em que fazia “apostas” para o Nobel (ver abaixo), declarei que o primeiro nome a vir à minha mente era o de Doris Lessing. Era, na verdade mais uma indicação do gosto pessoal persistente, revelando uma paixão que dura há um quarto de século (a primeira vez que a li foi em 82, e comecei já com um dos melhores, Roteiro para um passeio ao inferno) do que uma aposta: aquela que é o maior nome vivo da ficção (agora com 87 anos) fora preterida nas duas oportunidades em que deram o prêmio a escritoras de língua inglesa: em 91, para Nadine Gordimer (fina estilista, autora de romances excelentes, e por quem eu tenho o maior respeito, só que seria o mesmo que premiar Lygia Fagundes Telles no lugar de Clarice Lispector); e em 93, para Toni Morrison, em minha opinião uma escritora decepcionante e menor, embora a unanimidade da crítica em torno de obras (Amada, A canção de Solomon, Jazz, Paraíso) que eu considero recheadas de partes ridículas e constrangedoras, me leve a crer que o erro de percepção é meu, e se trate de uma incompatibilidade fundamental mais do que um juízo crítico.

memórias

Parecia pouco provável que a essa altura do campeonato lhe atribuíssem o prêmio. E que surpresa: 50 anos após o anúncio de Albert Camus como ganhador, sai da caixinha o nome de um autor que me influenciou tanto quanto ele. Considero a premiação mais relevante desde 1969 (o ano de Samuel Beckett). Não que, de lá para cá, não fossem anunciados grandes nomes (Neruda, Soljenítisin, Bellow, Singer, Montale, Canetti, William Golding, Claude Simon, Pinter, Saramago, Naguib Mafhouz, Octavio Paz, Coetzee, Günter Grass), porém nenhum deles foi, é ou será o que Doris Lessing representa: um mundo, a recuperação épica de toda as fraturas individuais e desmoronamentos coletivos das últimas décadas, uma romancista de quem vários títulos parecem conter toda a vida, e que ainda por cima, numa chave mais miniaturista, a do conto, consegue igual maestria.

Quando ela estreou na literatura, em 1950, chegando a Londres, aos 30 anos, vinda da África (nasceu no Irã, em 1919, que então era a romanesca Pérsia), com The Grass is singing-A canção da relva, no qual conta a história de uma fazendeira branca assassinada por um criado negro, com quem tivera relações, parecia uma estilista tão fina quanto sua colega Nadine Gordimer, na tradição flaubertiana, capaz de tratar um tema explosivo com grande elegância. Volta e meia, aliás, ela publica um livro “perfeito” e bem acabado, talvez para nos mostrar: olha o que eu poderia ter sido, como eu faria bem isso…

Mas assim com a parede do apartamento da narradora do extraordinário Memórias de um sobrevivente insiste em se abrir para outros tempos e outras possibilidades da realidade, os romances de Doris Lessing começaram a romper os diques da mera ficção (enquanto isso ela estabelecia um sólido nome como contista, com suas histórias africanas, reunidas em dois volumes obrigatórios a qualquer um que ame a arte da narrativa, no Brasil intitulados A terra do velho chefe e Sabores do exílio).

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Isso aconteceu com duas obras-primas: 1º.) o ciclo de cinco romances que acompanha a protagonista Martha Quest da infância na África até a Terceira Guerra Mundial, Os filhos da violência, iniciado em 1952 e só concluído em 1969, com A cidade de quatro portas. Para mim, é a única realização romanesca do século XX a rivalizar com Guerra e Paz, em abrangência e ímpeto épico, e que lhe valeu o epíteto (dado por Irving Howe) de “arqueóloga das relações humanas”. Não é que a ficção lessinguiana seja epigonal ao realismo do século XIX, não, ela é tomada pelo mesmo furor arcaico e homérico do velho Tolstoi, um talento que parece natural, nem parece “literatura”. É claro que isso é mentira, sua fabulação é tão construída como a de qualquer outro, mas o efeito é poderoso e único; 2º.) o seu romance mais famoso, The golden notebook- O carnê dourado, onde a heroína, Anna Wulf, enfrenta a loucura e a fragmentação, o caos do mundo à sua volta, subdividindo-os em diferentes cadernos que procuram conter a realidade, até que essas frágeis molduras também explodem. Embora O carnê dourado tenha sido encampado como bíblia do feminismo, a sua incomparável arquitetura narrativa e seu visionarismo sempre o resgatarão de ficar datado e reduzido a um manifesto.

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Se Doris Lessing tivesse ficado por aí, já seria um dos maiores nomes da literatura. A partir da sua adesão ao sufismo, ela parece ter ficado cada vez mais ousada literariamente. Além de dois contos longos antológicos, O quarto 19 (homenageado em As horas) e A tentação de Jack Orkney (onde o protagonista, comunista, é contagiado pela idéia da existência de Deus), em 1971 aparecia Roteiro para um passeio ao inferno, que começa em pleno delírio do protagonista, um professor de literatura que “pira” e mistura medos pessoais, arquétipos e mitos civilizatórios. Aos poucos, ficamos sabendo que ele foi enviando por instâncias intergalácticas (ou deuses) para cumprir uma missão, mas a esqueceu e se perdeu na condição humana (daí, o sentido literal do título, “instruções para uma descida aos infernos”); em 1973, apareceu o livro que a tornou famosa no Brasil, O verão antes da queda (que está na linha daqueles livros que citei mais atrás, no comentário a The Grass is singing); em 1974, um ponto alto da sua produção, Memórias de um sobrevivente, que prenunciava um pouco o que estava para vir: no final da década de 70, Lessing se lançou na criação de uma série cosmológica, que contava os embates entre dois impérios, o de Canopus, e o de Sirius (um contra-império maléfico, Shammat, representava o desequilíbrio entre ambos). Os agentes de Sirius não conseguiam compreender os métodos e intenções dos agentes de Canopus porque acreditavam na tecnologia, no progresso material, na racionalização do mundo.

O primeiro resultado dessa confrontação (resumida aqui de forma tão simplória) foi Shikasta, o meu favorito pessoal entre todos os livros de Doris Lessing, numa preferência absolutamente aliterária. É uma lindíssima reescritura da história da Terra, e ainda que esnobado por críticos do naipe de George Steiner e Harold Bloom, acho que é um dos livros necessários na bagagem de qualquer existência. Por isso, considero-o além do literário.

O outro grande livro da saga, e complementar, é As experiências de Sirius, que tem algumas das cenas mais lindas já escritas pela grande escritora britânica.  Mas há dois outros volumes onde se pode dizer que ela atingiu a perfeição absoluta do relato literário, duas jóias de ourivesaria narrativa: Os casamentos entre as zonas 3,4 e 5 e Planeta 8-Operação Salvamento.

Quando a série termina, com Os agentes sentimentais, parece que é mais por desinteresse do que por outra coisa. O livro não é ruim, mas parece uma dramatização literária das suas idéias sintetizadas num livro emblemático: Prisão que escolhemos para viver:

 

Parece-me, cada vez mais, que estamos sendo governados por ondas de emoções de massa e que, enquanto o fenômeno durar, não será possível avaliar respostas sérias, ponderadas e desapaixonadas que poderiam nos salvar. Olhando para minha vida, que agora conta 60 anos, o que vejo é uma sucessão de grandes eventos de massa, de emoções inflamadas, de paixões selvagens e sectárias (…) Um movimento de massa sucede a outro; pela guerra e contra ela; pela tecnologia e contra ela. E cada um cria nas pessoas um determinado ânimo, violento, emocional, sectário, suprimindo os fatos que não convém, mentindo e abandonando a sensatez da fala ponderada que, para mim, é a única maneira de chegarmos à verdade (…) Todo avanço do mundo, todo o seu desenvolvimento, estão ligados à complexa capacidade de nutrir várias idéias, muitas vezes contraditórias, ao mesmo tempo.”

Por essa época, ela criou um alter ego e enganou as editoras e meios de comunicação na Inglaterra, com Jane Somers, uma escritora “menor” e bem acomodada à tradição da narrativa britânica. Da brincadeira resultaram Diário de uma boa vizinha e Se os velhos pudessem. A “verdadeira” Doris Lessing produzia, por sua vez, mais um grande e provocativo livro (que veio divulgar no Brasil), The good Terrorist- A terrorista. Já parecia, contudo, estar perdendo o fôlego.

Alguns anos depois, porém, reaparecia em plenos anos 90, com um romance maravilhoso e inusitado: Amor, de novo. E lançava pouco depois dois volumes autobiográficos: o primeiro, Debaixo da minha pele, é excepcional; já o segundo, Andando na sombra, deixou um pouco a desejar no seu acerto de contas com o comunismo, talvez porque ela já o tivesse feito em várias ocasiões, na sua ficção, e porque ela minimiza muito sua carreira literária, cujo desabrochar deveria ser o contraponto do livro.

E agora, na década que estamos vivendo, mais um romance ciclópico, O sonho mais doce (2001), sua chegada ao século XXI. E se alguém acha que ela virou uma doce e boa velhinha, basta ler o malicioso, incisivo e lapidar prefácio que escreveu (em 2003) para textos recuperados de Virginia Woolf (homenageando o único outro nome comparável a ela na literatura inglesa), A casa de Carlyle e outros contos. O prefácio é tão ela, e isso representa uma força tão grande, que até deixa a autora prefaciada em segundo plano.

(texto publicado originalmente em duas partes, em A TRIBUNA de Santos,  em 13 de outubro e 20 de outubro de 2007)

VER TAMBÉM SOBRE DORIS LESSING:

https://armonte.wordpress.com/2013/10/22/destaque-do-blog-shikasta-de-doris-lessing/

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ANEXO

APOSTAS PARA O NOBEL

Chega outubro e as pessoas começam a perguntar: quem você acha que merece ganhar o Nobel? Quais as suas apostas?

Há 50 anos Albert Camus foi anunciado como o vencedor. Quem sabe em 2007 o nome escolhido seja tão fundamental para a literatura…

Se Doris Lessing  é o primeiro nome a vir à mente do responsável por esta coluna, dos grandes escritores ativos da atualidade o que produziu as obras mais impressionantes em anos recentíssimos (caso de Submundo e Cosmópolis) foi Don DeLillo. Nos EUA, além dele, seriam escolhas mais que justas Philip Roth, John Updike, Thomas Pynchon,Joyce Carol Oates, Joan Didion, John Irving, sem falar no lendário Norman Mailer, cuja obra-prima Um sonho americano acaba de ser reeditada no Brasil.

Na América Latina, o peruano Mario Vargas Llosa é imbatível, embora o mais venerável (ainda que inativo) seja o argentino Ernesto Sábato (e não possamos esquecer o uruguaio Mario Benedetti). O Brasil também poderia passar a existir no mapa Nobel com o genial Dalton Trevisan, nosso maior escritor vivo, ou com Autran Dourado. Na nossa ex-metrópole, o nome mais cotado é mesmo o de Antônio Lobo Antunes.

A literatura da França anda muito fraca, mas seria justo lembrar o espanhol que criou obras-primas em francês, Jorge Semprún (A grande viagem, A segunda morte de Ramón Mercader, Um belo domingo); ou do tcheco Milan Kundera, que após ter escrito alguns dos melhores livros do século XX (A brincadeira, A valsa dos adeuses) na sua língua natal, adotou a língua do seu país de exílio nos seus últimos textos.

É, aliás, a síndrome Camus (escritor que veio da Argélia para o coração da literatura de língua francesa). Os “que vêm de fora” lentamente dominam a cena. Ninguém exemplifica melhor isso do que o extraordinário anglo-indiano que escreveu Os filhos da meia-noite, Os versos satânicos, O último suspiro do mouro e Fúria:  Salman Rushdie.

Mas se o império britânico agoniza e os imigrantes é que lhe trazem seiva nova, um escritor como Ian McEwan, com livros da categoria de Amsterdam, ainda representa seu último alento.

Aqui também não poderia faltar a canadense Margaret Atwood, de Madame Oráculo e Olho de gato. E um autor insólito e inventivo de um país que foi destruído e pulverizado, a Iugoslávia: Milorad Pavitch, de Dicionário Kazar e Paisagem pintada com chá. E por falar em paisagens na neblina temos ainda o albanês Ismail Kadaré, de Abril despedaçado e Dossiê H.

E se o mundo islâmico é a maior inquietação do Ocidente de Bush, um escritor lúcido e poderoso não pode faltar nesta lista: Táriq Ali, de Sombras da Romãzeira e Medo de espelhos.

Apostas feitas.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 6 de outubro de 2007)

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02/10/2012

Onze de dezembro de 2011: o centenário de Naguib Mahfouz

(resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 30 de março de 2004)

     Está acontecendo com o egípcio Naguib Mahfuz um fenômeno que atinge determinados autores no Brasil: ignorado durante décadas, com poucas obras traduzidas (a trilogia formada por Entre dois palácios, O palácio do desejo e O jardim do passado e o pequeno romance As codornas e o outono), recentemente começou a figurar no catálogo de várias editoras. Por exemplo, a Record vem lançando obras do início da sua carreira, voltadas para o passado do Egito (O jogo do destino, A batalha de Tebas). Já a Berlendis & Vertecchia, por sua vez, colocou em circulação uma obra mais madura, de 1967, MIRAMAR, a qual deve ter pesado consideravelmente na premiação de Mahfuz com o Nobel em 1988. Depois de ler esse romance (na tradução de Safa Abou Chahla Jubran), é impossível não reconhecer que ela foi justíssima.

São quatro os narradores, todos eles pensionistas: da senhora Mariana, num edifício sobre o café Miramar, em Alexandria. O octogenário Amer Wagdi é um jornalista famoso, cujo final de vida é melancólico (“Parecia ter plena consciência do esquecimento e da ingratidão dos homens”): as reviravoltas políticas transformaram-no numa espécie de peça de museu respeitada e no entanto posta de lado, num país onde “não valorizam um homem a não ser que seja um jogador de futebol” (nós, brasileiros, conhecemos bem isso, não?); os outros três (Hosni Allam, Mansur Bahi, Sarhan Al-Biheiri) são jovens que além de tentarem se posicionar no novo tabuleiro social pós-Revolução Nacionalista (no qual a melhor esperança, para aqueles que não são jogadores de futebol, é o cargo público—como também se vê em As codornas e o outono, de 1962—cujos ocupantes despertam inveja e sentimentos ambivalentes) têm em comum a atração pela empregada doméstica da pensão, Zohra, jovem camponesa, assediada por todos (embora de forma mais delicada por Mansur Bahi) e que se apaixona pelo inconstante, mulherengo e arrivista Al-Biheiri, que será assassinado após uma série de incidentes passionais na pensão da ex-cafetina.

Da maneira como Mahfuz estruturou MIRAMAR (Wagdi toma a palavra no início e no fim, com seu olhar compassivo e resignado), os fatos se repetem, mas sempre com lentes diferenciadas: determinada atitude que parece generosa para um pode parecer mesquinha para outro; um acontecimento pode ser trágico ou irrisório conforme passe por um crivo ou por outro; Zohra também muda segundo a visão e a expectativa. Cada narrador se desenha por inteiro através do seu próprio e tendencioso relato e quem leu as memórias de Simone de Beauvoir acaba por lembrar-se da narração do seu aprendizado da técnica da ficção: a manipulação da narrativa feita pelos próprios personagens: [pintando-a]”…tal qual desejava ser e tal qual era, eu conseguia exprimir essa distância de si para si que é a má fé”.

Nesse ponto, o único personagem que escapa dessa armadilha é o jornalista macróbio, e mesmo assim ele é impotente diante do desenrolar dos fatos.

Por outro lado, e principalmente tratando-se do mundo árabe, ainda que ocidentalizado em parte, é muito importante ler um romance que retrata com tanta força a estrutura social, onde os debates políticos atingem a medula da narrativa, de tal forma que nem a convivência íntima numa pensão decadente se aliena da tensão sócio-politica, acabando por se transformar num microcosmo do Egito. Quando se tem da civilização islâmica (há frequentes citações do Alcorão em MIRAMAR) apenas notícias envolvendo terrorismo, fanatismo, modos retrógrados de viver e pensar, é bom reajustar a ótica e ver que ali também há o quotidiano, as discussões e querelas que envolvem qualquer sociedade, os mesmos problemas que homens e mulheres, velhos e jovens, favorecidos e desfavorecidos pela mobilidade social, enfrentam em qualquer lugar do planeta e sob qualquer deus.

Esse aspecto já tornaria necessária e recomendável a leitura de Naguib Mahfuz. A alta qualidade literária de uma obra como MIRAMAR a torna indispensável.

(resenha publicada originalmente  em  A TRIBUNA  de Santos, em  cinco de agosto de  2006, em função da morte de Mahfuz)

Mesmo depois que Naguib Mahfuz ganhou o prêmio Nobel em 1988 os brasileiros demoraram muito tempo para conhecer mais amplamente a força da obra do grande escritor egípcio, falecido nesta semana.

Os pioneiros, logo após a premiação, foram As codornas e o outono (1962), pequeno e esplêndido romance sobre as agruras de um funcionário público em meio a uma revolução nacionalista, e a Trilogia do Cairo (Entre dois palácios, O palácio do desejo, O jardim do passado), grande painel à moda realista, escrito e publicado nos anos 40/50.

Década e meia depois é que proliferaram os lançamentos que oferecem uma visão incompleta, porém bastante discernível, de uma obra multifacetada: a Record (responsável pela Trilogia do Cairo) vem lançando a série de romances histórico-folhetinescos do início da carreira (final dos anos 30) de Mahfuz, tramas mirabolantes que transcorrem num Egito Antigo com clima de novela das oito: é o caso de O jogo do destino , de A batalha de Tebas e de Akhenaton, o rei-herege . É incrível a fluência e naturalidade das narrativas. E muito antes que a história das mentalidades nos apresentasse o dia-a-dia de civilizações longínquas, Mahfuz já nos trazia personagens do passado monumental do seu país que não parecem meros hieróglifos animados, vivendo de forma retumbante e hierática. Pelo contrário, ele chegava a aburguesar a sociedade do Antigo Egito faraônico.

Outra incursão de Mahfuz no passado glorioso, por assim dizer, são as 17 narrativas de Noites das mil e uma noites  aproveitando o arquétipo supremo da arte de contar histórias.

Mas é preciso dizer que entre o que se publicou no Brasil, o melhor de Mahfuz está nas narrativas contemporâneas. O leitor talvez encontre dificuldade de encontrar os já esgotados As codornas e o outono e Trilogia do Cairo. Duas obras-primas ainda em circulação poderão convencê-lo: O beco do pilão (1947) e Miramar (1967).

O beco do pilão  é uma miscelânea de pequenas vidas na parte antiga do Cairo durante a 2a. Guerra Mundial, lembrando (e superando em delicadeza e destreza de toque) A colméia, do igualmente nobelizado Camilo José Cela.

Miramar (Berlendis & Vertecchia, R$ 44) tem quatro narradores, pensionistas da sra. Mariana: um jornalista octogenário e três jovens tentando posicionar-se no tabuleiro pós-Revolução (a meta ambicionada é o funcionalismo público). A catalisadora da ação é Zohra, jovem camponesa, assediada por todos. Os fatos se repetem, sempre com lentes diferenciadas: determinada atitude que pode parecer generosa para um pode revelar-se mesquinha para outro, um acontecimento pode ser trágico ou irrisório conforme passe por um crivo ou outro. Cada narrador se desenha por inteiro através do seu próprio e tendencioso relato; enfim, a convivência íntima numa pensão decadente se transforma num vívido microcosmo do Egito contemporâneo, onde, na verdade, surgem os mesmos problemas de qualquer lugar do planeta e sob qualquer deus: homens e mulheres, velhos e jovens, favorecidos e desfavorecidos pela mobilidade ou imobilidade social.

E em qualquer lugar do planeta e sob qualquer deus, a obra de Naguib Mahfuz é indispensável.

16/08/2012

Destaque do Blog: O LEÃO E A JOIA, de Wole Soyinka

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  sem as notas de rodapé, em 14 de agosto de 2012)

Um dos destaques do ano entre os lançamentos de literatura estrangeira é, sem dúvida, O leão e a joia  (The lion and the jewel), tardia primeira tradução brasileira (muito bem realizada, por William Lagos, para a Geração Editorial) de Wole Soyinka.

  Atualmente com 78 anos, o autor nigeriano teve essa sua peça de juventude encenada no final dos anos 1950 (a publicação em livro aconteceu há exatamente 50 anos), quando se dedicou a estudar em profundidade (após um período “londrino”) o teatro africano.

  O leão e a joia coloca em cena o velhíssimo tema do triângulo amoroso e na superfície se vale das regras clássicas e estritas da unidade de ação, tempo e lugar, que indicariam mais um apego às formas teatrais europeias. Numa aldeia da nação iorubá, acompanhamos uma trama farsesca desenrolando-se em três atos (Manhã, Meio-dia, Noite): Sidi é a bela de Ilujinle, ainda virgem. Seu pretendente mais declarado é o para-lá-de-ocidentalizado professor primário Lakunle, que a admoesta por manter hábitos “bárbaros” e “primitivos” e lamenta constantemente o atraso do povoado (“Eu quero caminhar a seu lado como fazem os casais de Lagos que eu vi: a dama usa sapatos de salto alto e usa batom vermelho nos lábios. E seus cabelos são alisados como em uma foto de revista. Eu lhe ensinarei a valsa e nós vamos aprender juntos a dançar o foxtrote”). Sua amada, ferina e maliciosa, o provoca e ridiculariza (“Por causa desse aí, não lhe dê mais atenção do que daria a um eunuco”), em diálogos ágeis e nervosos, cheios de metáforas e analogias inspiradas[1], dando vazão à sua indignação por ele não ceder ao costume ancestral de pagar um dote à noiva. Subira à cabeça de Sidi, ademais, ela ter sido fotografada por um forasteiro, tornando-se capa de uma revista.

  Acontece que há outro pretendente: o bale (chefe) local, Baroka—um personagem fascinante—que se lamenta à mais velha das esposas (causando nele um sentimento de secreto rejúbilo, movido pela eterna guerra dos sexos) de que, aos 62 anos, está assombrado pela impotência e gostaria de ter Sidi como a nova esposa para resgatar sua virilidade perdida. Não entrarei em detalhes sobre tudo o que o texto de Soyinka urde, tece e entrança de astúcias, ardilosidades e armadilhas para a incauta Sidi, que em sua ingenuidade crê ter a tarimba para lidar com o “leão” (matreiro ao ponto de subornar o encarregado da ferrovia que passaria pela aldeia, trazendo o tão falado progresso), ou de como a própria “joia” aceita o seu papel de peão no tabuleiro e joga de forma a garantir uma posição social elevada. Deixo ao leitor a descoberta das delícias do desenrolar da ação.

  O que eu pretendo enfatizar é a engenhosidade do Nobel de 1986 em colocar no palco, de forma simples e lapidar, o confronto de forças históricas e sobretudo a eficiência das fórmulas cênicas africanas que transformam em musical, de uma maneira que chega a humilhar Broadways, Holly ou Bolly Woods, em naturalidade e agilidade rítmica[2] notáveis (e que também demonstram, sem necessidade de didatismos—apesar do lastro pedagógico de O leão e a joia—os atavismos que nos regem, pois o modernoso professor Lakunle é arrastado irresistivelmente para essas coreografias), os eventos passados que esclarecem os fatos que vemos no palco: assim, dança, música, cenas coletivas, decorrem de conflitos íntimos e jogos verbais entre praticamente quatro personagens: Sidi, seus dois pretendentes e a esposa mais velha, Sadiku; há ainda Ailatu, a atual “favorita” de Baroka, enquanto ele não conquista a “joia”, numa única cena maravilhosa.

   Por falar em cenas maravilhosas, não posso deixar de destacar a longa fala de Sadiku em que as metáforas de linho, cordão, carretel e similares atingem uma ressonância sexual inequívoca e saborosa[3], os ditados pândegos[4] emitidos pelo supostamente venerável e sábio Baroka; este, apesar de lamentarmos a persistência do patriarcalismo no que ele congrega de atraso e imobilismo, permanece um personagem mais simpático e humano do que o sinistro Lakunle e sua visão (satirizada cruelmente por Soyinka) do que seria a modernização da África: “Vamos queimar a floresta, cortar as árvores e depois plantar um parque moderno para os namorados. Vamos imprimir jornais todos os dias com fotografias de jovens sedutoras. O mundo irá julgar nosso progresso pelas nossas moças que vencerão concursos de beleza”.


[1] Outro exemplo:

Lakunle: Sidi, meu amor abrirá a sua mente como a folha casta da manhã, quando o sol a toca pela primeira vez.

Sidi: Se você começar de novo com isso, eu saio correndo. Eu já ouvi o suficiente dessas bobagens ontem.

Lakunle: (…) Como você pode chamar de bobagens que eu tenha derramado as águas da minha alma para lavar seus pés?

[2] No sentido de palco e no sentido da música

[3] Um trecho:

(…) somos nós que enrolamos e desenrolamos o cordão à volta de vocês, lentamente, até que nada mais sobre do que um carretel velho e carcomido (…) Fui eu que estropiei Okiki: a casa do tesouro de Sadiku estava fechada e cobrava um sacrifício para quem quisesse entrar… E aí chegou Okiki, com sua chave enferrujada. Ele veio para mim como uma cobra e saiu feito um capacho, um capacho frouxo e besuntado de vergonha…

  O que contrasta com a bazófia da virilidade enunciada por Baroka:

(…) seu eu pudesse ensinar a esse passarinho anda implume, que não tem a sabedoria de abraçar o rico mofo da idade…

[4] Ou pelo menos assim me soam na tradução de William Lagos, que acho muito esperta. Um exemplo: “(…) é como dizemos, uma mulher se perde na floresta um dia e no outro morrem todos os deuses da mata.

20/05/2012

SARAMAGO E AS PAISAGENS ALEGÓRICAS

Uma tendência audaciosa da obra de José Saramago, exercitada em A jangada de pedra, Ensaio sobre a cegueira, Todos os nomes, e que reaparece agora em seu novo romance, A caverna, é o uso de um núcleo alegórico que determina os rumos da narrativa. E é preciso realmente ser um autor do quilate de Saramago para se aventurar nas paisagens alegóricas, em geral pobres e áridas, e obter êxito.

Dessa vez, o núcleo alegórico é o Centro, um mega-shopping que absorveu toda a vida quotidiana para dentro de suas paredes e no qual, além das compras e do lazer, as pessoas vivem e morrem (há moradias e crematórios). Saramago radicaliza ao extremo a visão de que hoje em dia não há mais indivíduos, há consumidores. É o “segredo de abelha” referido no texto: “reside em criar e impulsionar no cliente estímulos em sugestões suficientes para que os valores de uso se elevem progressivamente na sua estimação, passo a que se seguirá em pouco tempo a subida dos valores de troca, imposta pela argúcia do produtor a um comprador a quem foram sendo retiradas pouco a pouco, sutilmente, as defesas interiores resultantes da consciência da sua própria personalidade, aquela que antes, se alguma vez existiu um antes intacto, lhe proporcionaram, embora precariamente, uma certa possibilidade de resistência e auto-domínio”. É um mundo em que o capitalismo torna-se totalitário: ou se está dentro ou se é excluído inapelavelmente. Enfim, é a globalização.

Como se sabe, o título vem do mito criado por Platão: o homem contenta-se com simulacros, com uma impostura da realidade, vivendo numa caverna apartada da verdadeira realidade. E esse título terá sua função explicada plenamente na parte final.

Por sua vez, o Centro, tal como o conhecemos, só chegando à orla dos pequenos funcionários, do baixo escalão que o serve, nos remete a Kafka. Pode-se até acusar Saramago de utilizar por vezes um tom sub-kafkiano, como o diálogo entre o herói da narrativa, o oleiro Cipriano Algor, e um funcionário do Centro: “O Senhor é um chefe. Sou um chefe, de fato, mas só para aqueles que estão abaixo de mim, acima há outros juízes. O Centro não é um tribunal. Engana-se, é um tribunal, e não conheço outro mais implacável”!!!! Ou ainda esta tentativa de humor negro, noutro diálogo entre os mesmos personagens: Será caso para proclamar que o Centro escreve direito por linhas tortas, se alguma vez lhe sucede de tirar com uma mão, logo acode a compensar com a outra. Se bem me lembro, isso das linhas tortas e de escrever direito por elas era o que se dizia de Deus, observou Cipriano Algor. Nos tempos de hoje vai dar praticamente no mesmo…”

São momentos infelizes (e pode haver os que não pensarão assim, antes o contrário), porém perfeitamente diluíveis num romance longo e belo. Pois o verdadeiro, o grande Saramago, não está tanto na aproximação com o universo kafkiano,  na apreensão de um vasto mundo desumanizado,  e sim nas minúcias com que trata o avesso, isto é, o mínimo mundo humano que restou, simbolizado pelo núcleo familiar e Cipriano Algor.

Quem ler A caverna notará que nele se narra, à exaustão, todos os processos ligados à olaria, embora tudo o que acontece se origine na recusa do Centro de continuar comprando os artefatos artesanais de Cipriano Algor, que já não encontram consumidores. Não é por acaso que procede assim  o grande escritor português: à gigantesca irrealidade do Centro, ele contrapõe a mínima, mas intensa e gritante realidade de Cipriano Algor, de sua filha Marta e de seu marido Marçal,  da viúva Isaura Madruga e do cão Achado. Vale acrescentar, aliás, quanto às personagens do romance, que não é de hoje que as figuras femininas roubam a cena no universo saramaguiano. Tivemos a Blimunda de Memorial do convento, a Joana Carda de A jangada de pedra e a mulher sem nome de Ensaio sobre a cegueira. Agora temos Marta, que simplesmente congrega em si o que de melhor o livro tem a oferecer, e Isaura Madruga, no pouco que aparece, também é muito forte. Quanto ao cachorro Achado, mais uma vez Saramago cria uma grande figura canina, que vem fazer companhia ao Mr. Bones, de Timbuktu, de Paul Auster, e ao cão que bebia as lágrimas da mulher que o adotou em Ensaio sobre a cegueira, como continuador de uma grande linhagem de cães e outros animais da ficção, que não passa pelo xampu de embelezamento e pieguice do mundo disney ou simulacros similares.

É por isso, por acompanhar gestos, palavras, sentimentos e pequenos atos desse grupo tão humano (Achado incluído), que não se pode colocar de maneira tão fácil o autor de A caverna, como já repeti tantas vezes, entre os escritores da desesperança, como Kafka (que ele evoca aqui tão canhestramente) ou Beckett. Crítico, sombrio, sim, mas um autor da esperança, talvez porque torne seus livros, com a riqueza humana dos seus personagens, atos de insurreição ética, como os que ele solicitou ao público na inesquecível entrevista que deu a Jô Soares no dia 04 de dezembro, não permitindo que seu entrevistador o “globalizasse”, levando-o para um terreno seguro, afável, cheio de gracinhas fáceis e digeríveis.

José Saramago, um dos mestres do final do milênio, exige que a vida social seja um pouco mais humana. Ela não o é, dificilmente o será, mas seus livros são uma grande ajuda para imaginá-la assim.

(resenha publicada originalmente, com ligeiras alterações, em A TRIBUNA de Santos, em em 12 de dezembro de 2000; era o primeiro romance de Saramago pós-Nobel).

21/03/2012

MAR MORTO

(resenha publicada em primeiro de agosto de 2000, em A TRIBUNA de Santos)

O velho e o mar (The old man and the sea) está de novo nas livrarias. A Bertrand comprou os direitos dos livros de Ernest Hemingwaye abrasileirou um pouco mais a tradução de Fernando de Castro Ferro que há anos circula por aqui. Ela já fora revista em edições anteriores (por José Baptista da Luz),mas desta vez procedeu-se a um sutil trabalho de pequenas e decisivas mudanças, de forma a tirar o ranço excessivamente formal e lusitano, que pouco tinha a ver com o famoso estilo Hemingway. Quem ler a nova edição terá a sensação de estar diante de um novo texto em português, mais ágil e moderno, apesar de terem permanecido ainda algumas soluções forçadas e infelizes.

A história é aquela já bem conhecida: Santiago é o velho pescador cubano que se tornou azarado, não conseguindo apanhar um peixe há 84 dias e que sobrevive graças à devoção de Manolin, guri que a princípio o ajudava na pesca e que foi obrigado a trabalhar em outro barco, por ordem paterna.

No 85º dia, Santiago afasta-se muito da costas e acaba pescando um peixe enorme (cinco metros e meio), maior até que seu barco. O peixe demora para morrer, arrastando-o, e ele se afasta mais e mais no alto mar. Quando consegue matá-lo, é obrigado a rebocá-lo, pois ele não cabe na embarcação. Na longa volta, os tubarões começam a devorar o peixe e, ao atracar, só resta a carcaça…

Muito antes disso, porém, é antecipada a moral da história: “Um homem pode ser destruído, mas nunca derrotado”. Apesar de saber vã a luta com os tubarões, Santiago não deixa de lutar, segundo a sua filosofia:

Vou mostrar-lhe o que um homem pode fazer e o que é capaz de agüentar… As milhares de vezes que já o demonstrara não significavam nada. Agora ia prová-lo de novo. Cada vez era uma nova vez e, quando o estava fazendo, o velho nunca pensava no passado”.

Hemingway chega ao mau gosto, quase ao kitsch (que, aliás, ameaça o livro inteiro, se é que não o afoga), de associar a figura de Santiago à figura de Cristo, fazendo a caminhada do velho à sua cabana, carregando seu mastro, lembrar as estações da via crucis:

Recomeçou a andar e, no topo da rampa, caiu no chão e ficou deitado durante alguns momentos com o mastro ainda nos ombros. Tentou levantar-se. Mas era esforço excessivo e ficou sentado com o mastro nos ombros… finalmente pôs o mastro no chão e levantou-se. Tornou a pegar no mastro, pô-lo aos ombros, e começou de novo a caminhar. Teve de sentar-se cinco vezes antes de de chegar à cabana”.

Toda essa crucificação simbólica fica ainda mais incômoda se lermos O VELHO E O MAR numa chave mais biográfica, como um registro cifrado da carreira literária de Hemingway. Quem achar que tal aproximação biografia-obras é um exagero, basta atentar para a reiteradíssima referência aos sonhos de Santiago com os leões (a última frase do texto é: “O velho sonhava com leões”). Quando nos damos conta de como o nome e a lenda de Hemingway são ligados às caçadas, aos safáris na África, fica mais fácil decodificar essa presença onírica na vida de um pescador cubano que, fora isso, permaneceria um tanto deslocada.

Quando publicou O VELHO E O MAR em 1952, Hemingway era um escritor praticamente acabado, que vivia de glórias passadas. O seu azar literário durou bem mais do que os 84 dias do velho Santiago. Seu último sucesso fora o romance Por quem os sinos dobram, em 1940, e é muito difícil afirmar que seja um grande livro, principalmente comparado à sua obra-prima, Adeus às armas (1929). Em 1950, lançara um romance ridículo e constrangedor, Do outro lado do rio, entre as árvores. Portanto, Hemingway literalmente vivia de fama.

Conheço todos os truques”. Esta afirmação do velho Santiago pode muito bem definir a empreitada que é o texto. Um velho escritor que já foi um mestre (Hemingway é um dos mais influentes autores do século XX, isso ninguém pode negar), e que tem um estilo e uma temática inconfundíveis. Um personagem numa situação-limite, enfrentando obstáculos primevos e insuperáveis, vencendo espiritualmente, fazendo prevalecer a dignidade humana. Alguém pode imaginar um quadro mais irresistível? Qual a impressão que se podia ter? Não só o personagem triunfa, apesar de tudo, como também o velho escritor, Santiago Cristo Hemingway, apesar dos tubarões vorazes da crítica tentarem acabar com o peixão que ele pescou no mar (já meio raso) da sua criatividade combalida; e apesar de só restar, no fundo, a carcaça de uma grande obra artística, ele pelo menos teria a dignidade e o heroísmo da luta inglória.

Pois não é que essa estratégia piegas funcionou? Para muitos, Hemingway ressuscitou como escritor, e ele chegou a ganhar o Nobel em 1954 (em boa parte por causa de O VELHO E O MAR). Só que o passar foi evidenciando a lengalenga aborrecida que é a história do velho Santiago (que não difere muito da de um Rocky, um lutador, por exemplo). Mais que isso, foi evidenciando cruelmente como o texto, apesar de bem escrito, sem dúvida, não passa de uma pálida sombra da força com que o autor de Ter e não ter escrevia antes. Ele conhecia todos os truques, é certo, mas o leitor atento percebe logo que não passam disso, de truques, que a austera emoção, ou a comovente simplicidade, da narrativa não passam de pura apelação.

A prova de que O VELHO E O MAR não era uma ressurreição literária (apesar de todas as analogias narcisistas com a história de Cristo) e sim um último lampejo de esperança antes da agonia final está no fato de que Hemingway praticamente não publicou mais nada em vida que tivesse alguma repercussão: anos mais tarde, segundo o lamentável costume de remexer nas gavetas de escritores já mortos, publicaram uma maçaroca intragável chamada As ilhas da corrente, um projeto do qual, ao que consta, a remelenta história do velho Santiago fazia parte. Sob essa nova luz, O VELHO E O MAR ficou ainda mais com ar de carcaça, de algo que foi resgatado de um desastre geral, do mar morto.

05/02/2012

“Curta demais para se acrescentar algo”: a poesia essencial de Wislawa Szymborska

uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de dezembro de 2011

“Quem quis se alegrar com o mundo/ depara com uma tarefa/ de execução impossível (…) // Era para Deus finalmente crer no homem/ bom e forte/ mas bom e forte/ são ainda duas pessoas.// Como viver—me perguntou alguém numa carta/ a quem eu pretendia fazer/ a mesma pergunta.// De novo e como sempre…/ não há perguntas mais urgentes/ do que as perguntas ingênuas”.

   (trechos de Ocaso do século, de Wislawa Szymborska)

A primeira coisa que chama a atenção em POEMAS é essa senhora na capa soltando uma satisfeita baforada, com seu cigarro, com uma expressão beatífica-iogue, com um toque solerte e matreiro. Uma capa que celebra—não sei se deliberada ou inconscientemente—a resistência ao patrulhamento e intolerância crescentes no mundo. Não sou fumante, e por isso posso falar tranqüilamente: acho um horror essa perseguição aos fumantes e a interferência do governo em lugares privados e comerciais. Ninguém  é obrigado a aturar a fumaça de cigarro, mas nunca verei o porquê de não haver “lugares para fumantes” e que eu possa ter o direito de estar neles com meus amigos que fumam, por minha conta e risco. Ninguém é obrigado a aturar a fumaça de cigarro, mas somos obrigados a aturar tevês ligadas em bares e restaurantes, gente berrando, ou gente ouvindo música ruim a decibéis incríveis, gente que não tem a mínima noção de espaço pessoal. É esse o mundo higienizado, com a cara desanimada e nada saudável dos Dráuzios Varellas.Urgh!

Essa senhora fumante, polonesa, atualmente com 88 anos, foi a responsável por minhas mais intensas emoções literárias em 2011. Premiada com o Nobel em 1996,  Wislawa Szymborska é muito mais do que um nome exótico e quase impronunciável (somos informados de que a pronúncia certa seria vissuáva chembórska, mas eu não abro mão do muito mais bonito vislava zimbórska, e aliás, nunca saberei polonês, e por isso pronuncio como quiser, é incrível essa mania do brasileiro de querer “falar certinho” o idioma e os nomes estrangeiros, atitude que não é retribuída pelos falantes de outras línguas: meu ilustre professor na pós-graduação, o francês Pierre Rivas não se vexava de pronunciar Macunáima ou mariô e ninguém levantava dúvidas sobre sua estatura intelectual),  é autora de uma obra poética ímpar, como demonstra a magra e  preciosa antologia  – que  abarca oito de seus livros— publicada  pela Companhia das Letras, um feito memorável  da tradutora Regina Przybycien (por falar em impronunciabilidade), também responsável pela seleção dos quarenta e quatro poemas.

Assim como Drummond e Bandeira, nos seus grandes momentos, Wislawa Szymborska se vale de uma requintada  simplicidade para enlaçar o cotidiano a todos os temas primordiais e importantes: o tempo, a morte, a guerra, a comunicação entre as pessoas, a solidão, a desumanização crescente do mundo, o que é de fato a civilização…

“Não eram muitos os que passavam dos trinta/ A velhice era privilégio das pedras e das árvores/ A infância durava tanto quanto a dos filhotes dos lobos/ Era preciso se apressar, dar conta da vida/ antes que o sol se pusesse/ antes que a primeira neve caísse. // Meninas de treze anos gerando filhos/ meninos de quatro anos rastreando ninhos de pássaros na moita/ jovens de vinte servindo de guias nas caçadas/ ainda há pouco não existiam, já não existem (…)// De todo modo, não contavam os anos/ Contavam as redes, os tachos, os ranchos, os machados / O tempo, tão generoso para qualquer estrela no céu / estendia-lhes a mão quase vazia/ e a retirava rápido, como se tivesse pena (…)// Não havia nem um instante a perder/ perguntas a postergar e iluminações tardias/ a não ser as que tivessem sido antes experimentadas/ A sabedoria não podia esperar os cabelos branco/ Tinha que ver claro, antes que a claridade chegasse/ e ouvir toda  voz, antes que ela se propagasse // O bem e o mal/ deles sabiam pouco, porém tudo/ quando o mal triunfa, o bem se esconde/ quando o bem aparece, o mal fica de tocaia (…)/ Por isso, se há alegria é com um misto de aflição/ se há desespero, nunca é sem um fio de esperança/ A vida, mesmo se longa, sempre será curta/ Curta demais para se acrescentar algo.”  (trechos de A curta vida dos nossos antepassados)

De Gente na ponte (1987), do qual foram selecionados doze poemas, diversos deles maravilhosos, já temos o tom wislawiano: “Foi descoberta uma nova estrela/ o que não significa que ficou mais claro/ nem que chegou algo que faltava (…) // A idade da estrela, a massa da estrela, a posição da estrela/ tudo isso quiçá seja suficiente/ para uma tese de doutorado/ e uma modesta taça de vinho/  nos círculos aproximados do céu/ o astrônomo, sua mulher, os parentes e os colegas / ambiente informal, traje casual/ predominam na conversa os temas locais/ e mastiga-se amendoim (…)/ A estrela não tem conseqüência/ Não influi no clima, na moda, no resultado do jogo/ na mudança de governo, na renda e na crise de valores // Não tem efeito na propaganda nem na indústria pesada / Não tem reflexo no verniz da mesa de conferência/ Excedente em face dos dias contados da vida/ Pois o que há para perguntar / sob quantas estrelas um homem nasce/ e sob quantas logo em seguida morre // Nova / Ao menos me mostre onde ela está / Entre o contorno daquela nuvenzinha parda esgarçada / e aquele galhinho de acácia mais à esquerda / Ah—exclamo.” (Excesso)

Essa face filosófica, com seu quê de pré-socrática, oculta brechas para uma ironia quase provocativa, não fosse tão maliciosamente suave e até mesmo serena, como em Opinião sobre a pornografia, que começa com versos antológicos: Não há devassidão maior que o pensamento/ Essa diabrura prolifera como erva daninha/ num canteiro demarcado para margaridas”. E depois de considerar “simplório” o pornográfico anatômico, ela afirma: “É chocante em que posições/ com que escandalosa simplicidade; um intelecto emprenha o outro!/ Tais posições nem o kamasutra conhece”.

Que privilégio é ser emprenhado pelo intelecto lírico de Wislawa Szymborska. Enalteci Gente na ponte, mas há poemas admiráveis tirados de Muito divertido (como A alegria da escrita), de 1967; Um grande número (como O quarto do suicida[1] ou Utopia), de 1976; e Fim e Começo (1993), do qual cito versos iniciais do meu poema predileto entre todos, o lindíssimo e eloqüente Gato num apartamento vazio: Morrer—isso não se faz a um gato/ Pois o que há de fazer um gato/ num apartamento vazio…/ Nada aqui aparece mudado/ e no entanto algo mudou…// Algo aqui não começa/ na hora costumeira/ Algo não acontece/ como deve/ Alguém esteve aqui e esteve/ e de repente desapareceu/ e teima em não aparecer//”.

  Quem disse que não há mais poesia no mundo? Pelo menos na Polônia ela foi preservada, intacta e contundente. E muito divertida.


[1] “Vocês devem achar que o quarto estava vazio /Pois havia ali três cadeiras de encosto firme/ Uma boa lâmpada contra a escuridão / Uma mesinha, e sobre a mesinha uma carteira, jornais / Um Buda alegre, um Jesus aflito/ Sete elefantes para dar sorte, e na gaveta um caderninho/ Você acha que nele não estavam nossos endereços? // Acham que faltavam livros, quadros ou discos? / Pois lá estava o trompete consolador nas mãos negras / Saskia com uma flor cordial/ Alegria, centelha divina/ Na estante Ulisses num sono reparador / depois dos esforços do Canto Cinco / Os moralistas / seus nomes inscritos em letras douradas / nas lindas lombadas de couro/ Ao lado, também os políticos perfilados // Não parecia que o quarto fosse/ sem saída, pelo menos pela porta/ nem sem vista, pelo menos pela janela/ Os óculos para longe largados no parapeito/ Uma mosca zunindo, ou seja, ainda viva//  Devem achar que ao menos a carta explicasse algo / E se eu lhes disser que não havia carta / éramos tantos os amigos e coubemos todos / no envelope vazio apoiado no lado do corpo.”

Um poema de Wislawa Szymborska para cada dia da semana

Abaixo vão trechos de poemas de Wislawa Szymborska,  minha companheira numa viagem em outubro de 2011 para o Nordeste, na tradução de Regina Przybycien. Selecionei  passagens de que gostei muito, uma para cada dia da semana.

PARA O DOMINGO:  “Museu”

“Há pratos, mas falta apetite.

Há alianças, mas o amor recíproco se foi

há pelo menos trezento anos.

Há um leque –onde os rubores?

Há espada– onde a ira?

E o alaúde nem ressoa na hora sombria.

Por falta de eternidade

juntaram dez mil velharias (…)

A coroa sobreviveu à cabeça.

A mão perdeu para a uva.

A bota direita derrotou a perna.

Quanto a mim, vou vivendo, acreditem.

Minha competição com o vestido continua.

E que teimosia a dele!

Como ele adoraria sobreviver!”

PARA A SEGUNDA “A alegria da escrita”

“Para onde corre essa corça escrita pelo bosque escrito?

Vou beber da água escrita

que lhe copie o focinho como papel-carbono?

Por que ergue a cabeça, será que ouve algo?

Apoiada sobre as quatro patas emprestadas da verdade

sob meus dedos apura o ouvido.

Silêncio–também essa palavra ressoa pelo papel

e afasta

os ramos que a palavra bosque originou (…)

as frases acossantes,

perante as quais não haverá saída (…)

Outras leis, preto no branco aqui vigoram.

Um pestanejar vai durar quanto eu quiser (…)

Existe então um mundo assim

sobre o qual exerço um destino independente?

Um tempo que enlaço com correntes de signos?

Uma existência perene por meu comando?

A alegria da escrita.

O poder de preservar.

A vingança da mão mortal.”

PARA A TERÇA:  “A vida na hora”

“(…) Despreparada para a honra de viver,

mal posso manter o ritmo que a peça impõe.

Improviso embora me repugne a improvisação.

Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.

Meu jeito de ser cheira a província.

Meus instintos são amadorismo.

O pavor do palco , me explicando, é tanto mais humihante.

As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.

Nao dá para retirar as palavras e os reflexos,

inacabada a contagem das estrelas,

o caráter como o casaco às pressas abotoado–

eis os efeitos deploráveis desta urgência.

Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes

ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!

Mas já se avizinha a sexta com um roteiro que não conheço.

Isso é justo–pergunto

(com a voz rouca

porque nem sequer me foi dado pigarrear nos bastidores) (…)

E o que quer que eu faça,

vai se transformar para sempre naquilo que fiz.”

PARA A QUARTA:  “Utopia”

“(…)Aqui se pode pisar no sólido solo das provas.

Nao há estradas senão as de chegada.

Os arbustos até vergam sob o peso das respostas.

Cresce aqui a árvore da Suposição Justa

de galhos desenredados desde antanho.

A Árovre do Entendimento, fascinantemente simples

junto a fonte que se chama Ah, Então É Isso.

Quanto mais denso o bosque, mais larga a vista

do Vale da Evidência (…)

Domina o vale a Inabalável Certeza.

Do seu cume se descortina a Essência das Coisas.

Apesar dos encantos a  Ilha é deserta

e as pegadas miúdas vistas ao longo das praias

se voltam sem exceção para o mar (…)”

PARA A QUINTA: “Torturas”

“Nada mudou.

O corpo sente dor,

necessita comer, respirar e dormir,

tem a pele tenra e logo abaixo sangue,

tem uma boa reserva de unhas e dentes,

ossos frágeis, juntas alongáveis.

Nas torturas leva-se tudo isso em conta.

Nada mudou.

Treme  o corpo como tremia

antes de se fundar Roma e depois de fundada,

no século XX antes e depois de Cristo,

as torturas são como eram, só a terra encolheu

e o que quer que se passe parecer ser na porta ao lado .

Nada mudou.

Só chegou mais gente,

e às velhas culpas se juntaram novas,

reais, impostas, momentâneas, inexistentes,

mas o grito com que o corpo responde por elas

foi, é e será o grito da inocência

segundo a escala e registro sempiternos(…)”

PARA A SEXTA: “Opinião sobre a pornografia”

Não há devassidão maior que o pensamento.

Essa diabrura prolifera como erva daninha

num canteiro demarcado para margaridas.

Para aqueles que pensam, nada é sagrado.

O topete de chamar as coisas pelos nomes,

a dissolução da análise, a impudicícia da síntese,

a perseguição selvagem e debochada dos fatos nus,

o tatear ndecente de temas delicados,

a desova das idéias–é disso que eles gostam.

À luz do dia ou na escuridão da noite

se juntam aos pares, triangulos e círculos.

Pouco importa ali o sexo e a idade dos parceiros (…)

Preferem o sabor de outros frutos

da árvore proibida do conhecimento

do que os traseiros rosados das revistas ilustradas,

toda essa pornografia na verdade simplória (…)

É chocante em que posições,

com que escandalosa simplicidade

um intelecto emprenha o outro!

Tais posições nem o Kamasutra conhece (…)”

PARA O SÁBADO:  “As três palavras mais estranhas”

“Quando pronuncio a palavra FUTURO

a primeira sílaba já se perde no passado.

Quando pronuncio a palavra SILÊNCIO

suprimo-o.

Quando pronuncio a palavra NADA

crio algo que não cabe em nenhum ser”.

E  PARA ALGUM DIA QUE NÃO HÁ: “Gato num apartamento vazio”

“Morrer–isso não se faz a um gato.

Pois o que há de fazer um gato

num apartamento vazio.

Trepar pelas paredes.

Esfregar-se nos móveis.

Nada aqui parece mudado

e no  entanto algo mudou.

Nada parece meido

e  no entanto está diferente.

E à noite a lâmpada já não se acende.

Ouvem-se passos na escada

mas não são aqueles.

A mão que põe o peixe no pratinho

também já não é a mesma.

Algo aqui não começa

na hora costumeira.

Algo não acontece

como deve.

Alguém esteve aqui e esteve,

e de repent desapareceu

e teima em não aparecer (…)

Até uma regra foi quebrada

e os papéis remexidos (…)

Espera só ele voltar,

espera ele aparecer.

Vai aprender

que isso não se faz a um gato.

Para junto dele

como quem não quer nada

devagarinho,

sobre patas muito ofendidas (…)”

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