MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

17/04/2010

O LIVRO ESSENCIAL: “Pedro Páramo”, de Juan Rulfo

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 29 de janeiro de 2005)

Na minha biblioteca pessoal  o livro mais antigo (em termos de aquisição) é a tradução de Eliane Zagury, numa edição do Círculo do Livro, dos dois únicos trabalhos de ficção (excluindo algumas coisas esparsas, mais ligadas ao cinema e à fotografia) do mexicano Juan Rulfo (1917-1986): Pedro Páramo (1955) & O Planalto em Chamas (1953). A data no exemplar: 09/10/79. Vinte e cinco anos atrás, não fazia idéia do status dessas duas obras, da admiração geral que as cerca, mas certamente era uma inesperada chave que abria muitas portas de percepção para um leitor de quinze anos.

Agora Pedro Páramo completa cinquenta anos e ganha nova tradução. E vinte e cinco anos após a primeira leitura, pode-se afirmar: é o romance mais importante da literatura hispano-americana. Tudo nele é paradigmático: a linguagem essencial e cortante, despojada, “faca só lâmina”, à maneira de Graciliano Ramos e João Cabral de Mello Neto; a temática da procura do pai e da posse da terra.

A pedido da mãe moribunda, Juan Preciado vai para Comala atrás de Pedro Páramo, que os espoliara. Lá, informam-no que o pai já morrera há muitos anos. O achado genial de Rulfo é que as pessoas encontradas nessa busca  também estão mortas. Ele mesmo acaba por morrer de “ahogo”, ou seja, do sufoco com o calor (dizem que as pessoas de Comala condenadas ao inferno voltam para buscar cobertores), ou talvez dos murmúrios que assombram o lugarejo:

Este povoado está cheio de ecos. Parece até que estão aprisionados no oco das paredes ou debaixo das pedras. Quando você anda, sente que vão pisando seus passos. Ouve rangidos. Risadas. Umas risadas já bem velhas, como cansadas de rir. E vozes já desgastadas pelo uso…”

 Preciado ocupa um lugar junto aos mortos-vivos do povoado “untado de desdita”. Uma narrativa enrodilhada faz com que conheçamos prismática e simultaneamente como Pedro Páramo apossou-se das terras e como tudo foi se arruinando devido à inércia que toma conta dele a partir da morte de sua mulher, Suzana (o leitor brasileiro imediatamente se lembra  da história de Paulo Honório e Madalena em São Bernardo). Conhecemos, então, o vácuo deixado pelo espoliador, o legado patriarcal.

Como os reis de antigamente, o destino da terra inscreve-se no processo físico do seu dominador. O rei Artur adoecia, a terra se estiolava. Pedro Páramo, em seu rancor contra Comala (não prantearam como deviam sua amada da infância, uma mulher cuja agonia já prefigurava o pathos fantasmagórico da região), acarreta sua destruição:

“Perdeu interesse por tudo. Desalojou suas terras e mandou queimar os trastes. Uns dizem que porque já estava cansado, outros porque foi tomado pela desilusão; a verdade é que expulsou as pessoas e se sentou na sua cadeira… Desde então a terra ficou baldia e feito ruína… De lá para cá as pessoas se consumiram; os homens se debandaram em busca de outras paragens. Recordo dias em que Comala se encheu de adeuses e até nos parecia coisa alegre despedir-se dos que iam. E se iam com intenção de voltar. Nos encarregavam das suas coisas e sua família. Logo alguns mandavam buscar a família mas não suas coisas, e depois parecem ter esquecido do povoado e de nós e até das suas coisas…”

E, como um fantasma a mais a assombrar esse “povoado sobre brasas”  e o leitor, temos os murmúrios da Revolução Mexicana. A lenta agonia do rancor patriarcal, como um sorvedouro, como um  poço de  estagnação imemorial, atrai tudo para si inclusive uma marca de maquiagem muito vendida por estas bandas chamada progresso.

 

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