MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

12/07/2012

A diversão inócua de O EVANGELHO DE BARRABÁS

Gostei muito dos dois primeiros livros de José Roberto Torero, O Chalaça & Xadrez, truco e outras guerras, assim como de sua associação com Marcus Aurelius Pimenta em Terra Papagalli. Depois. confesso que, à exceção de Pequenos Amores, não me interessei particularmente pelos rumos da produção de Torero, individual ou em dupla.

Quando soube que os dois lançariam um novo romance, após muitos anos, e que seria um Evangelho de Barrabás (apesar de haver uma obra-prima sobre o assunto, Barrabás, de Pär Lagerkvist, que li quando garoto e que tem a mesma atmosfera de crucificação existencial dos livros de Kazantzakis, só que num estilo mais sintético e límpido), fiquei na maior expectativa, já que, na avalanche dos últimos anos de evangelhos “encontrados” (além de inúmeras obras de ficção; uma de que nunca mais ouvi falar e que achei excelente foi um Evangelho de Lázaro –1972-,de Orígenes Lessa) de tantos personagens do Novo Testamento, eles seriam, decerto, os mais capazes de lidar com o desafio de produzir um com a irreverência e o mesmo espírito moleque de um Saramago, em Caim.

  Criando uma narrativa picaresca sobre a vida do bandido que foi poupado pela multidão, os dois fazem da trajetória de Barrabás uma espécie de vida de Jesus em negativo: ambas as famílias viajam para o censo romano e ambos nascem ao mesmo tempo, num lugar humilde, de uma mãe “virgem”, Maria, e de um pai chamado José, são tidos como “ungidos”, sobrevivendo à ordem de execução de todos os meninos, decretada por Herodes.

  Ao longo do relato, os eventos da vida de Barrabás sempre tangenciam os da vida nosso salvador: temos os discípulos, na verdade asseclas de um bando burlesco (e ele, pilantra que é, se torna um falso profeta, realizando curas de araque, venda de relíquias sagradas, enfim, toda a parafernália que a igreja católica instituída tornaria respeitável mais tarde), Maria Magdalena, seu grande amor, parábolas, famosos episódios bíblicos, milagres e trechos dos evangelhos, dos Cântico dos Cânticos, colocados na boca dos personagens com um tom de troça, e até uma referência ao episódio do almocreve de Memórias Póstumas de Brás Cubas, para que não nos esqueçamos do pai literário, pelo menos de Torero.

   O grande problema é que se, em Caim, houve irreverência e molecagem, é porque o assunto era levado a sério, através de um gume bem machadiano. Tive a impressão o tempo todo de que Torero-Pimenta não tiveram coragem de levar sua irreverência a sério, de realmente entrar fundo no texto bíblico e parodiá-lo de fato, subvertê-lo. Lê-se O evangelho de Barrabás como se lê as gracinhas de um adolescente ou como se consume o agora onipresente tipo de humor de tevê, muito chegao do ao chulo e ao óbvio. Não há um momento em que nos afastamos da diversão inócua e inofensiva, da molecagem (no sentido retardatário, de descompasso com a idade dos autores, que são da minha geração, a dos quarentões), e há passagens realmente muito bobas, como a cena em que Barrabás, “andando sobre as águas”, se transforma num surfista: “Usando de habilidade, ele conseguiu se equilibrar sobre o madeiro, pondo-se de joelhos. Depois ficou em pé, abriu os braços em forma de cruz e começou a deslizar sobre a crista da onda…” As últimas páginas, que poderiam ser muito fortes, perdem muito na comparação com o final, similar, de O perfume, de Patrick Süskind. Mesmo assim, é um momento que nos dá a nostalgia do que O Evangelho de Barrabás poderia ter sido.

   Se a intenção de Torero-Pimenta, era essa, contentando-se com algo engraçadinho e bonitinho (embora muito próximo do besteirol), tanto quanto os “mandamentos” da quarta capa (por falar nisso, a edição traz ótimas ilustrações de Paulo Brabo), tudo bem. Mas para a aguardada volta deles ao romance, e com o estilo e talento que eles têm de sobra, é muito pouco e principalmente decepcionante.

(uma versão da resenha acima foi publicada originalmente em “A Tribuna” de Santos, em 21 de setembro de 2010)

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