MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

15/12/2015

O QUE O ESQUECIMENTO AINDA NÃO CONDENSOU: “Um Dia Toparei Comigo”, o livro do desassossego de Paula Fábrio

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«Só o esquecimento é que condensa…»

(Mário de Andrade)

«Meu pensamento fixo, inventando cenas, passeios prosaicos pelas ruas, de mãos dadas com Luis. Criava diálogos de mim para mim, como se eu namorasse a mim mesma. Imperdoável esse outro inventado e suspirado, que por acaso tem corpo e, com certeza, a alma diversa da sonhada. A despeito de todas defesas que a razão erigia, soberba, a fim de desfazer atalhos, enganos e futuros martírios, havia momentos breves, muito breves, em que a alma sonhada colava perfeita sobre a alma real, e a isso podemos chamar felicidade».

«Tudo tende a ficar nebuloso, incerto e verdadeiro. Há pouco eu disse que as lembranças se transformam, com o passar do tempo, em suposições e mentiras. Pensando bem, enganei-me. Com o correr dos anos, as histórias tornam-se cada vez mais fiéis aos sentimentos»

(Paula Fábrio)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 15 de dezembro de 2015)

A certa altura de Um Dia Toparei Comigo, Isabel, a narradora, evoca um personagem do escritor italiano Elio Vittorini, mesclando-o ao avô: «Embarcou para fugir. Fugir dele próprio. E sobretudo da pobreza, mas já não podia ser outro. A ruína de buscar um ponto de fuga dentro de si […] Furores que acompanharam meu avô, que pôde ser ele próprio. Embora tivesse um baralho no bolso. Na verdade, mais parecia um baralho quando disposto em forma de leque sobre a cama. Identidades falsas, com nomes que não se repetiam, mas se multiplicavam em cadência quase lírica, todos italianos ou aparentados do grego. Sentia-se livre, assim, para viajar o mundo».

Uma imagem muito pertinente ao modo-de-ser do romance de Paula Fábrio: a do baralho único (opressivamente único), em desdobramento múltiplo (o leque). Isabel parte em viagem para a Espanha com a companheira, Virginia (ambas se desforrando de passados economicamente penosos—seja pela extrema pobreza, seja pela decadência), que a sustenta, e acaba apaixonada por um emigrante brasileiro, Luís.

Cada ponto do itinerário é detalhado, porém como a excursão é também incursão, as sobreposições de topografias, eventos e seres são incessantes, além das leituras —  até uma lista de títulos ao final (se bem que esse seja um ponto vulnerável de um livro memorável, o que menos me convenceu); por exemplo, nos Pireneus encaixa-se a Serra dos Órgãos, como antes, em Sevilha, a Natal nordestina;  Ramires, o tio de Luís tomado por tumores e cuja piora dita o das viajantes, entremeia-se à culpa com as disposições tomadas antigamente com relação a um  pai arruinado e devorado pelo câncer, quase uma estratégia de fuga para iniciar, enfim, a própria vida (aliás, a morte de um velhinho no edifício onde ela mora propicia os motes embaralhados de evasão e culpa-frustração: «Hoje o primeiro velhinho morreu. E eu começo a envelhecer. Não eram coisas boas para se pensar. Mas não havia escape. Seu Odair morrera. Uma pneumonia sem cura, sem velório. Meu voo para Madri e o enterro do lado de cá do Atlântico. Ninguém sai ileso. Malas arrastadas no corredor, um cartão de pêsames escrito às pressas e, depois, depois a fuga»).

Mas a vida se inicia realmente? O que transborda nesse atordoante narrar-se (e aos outros[1]) é a ausência, um desencontro consigo mesma, cuja filiação (malgrado seu título aluda explicitamente ao poema de Mário de Andrade ao qual pertencem os versos seguintes: «Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta/Mas um dia afinal eu toparei comigo»[2] ) mais pertinente talvez seja com a prosa desenvolvida por Fernando Pessoa no Livro do Desassossego, com esse «eu, pessoa desinteressante, menina parva, tolinha» que revela, de repente: «Enquanto sou minha melhor máscara»[3], lembrando também o “eu” que é um “ela” em tantos relatos de Marguerite Duras. Um debruçar-se egocentrado a um ponto incômodo; no entanto pelas contraditórias vias do talento, desvelando o mundo à sua volta e delineando, inclusive, os contornos de uma geração que viu tudo na sessão da tarde:  «… convidei Virginia para provar o pão catalão e a água vichy catalã. Nosso primeiro restaurante estrelado e a tal toalha de linho, e o tal tiramisú, o confit de pato. Começava a me apaixonar pela Espanha. Alguns diriam, mas você não está mais na Espanha. E eu não saberia dizer o que sinto numa ocasião dessas. Eu vi tudo na sessão da tarde, o toureiro, a castanhola, o flamenco, não eram todos espanhóis? Mas antes de enveredar por esse nó na cabeça, melhor assentar as malas no hotel aveludado».

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TRECHO SELECIONADO

«Naquela idade a gente se misturava. Uma mistura do tipo eu faço o favor de ter gente como você aqui dentro de casa. Uma mistura óleo e água que não resistiu à adolescência. Mistura repulsiva agora. Hoje madames se encontram no café, os olhos correm a desviar para o lado, para baixo, amedrontados, quase gritam, como se as sujeiras debaixo do tapete ficassem disponíveis à sociedade com o mero contato dos olhos.

 De uma hora para outra, deixaram de atender ao telefone. Com o tempo, nem o cumprimento na mercearia onde todos do quarteirão compravam do mesmo cesto de pães. Meus pés passavam pela calçada, e rápido alguém puxava a cortina para esconder o interior, os segredos da sala de estar, os móveis refinados; seu sucesso constituía obstruir minha curiosidade.

Naqueles tempos, em casa, havia apenas moléstia. E minha mãe dizia, eles têm medo de pegar minha doença. Não sei se era realmente a enfermidade dela, mas algo em mim parecia fantasmagórico para aquelas pessoas, algo contagioso, capaz de sujar suas mãos, comer seus ventres.

Deveria ter superado, caso contrário não estaria aqui a mastigar a cortina da sala fechada. Não há ninguém em casa. Paloma está estudando para o vestibular. Pois sim, desde já, desde os quatorze anos. Paloma não pode dar uma volta até a esquina. Paloma não está. Para você. Fique bem claro. Para você não há o doce mais caro, nem o passeio no veleiro. Para você não há, não há, não há. Eu olhava para mim com tamanha curiosidade, checava as axilas, não, não estavam fedidas. Seria meu cabelo? Será que na última visita comi um pedaço a mais de bolo? Minha irmã já havia me repreendido, não, não faça cocô na casa dos outros, não coma todo o lanche que servem à mesa, não coma, caso contrário vão pensar que não temos comida em casa. Os outros. Eles não podem pensar que a gente é pobre. Podemos dizer a todos que temos um apartamento no Guarujá, nosso pai ainda é diretor da empresa aérea e aquela mulher que varre a porta de casa não é nossa mãe, é a empregada. Claro, tudo isso minha irmã disse antes da doença e do desemprego. Depois, a vergonha foi bem maior. Como se a mãe houvesse morrido. Teria sido melhor se estivesse morta, ela dizia. Nesses tempos de moléstia, quando as vizinhas, as moças de boa família estudavam desde os quatorze anos para o vestibular, quando eu já não fazia cocô na casa dos outros, nesse tempo, os vizinhos sabiam algo sobre mim. Algo que eu pretendo descobrir. Algo podre. Invisivelmente podre».

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NOTAS 

[1]« No Caminito, no bairro de La Boca, seu Ramires e a esposa esboçaram os passos do tango – voltei por um instante a Luis, que vibrava com aquela espécie de diário de viagem saída de seus lábios, vibrava como se somente o tio e a tia houvessem conhecido a cidade e fossem os únicos a dançar a convite dos bailarinos. Em pensamento, eu criticava sua narrativa mediana, ao mesmo tempo me via de pé na rua-museu, contemplando as paredes das casas de zinco e madeira com suas cores berrantes e diversas. Questionava se seu Ramires notara a tentativa de reconstrução do passado. O passado fabricado, quase igualzinho. Vermelhos, azuis e amarelos novos em folha nas paredes das casas que antes recebiam restos de tinta do porto e pigmentos de esperança dos estivadores genoveses. Mas não importam as conclusões de seu Ramires, tampouco meu ar sabe-tudo, a realidade é indelével. Basta olhar ao redor».

[2] A esse poema de 1929 (publicado em Remate der Males) pertence também o belíssimo verso que usei como epígrafe e que me diz muito sobre o romance.

[3] «Sete anos antes, eu e Virginia descobrimos Natal e redescobrimos o verão. Vinte e oito graus nos acompanhavam das dunas até o Morro do Careca, na Ponta Negra. À noitinha, no restaurante vazio, em formato de arquibancada, nossos encontros clandestinos com os gatos. Ali, realizávamos a filosofia boba dos desocupados. Interessava-me o verão, o sotaque nordestino, o ventilador que nunca desliga entre as aroeiras. Contava para Virginia: o realejo noticiou, você ganhará a rifa. Como tenho sorte! Ganhei uma caixa de bonecos no primeiro ano na escola. Mal formulo cenas agradáveis e ouço meu pai, menina ingenuazinha. Os professores arranjaram para você ganhar. Refuto sua voz. Insisto no verão. Insisto em escutar uma canção que fale do mar. Insisto, insisto, insisto. No bumerangue riscando o céu no descampado; a cabeça cheia de planos e o tempo em aberto para ser escrito desde a primeira letra. Era o que eu buscava em Natal, a vida no seu início. A garantia solar de que ainda havia estrada pela frente, para os planos dourados, pelo menos parte deles. Não seria assim que nascem as excursões, e se transformam em incursões? ».

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